LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Julieta dos Santos, de Cruz e Sousa, Virgílio Várzea e Santos Lostada


Texto-fonte:

 

J. da Cruz e Sousa, Virgílio dos R. Várzea e M. dos Santos Lostada, Julieta dos Santos,

Florianópolis: Editora da UFSC, 1990.

 

 

 

 

 

 

   

 

 

 

ÍNDICE

 

Deus querendo se fazer

Aí vão como uns peregrinos

Cismático, sombrio, e calmo e pensativo

A ideia ao infinito

Pitágoras, Tycho Brahe e Galileu

Há muito das brisas do Norte

Ao estrídulo solene dos bravos! das plateias

Dizem que a arte é a clâmide da ideia
O Himalaia, aquele monte enorme

Um dia Gutenberg com a alma aos céus suspensa

É delicada, suave, vaporosa

Depois que alou-se ao Panteon de Glória

Sentiu um choque o continente antigo

Imaginai um misto de alvoradas

Quando eu te vi surgir qual astro sublimado

Parece que nasceste, oh! pálida divina

Quando apareces, fica-se impassível
Do Universo o Divino o Grande Obreiro

Lágrimas da aurora, poemas cristalinos

Tu triunfas na luta sobranceira...

Quando eu te vi pela primeira vez no palco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

À Julieta dos Santos

 

                                   (Ideia solta)

 

 

Deus querendo se fazer

De arrojado poeta

E uma hipérbole escrever,

Pena fez de um cometa,

Molhou no sol abrasado,

Traçou no céu azulado

— E saíste tu, JULIETA!

 

S. Lostada

 

Desterro, 6 de janeiro de 1883.

 

 

 

Julieta dos Santos

 

 

Aí vão como uns peregrinos alados, estes pálidos e mesquinhos versos, que ao certo destoarão no quase universal concerto poético, em homenagem a simpática “bambina” do sul, a essa prodigiosa criança.

 

Mas não era possível calar as sensações íntimas e sublimes, profundas e verdadeiras que se apoderarão de nossas almas, não era possível emudecer, ficarmos de gelo, impassíveis como Napoleão ao ver tombar examines as falanges de bravos nessa exemplar Waterloo, quando a irradiação do GÊNIO, quando as fulgurações de seus olhinhos, meigamente buliçosos, adoravelmente límpidos, misteriosamente expressivos e encantadores, nos eletrizam, nos arrebatam, nos fulminam a pouco e pouco.

 

É preciso combater-se de frente, com a viva certeza de triunfar, o indiferentismo, essa como que letargia moral, que nos apoucanha e torna velhos.

 

Somos catarinenses, somos brasileiros, filhos desse belo país, rico de grandiosas aspirações, fértil em produzir talento de “elite”, vultos de tina têmpera, rijos como aço, bem como João Caetano — pelo teatro, Álvares de Azevedo — pelas letras, esse “enfant terrible”, uma frase do pensador homérico, do arquiteto incomparável da palavra — o sábio Victor Hugo, ou segundo Ferreira de Menezes: o moço poeta capaz de escrever a epopeia dos Girondinos brasileiros.

 

Somos catarinenses, somos brasileiros, filhos dessa parte da América, banhada pelas águas do Prata e do Amazonas, filhos desse Tiaraiu soberbo, fadado para representar o universo na eloquente e solene propaganda do progresso e civilização.

 

E esse progresso nos chama, mas um progresso bom, prometedor, um progresso que tende a refundir os povos no crisol de novas ideias, a modelar as crenças pela igualdade das nações!...

 

Nada de retrogradar.

 

Se não podemos marchar na vanguarda das outras nossas províncias, ao menos marchemos no flanco.

 

Provemos ao estrangeiro que caminhamos para a perceptibilidade.

 

Pensemos um tanto maduramente.

 

Burilemos o crânio, que lá por dentro haverá alguma coisa de belo, de grande, de edificante, no pensar de André Chenier.

 

Façamos agitar as fibras do corpo e as fibras do espírito.

 

Somos os obreiros do porvir.

 

Somos as aves das luz!...

 

Ensaiemos o voo, preparemos a cabeça para as lutas da razão.

 

Enquanto esta trabalha, trabalharão precisamente todos os órgãos do nosso corpo.

 

Julieta dos Santos é brasileira como nós, precisa como os filhos do pelicano, um seio para alimentar-se, um teto amigo e hospitaleiro para abrigar a sua mimosa compleição, a sua delicada feitura.

 

Mais que ninguém, é merecedora dos mais altos encômios, da mais calorosa aceitação.

 

A palmeira do deserto não chega a ser gigante, a distender suas franças por sobre a plácida superfície do lago diáfano que serpeja em ondulações, de quando em vez, sem os alfajores protetores e cristalinos da manhã, sem as lágrimas misteriosas da noite!

 

As garaúnas saltitantes não desatam suas melopeias agrestes, seus maviosíssimos ditirambos na copada ramagem do ingazeiro, a jaçanãs não esvoaça mais desembaraçada e alegre através das lianas e trapoeirabas, sem pressentirem o brando rosicler da alvorada, os arabescos sublimes do horizonte!

