LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Santa Catarina: a ilha, de Virgílio Várzea


Edição de base:

 

Virgílio dos Reis Várzea, Santa Catarina: a ilha,

Florianópolis: IOESC, 1984.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SUMÁRIO

 

Notas históricas

Os habitantes

A capital

Os arrabaldes

Curiosidades

Monumento aos mortos do Paraguai

Capela do Menino-Deus

Hospital de Caridade

O Morro do Pau da Bandeira

Romaria da Trindade

Festa do Espírito Santo

Procissão de Passos

Freguesias e arraiais

Saco dos Limões

Pantanal

Córrego Grande

Pregibaé

Rio Tavares

Ribeirão

Caiacanga-açu

Pântano

Lagoinha

Naufragados

Lagoa

Aranhas

Ingleses

Rio Vermelho

Rapa

Ponta das Canas

Cachoeira

Capivaras

Várzea Grande

Várzea Pequena

Canavieiras

Ponta Grossa

Ratones

Santo Antônio

Sambaqui

Cacupé

Itacorubi

Trás do Morro

Praias, cômoros e campos

Pequenos rios

As duas baías

Ilhas e ilhotas

A pesca

A vida rural

Velhos processos agrícolas

O engenho de farinha

A farinhada

A colheita da mandioca

A raspadura

O fandango

Os beijus

A alegria da lida

A plantação da mandioca

O carro de boi

A cana

O engenho de cana

O alambique

Várias culturas

O milho e o trigo

O algodoeiro e o linho

O tear

O café

 

 

 

A meu irmão JOÃO VÁRZEA, a cujos inteligentes esforços e preciosa dedicação na pesquisa de informações e documentos de todo o gênero, antigos e modernos, devo, em parte, a confecção desta obra de verdade e justiça sobre o meu Estado natal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Notas históricas

 

Quem sai do Rio de Janeiro e desce a costa para o sul encontra, entre 27 e 28 graus de latitude e 5 de longitude do meridiano adotado, um imenso bloco de argila e granito, situado ao longo do continente e em pequena proximidade, com dez léguas de comprimento, por uma ou três de largura, conforme as reentrâncias e cabos. É a Ilha de Santa Catarina, chamada outrora dos Patos.

 

Descoberta em 1515 por João Dias de Solis, navegante espanhol, em viagem pelo sul do Brasil, a Yjuriré-mirim[1]  dos selvagens foi visitada ainda por três outros pilotos dessa nação, ou que navegavam debaixo da sua bandeira: Sebastião Caboto, em 1525; Diego Garcia, em 1527; e Álvaro Nuñes Cabeza de Vaca, em 1540. Alguns anos depois, em 1554, abordou-a também outra frota castelhana que ia para o Prata, e que, forçada por um temporal, ali arribara para refrescar.

 

Mas nenhuma dessas expedições deixou maior sinal de sua passagem por Santa Catarina, a não ser a deserção de um ou outro tripulante e o desembarque e ocupação, durante alguns meses, de Álvaro Nuñes, que ali se demorou a consertar um dos navios de sua esquadra arruinada por um temporal, ao mesmo tempo que despachava uma caravela com destino a Buenos Aires, para que lhe trouxesse notícias exatas do estado dos estabelecimentos aí fundados por D. Pedro de Mendoza, a quem vinha suceder nas explorações do Prata. Era no inverno e os pampeiros, muito frequentes em tais paragens nessa quadra do ano, impediram o barco de chegar ao fim da viagem, voltando o mesmo à Ilha depois de ter chegado à altura do estuário do rio, de onde arribara. Nessa ocasião, sucedeu aportar a Santa Catarina uma lancha tripulada por nove marinheiros castelhanos, os quais declararam proceder de Buenos Aires de onde tinham fugido pelos maus tratos de Francisco Ruyz, que ficara a comandar a cidade ao recolher à Espanha D. Pedro de Mendoza. Por esses homens soube Cabeza de Vaca da morte de Ayolas, lugar-tenente de Mendoza, desaparecido na exploração em que se internara pelo alto Paraguai, depois de haver fundado Assunção. Tal notícia levou Cabeza de Vaca a preparar uma expedição por terra até aquela cidade. Pronto tudo, partiu, atravessando pelo norte os sertões de continente catarinense, ao passo que seu irmão, Pedro Estopiñan Cabeza de Vaca, conforme suas ordens, ficava a ultimar os preparativos da esquadra, a fim de à frente dela singrar para Buenos Aires, ponto ajustado para encontro de ambos. A arrojada expedição terrestre teve o melhor êxito, nela foi o celebrado aventureiro espanhol grandemente auxiliado pelos índios de Santa Catarina que o acompanharam até quase ao Paraguai, de onde voltaram depois às plagas natais.

 

Nove anos passados, aportaram também à Ilha os navios de Hans Staden e Senabria, cujas companhas aí se demoraram dois anos, findos os quais se retiraram — a gente do primeiro em sua companhia, e por mar, para São Vicente, onde naufragou; a de Senabria, dirigida por ele, para o Paraguai. Esta última, por não dispor de navios — pois o único que possuía arruinara-se totalmente — empreendera a viagem por terra, seguindo, guiada pelos selvagens, a mesma trilha de Cabeza de Vaca. Mas as dificuldades a vencer foram de tal ordem que poucos deles lograram alcançar, com vida, o Paraguai.

 

Semelhante gente, repetimos, não permaneceu nem deixou o mínimo núcleo de população no lugar, porquanto os seus únicos desígnios eram a exploração das riquezas que constava existirem no Prata. É, em 1650, vamos encontrar a Ilha ainda por colonizar, apesar de achar-se já Brasil dividido em Capitanias e desde 21 de janeiro de 1535 estar de posse de suas terras e do continente 70 léguas no litoral, desde Cananeia à Laguna, Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim Afonso, nomeado pelo governo português, em 1530, comandante geral de terra e mar.

 

Mais de um século permaneceu Santa Catarina, como a maior porção das terras continentais de que era parte, completamente abandonada e, em 1650, apesar do trato fácil e do caráter pacífico de seus naturais, os índios carijós, que já tinham alguma indústria e entretinham, havia anos, um pequeno comércio marítimo com os habitantes de Santos, cujas embarcações lhes traziam ferramentas e instrumentos de pesca e lavoura, que trocavam por algodão e outros produtos; apesar disso, dizemos, os seus únicos povoadores eram alguns marinheiros desertores daquelas expedições, degradados e um ou outro criminoso que nela se vinha refugiar.

 

A verdadeira história da Ilha e de todo o Estado começa, pois, segundo conspícuos historiadores, com a pequenina colônia fundada por Francisco Dias Velho Monteiro[2] sobre uma das colinas onde assenta hoje Florianópolis (Desterro), que é um desenvolvimento da antiga povoaçãozinha.

 

Velho Monteiro era um laborioso agricultor de Santos, que ao ter notícias constantes da Ilha de Santa Catarina, do comércio que aí se fazia e da índole mansa dos indígenas, resolvera transportar-se para ela com toda a família.

 

Efetivamente, em 1651, aí veio aportar, trazendo consigo sua mulher, três filhas e dois filhos moços, João e Salvador Pires, além de 500 índios domesticados. Acompanharam-no também dois padres da Companhia de Jesus e um agregado de nome José Tinoco, cuja família se compunha de um filho e duas filhas.

 

Escolhido o lugar para a colônia, lançou os seus primeiros fundamentos, edificando ranchos ou choupanas que passou a habitar com os seus, erigindo ao mesmo tempo uma ermida, sob a invocação de Santa Catarina, de onde se originou talvez o nome da Ilha e do Estado[3], isto no próprio local onde se acha hoje a matriz do Desterro. Começou então a fazer plantações pelos terrenos próximos, entrando também em relações de comércio com os carijós, que ocupavam o continente fronteiro e vários pontos da Ilha.

 

Logo depois, Domingos de Brito Peixoto, animado por este primeiro estabelecimento, deixando São Vicente, onde vivia, embarcou em Santos com destino a Santa Catarina; e acompanhado de sua família, numerosos índios e escravos, veio fixar-se para a terra firme, no sítio denominado do Rosário, cujo porto conserva até agora o nome de Enseada do Brito. Mas os índios desta, como os da outra colônia, tomados de rivalidades desavieram-se, obrigando Domingos de Brito a mudar-se para a Laguna, de que foi o primeiro povoador e onde mais tarde se fez capitão-mor seu filho Francisco de Brito Peixoto.

 

Na Ilha, a colônia prosperava dia-a-dia, e na melhor ordem, quando uma manhã fundeou em Canavieiras[4] um navio corsário, que vinha do Peru carregado de prata, sob o comando do flibusteiro Robert Lewis. Esta embarcação (que se supõe de nacionalidade holandesa) fora obrigada a arribar ali impelida por um tufão do sul que lhe fizera graves avarias, e seu capitão, julgando a terra desabitada, apenas deitou âncora, desembarcou o carregamento e começou a reparar o navio.

 

Avisado imediatamente, Velho Monteiro preparou os seus índios e correu a bater o corsário, e a sua companha, no lugar do desembarque. Repelidos os flibusteiros, não só pelo número como pelo inesperado do ataque, deixaram em terra o carregamento e fizeram-se ao mar. Vitoriosa, a pequena coluna combatente recolheu à povoação, trazendo consigo aqueles preciosos despojos, que foram guardados na ermida, por ser a casa mais forte da colônia.

 

Mas, um ano depois, o próprio Lewis ou seus pilotos, volveram a tirar desforra, e tocando em São Francisco (a esse tempo já um pequeno povoado), onde se muniram de um prático, deram velas para a Ilha, ancorando na mesma praia onde haviam arribado. À tarde, guiados pelo tanoeiro franciscano, largaram de bordo com uma frota de lanchas, em direção à Praia de Fora, a assaltar a povoação. Velho Monteiro, que tivera aviso de São Francisco, os foi esperar com alguns índios, emboscado nas matas da costa, e, denodadamente, após forte tiroteio a mosquete e a flecha, os rechaçou outra vez para o mar. Certo, pelas perdas inimigas, de que não voltariam tão cedo, pelo menos até o dia seguinte, foi dormir sossegado. Mas, alta noite, os piratas tornaram, e tomando um dos atalhos da mata, caíram sobre as habitações, invadindo-as e aprisionando o colono com toda a família, bem como os padres e a Tinoco e os seus. Levaram-no para a ermida e lançando-se, com lascívia maruja, sobre as três moças virgens, as violaram mesmo à face dos pais. Ferido em plena alma, revoltado até a demência, Velho Monteiro investe, furioso, contra a infame chusma. Luta com dois ou três, num esforço titânico, tentando agarrar uma arma para desafrontar-se, mas, só e único na ação, cai por fim sobre o solo, varado por um tiro de pistola que lhe disparam no crânio.

 

Tinoco e os filhos, com João Pires, que vira o pai tombar morto (o outro irmão estava no continente em serviços de minas), assistiram à trágica cena num terror indizível, abraçados aos padres, que tremiam também, estarrecidos.

 

A marinhagem facínora, consumado o duplo crime do assassinato e da desonra, seguiu para as lanchas, levando consigo, não só a prata que lhe tomara Velho Monteiro no combate em que foram vencidos, como a viúva e os filhos do herói, os padres e a Tinoco e os seus. Ao chegarem aos botes, porém, os prisioneiros entraram a suplicar que os soltassem, e graças à intervenção dos jesuítas e aos presentes de víveres e outros, que lhes deu João Pires, os miseráveis acederam, desembarcando-os em seguida. Tudo isto se passou até ao alvorecer, quando a notícia se espalhou pelos índios, que, longe de acudirem aos vencidos, apavorados com o caso, deitaram a fugir. João Pires mandou comunicar o ocorrido a terra firme, ao irmão, ocupado a tirar ouro no morro do Taió (Almeida Coelho, Memória Histórica) de onde voltou, mal recebeu a terrível nova.

 

Reunidos todos então, sob o abatimento natural do infortúnio, resolveram recolher a São Paulo ou à Laguna (que já florescia sob a direção de Domingos de Brito) abandonando aquela terra, onde só tinham experimentado aflições e desditas. Não o fizeram, porém, sem concluírem a ermida, já agora assinalada para eles como o túmulo sagrado do autor de seus dias. E, decorridos alguns meses, embarcaram, deixando para sempre a Ilha, deserta outra vez como no princípio, porquanto os índios domesticados e um ou outro dos marinheiros e criminosos que por ali erravam, partiram também para a colônia da Laguna.

 

Narra a velha tradição catarinense, na sua linguagem enternecedora e simples, que os habitantes, sucessores da prole desventurosa do herói infeliz, viram, por muitos anos, clamando embalde vingança contra os assassinos, nas paredes silenciosas da ermida, as manchas negro-escarlates do sangue nobre da vítima.