 

Fenômenos tais são raríssimos.

 

Não é facilmente que um mesmo século gera um Mauricio Dengremont, um Mozart, uma Gemma Cuniberti, uma menina Coulon!...

 

É o fato de dizer-se que a natureza reúne a força intelectual de dois anos ou mais seres que se desenvolverão em tempo dado, naturalmente, sem precocidade, para a colocar em um só ser.

 

Para as organizações frias, que têm por índole a ganância material da coisa, estas nossas humildes, porém justas asserções, se dissiparão como a nuvem ou... quem sabe, se não serão comentadas AD LIBITUM, “com uma verdade e precisão à toda a prova, com uma imparcialidade e sensatez” inabaláveis?!...

 

Quem sabe?!...

 

Parece já sentirmos a aguçada ponta do estilete da crítica e do sarcasmo nos trespassar a fronte.

 

Mas não a curvaremos.

 

Foi nossa ideia apenas, conduzir uma pedrinha, um grão de areia, um diminutivo auxiliar enfim, aos alicerces do Panteão de glória dessa distinta atrizinha.

 

Se por acaso cumprimos mal o nosso desideratum, ela que nos desculpe.

 

Enquanto ao mais, se os pobres versos que seguem não penetrarem em muitos desses espíritos levianos e mal intencionados que aí há, cremos que penetrarão no da nossa dileta festejada e isso já nos é bastante.

 

Estamos acostumados a não curvar a cerviz a ouropéis, a grandezas, a tronos, mas sabemos tirar o chapéu sempre que deparamos com um escopro, com um malho ou um pincel, emblemas da arte!...

 

Assim o fazemos – diante de Julieta dos Santos.

 

Nunca serão demasiadas honras que se tributarem aos gênios essencialmente reconhecidos.

 

Quem quiser que nos julgue.

 

 

3 de janeiro de 1883.

   

 

 

À Julieta dos Santos

 

 

Cismático, sombrio, e calmo e pensativo

sobre a esfera azulada — o Deus dos desatinos

sentia o pensamento a jacular-se ativo

na feitura d’um ser — capricho dos destinos!!

 

E seu olhar sidéreo o vácuo perscrutava,

banhado d’essa luz das ânsias geniais,

enquanto no seu crânio a obra se formava

de pedaços d’assombro e coisas colossais!

 

Passado, d’essa luta, o esplendido litígio,

eis surge a maravilha — o tálmico prodígio:

— a jovem Cuniberti surge do profundo...

 

Mas não contente, não! Da obra que fizera

n’um esforço supremo, indômito, te gera

enchendo com teu crânio a órbita do mundo!

 

Moreira de Vasconcellos. 

 

Desterro, janeiro de 1883.

                                  

 

 

A ideia ao infinito

 

À distinta e laureada atrizinha Julieta dos Santos

 

 "...a fama de teu nome,
 a inveja não consome, o tempo não destrói!...”

                                            

(Dr. Sinfrônio)

 

 

Era uma coluna de artistas!...
       Ao lado Tasso
Medindo as múltiplas conquistas
       Co’as amplidões do espaço!...
Seguia-se João Caetano
Embuçado da glória no divinal arcano!...
       Depois Joaquim Augusto
Altivo, sobranceiro, erguido o nobre busto.
       Depois Rachel, Favart,
       Fargueil, a espadanar
Nas crispações homéricas da arte,
Constelações azuis por toda a parte!
E em suave ondulação os astros
       Iam de rastros
Roubar mais luz às rúbidas auroras!...
       Quais precursoras
Do mais ingente e mago dos assombros,
Do orbe imenso nos calcários ombros,
Rola um dilúvio, um grande mar de estrelas
Que lançam chispas cambiantes, belas!...
Há um estranho amalgamar de cousas
Como os segredos funerais das lousas
       ou o rebentar de artérias
— Ou o esgarçar de brumas,
       negras, cinéreas
— Ou o referver de espumas,
       nas longas praias
Alvinitentes, mádidas, sem raias.
       Do brônzeo espaço,
       Das fibras d'aço
Como que desloca-se um pedaço
Que vai ruir com trépido sarcasmo
Nas obumbradas regiões do pasmo...
       — O Invisível
Geme uma música, lânguida, saudosa,
Que vai sumir-se na entranha silenciosa
       do impassível!
       — O Imutável
       — O Insondável
Lá vão cair no seio do incriado.
       E o bosque irado
A soletrar uns cânticos titânios
       lança nos crânios
Aluvião de duras epopeias
       tétricas ideias!...
E o pensamento embrenha-se nos mares
       e vê colares
De níveas pérolas, límpidas, nitentes
       e vê luzentes
Conchas e búzios e corais, — ondinas
       que peregrinas
Aspásias são de lúcida beleza,
De moles formas, desnudadas, brancas
       sendo a primeza

Dessas paragens hiemais e francas!...
       — Ou quais Frenesi

       A quem aos pés
O mundo em ânsias, reverente adora
       E chora e chora!!...

 

  *

*  *

 

 

Mas a ideia o pensamento insano

Às asas bate em busca de outro arcano,
E o manto rasga do horizonte eterno
       vai ao superno
Ao Criador, ao Menestrel dos mundos!
E n'uns arroubos, rábidos, profundos
       em luta infinda
       — Oh! quer ainda
Quer escalar o templo do impossível,
Bem como um raio abrasador, terrível!...
Quer se fartar de maravilhas loucas,
       quer ver as bocas
Dos colossais Anteus da eternidade!...
Quer se fartar de luz e divindade
       e de saber,
       depois jazer
Nas invisíveis dobras do insondável,
Bem como um verme, mísero, imprestável!...
       — Ou quer ousado
Descortinar os crimes do passado
E apalpar as gerações dos Graxos
       Dos Espartanos
       E dos Troianos
       E dos Romanos,
       Dos Sarracenos
       E dos Helenos,

E esbarrar nesse montão de ossos
       por esses fossos
Tredos, medonhos, sepulcrais e frios
       onde sombrios
Andam espíritos de pavor, errantes
       e vacilantes
Como a luzinha das argênteas lâmpadas,
Lentos e lentos através das campas!...

 

  *

*  *

 


Mas a ideia, o pensamento audaz
       quer ainda mais!...
Quer do ribombo do trovão pujante
Já n’um esforço adamastório, tredo
       embora a medo,
       — O atroz segredo
Com que ele faz a terra palpitante!...
       E quer dos ventos
       dos elementos
Quer do mistério a solução! — Nas trevas
       hórridas, sevas,
       a gargalhada
Ríspida, negra irônica, pesada,
Estruge enfim, da morte legendária,
       e a ideia vária
Ainda nisso ousando penetrar,
       tenta sondar!...
       E em vão, em vão
A mergulhar-se em tanta confusão
       não mais compreende
       — O que saber pretende!...
       Assim, oh! gênio,
Na ofuscadora auréola do proscênio
Não sei se és astro, se és Esfinge ou mito,
       se do infinito
Possuis o encanto, os esplendores grandes,
       Ou se dos Andes
Águia tu és, ou és condor divino,
— Ou és cometa de cuja cauda enorme
       e multiforme
       só lágrimas de prata
       ou mesmo se desata
Um vagalhão de palmas, diamantino!!...
Minh'alma oscila e até na fronte sinto
       medonho labirinto,
       estúpida babel,
       e vou cair, revel
No pélago sem fim dos nadas materiais!...
       E como os racionais
Eu fico a ruminar ainda umas ideias
       de erguer-te, ó novo Talma
Um trono singular, mas feito de — Odisseias
       de brancas alvoradas,
       olímpicas, nevadas,
Dos êxtases magnéticos, nervosos de minh'alma!

 

 

J. Cruz e Souza

 

29 de dezembro de 1882.

 

 

 

À Julieta dos Santos

 

Quem te vê delira, chora,

Se arrebata, treme, ri!...

                                                      

(Cruz e Souza)

 

 

Pitágoras, Tycho Brahe e Galileu,  

Aristarco, Hewehell e Filolau

Hiparco e Copérnico (Nicolau)

E o sábio, divinal, Ptolomeu!...

        

Newton, o descritor das leis do céu

E Jaques Lapier, que em sua nau

Deu volta a todo o globo, Ladislau

Tão grande imperador, qual Briareu!...

 

Todas essas cabeças tão dinâmicas

Onde giravam mil grandes pensamentos

Em ondas consteladas e titânicas!

 

Sumiram-se num mar de esquecimentos

As rubras chispações – fortes, dardânicas

Do mais agigantado dos portentos!...

 

 

Virgílio Várzea 

 

Desterro, 28 de dezembro de 1882.

 

 

 

Julieta dos Santos

 

 

Há muito das brisas do Norte

Traziam a fama d’um GÊNIO,

Tão colossal de proscênio

Quanto pequena de porte.

        

Assemelhando um cometa

Em ascensão, radiante

Vertiginosa e ovante

Surgiu enfim – JULIETA.

 

Em prismas bem reluzentes

Como mágica lanterna,

Essa criança superna

Faz vistas bem diferentes.

 

A olhos nus, vista a parte

— E borboleta no lar!

E é um sol brilhar

Ao telescópio da arte.

        

Menina — tem quebrantos

Da sensitiva singela;

Artista — é lúcida estrela

Dos matutinos encantos!

 

Em casa — inocente filha

Em graciosa folgaça...

No palco — foi-se a criança

— Eleva-se a maravilha...

 

 

M. Santos Lostada

 

 

 

         Soneto

        

A Julieta dos Santos

 

 — Os Trópicos pulando as palmas batem...

 Em pé nas ondas — O Equador dá vivas!...

 

 

Ao estrídulo solene dos bravos! das plateias,
Prossegues altaneira, oh! ídolo da arte!...
— O sol para o curso pra bem de admirar-te
— O sol, o grande sol, o misto das ideias!...