 

Em 1666, o capitão-mor de Paranaguá, Gabriel de Lara, procurador do Marquês de Cascaes (então donatário das terras de Pero Lopes de Sousa por herança de família) concedeu ao paulista Antônio Afonso e seus companheiros virem estabelecer-se com as famílias para Santa Catarina e seu continente, dentro de quarenta léguas ao sul até a lagoa de Ibiraquera, com carta de sesmarias de meia légua em redor, para cada colono. No mesmo ano, o capitão-mor da praça de Santos, Agostinho de Figueiredo, por ordem do referido Marquês, deu carta de sesmarias para a Ilha e terra firme a Miguel Antunes Pronto e treze camaradas. Após estes apareceram outros, com idênticas concessões, por mandado de Gabriel de Lara e seu substituto Domingos Francisco. Estes novos colonos, não só continuaram a ocupar e cultivar as terras de Velho Monteiro, como entraram a espalhar-se por toda a Ilha e o continente, fundando pequenos estabelecimentos e povoações.

 

De 1678 a 1709, data em que a Ilha e a terra firme passaram do governo do Rio de Janeiro para o de São Paulo, o número dos povoadores aumentou de certo modo, pois nesse período veio fixar-se para os campos de Araçatuba, no continente ao sul do rio Massiambu, o capitão Antônio Bicudo de Camacho, trazendo em sua companhia vinte ou trinta casais de agricultores. Por esse tempo, chegava também à Ilha um sobrinho de Camacho, o padre Mateus de Leão, com alguns homens de lavoura, a ocupar os terrenos confinantes com os de Velho Monteiro, desde a Lagoa até ao rio Ratones.

 

Dessa época em diante até 1738, em que D. João V elevou a governo independente a Ilha e o continente (este na sua faixa litoral tão somente) comandaram Santa Catarina, vindos de São Paulo, o cabo-militar Sebastião Rodrigues Bragança, o sargento Francisco Dias de Melo e o capitão de infantaria Antônio de Oliveira Bastos. Este último trouxe consigo algumas famílias de povoadores portugueses e um destacamento militar, que foi o primeiro conhecido na Ilha.

 

Sob a direção desses homens nada ocorreu que valha a pena dar menção, além da chegada à praia da Figueira (sob o domínio de Bragança) de uma lancha com marinheiros armados, que tinham fugido de um navio espanhol, ancorado em Canavieiras. Os marujos, a princípio repelidos a fogo e flecha pelo cabo-militar e seus índios, foram depois acolhidos pacificamente, narrando o motivo da sua deserção de bordo. E eram todos de tão boa índole que prestaram os melhores serviços à colônia, chegando um deles, Francisco Antônio Branco, pela sua conduta e caráter, a merecer por esposa D. Clara de Avelar, filha do sargento-mor Avelar Manso, senhora cuja bondade e virtudes ficaram tradicionais na Ilha, particularmente na freguesia de Santo Antônio, que eram terras de sua doação. Aí agasalhou ela, durante os seus cem anos de vida, aqueles que a procuravam, domiciliando-os generosamente e dando-lhes o desfrute de suas possessões.

 

Mas a verdadeira instalação do primeiro governo independente em Santa Catarina teve lugar a 7 de março de 1739, data em que o brigadeiro José da Silva Paes chegou do Rio de Janeiro, acompanhado de alguma tropa e dos empregados que deviam fazer parte das repartições civis que ia organizar. Esse administrador prestou os melhores serviços a Santa Catarina, conduzindo o seu governo com inteligência e zelo, e cuidando ativamente do desenvolvimento de todas as povoações e lugarejos. Tornaram-no digno dos mais justos encômios, a organização da defesa dos portos, que pôs desde logo em execução, e o pedido que fez a El-Rei de quatro mil famílias açorianas e madeirenses para colonizar a Ilha e o continente. Tal pedido foi satisfeito, ainda que demoradamente, tendo chegado a primeira leva de imigrantes composta de 461 pessoas, em 1748, já na administração de seu sucessor, o coronel Manoel Escudeiro Ferreira de Sousa.

 

Impulsionado o movimento imigratório, outras levas se foram sucedendo, sendo a segunda em 1749, a terceira em 1750 e a quarta em 1752, completando ao todo o número de 4.024 pessoas. Foi só então que a população de Santa Catarina se acentuou, tomando um caráter estável e próprio, localizando-se permanentemente em cada sítio um núcleo de povoadores.

 

Não se pode imaginar o que fez desde logo essa humilde gente trabalhadora no fértil e virgem solo catarinense. Mas para se julgar do seu valor, vejamos o que diz, com justo juízo e verdade, o velho cronista Almeida Coelho, na sua Memória Histórica, que tem sido para estas primeiras notas o nosso melhor guia:

 

"Desde a chegada desses colonos, começou a Ilha a florescer em habitantes, em agricultura e mesmo em indústria manufatureira, apesar de terem sido mal cumpridas as recomendações do governo de Portugal, assim a respeito da repartição das terras, como do tratamento prescrito nas Provisões do Conselho Ultramarino, resultando daí abandonarem alguns colonos o país, e outros arrependerem-se de ter vindo; todavia, principiaram a aparecer os tecidos de algodão e linho, dos quais, a bem dizer, se serviam todas as famílias, e não pequena foi logo a exportação, principalmente para o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul; e de que hoje[5] apenas há vestígios por algum carcomido tear que ainda se ouve bater descompassadamente em uma ou em outra choupana dos sítios; no entanto que o luxo dos panos estrangeiros de mistura com a necessidade e pobreza habitam esses lugares de antiga simplicidade, da indústria e da abundância!" e acrescenta ainda: "Foi com a distribuição desses colonos prestimosos e interessantes pela Ilha, e alguns lugares da terra firme, que se formaram as melhores povoações, hoje convertidas em cidades, vilas e freguesias; podendo dizer-se, sem risco de erro, que poucas são as atuais famílias catarinenses que deles não descendam."

 

Em pouco, sob a ação dos imigrantes açorianos e madeirenses, as casas do Desterro (que era freguesia desde 1732) aumentaram de número e proporções, erigindo-se (1749) a igreja matriz no mesmo lugar onde fora a célebre ermida de Velho Monteiro, e outros templos mais, como o da Ordem Terceira de São Francisco de Assis e o do Menino Deus.

 

Já por todo o litoral da Ilha, a oeste, bem como no continente fronteiro, prosperavam pequenos outros povoados, sob a invocação de Santo Antônio, Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, São Francisco de Paula de Canavieiras, Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão, São João do Rio Vermelho, São Miguel, etc.

 

Santa Catarina entrava, pois, (não já sem tempo, porque haviam decorrido dois séculos desde a sua descoberta) em um franco início de vida social, quando um grave acontecimento rebentou inesperadamente. Foi a invasão espanhola de D. Pedro Zeballos, em 1777, cujo feito principal vamos procurar aqui resumir.

 

A Espanha, invejando decerto os sucessos portugueses no Rio Grande do Sul e no Prata, onde ia já prosperando a Colônia do Sacramento, picara-se de hostilidade com o rei de Portugal D. José I e planeara infligir-lhe uma desfeita, que era ao mesmo tempo um plano oculto de posse a uma parte do território brasileiro, e que, caso se realizasse definitivamente, torná-la-ia senhora de magnífico litoral para operar facilmente sobre as suas possessões no Prata, com o domínio do Rio Grande do Sul, que seria consequente.

 

Com tal desígnio, o rei de Castela Carlos III fez aprestar uma grande esquadra, que, sob o comando do almirante Marquês de Casa-Tilly, largou de Cadiz para o Brasil, a 13 de novembro de 1776. Disposta em três divisões, compunha-se a armada de seis naus, seis fragatas, sete corvetas e noventa e seis transportes, montando 520 canhões e conduzindo 10.000 homens de desembarque, às ordens do general D. Pedro Zeballos. Um mês depois, sempre rumando ao sudoeste, a expedição chegou à ilha da Trindade, que era o ponto de reunião, com falta de 24 velas, que se lhe juntaram depois.

 

Aí, os dois generais entraram a combinar o plano de ataque a Santa Catarina, isto apesar da escassez de água e munições que já sentiam a bordo. Nesse rumo largaram pano, e mais fortes se fizeram quando, a 7 de fevereiro, apresaram três navios portugueses em cuja correspondência encontraram a narração oficial do estado miserável a que se achavam reduzidas certas praças do Brasil, especialmente a de Santa Catarina. Convocou Zeballos um conselho de oficiais e, concertado o plano de ataque, apresentou ao almirante e a todos os comandados a real sedula de 8 de agosto de 1776, que o investia no cargo de vice-rei e capitão-general das províncias do Prata.

 

Prosseguindo na viagem, avistaram a 15 de fevereiro as costas catarinenses. Mas um vento do sul os impeliu para o largo, fazendo-os descobrir as velas da esquadra portuguesa que, sob o mando de M. Duall, conforme as ordens do Marquês do Lavradio, cruzava naquelas águas. No outro dia, porém, não mais as enxergaram, porque Duall, posto quisesse dar combate aos espanhóis com os seus doze pequenos navios, virara para terra, cingindo-se disciplinarmente às instruções do Marquês, que diziam não "arriscasse" a esquadra, a única de que dispunha o Brasil para defesa de todo o litoral.

 

Sem o menor obstáculo — pois o inimigo fugia! — mal o vento rondara, a frota castelhana abordou a Ilha, fundeando para dentro do Rapa. No dia 23 para 24, Zeballos saltou em Canavieiras com toda a força de desembarque, sem que nenhum dos fortes da barra do norte o hostilizasse, indo se lhe entregar nesse mesmo dia o tenente José Henriques, comandante da fortaleza da Ponta Grossa. Em seguida, os comandantes dos fortes de Santa Cruz e Ratones os abandonaram, sem dar um tiro. E assim, a 25, os espanhóis ocupavam todas as fortificações, intimando o governador a render-se com toda a guarnição.

 

Enquanto isto ocorria, no Desterro, o marechal de campo Antônio Furtado de Mendonça, governador militar do continente e da Ilha desde 1775, e com poderes amplos para uma ação militar decisiva em caso de necessidade, em vez de correr ao encontro do inimigo quedava-se embaraçado e inativo ante o conflito de jurisdição levantado ao momento pelo coronel Pedro Antônio da Gama Freitas, governador civil. E atarantado e sem calma, com a oficialidade das forças ao seu mando em completa desarmonia, vendo espalhar-se a notícia de que uma grande coluna espanhola avançava a marche-marche contra a vila (a povoação tivera já essa categoria), resolveu precipitadamente abandonar a Ilha.

 

Em poucas horas então todo o exército, que montava a três mil homens (infantaria, cavalaria e artilharia), passou o Estreito, na direção de São José, em desastrosa corrida. O povo do Desterro, como o dos lugares em volta, sentindo-se abandonado e inerme, lançou-se igualmente, em êxodo tumultuoso, no coice dos fugitivos. Era um espetáculo desolador: senhoras e crianças correndo, aos gritos e como loucas, pelas estradas e atalhos, presas de um pânico terrível.

 

Na precipitação em que iam, as forças só puderam fazer alto à margem esquerda do Cubatão, a seis léguas de distância, ponto que garantiria uma retirada segura para o Rio Grande do Sul, caso o inimigo as perseguisse até ali.

 

A esse tempo, o marechal D. Guilherme de Vaughan, à testa de dois mil homens, apoderava-se da vila, encontrando-a totalmente deserta. No dia seguinte, Zeballos subia ao Desterro, e, sabendo que o exército português estava acampado no continente, intimou-o de novo a capitular sob pena de o mandar perseguir.

 

Seis dias depois, Furtado de Mendonça, cedendo ao ultimato espanhol, rendia-se à discrição, não sem o protesto de alguns oficiais, que num assomo de brio e desespero chegaram a dizer-lhe:

 

— Isto é uma vergonha, Sr. general! Isto é a maior das covardias!...

 

Efetivamente, outra coisa não parecia aquela entrega sem a menor resistência (embora as forças portuguesas fossem em muito menor número), agravada ainda pelo anterior abandono da Ilha perfeitamente defensável e com recursos de munições e dinheiro para uma luta por duradoura que fosse, pois só a Tesouraria tinha em cofre nada menos de cinquenta mil cruzados em ouro.

 

Quando as lanchas da frota aportaram à terra firme, para tomar os prisioneiros, os oficiais que tinham protestado contra o ato indigno da fuga e da vil capitulação, não quiseram entregar-se e embrenharam-se para o centro, depois de injuriar muito justamente a Mendonça e seus generais, especialmente ao brigadeiro José Custódio de Sá e Faria, que, persuadindo aquele da impossibilidade de defesa, aconselhara a evacuação da Ilha. Entregues as armas, munições e bandeiras, os prisioneiros embarcaram para o Rio de Janeiro, sendo recolhidos a diversas fortalezas, menos 523 soldados que desertaram no ato da rendição e que, capturados depois, tiveram por destino os presídios de Mendoza e Cuyo, na vice-realeza do Prata.