 

A velha natureza escreve-te odisseias...
A estrela, a nívea concha, o arbusto... em toda a parte
Retumba a doce orquestra que ousa proclamar-te
Assombro do ideal, em duplas melopeias!

 

Perpassam vagos sons na harpa do mistério
Lá, quando no proscênio te ergues imperando
— Oh! Íbis magistral do mundo azul — sidéreo!

 

Então da imensidade, audaz vem reboando
De palmas o tufão, veloz, febril, aéreo
Que cai dentro das almas e as vai arrebatando!...

 

 

Cruz e Souza.

 

29 de dezembro de 1882.

        

                                  

  

Soneto

 

À Julieta dos Santos

 

 

Dizem que a arte é a clâmide da ideia
A peregrina irradiação celeste,
E disso a prova singular já deste
Sorvendo d’ela a divinal sabeia!...

 

Da “Georgeta” feliz estreia,
Asseverar-nos ainda mais vieste
Que és um gênio, que te vás de preste
Tornando o assombro de qualquer plateia!...

 

Sinto uns transportes fervorosos, ledos
Quando nas cenas de sutis enredos
Fulgem-te os olhos com a expressão dos astros!...

 

E as turbas mudas, impassíveis, calmas
Sentem mil mundos lhes crescer nas almas...
Vão-te seguindo os luminosos rastros!...

 

 

5 de janeiro de 1883.

                                           

                                         Cruz e Souza

 

 

 

À Julieta dos Santos

 

(Homenagem ao Gênio)

 

Dá-me uma centelha do teu gênio

Se queres que eu mais diga.

 

(Do autor)

 

 

O Himalaia, aquele monte enorme,

Que n’Ásia impera — colossal, disforme,

       De fronte tão ufana!...

A tua vista é nada; é qual poeira

Que n’asa do simoun — passa ligeira

       Por sobre a caravana!...

 

       O Etna bem furioso

       No auge de erupção...

       Não sofre tamanho abalo

       Como sofre o coração,

       D’aqueles que cheios de pasmo

       Te ouvem com entusiasmo,

       E bradam — tu és um Deus!...

       Teu nome — é a maior glória

       Que ocupa do mundo a História...

       Oh! tu viste do céus!!...

 

       JULIETA!... ente divino

       Tu és um nome, um portento!...

       Muito maior que o Amazonas

       É o teu grão pensamento;

       Ele tem força que arrasta

       E alagando devasta

       Miríades de corações!!...

       Tu alucinas a gente

       Quando a plateia contente

       Dá-te bravos milhões!!...

      

       Quem pode na cena ver-te,

       Sem sentir bem dentro d’alma

       O entusiasmo ferver-lhe

       Oh! augusta irmã de Talma?!...

       Só se quem for com o ferro

       Ou como além o serro

       Que é coisa inanimada!...

       Mas quem um’alma tiver

       Há de um trono a ti erguer

       Com a ideia perturbada.

 

Tu és astro luzente, excelso Gênio!...

Faz d’Universo o teu gentil proscênio

       E põe-te a trabalhar!

Os anjos te serão espectadores

E o sol indo perdendo seus fulgores

       Não mais há de brilhar!

 

       Salve, pois, atriz ingente,

       Que lá no céu futuro

       Tu terás fulgor bem puro

       Oh! sol do nosso país!...

       Caminha... diva, rainha,

       Reinarás em toda a parte...

       O teu trono — é arte,

       Logo serás bem feliz!

      

       Lá nos espaços te louvam

       Racine de Molière,

       Shakespeare e Voltaire,

       Mars, Clairon e Rachel,

       E todos juntos — sorrindo

       Exclamam com arrogância:

       “Ela há de ter por jactância

       A coroa d’arte, o laurel!”

 

       Tu és da arte dramática

       O condor — forte, valente!

       Larga um voo bem ardente,

       Tira da Ristori o espectro!...

       Quando apareces no palco

       Arroubando sempre as almas...

       Lá na campa bate palmas

       De Keean o famoso espectro!...

 

       Tu tens na mente inspirada

       Mais luz do que o dia tem!

       E de toda a parte vem

       Mil mundos pra te aplaudir!...

       Que espetáculo tão soberbo!...

       Toda a natureza é festa!...

       É alegre, não é mesta

       Porque está a sorrir!...

 

       Se a Europa exulta, ufana

       Por ter dado maravilhas,

       As brasileiras famílias

       Exultam também, alegres!...

       Porque saiu de seu seio

       O grand’astro teatral

       — JULIETA, a imortal —

       Maior que Emilia das Neves!

 

       Sim, que ela é superior

       A Fargueil e a Agar,

       E mais que Sarah Bernhardt

       A menina — JULIETA!...

       É um portento, um assombro,

       É o Colombo da cena...

       É maior que a fama helena...

       É um divino planeta!...

 

       O teu nome, ó grande deusa,

       Este século há de tomar...

       O tufão — louco, a gritar

       Já te chama d’imortal!...

       Lá no porvir tua estátua

       Com ligeireza já molda-se

       É inteiriça, não solda-se

       O mundo é seu pedestal!...