 

Em princípios de maio, Zeballos seguiu para Buenos Aires, com escala pelo Rio Grande, que pretendia tomar, deixando Vaughan, com dois mil homens, em Santa Catarina. Por esse tempo, D. Maria I, que sucedera no trono de Portugal a El-Rei D. José, entrou a negociar com seu tio Carlos III, e por intermédio de sua mãe D. Mariana Vitória, irmã do rei, o tratado que restituiu à coroa portuguesa Santa Catarina e seu continente, e que é conhecido pelo tratado de Santo Ildefonso.

 

Evacuada a Ilha, em julho de 1778, passou a governá-la e ao território continental que lhe pertencia, o coronel Francisco da Veiga Cabral da Câmara, que se conservou até janeiro de 1779, data em que o substituiu Francisco de Barros de Morais Araújo Teixeira Homem, cuja administração criteriosa e séria foi das mais fecundas para Santa Catarina, pois sob ela progrediu grandemente a lavoura e ampliou-se o comércio, abrindo-se então as primeiras lojas ou armazéns de negócio que conheceu o Desterro, tendo lugar conjuntamente a fundação do Hospital de Caridade e o aparecimento dos primeiros engenhos de açúcar.

 

Daí por diante sucederam-se ainda sete governadores, cujas administrações pouca ou nenhuma importância tiveram, sendo o último deles o tenente-coronel Tomás Joaquim Valente que, proclamada a Independência, entregou o poder à Junta do Governo Provisório, cujo domínio estendeu-se até 16 de fevereiro de 1824, época em que começa a direção dos chamados presidentes de Província, sendo o primeiro a ocupar esse cargo o desembargador João Antônio Rodrigues de Carvalho, que o deixou a 12 de março de 1825.

 

Organizada em província, Santa Catarina entrou a prosperar em paz, posto que lentamente, continuando como capital o Desterro, elevada à cidade por D. Pedro I em virtude da carta de lei de 20 de março de 1823.

 

Durante as duas primeiras presidências nenhum fato de maior saliência perturbou a vida social catarinense; e só na terceira delas é que veio a ocorrer, por indisciplina dos corpos de guarnição, a 8 de abril de 1831, a deposição do Presidente, chefe de divisão Miguel de Sousa Melo e Alvim que, intimado a deixar o governo, depois de procurar conciliar o movimento sem o conseguir, resolveu ceder, embarcando nesse mesmo dia com toda a família e o comandante das armas (também deposto) para o Rio de Janeiro. Assumiu então o governo o vice-presidente comendador Francisco Luís do Livramento, que aí se conservou até agosto do referido ano.

 

Sob a administração do brigadeiro João Carlos Pardal (1837-1839) um outro acontecimento surgiu: a invasão da Laguna e regiões de serra acima pelos célebres republicanos rio-grandenses, constituídos em revolução desde 1835, e que, à maneira dos Gueux dos Países Baixos, tão conhecidos ficaram em nossa história pela hoje gloriosa denominação de Farrapos. Do que fizeram em plagas catarinenses esses nobres patriotas, daremos conta na segunda parte deste trabalho, que constituirá outro volume.

 

Depois disto, vindo o regime definitivo da República, transforma dor das coisas passadas, mudar a antiga província em Estado Federativo — Santa Catarina adquiriu outro aspecto, outra fisionomia, desenvolvendo-se e progredindo mais, neste último decênio, que durante os sessenta e sete anos experimentados como província do Império.

 

 

 

Os habitantes

 

O povo catarinense, conforme se viu, descende em sua quase a totalidade de ilhéus açorianos e madeirenses, principalmente dos primeiros, de quem herdou o caráter humilde e bom, as excelentes qualidades morais, a índole trabalhadora e paciente, de uma rara tenacidade, afazendo-se facilmente às dificuldades, às privações e agruras do meio, conformando-se com tudo, pacífica e resignadamente.

 

Acostumado desde séculos à luta com o solo onde se desenvolveu, a princípio sobressaltado e em terror pelas perspectivas dantescas que de repente se lhe deparavam, em um cenário que, como o de uma mágica colossal, mudava às vezes subitamente, soterrando em horas montanhas e povoações, ou elevando vales e planos, sob as ondas de chamas dos terremotos e explosões imensas, como se deu em Porto Martins e Praia da Vitória (Ilha Terceira) em maio de 1614, abril de 1761, junho de 1800, janeiro de 1801 e junho de 1841, o último há quase sessenta anos[6] — o açoriano ganhou uma têmpera heroica de lutador, uma impassibilidade diante do perigo e uma afoiteza para encará-lo e arrostá-lo que poucos povos possuem.

 

Como a Terceira, as outras ilhas dos Açores, com as suas aldeias e cidades têm sido igualmente, em várias épocas, vitimadas pelo fogo interior que as gerou, e que seguidamente se manifesta ainda em pequenos tremores de terra e maremotos assustadores, como o de 1 de junho de 1867[7] na Serreta, precedido cinco meses de medonhos abalos e detonações, e que durou muitos dias, fervendo o mar em cachões de espuma e sacudindo ao ar colunas d'água gigantescas.

 

Ora, foi justamente, e em maior parte, com colonos desse arquipélago que Santa Catarina se povoou, especialmente com gente da Terceira, São Jorge, São Miguel e Pico, a última destas ilhas a mais ígnea de todas, pois tem em si o vulcão mais considerável do grupo, célebre pelas passadas erupções e pelo penacho perenal de lava, que é, à noite, para os mareantes que sulcam essas paragens, como um estranho e altíssimo farol a iluminar o oceano.

 

Daí o caráter tenaz e temerário, por vezes, do catarinense, sobretudo na sua grande aptidão para a vida do mar, que é ainda uma herança do povo açoriano e de toda a raça portuguesa, que foi e é essencialmente marinheira, embora Portugal conte hoje uma pequeníssima marinha.

 

Do açoriano recebeu também o barriga-verde[8] a estrutura física musculosa e ossuda, admiravelmente resistente às intempéries e doenças, posto que um tanto modificada pelo clima tropical, que dá ao habitante dos campos e planícies litorais da Ilha e do continente (principalmente nos terrenos baixos e alagados, onde a intermitente é endêmica) um aspecto destingido e pálido, agravado frequentemente pelas moléstias hepáticas.

 

Naturalmente inteligente, como seus antepassados, de cujo seio têm saído para Portugal homens eminentes, quer na política, quer nas ciências e letras, como Hintze Ribeiro, Manoel de Arriaga, Antero de Quental (um dos maiores pensadores e poetas portugueses deste tempo) e Teófilo Braga — o catarinense é de uma certa vivacidade mental, pouco criadora talvez, mas original e brilhante por vezes. De uma doce tendência poética, devida ao seu temperamento impressionista e amoroso, comum de resto a todo o povo brasileiro, o roceiro, como o marítimo catarinense, tem uma alma cantadeira. Alegre e de certo modo feliz, embora em geral na indigência, o canto aflora-lhe espontâneo aos lábios, gerado não só do velho atavismo céltico que vagamente lhe gira nas veias, como dos encantos desta nossa natureza. Desde manhã até a noite, pode dizer-se, ele vive a cantar, quer seja inverno ou verão, a frente do carro carregado de lenha, capinando ou semeando nas planícies e morros, fazendo coivaras, abrindo picadas, derrubando madeira para construir a casa ou o engenho, escavando um tronco para uma canoa ou um cocho, mudando ou conduzindo o gado ao potreiro, domando o cavalo xucro, laçando o boi bravio, tecendo ou deitando as redes, junto ao portal da rua, ou sobre a borda da canoa, no meio do mar revolto, sob a fúria do pampeiro. E é assim que embala a sua vida, no rude trato das roças e no lidar arriscado das redes.

 

Nisto, como no falar constante que o anima, particularmente na vida das praias, o barriga-verde se parece com os algarvios, de quem igualmente tem o sangue, pois os açorianos provêm em parte deles, que colonizaram também as suas ilhas. E assenta perfeitamente nos habitantes das costas catarinenses o que a respeito do caráter do algarvio diz Oliveira Martins, à pag. 42, quarta edição, da História de Portugal: "No Algarve não há silêncio e impassibilidade: há o constante movimento, o falar, o cantar de uma população como a dos gregos das ilhas, ora embarcados nos seus navios de cabotagem, ora ocupados nos seus campos que são jardins”.

 

É justamente o que se dá em Santa Catarina, onde o povo da zona litoral, com raras exceções, é constitucionalmente marítimo.

 

A mulher catarinense, pequena e delgada nas cidades, franzina e anêmica, é, entretanto, no campo e nas praias da terra fume mais alta e espadaúda, avantajando-se totalmente ao homem no colorido das faces e no aspecto de plena saúde que revela, isto coroado por linhas estéticas adoráveis, por uma pele veludosa, delicada e límpida, se bem que em geral trigueira[9]. Muito viva como o homem, é ainda mais alegre do que ele, e tem o falar "cantado", que lhe ficou na laringe como uma doce e saudosa sobrevivência de origem. Matuta e simples, de uma graça toda ingênua, atrai à primeira vista, pelos olhos luminosos e negros, pelo andar gracioso e faceiro.

 

O barriga-verde, pelo seu temperamento e feição psicológica, é muito sociável e dado a festas e divertimentos, sendo um desses tipos de povos que raramente experimentam bisonharia ou tristeza. A tal respeito é eloquente o que diz Saint-Hilaire, falando dos matutos de Itapocorói e outros pontos, na viagem que fez pela costa de São Francisco ao Desterro. "À medida que nós avançávamos, diz o ilustre viajante francês, os habitantes de todos os sítios corriam à porta para nos verem passar. As mulheres não só não fugiam, como respondiam com polidez, e sorrindo, às nossas saudações..." (Voyage dans l'intérieur du Brésil, pág. 305, vol. II.)

 

Paulo de Brito, que habitou alguns anos, e por duas vezes, Santa Catarina, exprime-se do seguinte modo sobre o caráter do povo, às págs. 73-74 da sua Memória Política: "...São muito inclinados (os habitantes) a todos os atos da nossa religião, tanto públicos como particulares, às festividades de igreja, e às procissões, e principalmente às festas populares, e à do Espírito Santo, o que tudo vi fazer em Santa Catarina não só com decência, mas até com grandeza. Igualmente se fazem ali com suntuosidade mui superior à riqueza e à civilização do país os batizados, os casamentos... São inclinados à música, à cantoria e às danças. As mulheres, de maneiras dóceis e meigas, são inclinadas aos divertimentos; sabem cantar, tocar algum instrumento de corda e dançar, e não se observa nelas aquela bisonhice que se encontra nas mulheres de outras capitanias do Brasil".

 

E mais adiante acrescenta em uma nota: "Quando em setembro de 1797 estive pela primeira vez na Ilha de Santa Catarina, assisti a uma função que fez o governador que então era daquela Ilha, João Alberto de Miranda Ribeiro, em obséquio ao vice-almirante Antônio Januário do Vale. general da esquadra que naquele ano veio para o Brasil, e então se achava ancorado no porto da sobredita Ilha. Em um baile que também deu o dito governador pelo mesmo motivo, vi uma brilhante companhia de senhoras, de homens, das famílias mais distintas do país, e uma numerosa orquestra, em que havia e se tocaram todos os instrumentos de sopro e de cordas, com harmonia e bom gosto. Cantaram várias senhoras e dançaram minuetes, contradanças e valsas, tudo segundo os usos da Europa. Fiquei admirado de encontrar tudo isto em uma terra tão pequena do Brasil..."

 

Na população catarinense (a não ser nas colônias, com o alemão ou o italiano) não há quase cruzamento, sendo raro encontrar, entre ela, o tipo indígena do norte do Brasil ou o traço fisiológico do negro, que ali não prevaleceu senão insignificantemente, em pequeno número de mestiços, porque o tráfico do africano nessas plagas apareceu tardiamente, logo reprimido pelas nossas leis, e mais pelos ingleses, que de acordo com o nosso governo, perseguiam os navios negreiros até às nossas costas, aprisionando tripulações e carregamentos no próprio porto do Desterro, como várias vezes se deu[10]. De sorte que, pode afirmar-se, o povo catarinense é essencialmente ariano, com particularidade nos centros alemães ou italianos, como Joinville, Blumenau, Brusque, Nova Trento, Orleans e Nova Veneza, cidades e vilas que foram outrora colônias, e cujas populações hão de ser, no futuro, o fator de um novo tipo brasileiro interessante, superior e perfeito...

 

Mas a característica principal do povo catarinense e a que o assinala mais profundamente porque é constitucional, conforme dissemos acima, e gerada por forças atávicas e étnicas altamente favorecidas pelo meio, é a sua extraordinária aptidão para a vida do mar, aptidão a cujo estudo consagraremos, na parte segunda desta obra, todo um capítulo que se denominará Gênio Marítimo Catarinense.