 

 

  *

*  *

 

 

 

Assim como a noite foge pávida

Quando surge o claro e lindo dia,

Que espalha pela terra, só — magia

Quando o sol aparece lá no mar!

Assim também devem fugir bem rápidas

As sombras que povoam o proscênio,

Porque já é nascido o sol do gênio

Que ofusca — uma Lucinda, uma Favart!...

 

 

  *

*  *

 

 

 

Não ouves clangor imenso

Pelo espaço a rolar?...

É das cem tubas da Fama

Que se partem a te louvar!...

Não ouves contra o rochedo

O vagalhão rebentar?...

É ele que ao ver-te em cena

Vem a ti um bravo dar!...

 

A natureza te aplaude

Delirando — que fanático

Se levanta o pólo Ártico

E canta um Hino de glória!

Depois... fitando um instante

A grande extensão marinha,

Brada: — do palco é rainha,

Terá coroas de vitória!... —

 

Então, os Andes soberbos

Repercutiram o brado...

O pólo Antártico altanado

Sua voz também ergueu!

E levantando seus olhos

Para as grimpas do infinito

Soltou este forte grito

— Não é da terra, é do céu!...

 

O terrível Hecla — num jorro

Da enorme erupção,

Disse com voz de trovão

— Ela é divino portento!... —

O Vesúvio além dos mares

Com o infinito nos ombros

Incutindo mil assombros

Gritou: — É Deus, em talento!...—

 

 

  *

*  *

 

 

 

Tu passas rutilante em toda a parte

Oh! sol da nossa pátria! Oh! sol da arte!...

 

       Por satélites tu tens

       Victoria, Iris, Métis,

       Mercúrio, Vênus e Tétis,

       Que giram à roda de ti!

       E tu dás luz para todos

       Brilharem em harmonia

       Derramando sã magia

       Do firmamento até aqui.

 

       Tu banhaste a fronte augusta

       Lá nas águas do Jordão!

       Então... teu ardente crânio

       Transbordou d’inspiração!...

       Para dizer-te o que és

       Eu quisera ser Dantão!

       Tu banhaste a fronte augusta

       Lá nas águas do Jordão!

      

       Tu és mais Gênio que Cristo,

       Que foi sábio e poderoso!

       Por isso eu te rendo um culto

       E te adoro fervoroso;

       Se eu pudesse te faria

       Um poema mui mimoso...

       Tu és mais Gênio que Cristo,

       Que foi sábio e poderoso!...

 

 

  *

*  *

 

 

 

A palma da vitória, tu tens sempre na mão,

Da cega Georgeta tu és a encarnação

       Divina JULIETA!

A meta do belo, do grande e do sublime

Tu nos arrasta, como o vício ao crime

       Arrasta o viciado;

       E eu arrebatado

Fiquei... Já sem razão

Quis atirar-te aos pés meu pobre coração!

       Depois... subir ao firmamento,

       Delirante, louco, entusiasta

       E os astros roubar nesse momento

       Pra te coroar a fronte — grande, vasta

Que referve um fogo divinal

Que nos eleva aos céus do ideal.

 

 

   *

 *  *

 

 

 

Tu passas rutilante em toda a parte

Oh! sol da nossa pátria!... Oh! sol da arte!...

 

 

  *

*  *

 

 

 

       Dilúvios de pensamento

       De Camões o grão poeta!

       Nada é para exprimir

       O que tu és, JULIETA!

       Quanto mais meus pobres versos

       Que em palidez se acham imersos

       Sem pensamentos mui grandes!...

       Mas... que por minha vontade

       Iriam à imensidade

       Passariam além dos Andes!...

 

 

 

  *

*  *

 

 

 

       Recebe, pois, bem alegre

       Esta tosca saudação!

       É filha do coração

       Oh! atrizinha ideal!

       Eu quisera pra cantar-te

       Ser poeta qual Hugo...

       Se felicitar-te vou

       Fico estúpido, irracional!

 

       Por isso... fiz-te estes versos

       Que jamais terão valor,

       Apenas é o penhor

       Do culto que sei render-te!...

       E num trono que se ergue,

       Lá no mais íntimo dos céus

       Perto do trono de Deus

       Imperando eu hei de ver-te!...

 

 

Virgílio dos Reis Várzea

 

Desterro, 26 de dezembro de 1882

 

                                  

 

Soneto

 

À Julieta dos Santos

 

 

Um dia Gutenberg com a alma aos céus suspensa,

Pegou do escopro ingente e pôs-se a trabalhar!

E fez do velho mundo rútilo alcançar

Ao mágico clangor de sua ideia imensa!

 

Rolou por todo o globo a luz da sacra imprensa!

Ruiu o despotismo no pó, a esbravejar...

Uniram-se num laço, o céu, a terra, o mar...

Rasgou-se o manto atroz da horrível treva densa!...

 

Ergueram-se mil povos ao som das melopeias,

Das grandes cavatinas olímpicas da arte!

Raiou o novo sol das fúlgidas ideias!...