 

 

 

A capital

 

Florianópolis (Desterro), capital do Estado, é uma cidade pitoresca e agreste, colocada bem ao centro da costa ocidental da Ilha, ao fundo da baía do sul, em uma espécie de península que forma uma das pontas do Estreito, por onde decerto, em remotíssimas épocas geológicas, a Ilha se ligava à terra firme. Com as suas casas risonhas e brancas, a antiga povoaçãozinha de Velho Monteiro, dir-se-á talhada para um grande destino, pois se assemelha, por sua situação, como por uma ocorrência de origem, a mais célebre cidade do mundo, a Roma, a velha Babilônia latina, porque à maneira de Roma, foi regada com sangue ao nascer e assenta sobre sete colinas... E Florianópolis não é para os catarinenses senão uma outra Roma... mas uma Roma pequenina e marítima.

 

Vista do mar, a cidade não impressiona bem aos que a visitam pela primeira vez, apesar do seu encanto paisagista, porquanto uma parte de sua frente, do lado do norte, onde correm os cais da Figueira, compõe-se ainda de casinhas antigas, com os fundos voltados para fora, exibindo quintalejos murados ou de tábuas e ripas, com uma multidão de embarcações miúdas em roda, como botes, batelões e canoas, puxados em terra ou em fabrico, para o serviço de seus habitantes, que são em totalidade marítimos, pois a Figueira foi e é, nas ruas mais próximas ao mar, o bairro dos embarcadiços. Quem passa por aí sente, desde o Morro do Wenceslau até ao canto da Rua Álvaro de Carvalho (antiga da Palma) um cheiro higiênico e sadio a piche, a verniz coltar, a alcatrão, a estopa, a mialhar, a ferro patent, a lona nova e a cabo de cairo ou linho, tudo isso que lembra navio e mar, e que nos dá uma vaga saudade das viagens longínquas, em que esse aroma saudável se nos apega às narinas, acompanhando-nos ainda, em terra, por dias e dias.

 

O mesmo se nota nos prédios ao longo do outro cais (o principal da cidade) e que formam a ala sul das Ruas Altino Correa e João Pinto, desde o canto da Palma ao elegante edifício gótico da Capitania. Estes, porém, têm a atenuante de uma fachada para o mar e serem altos e limpos, posto que de construção antiga, como de resto a capital em geral, com exceção de algumas ruas e arrabaldes.

 

Este defeito, que decerto modo compromete a estética da cidade no seu primeiro aspecto impressivo, tem origem na maneira como foi ela edificada de seus princípios, pois que partindo do alto onde está a matriz para a beira-mar, as casas todas estenderam-se marcando o templo por frente, e isto até quase aos últimos tempos da monarquia, em que a Câmara Municipal, abrindo a Rua da Liberdade (que corre ao longo do cais desde o Largo Quinze de Novembro a Santa Bárbara) entrou a intervir, proibindo as construções nesse sentido.

 

As casas que escaparam a uma tal ordem de coisas, foram as do Menino Deus, no Largo Treze de Maio, cuja frontaria é toda voltada para o mar, desde a Ponte do Vinagre até à Toca, onde infelizmente começam de novo os muros e os quintalejos de tábuas e ripas, desdobrando-se até à Prainha. A Toca é um lugar meio pedregoso e empinado, pois levanta-se da base de rocha da Ladeira dos Passos ao Morro da Boa-Vista. As suas casinhas são encarapitadas umas sobre outras, apertando-se como um rebanho de cabras alvas, o que lhes dá um ar de presepe antigo, e, como a Figueira, é um bairro marítimo, mas de outro gênero, porque nele só se acomodam os pescadores e redes que lanceiam ali mesmo, nos baixios da baía.

 

As principais ruas de Florianópolis são em geral retas, planas e bem calçadas. Quatro delas representam o centro comercial, a city — como diríamos se se tratasse de uma grande capital — e são as denominadas Altino Correa (que é a mais importante), João Pinto, Trajano e República. Na primeira destas acha-se situada a grande casa comercial de Carl Hoepcke & Cia., a mais notável do Estado, que é um depósito completo de toda a sorte de gêneros e artigos, importados diretamente das principais praças da Europa e conduzidos por uma frota de navios a vapor e a vela, em contínuas viagens transatlânticas entre aquelas cidades e Santa Catarina. Esta casa joga com cerca de três mil contos de capital e abastece de tudo, não só o comércio catarinense em totalidade, como a muitas cidades do Paraná, para onde faz grandes vendas anuais. Outra casa do mesmo gênero, mas em menores proporções, é a de Ernesto Wahl & Cia., também importadora. As demais lojas negociam a retalho. Há porém, em grande número, armazéns de comissão e consignação, recebendo artigos industriais de Joinville e Blumenau, e exportando farinha de mandioca para os estados do Norte, bem como amendoim, couros, café, ovos, melado e banana, em avultados carregamentos, para diversos portos da União e para o Rio da Prata. No transporte da banana para Montevidéu e Buenos Aires, além dos paquetes do Lloyd Brasileiro, que levam ininterruptamente para esses destinos o convés e a tolda apinhados de cachos, embarcados aos milhares, há três vapores de grande arqueação, que fazem durante o inverno três ou quatro viagens mensais. O comércio da capital é o mais movimentado do Estado, quanto à importação; quanto à exportação porém sobrexcedem-no, e muito, o da Laguna, Itajaí, Blumenau, Joinville e São Francisco.

 

Por este lado, em virtude de sua situação na Ilha, Florianópolis está fatalmente condenada a ficar para trás, tanto como em outros ramos da economia social, pois é sabido que só prosperam amplamente as capitais que ocupam o centro de suas regiões. Em futuro próximo a capital terá forçosamente de ser deslocada para qualquer ponto do continente, talvez para o município de São Francisco, talvez para Lages. A mudança para este último local foi, por vezes, debatida nas assembleias provinciais do velho e novo regime, e na imprensa. Mas a excelente ideia não logrou até hoje mais do que ficar em projetos de lei que não têm sido cumpridos, devido em parte ao atraso de muitos e, por outro lado, à má orientação administrativa e a mesquinhas rivalidades. Se em ambos esses regimes tivesse havido já uma política previdente e sensata ao lado de uma administração criteriosa e inteligente, bem auxiliada por todos, certamente que Santa Catarina, mudada a sua capital, encontrar-se-ia atualmente em um pé de progresso invejável, porquanto essa ideia da mudança da capital é coisa antiquíssima e que salta aos olhos de todos como uma necessidade.

 

E tanto assim é, que já em 1748, há mais de século e meio, um de seus governadores, Manoel Escudeiro Ferreira de Sousa, homem inteligente e de grande tino administrativo, examinando as causas porque o Desterro (então vila) não prosperava, quando outros pontos do continente se desenvolviam de modo considerável, posto que de fundação posterior, como a Laguna e outros — concebeu, com admirável previsão do futuro, o plano de mudar a capital para a terra firme, plano que propôs imediatamente ao governo português, mas que teve o desgosto de ver rejeitado, a pretexto, segundo se alegava, de que a vila já possuía casa do governador, igrejas e armazéns reais, quando semelhantes edifícios não passavam de simples casinholas de paredes de pau e barro, conforme se vê do trecho seguinte, extratado à Memória Histórica de Almeida Coelho:

 

"O governador Manoel Escudeiro Ferreira de Sousa, reconhecendo impróprio o lugar em que estava situada a vila, e a inconveniência de continuar aí a sede ou capital da província, tentou mudá-la para sítio mais azado na terra firme, e por isso deixou de prosseguir nas obras que tinham sido determinadas pela provisão de 17 de julho de 1748 e representou à Corte: foi-lhe porém respondido em provisão do Conselho Ultramarino de 1753 que, ouvido o procurador da Coroa e Fazenda, e o ex-governador José da Silva Paes, convinha não fazer-se a mudança projetada, por haver já na vila casa de residência do governador, igrejas e armazéns reais. Esta resposta desgostando sobremaneira ao governador, resfriou o seu zelo e interesse pelo aumento e prosperidade do povo, e conservou-se quase em inação até dar-se-lhe sucessor. Cumpre refletir que o capricho mais que a conveniência pública ditou as informações que deram causa às deliberações da Corte de que temos tratado: basearam-se estas em haver já na vila casa de residência do governador, igreja e armazéns reais; quando é certo que a residência do governador a esse tempo era uma pequena casa, cujo pé direito não excedia a 12 palmos, que servia igualmente de provedoria, e que, como para memória, ainda em 1802 ou 1803 existia contígua à esquina do palácio atual, vindo a ser demolida nesse ano pelo governador Joaquim Xavier Curado: a igreja não passava então de uma palhoça, cujas paredes em 1763 eram de pau-a-pique barreadas, sendo no tempo do governador D. José de Melo Manoel que se principiou a construir a existente: o mesmo acontecia quanto a armazéns reais, que ainda em 1802 existia na praça, imediata à praia uma palhoça que servia de quartel a gente da marinha. Tal era a verdade com que se informava ao soberano sobre os negócios mais importantes do Estado!"

 

E assim, por más informações, indiferença ou ignorância do governo da metrópole, a capital de Santa Catarina deixou de ser transferida, então, e com a maior oportunidade, para um ponto qualquer do continente.

 

As praças ou largos de Florianópolis são em pequeno número, mas apresentam aspecto agradável e pitoresco, por serem em geral planos, com bela arborização ornamental. Três deles, porém, merecem particular menção — o Quinze de Novembro, que está situado no coração da capital, estendendo-se desde o alto da Matriz até ao principal cais de desembarque, onde se achava o edifício do mercado velho, hoje demolido; o da Praia de Fora e o Treze de Maio, todos dando frente para o mar.

 

O primeiro e o do General Osório (também conhecido por Campo do Manejo) são os mais vastos de todos. O Quinze de Novembro, com um jardim ao centro, mas um jardim magnífico e moderno, todo gradeado em redor e onde se erguem uma pequena cascata, um interessante chalet chinês, grandes corbeilles de arbustos, maciços de flores e tufos delicados de grama, abrindo-se em tonalidades de colorido que vão desde o verde-escuro dos pinheiros à doçura do verde outonal — é um lugar aprazibilíssimo e não tem rival em nenhuma das nossas cidades marítimas, a contar da Capital Federal para o sul. Excelente ponto de atração e recreio, é o passeio público das famílias desterrenses, que nele se reúnem aos domingos de tarde, em grupos graciosos e alegres, com crianças em volta, arejando e expandindo-se em curtos mas continuados passeios pelas aleias, ao som de uma ou mais músicas militares, tocando peças escolhidas, nos coretos, entre árvores. E é aí, nessas tardes, que se pode admirar à toda luz certas fisionomias encantadoras de moças, de uma formosura casta e simples, dessas que honram ainda a tradição conhecida em todo o Brasil de que Florianópolis, ou melhor, Santa Catarina, é "a terra das moças bonitas".

 

Tal afirmação é verdadeira, não na generalidade que se lhe dá, mas de modo relativo. No entanto, a moça da capital, como a das outras cidades catarinenses, não passa em regra de um tipo já um pouco modificado nas suas linhas plásticas, porquanto verdadeiras belezas, em nossa opinião, quer na corpulência, quer na harmonia doce e seráfica dos traços fisionômicos, se encontram com maior frequência, e em toda a plenitude de encantos, nas freguesias e arraiais interiores, pelas roças, pelos sítios.

 

E isto se explica naturalmente, pela saúde e liberdade do campo, onde o clima é sempre doce, o ar sempre puro e desenervante, e onde a vida corre despreocupada e feliz, quase sem impressões desagradáveis ou opressões morais, que tanto afetam a existência nos meios populosos, em que há grande concorrência e é mais dolorosa a luta pela vida; e explica-se ainda pela conservação integral do primitivo tipo açoriano que aí ficou vitorioso, tipo que, segundo viajantes e escritores, é dos mais belos da raça portuguesa, pois foi refinado pela plástica admirável de portugueses, holandeses e espanhóis, que colonizaram também essas ilhas.

 

Em apoio desta asserção, consignamos aqui o que diz a tal respeito o médico português Dr. Acúrcio Ramos, à pág. 194 do seu interessante livro o Arquipélago dos Açores, publicado em 1871:

 

"As mulheres geralmente são altas, elegantes e formosas. São variados os tipos, variadas as beldades, mas sempre tipos agradáveis, sempre beldades simpáticas. Aparecem com mais frequência lindos olhos castanhos, ornando alvos rostos levemente rosados, com que singularmente contrastara os cabelos negros e finos; mas também não é rara a formosa mulher de cabelos louros, olhos azuis e colo de alabastro, junto da viva e sedutora morena, cujo olhar fascinador atrai e cativa. Não abundam tanto, mas não escasseiam inteiramente, os rostos pálidos, dessa palidez viçosa e encantadora que as damas geralmente ambicionam, brilhando nelas, debaixo de negras sobrancelhas, uns olhos negros, úmidos, luminosos e inspiradores, e pendendo-lhes aos lados fartas e negras tranças, como aquelas de que um distinto poeta disse estavam prisioneiros os mais apetecidos amores."

 

É este tipo que predomina na capital e demais cidades catarinenses, à exceção, é obvio dos centros de origem alemã a que já nos referimos.