 

Porém, quem lança luz maior por toda a parte

És tu, sublime atriz, ó misto de epopeias

Que sabe no tablado subir, endeusar-te...

 

 

Cruz e Souza

 

29 de dezembro de 1882.

 

                                  

 

Soneto

 

À Julieta dos Santos

 

 

É delicada, suave, vaporosa,
A grande atriz, a singular feitura...
É linda e alva como a neve pura,
Débil, franzina, divinal, nervosa!...

 

E dentre os lábios cetinais, de rosa
Libram-se pérolas de nitente alvura...
E doce aroma de sutil frescura
Sai-lhe da leve compleição mimosa!...

 

Quando aparece no febril proscênio
Bem como os mitos do passado, ingentes,
Bem como um astro majestoso, helênio...

 

Sente-se n'alma as atrações potentes
Que só se operam ao fulgor do gênio,
As rubras chispas ideais, ferventes!...

 

 

Cruz e Souza

 

29 de dezembro de 1882.

 

                                    

 

À Julieta dos Santos

 

E que tu tens o dom magnético do gênio...

Para prender o mundo a rampa do proscênio!

 

(M. de Vasconcellos)

                                           

 

Depois que alou-se ao Panteon de Glória

O colosso da cena — o João Caetano,

Mais que luas quem viu no céu da arte

Do mundo de Cabral?!

                          Surge Joaquim Augusto

E surgem mais e mais. Eram cometas.

Fraco luar apenas se derrama.

                          Eis que de repente,

                          Surge no oriente

                          Um sol radiante

                          De luz febricitante

Que o mundo assombra e arrebata

À proporção que crescer e se dilata.

 

E esse astro de luz, de luz dileta

                          És tu oh! JULIETA!

 

                          Quando pisas o proscênio

De crânio-vulcão as lavas do teu gênio

Acendem na plateia o mágico entusiasmo,

Que o sábio velho queda e deixa pasmo

A derramar uma lágrima tão doce

Como se angélica harmonia ouvindo fosse.

 

                Ao fluido magnético da fala

                          Às elétricas faíscas

Que relampejam de teus olhos fulgurantes

E vão cair na plateia palpitantes,

                Que de arrebatada

Sem a vista afastar do sol que brilha

Não se tem em pé nem assentada,

Cada peito estrebucha na golinha

Das convulsões patéticas do belo!

 

                 De épicos aplausos

O espectador fanatizado então

Sente na garganta um aluvião

                Que vem e se desfaz

                Na boca ressequida.

                A alma embevecida

                Sobe e sobe mais.

O coração palpita, treme

                Se biparte, geme

E cai alucinado e arquejante,

Sem poder modular n’aquele instante

                Nem um bravo sequer!

 

                Oh! magno poder,

                Misterioso encanto!

                Da santa comoção

                Borbulha mudo pranto!

 

                Mas, eis que retumbante

Ergue-se o mar agitado que te aplaude,

A tempestade de palmas que rebrama.

 

 

 

  *

*  *

 

 

 

Desdobrou-se o enredo. É findo o drama.

 

Então em furor descomunal,

                No auge do delírio

O povo te coloca no empírio

                Da arte divinal.

É que tu és deste século a maga filha,

D’um esforço de Deus a maravilha!...

 

                                  

M. Santos Lostada

 

Desterro, dezembro de 1882.

 

 

 

À Julieta dos Santos

 

O Niágara vai contar aos mares,

O Chimboraso arremessa aos ares

A fama o teu nome!...

                                                           

(Castro Alves)

                                                                

 

Sentiu um choque o continente antigo

Ao ver pelos espaços um átomo de luz!

Partindo fulgurante do solo — Santa Cruz,

Levando estridulas ovações consigo!

 

O oceano lhe chamou — “amigo”

Vem, ilumina-me com clarões a flux!

Que eu te darei constelações azuis...

Vem... vem depressa conversar comigo!...

 

Mas qual, o louco não ouviu o grito,

Inda com a força do motor proscênio

Rápido sumiu-se além no infinito!...

           

Deixou na Europa todo o povo helênio

Idolatrando-o com fervor, contrito

Esse emissário do brasílio GÊNIO!

 

 

Virgílio Várzea

 

Desterro, 28 de dezembro de 1882.

 

                                  

 

Soneto

 

À Julieta dos Santos

 

 

Imaginai um misto de alvoradas
Assim com uns vagos longes de falena,
Ou mesmo uns quês suaves de açucena
Com os magos prantos bons das madrugadas!...

 

Imaginai mil cousas encantadas...
O tímido dulçor da tarde amena,
As esquisitas graças de uma Helena,
As vaporosas noites estreladas...

 

Que encontrareis então em JULIETA
O tipo são, fiel da Georgeta
Nos dois brilhantes, primorosos atos!...

 

E sentireis um fluido magnético
Trêmulo, nervoso, mórbido, patético,
Bem como a voz dos langues pisicatos!...

 

 

Cruz e Souza

 

4 de janeiro de 1883.