 

No Largo Quinze de Novembro estão situados, além da matriz, o Palácio do Governo, a Secretaria, a Prefeitura de Polícia, a Diretoria da Instrução Pública, a Inspetoria de Higiene, a Repartição das Terras, Colonização e Obras Públicas, o Juízo Federal, a Administração dos Correios, a Caixa Econômica e a Superintendência Municipal, no meio dos melhores edifícios particulares que ornam a capital, porquanto são eles, na sua maior parte, de sobrado e de construção moderna ou recentemente reformada.

 

O Palácio, que era um vasto casarão antigo, de forma ancestral e pesada, com grossas paredes de fortaleza e largas janelas espaçadas, acha-se hoje completamente transformado num interessante edifício de estilo coríntio, modificado pela ornamentação moderna das melhores construções atuais do Rio de Janeiro. Todo de platibandas, tem a culminá-lo aos cantos estátuas simbólicas, isoladas ou em grupos, entre as quais se destacam, na fachada da frente, à direita, a figura de Mercúrio, representando o comércio, à esquerda a de Anfitrite, sintetizando a feição marítima do Estado. Bem ao centro, e em elevação saliente, veem-se as armas do Estado — uma estrela, coroada no alto pelo gorro frígio, com uma grande águia de envergadura aberta a desprender voo, levando nas garras uma chave abraçada a uma âncora e no peito a data em que ali se deu a proclamação da República — 17 de novembro de 1889 — havendo a contornar a estrela um ramo de trigo e um ramo de café, atados em baixo por um laço em cujas pontas esvoaçantes se lê — Estado de Santa Catarina. A estrela representa a circunscrição estadual, uma das vinte da Federação Brasileira; a águia a força moral, intelectual e física do povo; a chave a sentenciosa classificação político-geográfica de Abreu Lima — A Ilha de Santa Catarina é a chave do Brasil meridional; a âncora o gênio marítimo catarinense; o café e o trigo a futura riqueza agrícola do Estado. Colocado ao lado direito do largo, à esquina da Rua Tenente Silveira, o Palácio forma, com a Capitania do Porto, o Palacete do Congresso, a Alfândega, o Quartel do Exército, o Quartel do Corpo de Segurança, o Hospital de Caridade, o Hospital Militar, o Hospital de Marinha, o Novo Mercado, o Palacete da Superintendência Municipal e o Ginásio Catarinense, o grupo dos mais belos edifícios públicos de Florianópolis.

 

O segundo largo é o denominado Lauro Müller, no porto da Praia de Fora, bem na batente do mar, em frente à Rua Esteves Júnior, chamada outrora Formosa. Posto que pequeno, é esse sítio um dos mais pitorescos da cidade, não só pelo bairro onde se acha, como pelo seu elegante jardim, de estreitas ruas areadas e minúsculos canteiros verdejantes. Cercado de um gradil em retângulo, como o do Largo Quinze de Novembro, torna-se, como este, aos domingos e feriados um belo ponto de distração.

 

O outro largo, conhecido por Treze de Maio, ocupa toda a área que vai da Ladeira do Menino Deus à Ponte do Vinagre. Não é ajardinado como os outros mas abre sobre a linha do cais chamado do Menino Deus,de onde se goza magnífica vista de mar.

 

Em templos, Florianópolis não possui nenhum que se notabilize pela sua arquitetura ou dimensões, mas entre os que aí existem mencionaremos como os principais — a Matriz, cuja situação já conhecemos, alta igreja de duas torres, semelhante a do Sacramento na Capital Federal, tendo à porta principal e aos lados um amplo adro, descendo em vasta escadaria de dois lanços sobre a Praça Quinze de Novembro; o de São Francisco de Assis encravado na Rua Marechal Deodoro, esquinando com a da República (antiga Senado), tendo as mesmas proporções mais ou menos do primeiro e encimado de duas torres; o do Rosário, menor um pouco que os dois citados, de uma torre só e cercado de pequeno adro balaustrado, erguendo-se num viso de colina de onde se avista quase toda a cidade e o panorama encantador da baía do sul, desde o Estreito até Naufragados; e as três capelas, simples e pequeninas como capelas de roça — de São Sebastião, dos Passos e do Parto, colocadas, a primeira, no largo do mesmo nome à Praia de Fora, e as outras nos dois extremos da cidade, uma na Ladeira dos Passos e a última ao fim da Rua Altino Correa, próxima à colina da Vista Alegre.

 

O cemitério era e é ainda hoje a única impressão desagradável que recebem os que visitam o Desterro, especialmente quando entram pelo norte, pois o primeiro ponto da cidade a se avistar daí é justamente esse alto de outeiro, em cuja base uma fita de mar se interpõe, separando a Ilha da terra firme. Os antigos, fazendo desse lugar, tão bonito pela sua vista e paisagem, a necrópole da capital, não previam o ar fúnebre e sinistro que lhe iam dar, e, o que é pior, ignoravam os graves perigos a que expunham a cidade, com os miasmas que sobre ela se espalhariam decerto, durante o verão, quadra em que sopram seguidamente os ventos do quadrante do norte, onde está esse local. E é tão ressaltante aí a permanência desse cemitério, abrindo um véu negro de crepe sobre toda a cidade, que o Dr. Gama Rosa, distinto homem de ciência e um dos mais ilustres presidentes que teve Santa Catarina em épocas passadas, tratando da salubridade pública, no Relatório que apresentou à Assembleia Legislativa em 5 de fevereiro de 1884, disse com a mais alta competência de higienista:

 

"Entre as causas de insalubridade figura também o cemitério público, que, segundo se afirma, com os ventos do norte, lança sobre a cidade miasmas e gases deletérios. É possível que assim seja. Sobre o que porém não resta dúvida, é achar-se o cemitério colocado de modo muito inconveniente para o bom aspecto da cidade, produzindo aquela paisagem funerária a mais desfavorável impressão no espírito de todos que aportam à capital. Se não é, portanto, em nome da higiene, é com certeza em nome da estética que conviria remover o aludido cemitério."

 

No entanto, é para lamentar que tal ideia permaneça até hoje sem realização prática, não obstante os esforços do eminente Dr. Gama Rosa e de alguns governadores que ultimamente a tiveram em mira, continuando o mencionado cemitério a empestar e a enfeiar a formosa colina onde o colocaram, há séculos, os nossos antepassados.

 

O movimento industrial de Florianópolis é pouco apreciável e pequeno, comparado ao de Joinville e Blumenau, que são os dois grandes empórios do comércio e indústria catarinenses, como veremos mais tarde. Entretanto, presentemente, esse movimento tem tomado certo impulso, com a fundação de novas oficinas e fábricas.

 

Assim é que já se contam aí uma fundição de pontas de Paris, empregando grande número de operários, pertencente à casa Carl Hoepcke & Cia.; duas fábricas de preparar peixe em lata; três de cerveja, salientando-se entre elas a de Daniel Krapp e a de Antônio Freyesleben, que exportam o seu produto para as circunvizinhanças e localidades do sul do Estado; uma de sabão e velas; oficinas de carpinteiro, marceneiro, tanoeiro, funileiro e torneiro, capazes de fornecer, nesse gênero, obras delicadas e artísticas; uma fábrica de massas alimentícias; duas grandes refinações; um engenho a vapor para pilar arroz e café; engenhos de preparar farinha de mandioca e açúcar (comuns e muito numerosos em todos os sítios do continente e da Ilha); e outros e outros de menor importância, que seria ocioso enumerar.

 

A indústria, porém, mais interessante, curiosa e estética de Florianópolis, e talvez a menos rendosa pela sua estreiteza, é a das flores artificiais, que têm uma grande procura da parte dos estrangeiros e passageiros dos vapores que ali tocam nas suas constantes viagens entre a Capital Federal e os portos do sul da República até ao Rio da Prata. Esses trabalhos delicados são feitos à mão e por moças, constando em geral de pequenas peças de ornamentação para o interior de gabinetes, salas e museus de família. Na sua confecção, são empregadas penas de pato, pele de ovo, palha comum de gigo, escamas de toda a ordem, canutilho, arame e pequenas conchas ou búzios das belas praias de mar grosso da Ilha ou da terra firme, preparados convenientemente pela própria florista, do modo o mais simples e rudimentar possível.

 

Com semelhantes insignificantíssimas coisas, a moça catarinense faz brotar de seus dedos industriosos uma porção de objetos adoráveis, como leitozinhos de noivado, com seu cortinado de penas alvíssimas, terminando por um laço de fita, porta-joias de feitios originais, caixas de costura, vasos, cestas, bauzinhos de segredo, pastas, bolsas, ramos, bouquets de baile e de núpcias, grinaldas, coroas, frutas, brinquedos; objetos, enfim, de mil variados contornos e cores, que são o encanto de quem os vê e os quer adquirir.

 

E é grato observar, quando se passa por qualquer rua do Desterro, às janelas de certas casas, onde se expõem ao sol, fincados em pequenos toros de pita, para secar a tinta com que foram tingidos, a goma com que foram colados ou a pedra-ume diluída em que foram imersos, objetozinhos soltos, que vão formar mais tarde num ensemble gracioso, aqueles formosos bibelots artísticos.

 

Entre essas eméritas floristas são conhecidas lá, e até mesmo em outros pontos da República, como as mais hábeis e perfeitas no seu trabalho, as senhoras Silveiras que com isso fizeram a sua celebridade.

 

A capital catarinense é talvez um pouco triste, para os que estão acostumados nas cidades movimentadas e ruidosas, onde a vida nas ruas, nos cafés, nas brasseries e teatros, constitui, durante o dia e a noite até altas horas, perene diversão pública, saturando a atmosfera em volta de alvoroço e alegria. Com uma pequena população que não passa de 15.000 almas, disseminada em grande parte por arrabaldes longínquos, com casas comerciais, oficinas e fábricas quase todas acumuladas em um ponto determinado e central, ela só apresenta movimento e bulício do alvorecer ao meio-dia, hora em que as ruas do comércio (Altino Correa e João Pinto principalmente) e a Praça Quinze de Novembro na parte do cais, transbordam de povo, em uma afluência contínua, sobrelevada duas vezes por semana pela feira dos alemães e nacionais, acudindo à cidade com seus gêneros e mercadorias, trazidos das colônias e sítios próximos do continente e da Ilha.

 

À tarde o aspecto é mais triste; e à noite, com a falta de iluminação a eletricidade ou a gás (o que é incompreensível, hoje, em um centro que tanto tem progredido ultimamente), reina certa melancolia, particularmente se o rebojo do sul bate a cidade, embocando furioso nas ruas e uivando em rajadas.

 

Comumente as diversões no Desterro não vão além das partidas dançantes em clubes e casas de família, e a ausência de outros quaisquer divertimentos é de tal ordem que semelhantes reuniões se repetem frequentemente duas, três e mais vezes por semana. Mas essas reuniões ou partidas são em geral agradáveis, pela simplicidade, harmonia e trato familiar que invariavelmente as caracterizam. A tal respeito, é de justiça mencionar aqui, dentre as distintas associações desterrenses, o Clube Doze de Agosto, que conta cerca de 30 anos de existência, o Clube Germânia, também de fundação antiga e o Clube Dezesseis de Abril. Estas agremiações compõem-se do que Florianópolis tem de mais seleto e elevado, e dão festas dançantes e sessões de jogos de salão para famílias, que são o que há de mais apreciável e digno.

 

Pena é, no entanto, que não exista atualmente no Desterro um clube de concertos como outrora houve o denominado Quatro de Março, que teve nome em Santa Catarina e para o qual Gothschalk, o célebre pianista americano, escolheu dois pianos de primeira ordem, encomendados a um fabricante de Nova Iorque que era seu admirador e amigo. Esses pianos vieram, e foi ao som de suas notas que, em noites inolvidáveis para os catarinenses, nos salões iluminados do clube, cantaram e gorjearam durante algumas horas, arrebatando o auditório, esses gloriosos rouxinóis do palco lírico que se chamaram Hermínia Borghimamo e Tamberlick.

 

A vida íntima na capital, como em todo o Estado, é simples e sóbria, afetuosa até às ingenuidades dos mais doces carinhos. Quem entra pela primeira vez em uma casa de família (isto da mais modesta à mais rica), seja brasileiro ou estrangeiro, é recebido com tal bondade e franqueza, com tal doçura e simpatia, que, à segunda ou terceira visita — salvo raras exceções — é tratado como um íntimo. A hospedagem ao forasteiro pode dizer-se que é ali primitiva e bíblica. O catarinense, geralmente, pela sua alma expansiva e boa, depois de algumas palavras com um estranho qualquer, faz-se logo seu amigo, e, habitualmente imprevidente e desprevenido, condu-lo para o lar, apresentando-o à família e dando-lhe às vezes cama e mesa, como a um velho amigo. Na roça, então, esses fatos são mais comuns e contínuos.