 

                                     

 

À Julieta dos Santos

 

 

Quando eu te vi surgir qual astro sublimado

De fimbria do horizonte do límpido proscênio,

       Senti que do teu gênio

       A luz suave e pura

Causava-me no cérebro vertigens de loucura,

E frases sem sentido então balbuciei

Como criança insonte que mal ainda fala

Depois... fiquei calado...

       E quis ir a teus pés

Com força e entusiasmo dizer o que tu és.

Mas quando procurei juntar umas ideias

Ouvi um som mui brando de doces melopeias

       Passarem pelos ares!

       E vi também os mares

Com as rochas entoando

       Músicas mil — divinas!...

Os vendavais bradavam nos espaços:

“Nós vamos abraçá-la com nossos fortes braços,

Porque Ela é a cena o grande Briareu

       Que veio lá do céu

       Mostrar à humanidade

       A grã sublimidade

       Da arte de Caetano!

       E com valor troiano

       Se tem apresentado

Fazendo um novo mundo do mágico tablado”.

Assim, com essas vozes, de novo delirei

E abismado em mi’mesmo eu logo me quedei

       Até descer o pano...

É que do gênio a luz tão de repente

Faz a gente ficar quase demente!

 

 

 

  *

*  *

 

 

 

Salve, pois, atrizinha — enorme, colossal

Que prendes a plateia ao mundo do ideal!!...

 

 

Virgílio Várzea

 

Desterro, 27 de dezembro de 1882.

 

                                       

 

Soneto

 

À Julieta dos Santos

 

 

Parece que nasceste, oh! pálida divina,
Para seres o farol, a luz das puras almas!...
Parece que ao estridor, ao frêmito das palmas
Exalças-te feliz a plaga cristalina!...

 

Parece que se partem, angélica Bambina,
As campas glaciais dos Tassos e dos Talmas,
Lá quando no tablado as turbas sempre calmas
Transmutas em vulcão, em raio que fulmina!...

 

E quando majestosa, em lance sublimado
Dardejas do olhar, olímpico, sagrado
Mil chispas ideais, titânicas, ardentes!...

 

Então sente-se n'alma o trêmulo nervoso
Que deve ter o mar, fantástico, espumoso
Nos grossos vagalhões, indômitos, frementes!!...

 

 

Cruz e Souza

 

3 de janeiro de 1883.

 

 

 

Soneto

 

À Julieta dos Santos

 

 

Quando apareces, fica-se impassível
E mudo e quedo, trêmulo, gelado!...
Quer-se ficar com atenção, calado,
Quer-se falar sem mesmo ser possível!...

 

Anda-se com a alma n'um estado horrível
O coração completamente ervado!...
Quer-se dar palmas, mas sem ser notado,
Quer-se gritar, n'uma explosão temível!...

 

Sobe-se e desce-se ao país das fadas,
Vaga-se com as nuvens das mansões douradas
Sob um esforço colossal, titânio!...

 

E as ideias galopando voam...
Então lá dentro sem parar, ressoam
As indomáveis convulsões do crânio!!...

 

 

29 de dezembro de 1883.

 

Cruz e Souza

 

 

 

À Julieta dos Santos

 

 

Do Universo o Divino o Grande Obreiro

Estava no repouso sem primeiro,

Quando ao cérebro gigante lhe ocorreu

Uma ideia maior que o próprio céu...

E foi: criar um Sol tão grande e colossal

Que mostrasse a todo o ser o mundo do ideal.

E trabalhou... seu trabalho foi diário...

E quando o concluiu... mandou um emissário

       Dizer a todo o mundo

       O Gênio tão profundo

Que tinha enviar-nos... E foi este um cometa

Que disse a toda a terra o nome — JULIETA!

É esse pois o nome do máximo dos portentos

Que, de luz em cada floco, milhões de pensamentos

       Atira sobre nós,

Fazendo estremecer os ossos dos heróis

Que dormem há mil anos nas campas bem sepultos!

Com força magnética reergue os nobres vultos

Maiores que os titãs, imensos e tão grandes

Que vão ao infinito e passam além dos Andes!

Depois... abrem seus olhos cercados de montanhas

Que parecem mil lagos de orbitais tamanhas

       Contemplando os céus!...

       E vão Briareus

       Unidos em corte

Saudá-lo, com presentes, do império lá da morte!

 

Então é toda a terra um grande Coliseu,

Onde se representam os dramas lá do Céu!...

 

 

Virgílio Várzea

 

Desterro, 30 de dezembro de 1882.

 

 

 

Soneto

 

À Julieta dos Santos

 

 

Lágrimas da aurora, poemas cristalinos

Que rebentais das cobras do mistério!
Aves azuis do manto aurissidéreo...
Raios de luz, fantásticos, divinos!...

 

Astros diáfanos, brandos, opalinos,
Brancas cecéns do Paraíso etéreo,
Canto da tarde, límpido, aéreo,
Harpa ideal, dos encantados hinos!...

 

Brisas suaves, virações amenas,
Lírios do vale, roseirais do lago,
Bandos errantes de sutis falenas!...

 

Vinde do arcano n’um potente afago
Louvar o Gênio das mansões serenas,
Esse Prodígio singular e mago!!...

 

 

J. da Cruz e Souza

 

6 de janeiro de 1883.

 

 

                                                                       

À Julieta dos Santos

 

 

Tu triunfas na luta sobranceira...

Quando pisas no palco, majestosa,

Do zoilo vil a boca venenosa

Solta um — bravo — atrizinha brasileira!

 

Oh! menina feliz!  oh! feiticeira,

Que és amável, risonha, espirituosa,

Que nos fazes vida deleitosa

Quando mostras teu gênio — prazenteira!

 

Rainha do proscênio o céu te aclama

Com estridulo clangor, por todo o mundo

Corre teu nome nos anais da fama!!...

 

Dás glorias ao teu país — belo, fecundo,

Brasiléia Cuniberti!... assim te chama

O nosso Imperador — Pedro Segundo.

 

 

Virgílio dos Reis Várzea

 

Desterro, 7 de janeiro de 1883.

 

  

 

Julieta dos Santos

 

     Tu passas rutilante em toda a parte
     Oh! sol de nossa pátria, oh! sol da arte!...

     

(Virgílio Várzea)

 

 

Quando eu te vi pela primeira vez no palco

avassalando as almas,

n'um referver de palmas,

Cheia de vida e cândido lirismo!

Senti na mente uns divinais tremores...

e louco e louco,

a pouco e pouco

Vi rebentar o inferno cataclismo!...

 

Mil pensamentos galoparam, céleres

por minha fronte

e do horizonte

Quis arrancar os astros diamantinos,

Para arrojá-los a teus pés mimosos

e arrebatado,

fanatizado

Por entre um mar de cintilantes hinos!...

 

Esse teu busto, a genial cabeça

tão bem talhada

e burilada

Com o escopro límpido da arte,

Tem umas puras fulgurações suaves

e a tu'alma

ardente ou calma

Os corações arrasta por toda a parte!...

 

A encarnação tu és das maravilhas,

a doce aurora,

branda e sonora

Das teatrais e lúcidas ideias!...

Tens no olhar o filtro que arrebata

e és profética

e magnética,

Possuis na voz o som das melopeias!...

 

És a escolhida pare as grandes lutas

esplendorosas

e majestosas!...

E sobre os débeis, delicados ombros,

Bem como Homero a sua lira d'ouro,

resplandecente,

trazes pendente

O Infinito enorme dos assombros!...

 

Quando apareces tudo ri e chora,

se endeusa, agita,

como que palpita

N'uma explosão de férvidos louvores!...

E o potentado mais febril da terra

gagueja um bravo,

e faz-se escravo

O mais severo e nobre dos senhores!...

 

A Dejaset, uma Favart, Rachel,

o João Caetano

como um arcano

Imperscrutável, hórrido, terrível!...

Quebram as lousas sepulcrais e frias

e te louvando

vão recuando

Dizem que é sonho, é mito, é impossível!

 

Oh! tu nasceste para suplantar, JULIETA

os grandes mundos,

os mais profundos

D'ess'arte bela, magistral, divina!...

E esse olhar tão expressivo e terno

já eletriza

e cauteriza...

É como um raio que a corações fulmina!...

 

Que sol é este, vão bradando os pólos,

Tão sobranceiro,

que o brasileiro

O vasto império confundindo está?!...

Venham teólogos, venham sábios... todos

venham troianos,

venham germanos,

Venham os vultos da Caldeia, lá!...

 

Oh! resolvei o mais atroz problema,

fundo mistério,

alto, sidéreo

Do gênio altivo na criança, ali!...

Vamos, natura, rasga o véu dos medos,

dizei ó mares,

falai luares,

Sombras dos bosques, respondei-me aqui!...

Astros da noite, tempestades, ventos

erguei as vozes,

falai velozes

N’um som estranho, n’um clangor audaz!...

E respondei-me e explicai ao orbe

se essa menina,

que nos fascina

É um fenômeno ou outro tanto mais!...

 

Tudo emudece na natura imensa

e desde os Andes,

dos cedros grandes

Ao verme, à pedra, às amplidões do mar!...

Tudo se oculta na invisível raia

no espaço a bruma,

no mar a espuma

Vão-se esgarçando também, a se ocultar!...

 

Tudo emudece na natura imensa

quando na cena

surges serena

Como a visão das noites infantis!

Dos olhos vivos dos que são-te adeptos

bem como prata

eis se desata

A aluvião de lágrimas febris!...

 

É que tu tens esse poder superno

real, sublime

que até ao crime

Faz arrastar o mísero mortal!

É que tu és a embrionária horrível,

mística, ingente

que de repente

Fazes de um ser estúpido animal!...

 

Tudo emudece na natura imensa

desde nos campos

os pirilampos

Até as grimpas colossais do céu!...

Tudo emudece e até eu JULIETA,

já delirante

vou vacilante

Cair-te aos pés como um servil, um réu!!...

 

 

Cruz e Souza

 

28 de dezembro de 1882.