 

A convivência social no Desterro é, pela sua afabilidade, um desdobramento da vida em família. Num baile, em clubes ou em casas particulares, como no teatro, em representações públicas e outras, há sempre a mesma afetuosidade e lhaneza das assembleias íntimas. Quanto a trajes e ostentações, em poucos lugares do Brasil haverá maior simplicidade e modéstia, sem deixar de existir contudo graciosidade e chiquismo, o que é fácil de compreender em uma terra de moças bonitas.

 

É verdade que uma ou outra família opulenta procura exibir-se em passeios e festas com sedas e joias (o que é natural nos ricos); porém essas, como é intuitivo, são aí raríssimas.

 

Por todas essas qualidades e pelo bem-estar, conforto e facilidade de vida, é a capital catarinense um dos pontos mais habitáveis e preciosos da União, o que a torna, com o belo clima que possui, um verdadeiro Paraíso Terreal do Brasil, como disse Pompeu na sua estimada Geografia.

 

 

 

Os arrabaldes

 

Um dos mais belos arrabaldes de Florianópolis, senão o mais belo, é a Praia de Fora, porque representa para os catarinenses o que é Botafogo para a Capital Federal: o bairro de linha, o bairro chique, o bairro aristocrático. Isto pelo lado de seus habitantes, do luxo e da estética e arte de suas construções; pelo lado da paisagem e quadros naturais, ainda a Praia de Fora se parece de certo modo com Botafogo, ocupando, como ocupa, uma área de terreno, ora plano, ora em pequenas colinas e montes à beira-mar, de um pitoresco admirável, posto não apresente lá a natureza o solene, o gigantesco e grandioso do panorama do Rio de Janeiro e circunvizinhanças. Distingue-se tanto a Praia de Fora dos demais pontos da cidade, que até a vida catarinense dir-se-ia ter aí outro aspecto, outras tintas, outras modalidades, revelando-se o bairro, na capital provinciana, como um todo à parte, mais culto, mais artístico, mais civilizado.

 

Tal impressão, longamente experimentada por nós, fere viva a observação do forasteiro e dos nacionais que transitam ou se demoram em visita a essas plagas. E salta logo à lembrança a comparação com o esplêndido bairro de Botafogo aos que conhecem a Capital Federal. A muitos estrangeiros, em passeio à Praia de Fora, ouvimos inúmeras vezes a referida comparação formulada, sincera e espontaneamente, sob a impressão do momento. E muitos brasileiros distintos, que conheciam o Desterro, eram da mesma opinião, como o Visconde de Beaurepaire Rohan, que em conversação conosco, sempre que se ocupava de Santa Catarina, de que tanto gostava e onde estivera algumas vezes de passagem, indo ou vindo do Sul em comissões administrativas ou militares, exercidas durante o Império, nos perguntava frequentemente: "... Então há muitas construções novas na Praia de Fora, esse Botafogo da sua terra natal?..." Do parecer do falecido general são quase todos os que conhecem esse pequeno arrabalde, distante menos de meia hora da cidade.

 

A paisagem da Praia de Fora é verdadeiramente encantadora, pelo conjunto delicado de planos, altos e encostas arborizados, onde predominam os coqueiros silvestres, as palmeiras, as mangueiras e cedros, no meio de outras árvores frutíferas espalhadas aos milhares e das grossas moitas de arbustos, por entre as quais branquejam os frontões das vivendas e chácaras elegantes e da mais variada arquitetura, desde o chalet de modelo suíço às casas de estilo alemão, acomodadas ao clima tropical, com avarandados à frente ou ao lado.

 

Podemos enumerar dessas construções, cujo padrão moderno é o da maior parte das edificações da Praia de Fora, os palacetes Schutel, Fialho, Vilela, Alves de Brito, Trompowsky e Pamplona, à Rua Esteves Júnior, que começa no alto da Rua Álvaro de Carvalho e termina no Largo Lauro Müller, um dos pontos principais de desembarque na baía do norte, onde o mar faz esplêndida enseada, e que é o ancoradouro dos navios quando sopra o vento sul, ameaçador e terrível pela quadra invernal. Como estes, salientam-se ainda, por seu luxo e valor arquitetônico, à Rua Bocaiuva junto ao litoral — o chalet Cogoy e as casas Vinhas, Hoepecke, Hackradt, Wahl e Paranhos, esta última singular pela sua forma artística, e de um grande ar histórico de castelo renano, sobrexcedendo às outras nos seus altos torreões ameados, com espigões em flecha.

 

Todas essas vivendas ou chácaras têm à frente vastos jardins bem cuidados, aos cantos dos quais se veem vistosos mirantes ou caramanchões de folhagem, lembrando os opulentos palacetes de Botafogo, Laranjeiras e Tijuca na Capital Federal. E algumas das últimas acima citadas, lançando-se em puxados e quintais para a praia, que tem a extensão de dois quilômetros mais ou menos, apresentam belos terraços descobertos ou mirandas de onde se domina todo o panorama das águas, delicioso pela placidez constante das ondas ao abrigo dos vendavais e pelo recorte incomparável da costa, correndo numa alvura de areias, aqui e além interrompida por pequenas rochas, a um e outro lado do canal que separa a Ilha do continente, desde os dois cabos do Estreito ao pórtico amplo e monumental da barra. Esse mansa enseada, limitando ao sul com a ponta Soeiro e ao norte com a de São Luís, toda bordada de pequenas ilhas verdejantes e grupos de rochas nuas, erguendo-se à superfície das vagas, faz evocar no espírito certas abras da Bretanha, cheias de menhires druídicos e de uma poesia lendária.

 

Tais belezas naturais, junto às feituras e construções da Arte, dão uma impressão pinturesca e esplêndida a esse lindo arrabalde, destacando-o, em primazia, entre todos os outros, na capital insular.

 

E se não fora a existência ainda, nessa alva faixa de praia, de uma ou outra casinha antiga com fundos para o mar poder-se-ia dizer, sem exagero, que era essa parte da cidade uma reprodução perfeita, mas em ponto pequeno, da baía de Nápoles. Assim pensam muitos dos catarinenses e outros, que têm viajado à Europa e especialmente à Itália, entre os quais o almirante Proença, a quem ouvimos muitas vezes comparar a Praia de Fora àquela belíssima cidade. Da opinião do ilustre catarinense é o notável médico Dr. Remédios Monteiro, que habitou muito tempo, e em várias épocas, Florianópolis e que conhece perfeitamente a Europa, onde viveu alguns anos. Falando de Santa Catarina, nos dizia ele em uma de suas apreciáveis cartas datadas de 1889: "Se as casas da Praia de Fora, na sua parte litoral, tivessem todas a frente para o mar e não os fundos, maculando assim o padrão moderno das atuais construções do bairro — o panorama dessa praia recordaria bem o formoso golfo de Nápoles, na Itália meridional".

 

A Praia de Fora confina, a um lado, com o agreste mas aprazível arrabalde do Mato Grosso, que assenta sobre duas ou três das principais colinas da cidade, desde o estreito vale ou planície das Olarias, na falda do morro do Antão, até à baixada da chácara Linhares, à Rua Esteves Júnior. Chamamos de agreste a esse bairro, e o fizemos com verdade, porque nele prevalecem menos as construções que a paisagem, que é aí magnificente, particularmente em toda a vasta espalda ocidental do Antão, onde vicejam admiráveis quadros de variadas culturas, a par das altas frondes copadas das florestas e pomares.

 

As ruas mais pitorescas do Mato Grosso são a que parte do Largo Dezessete de Novembro e vai findar ao de Benjamin Constant, a do Dr. Rolla e a de José Veiga que, com a de Bocaiuva, à Praia de Fora, forma as duas ruas mais extensas do Desterro, com um curso de cerca de dois quilômetros cada uma. Nessas ruas estão situadas as melhores chácaras (e não propriamente palacetes, como no primeiro dos bairros citados) do Mato Grosso. São notáveis, entre muitas outras, as casas de construção moderna ou recentemente reformada, dos irmãos Wendhausen, o quartel do Corpo de Segurança, as vivendas Eloy e Livramento, os elegantes chalets. Carneiro e Veiga, verdadeiros e confortáveis cottages de campo europeus, pelos seus encantadores jardins, hortas, pomares e vastas pastagens verdíssimas, onde pascem tranquilamente, ao lado de suas crias, as pequenas vacas "crioulas" ou as grandes vacas de raça.

 

Pela Rua Frei Caneca que sai do largo do mesmo nome e desce para o cais de São Luís, num leve pendor sinuoso cercado de sebes de espinhos, dentre as quais se erguem pequeninas habitações colocadas esparsamente aqui e ali, com as suas cercas de boas-noites à frente dos terreiros floridos de rosas e cravos, os lindos cravos de Santa Catarina — vai-se dar ao boulevard magnífico da Pedra Grande, onde começa a estrada das Carreiras desdobrando-se próxima à costa até quase as planícies de Itacorubi, faixeada à veneziana por seus pequenos e sinuosos rios, cujas voltas numerosas reluzem prateadamente em meio ao mangai. Daí o caminho se bifurca, estendendo-se para a Trindade e Três Pontes, seguindo depois na direção norte da Ilha, por Santo Antônio e Ratones, para a Lagoa, Canavieiras, o Rio Vermelho e o Rapa.

 

A Pedra Grande por sua situação longínqua — a quase uma légua do coração da cidade — tem já o aspecto de uma freguesia com as suas casas rareadas, eretas bem na linha da praia sobre terrenos de marinha, os jardins e quintais avançando para as ondas, ao de cima de pequenas pedras e lajes alagadas, com os interstícios aterrados e murados em roda, que se acumulam pitorescamente nesse ponto do litoral a começar por um enorme monólito redondo, elevando-se doseio d'água como um zimbório maciço, à esquerda de quem vai de São Luís, monólito que dá o nome ao lugar desde tempos primitivos.

 

Asseado, sossegado e florido como uma aldeia da Holanda, este alegre arrabalde, com a sua casaria caiada e de variados feitios, uma ou outra praiazinha de areias alvas abrindo-se num risonho crescente, em meio à multidão escura ou cinzenta dos minúsculos menhires, despertando a ideia de um mapa em relevo da Grécia em representação microscópica, tudo isto ao lado de uma paisagem feita dos mais leves contornos e linhas, descendo para o mar em planos inclinados de prados bizarros e moitas de arbustos rendilhados e de uma cor esmeraldina tonalizada em nuances delicadíssimas — atrai a si, aos domingos, uma grande parte da população desterrense, que percorre o bairro a carro, a cavalo, ou em grupos a pé, numa expansão , de alegria. Depois a extensão da rua principal e sua amplitude conferem uma certa feição de avenida campestre a toda Pedra Grande, tornando-a um verdadeiro paraíso para as excursões e cavalgatas.

 

Devem ser mencionadas aqui, entre os prédios artísticos do local, a "villa" Sohn, propriedade de um rico industrial alemão, e a de Joaquim Manoel, catarinense. A primeira delas é uma edificação com avarandados ou cópias corridos a um lado e outro, à margem de um riacho que desce em cascata ao longo da principal varanda da casa, sob uma ponte de alvenaria por onde passa a estrada arenosa e branca. Cercada de laranjeiras, cafeeiros e bananais, com magníficas culturas ao pé e nas chapadas e baixos, um risonho jardim à frente, essa casa impressiona e agrada como um ninho de ventura humana suspenso entre roseirais. A segunda, de arquitetura platense, alta e com platibandas ornadas de vasos, é um perfeito palacete uruguai, talhado em lances belíssimos e várias seções caprichosas, com escadas cheias de balaústres em troncha e feitas de cimento e de mármore. Com o seu frontão aberto em lavores de colunas e ornatos, três balcões espaçosos e salientes cercando as janelas com os seus frisos de grande arco, que espalham volutas elegantes saindo de remates estéticos de bocas de cariátides — esta casa é a primeira do bairro e a mais bela de Florianópolis. Toda murada no espaço de mais de quinhentos metros de frente, possui um jardim colossal, ostentando pavilhões interessantes sob abóbadas de folhagem e alargando imensa chácara para os fundos, por uma espécie de península artificial rodeada de um longo cais de cimento, onde espuma e bate o mar.

 

Como é bem de ver, diante destes encantos naturais, a vida catarinense desliza venturosa, embora em sua maior parte na estreiteza de recursos comuns aos pequenos Estados, onde, como nesse formoso torrão, tudo está ainda por fazer e por explorar, quer na agricultura, quer na indústria, quer no ramo comercial.

 

E a propósito dos arrabaldes do Desterro vamos finalizar este capítulo com o que diz M. Augusto de Saint-Hilaire às páginas 331-332 do seu já mencionado livro Voyage dans les Provinces de Saint-Paul et Sainte-Catherine, publicado em Paris em 1851:

 

"Nada mais lindo do que os arrabaldes de Santa Catarina ou Desterro. Os morros que, como disse, dominam a cidade do lado de leste são ainda coroados por matas virgens, em meio às quais se mostram massas de rochedos. Por toda a parte o terreno foi arroteado e oferece o aspecto de roças ou culturas. Nos pontos mais vizinhos da capital veem-se formosas casas de campo (chácaras) e mais longe um grande número de sítios dispersos aqui e ali.

 

Enquanto que, nas províncias as mais povoadas do interior, viaja-se sem que nada dê a perceber a presença do homem, aqui se encontra, a cada passo, uma casinha cercada de laranjeiras, perto da qual verdeja uma plantação de mandioca. As terras circunjacentes a cada sítio são rodeadas por cercas de espinheiros, bem como numerosos caminhos que estabelecem comunicação entre os arrabaldes e a cidade, ou entre as diferentes freguesias. Tais cercas não exibem verdadeiramente o verde tenro do espinheiro, mas sua verdura não é sombria, porque elas não se desguarnecem nunca de folhas como as nossas, e embalsamam o ar com o perfume de suas flores e de suas ramagens. Num perímetro de cerca de uma légua em torno da cidade, as estradas são largas e na maior parte arenosas e perfeitamente sólidas.

 

Tudo é animado no campo e sem cessar encontra-se um ou outro roceiro, como nos arredores das nossas cidades da Europa. Os pontos de vista aí são muitíssimo variados: ora se descobrem, através do arvoredo, as baías e os montes longínquos; ora a cidade, ou a capela do Menino Deus, ou as colinas que bordam o litoral. Algumas vezes, uma casa de campo forma uma perspectiva, que em outra parte seria um pitoresco sítio cercado de bananeiras e laranjeiras carregadas de frutos. As culturas apresentam ainda menos simetria que nas outras províncias do Brasil: não se veem duas laranjeiras ou dois pés de mandioca plantados na mesma linha. Mas esta desordem, que atesta a negligência dos lavradores, produz na paisagem efeitos magníficos, e poder-se-ia comparar a Ilha de Santa Catarina a um vasto jardim inglês."

 

 

 

Curiosidades

 

1. Monumento aos mortos do Paraguai

 

Entre os usos e costumes e entre os lugares, templos e monumentos existentes na capital catarinense, ressaltam, pela sua permanência no espírito popular, pela crônica interessante, tradição poética, originalidade ou grandeza de panorama e belezas naturais, bem como pelos fins humanitários e nobres a que se propõem — o monumento comemorativo dos mortos da campanha do Paraguai, a capela e hospital do Menino Deus, o Morro do Antão ou do Pau da Bandeira, a romaria da Trindade, a festa do Espírito Santo e a Procissão de Passos.

 

Ocupando-nos destas curiosidades, a todos os respeitos dignas da mais ampla menção, porque exprimem não somente certos pontos da evolução social catarinense, mas o estado íntimo e psicológico da alma coletiva do povo, suas virtudes e sobrevivências atávicas modificadas embora pelo meio, o tempo e a civilização — procuraremos assinalá-las com inteira justeza e verdade, tanto quanto nos permitirem os documentos e narrações históricas, nas épocas passadas, e o nosso exame e impressões pessoais, nos tempos que nos são contemporâneos.

 

A ideia de erigir-se um monumento público, significativo da gratidão, afeto e veneração do povo catarinense à memória de seus queridos irmãos mortos gloriosamente nos campos do Paraguai em defesa da Pátria, foi inspirada pelo distinto jurisconsulto Dr. João Tomé da Silva, nos últimos meses de sua presidência em Santa Catarina. Esse ilustre administrador, um dos mais notáveis que conheceu a Província, e, sem dúvida, o que mais se empenhou até então pelo engrandecimento material e moral desse torrão precioso, mas constantemente esquecido e humilhado muitas vezes pela política tortuosa e dissolvente do Império, que só olhava para as grandes Províncias que mais concorriam para o orçamento da receita geral; esse ilustre administrador, dizemos, esforçou-se quanto pôde para que seu projeto fosse levado a efeito com a maior brevidade, fazendo com que a Assembleia Provincial votasse uma verba para esse fim e promovendo ao mesmo tempo subscrições públicas, bazares, festas e representações teatrais, cujos resultados se arrecadassem com segurança até preencherem a soma necessária à construção do monumento.

 

Sem perda de tempo, portanto, e com aquele entrain e dedicação que todos lhe conhecemos, e dos quais já tinha resultado a construção dos principais edifícios públicos do Desterro, como a Alfândega, o Teatro, o Quartel de Polícia, a Capitania e outros de menor importância — atirou-se à obra o Dr. João Tomé, mandando levantar pelo engenheiro Schlappal uma planta do monumento, planta que o íntegro profissional confeccionou com alguma originalidade e gosto artístico, mas que infelizmente não foi completamente observada na execução do trabalho, pela exiguidade da quantia para esse fim angariada. Apresentado o desenho, que esteve exposto ao público durante muitos dias e que representava uma coluna (cremos que de ordem toscana), faceada no plinto e com 20 metros de altura, mais ou menos, o presidente ordenou a construção, mandando erguer os primeiros alicerces no centro do Largo do Palácio (atualmente Quinze de Novembro), lugar que fora julgado, depois dos necessários estudos, como o mais conveniente e apropriado.

 

Mal se achava construído o pedestal, foi o Dr. João Tomé chamado à Corte, ficando assim interrompidas as obras, que só tiveram prosseguimento algum tempo depois, na administração Taunay, que, lutando com as maiores dificuldades pecuniárias, e não podendo por isso realizar o primitivo plano, resolveu concluí-las, completando o plinto começado e rematando-o como uma "pilha de bombas de morteiro de 32 centímetros, terminada por uma chama de bomba, que parece explodir no ar."[11]

 

Assim, o monumento, que era para ter 20 metros de altura, ficou reduzido a pouco mais de metade, deixando ver infelizmente, pelo seu aspecto total, o estado de uma construção imperfeita e inacabada. Não obstante, tal qual se acha, honra os esforços e sacrifícios dos que se empenharam para levá-lo a cabo; e se não representa uma obra rica e suntuosa, por sua arquitetura e proporções, despertando a admiração dos forasteiros, significa, entretanto, e com simplicidade, um preito de enternecida saudade e afeto do povo catarinense à memória sagrada de seus mortos queridos, daqueles que com a maior abnegação e heroísmo souberam dar a vida pela glória da Pátria.

 

A altura total do monumento, da base ao ápice, é de 10,88m, tendo as quatro faces do pedestal ornadas a linhas singelas e merlões, em cada uma das quais se vê uma pedra de mármore vermelho, veiado de branco de 2,00m de comprimento por 1,00m de largura[12]. A face de leste contém a seguinte inscrição, gravada a letras douradas:

 

INITIO BELLI

ADVERSUS PARAGUAYENSES EGREGIE DIMICATI
IMPERIUM EX IMPROVISO NEFARIE AGGRESSOS
BRASILIENSIS CONFESTIM SURREXERAT GENS OMNIS
IMPERATOR

EXERCITUSQUE ET CLASSIS NEC NON CIVES
PLURIMI SEORSIM SPONTE SUA

PLACIDIS EX OFFICIIS AD MILITIE CASUS ADACTI
NOBILISSIMI TIRONIS

QUUMQUE PERACTO QUINQUENNIO VIS ILLA
LESAM ULTRA PATRIAM

ADEPTA VICTORIA PACEM STATUISSET
QUANTO SOCIIS EQUITATIV AM IPSIQUI HOSTI
TANTO BRASILIE DECORAM

TUNC MONUMENTUM HOCCE VOTIVUM
DICA VERUNT CATHARINENSES

EXIGUUM QUIDEM CONFESSI EXIGUO PRO ERARIO
JURE TAMEN RATI

VIRTUTE PARTAM PROEMII MODESTIA
HAUD MINUI GLORIAM

 

Na face de oeste, veem-se as seguintes palavras:

 

ESTE MONUMENTO FOI ERIGIDO PELO PATRIOTISMO DOS CATHARINENSES EM COMMEMORAÇÃO DA GLORIOSA CAMPANHA DO PARAGUAY NA QUAL MUITOS FILHOS DESTA PROVINCIA PAGARAM AO BRAZIL O TRIBUTO DA VIDA REINANDO O IMPERADOR D. PEDRO II, FOI COMEÇADO NA PRESIDÊNCIA DO EXM. DOUTOR JOÃO THOMÉ DA SILVA E CONCLUÍDO NA DO EXM. DOUTOR ALFREDO D'ESCRAGNOLLE TAUNAY NO ANNO DE 1876

 

Na face do norte, depois de algumas palavras latinas, estão lançados, em ordem hierárquica, os nomes dos oficiais catarinenses que pereceram no Paraguai:

 

QUI

PRO PATRIA VITA DEFUNCTI JACENT

LACRIMABILES CIVIBUS

 

Marechal de Campo Guilherme Xavier de Souza.

Brigadeiro Jacintho Machado de Bittencourt. Coronel Fernando Machado de Souza.

Coronel Manoel José Machado da Costa Junior.

Major João Antonio Cardoso.

Major Joaquim Cardoso da Costa.

Major Francisco Cardoso da Costa.

Major Joaquim Luiz de Azevedo.

Major Leopoldino Machado de Lemos.

Capitão José Maria Garcez.

Capitão Miguel A. Barbalho Picanço.

Capitão Pedro José Soares.

Capitão João Firmiano dos Santos.

Capitão Francisco Duarte Souza Benevides.

Capitão Eduardo Honorio V. de Aguiar.

Capitão João Caetano Pereira.

Tenente Amaro Antonio Vieira.

Tenente João José Ferreira.

Tenente Delfino José de Gouvêa.

Tenente Ernesto Silveira da Veiga.

Tenente Antonio Ferreira de Noronha.

Tenente Frederico José Wickenhagen.

Tenente Bernardino Vieira Rabello.

Alferes Alfredo Minelvino Noronha.

Alferes Candido Francisco da Costa.

Alferes Domingos Velloso de Oliveira.

 

No lado do sul, continuando a inscrição precedente, acham-se mais os nomes seguintes, após esta comovente sentença:

 

ABENÇOADA PÁTRIA QUE SE NÃO ESQUECE DE SEUS FILHOS!

 

Alferes Damasio L. P. de Mendonça.

Alferes Theophilo Francisco da S. Vieira. Alferes Candido Joaquim da Silva.

Alferes Francisco J. Ferreira de Figueiredo. Alferes Patricio Sepulveda Ewerard.

Alferes Rodolpho Cavalcanti do Livramento. Alferes João Manoel Stuart.

Alferes Jesuino de Sant'Anna Carpes.

Alferes Francisco Luiz de Bittencourt. Alferes João Baptista Becker.

Alferes Francisco Maria de Assis.

Alferes Silvano Alves de Souza.

Alferes José da Silva Bastos.

Alferes Jacintho Corrêa de Mello.

Alferes João Nepomuceno Maia.

Alferes Manoel de Jesus Costa Pereira. Alferes João Antonio da Rosa.

 

MARINHA

1º Tenente Alvaro Augusto de Carvalho.

1º Tenente José Ignacio da Silveira.

1º Tenente Domingos Moreira da Silva.

1º Tenente João José Coutinho.

2º Tenente João da Silva Fernandes Vieira.

2º Tenente José Francisco Alves Serpa.

2º Tenente Feliciano Nunes Ayres.

 

O Dr. Escragnolle Taunay, ao terminar a parte do seu relatório que se refere à inauguração do monumento, exprime-se do seguinte modo, à pág. 53 desse documento:

 

"Ficaram perpetuados, pois, neste singelo e pobre monumento, os nomes de todos os oficiais mortos naquela campanha, em número de 50, o que mostra, pela proporção com os soldados, quão mortífera foi ela, principalmente para esta Província.

 

Assim ficou terminado o monumento, que tem indubitavelmente cunho severo e militar, como convinha ao nobre pensamento que buscara representar..."

 

Perfeitamente. Pena é, entretanto, que as administrações republicanas não tenham podido até hoje completar o monumento, de acordo com o projeto aprovado há tempos no Congresso Estadual e onde se contém a ideia de tornar mais alta a Coluna, colocando-se no cimo a estátua do legendário Coronel Fernando Machado, morto em ltororó a 6 de dezembro de 1868[13].

 

 

 

2. Capela do Menino-Deus

 

A capela do Menino Deus fica no alto de um outeiro de que é padrasto o Morro do Pau da Bandeira, em cuja base de rocha começa a chamada Ladeira dos Passos, onde também, conforme vimos, assentam as primeiras casas da Toca, que, encabritadas em bando sobre as pedras, vão terminar à Boa Vista, junto ao Hospital Militar.

 

Daí, dessa pequena eminência, distante do mar apenas braças, goza-se uma paisagem e marinha apreciáveis: a um lado, as duas curvas do porto, espécie de dois crescentes enormes, unidos a um dos extremos, na altura da Ponta de Santa Bárbara, onde existiu outrora o forte do mesmo nome e existe hoje o edifício da Capitania e suas dependências; a casaria da cidade, estadeando-se dessa linha para terra num amplíssimo relevo de telhados vermelhos, entrecortados aqui e ali de panos brancos de paredes e muros, maciços coloridos de jardins e pomares, na ondulação de suas sete colinas, que vão morrer longe, para o norte, à garganta do Estreito, emoldurando num recorte de verduras, de tons múltiplos e soberbos, as águas da outra baía; as inúmeras embarcações miúdas do tráfego, as grandes de cabotagem e de longo curso, riscando com os triângulos brancos das velas ou com as altas mastreações encruzadas, o espelho das águas em calma ou em novelos bravios de vagas, quando sopra o vento sul. Para a outra banda, em frente, a costa da terra firme: os Coqueiros, com as suas casinhas e ranchos pousados em praias alvas e em cabos pitorescos, à sombra de laranjais ou entre grupos de palmeiras; S. José, uma enseada remansosa ao sul, como um ninho litoral, agasalhador e tranquilo para essas frotas de lanchas que juncam a Praia Comprida; as pequenas ilhas frondentes surgindo túmidas do mar, à maneira de zimbórios de ervagens; e os umbrais da Barra do Sul, abertos e livres aos transeuntes do Atlântico, embora, às vezes, sob o pampeiro inclemente, rondados, fora, pelos vagalhões indomáveis, leões d'água furiosos na sua juba de espuma...

 

Essa capela, um dos monumentos mais antigos do Desterro, foi um dos pontos, depois da Matriz, por onde a cidade começou de edificar-se, porquanto foi em volta dela e como uma radiação do seu todo, que surgiram as primitivas casinhas do Menino Deus, do Areião para cima, e as da Toca à Prainha.

 

Como era natural, nessa época de fervor e beatério místico, refletido ainda que brandamente de Portugal, abismado então na loucura e no delírio fradesco[14], as povoações no Brasil costumavam ser construídas, primeiro, em redor dos templos ou colégios de jesuítas, vivendo os habitantes do que daí lhes vinha, pois a maquia da Companhia em toda a parte era grande e avultadas as esmolas que os beatos tiravam, vagando de sítio em sítio.

 

Eis a razão desse agrupamento denso de casas em torno à capela do Menino Deus, cuja fundação deve-se ao beatério, mas ao beatério puro e nobilíssimo, que, bem diferente do da metrópole, foi bastante edificante para os catarinenses, porque dele resultaram proveitos e benefícios de tal ordem que se concretizaram depois na mais bela instituição de caridade, que ainda hoje possui o Desterro.

 

Narremos rapidamente essa história, cuja contextura luminosa envolve um perfil feminino, alma sinceramente religiosa e feita só de virtudes, que tudo no mundo abandonou por amor ao próximo e às cousas divinas. Referi-mo-nos a essa cândida fisionomia de mulher que faz o encanto das crônicas catarinenses e das emocionais tradições paulistas, passando poeticamente através da nossa admiração íntima, no seu hábito de burel negro, o rosto branco de monja medieva, com a imagem do Menino Deus apertada ao coração, um rosário de camândulas pendendo à roda da cinta e os pés descalços e nus empoados pelos grandes caminhos, que percorreu, incansável, iluminada pelo seu destino. Joana de Gusmão — tal é o nome dessa criatura bendita — fora um desses espíritos delicados, que, vencendo as violências do temperamento, soubera recolher-se a uma vida de pureza absoluta, dedicando-se totalmente à Crença e à Fé, e à missão, nobre entre todas, da misericórdia e piedade pelos infelizes. Nascida em Santos, dessa forte raça paulista que havia dado os bandeirantes e o primeiro povoador de Santa Catarina (Velho Monteiro, o herói obscuro e humilde), descendente de uma das mais ilustres famílias dali — a do cirurgião-mor Francisco Lourenço, que dera a Portugal os célebres irmãos Bartolomeu e Alexandre de Gusmão, aquele o primeiro que descobriu o aeróstato, de cuja ideia se apossaram mais tarde os Montgolfier apresentando-a como sua; e este o maior dos estadistas portugueses do século XVIII, não falando em Pombal; nascida em Santos, essa insigne dama, ao perder seu marido, na cidade de Paranaguá, onde moravam, por um voto sagrado que tinham feito ambos numa igreja em Iguape, resolvera conservar-se em perpétua viuvez, apesar de moça ainda, e, tomando um hábito de burel negro, saiu a fazer "vida santa", peregrinando por terra e a pé para o sul até ao Desterro, onde se fixou com o pensamento de erigir uma capela ao Menino Deus, o que conseguiu, com o auxílio de esmolas, em 1762.[15]

 

O outeiro escolhido para o pequeno templo era propriedade do catarinense André Vieira da Rosa, que ali medindo dez braças quadradas de terra delas fizera doação à D. Joana (16 de março de 1762), a qual imediatamente deu princípio às obras (2 de maio do referido ano), mandando construir ao mesmo tempo, à pequena distância e no seio da mata virgem, uma rude choupana, que passou a habitar em companhia de uma outra beata muito virtuosa, D. Jacinta Clara, que se lhe juntara em uma de suas romagens ao Rio de Janeiro ou à Cisplatina.

 

De volta da última peregrinação ao Rio, sentindo-se adoentada, recolheu-se de vez ao seu ermo, com a mencionada companheira e uma outra senhora que se lhe associara igualmente; e como era inteligente e ilustrada, votou-se completamente ao sacerdócio de ensinar meninas, para o que ampliou a sua casinha, onde, desde então até sua morte, gerações e gerações de moças se educaram e instruíram.

 

Em 1777, quando os espanhóis tomaram Santa Catarina, conta a tradição que D. Pedro Zeballos, general-em-chefe dessas forças, durante o tempo que nela se demorou, ia constantemente, às tardes, apreciar a palestra da ilustre matrona, sob cujo teto se abrigaram a princípio muitas famílias, temerosas do desmando inimigo. Graças a ela, porém, aquele general não consentiu no menor desacato a ninguém até a sua partida para o Prata, data em que a metrópole voltou à posse da Ilha. Afirma-se também que o governador português Veiga Cabral, na sua administração, não "dispensou domingo nem dia santo que não fosse gozar a conversação da virtuosa e sábia mulher, como ele a chamava"[16].

 

Na sua capela e no lar, ora em rezas ferventes diante do altar do Menino Deus a cujo culto particularmente se devotava, ora ensinando as crianças, ora acudindo à pobreza necessitada e aflita, mesmo com os maiores sacrifícios, — os anos lentos corriam, colmando-a das bençãos do povo, que a tratava de "santa", e nevando-a com os jasmins da velhice.

 

"Nessa nobre missão consumiu o resto de seus dias, disse um distinto escritor[17], vindo a morrer aos 92 anos de idade, em 16 de novembro de 1780, sendo pranteada pela população inteira do Desterro, onde se lhe fizeram pomposas exéquias".

 

Morta Joana de Gusmão, a capela passou a D. Jacinta Clara, que lhe sobrevivera, e por falecimento desta foi entregue judicialmente à Irmandade dos Passos, em cumprimento à ordem do Vice-Rei do Estado, de 19 de outubro de 1781.

 

 

 

3. Hospital de Caridade

 

A piedosa obra de Joana de Gusmão — a igrejinha do Menino Deus — contava já seis anos de existência, quando a Irmandade dos Passos resolveu transferir-se para ela, deixando a Matriz onde tinha seu consistório em 1768. A razão desta transferência fora a necessidade de acomodar em capela própria a Imagem do Senhor dos Passos, que dera origem à constituição dessa confraria, ao ser deixada no Desterro, em 1764, pelo capitão do navio de vela que a conduzia para uma das cidades do Rio Grande do Sul, onde ia ser venerada, lugar a que não chegou, entretanto, "por vontade divina", segundo as palavras devotas e simples daquele marujo, que três vezes investiu, com o Senhor, à barra daquela Província, tendo três vezes também o repelido ameaçadoramente as vagas bravas de lá. Sabiamente então, depois de lutar assim contra os temporais, que por pouco lhe não arrebataram o Santo, a própria vida e a de seus camaradas — pois o barco arribara três vezes a Santa Catarina quase a soçobrar — o crente e rude marinheiro resolveu desembarcar ali mesmo a Imagem, voltando logo à Bahia de onde havia primeiro zarpado.

 

Instalada a Irmandade em seu novo local, obtida a provisão do bispado e o consentimento da ilustre Senhora, começaram as obras da pequena capela e sua sacristia que ficaram sendo parte do edifício geral. Prosperando a instituição, com o aumento do número de irmãos que dia a dia se lhe incorporavam, em breve o provedor e mesários, vendo a necessidade de uma Casa de Misericórdia de que já se ressentia a cidade, deliberaram humanitariamente, de acordo com toda a corporação, instituir uma verba em favor dos enfermos indigentes, socorrendo-os com remédios e dietas em suas casas, enquanto se não fundasse o hospital que projetavam, e fornecendo ao mesmo tempo mortalha e sepultura aos que falecessem a cujo enterro compareceria também a Irmandade[18]. Esta nova função da benemérita confraria foi exercida ativa e cuidadosamente com o título de Caridade dos Pobres de 1782 (data da resolução da Mesa) a 1 de janeiro de 1789, ano em que os doentes foram recolhidos ao Hospital de Caridade[19] fundado no mesmo local, e em continuação à igreja e capela citadas, pelo célebre Irmão Joaquim, o São Francisco de Assis catarinense, cujo venerando perfil vamos aqui esboçar.

 

O Irmão Joaquim ou Irmão Livramento (conforme o cognome que adotara quando se dedicara ao culto particular da Senhora do Livramento, à qual o pai tinha levantado um oratório em sua residência porque era uma devoção de família), o Irmão Livramento, dizemos, era, como D. Joana de Gusmão, uma dessas organizações exclusivamente talhadas (talvez por degenerescência fisiológica, como quer Lombroso em seus admiráveis trabalhos)[20] para a prática constante do humanitarismo e das ações cultuais. Concorreram para isso, não só as qualidades hereditárias de raça, como a educação do tempo e seu coração puro e bom, constitucionalmente altruísta, e o exemplo das contínuas lições de caridade e virtude, aprendidas com a "Santa do Menino Deus", em cuja intimidade viveu alguns anos. Depois o fato de ter nascido em sexta-feira de Paixão, e justamente à hora em que defronte à sua casa passava o caixão do Senhor Morto[21], na procissão do Enterro, decerto lhe impressionou o espírito na idade da puerícia, quando lho contou sua mãe, fazendo-o julgar-se, talvez, assinalado por Deus para o cumprimento de algum sublime mandato. Ora, semelhante impressão, unida à tendência poderosa do seu temperamento de místico para as coisas do rito católico, devia dar, como deu, a grande força íntima, feita de abnegação, generosidade, amor, humildade e sacrifícios, que foi a vitória e a santificação de toda a sua vida.

 

Nascido numa atmosfera de igreja, cheirando a incenso e a cera, embalado desde o colo entre litanias, com o sangue preparado para nele frutificar fartamente a semente da Crença e da Fé — o menino entrou a crescer como em um noviciado. E era tal a predestinação que, embora na escola, entre companheiros de vários matizes, inclinados, como em geral as crianças, a toda a sorte de jogos e de correrias, vivia ele, à maneira de um pequenino sacerdote, indo ou vindo da escola para a casa e desta para as igrejas, no maior recolhimento, sem atender às ocorrências da rua, pensando unicamente nos santos e agarrado com os livros. No lar, os seus brinquedos de menino eram os mais característicos: armar pequeninos oratórios, imitar certos atos do culto, entoar sagrados cânticos ou hinos[22]. E tudo isto sozinho, sem companhia, "arrebatado e esquecido do mundo" como disse Oliveira Paiva em seu brilhante escrito.

 

Inteligente e estudioso, de um proceder imaculado, como era natural em uma alma de lírio, nos exames ou lições sobrexcedia sempre a todos os condiscípulos. Por isso, aos doze anos, feitos os estudos necessários para entrar no comércio, carreira a que o pai o destinara, este, para que o rapaz "se iniciasse", colocou-o de caixeiro em sua própria lojinha[23].

 

Daí mesmo, porém, aos dias santos e domingos, o menino corria ao templo a tomar parte nas solenidades festivas, e isto com redobrada dedicação e fervor, pois não podia mais ser frequente como tanto queria. Ao lado desta religiosidade profunda outra coisa crescia em sua alma, e com maior ímpeto: um tal sentimento de fraqueza e caridade que ia até ao extremo de despir a própria roupa para dá-la a um mendigo![24] Por este e outros atos que se foram seguindo, é que se viu o primeiro alvorecer dessa aurora de altruísmo que o ia iluminando, e que o elevaria depois à apoteose imortal de um São Francisco de Assis ou de um São Vicente de Paula.

 

Ante tamanha inclinação para a vida mística o pai, o sargento-mor Tomás Francisco da Costa, alma igualmente religiosa, deu-lhe plena liberdade, aconselhando-o a tomar ordens, que o menino recusou "julgando-se delas indigno e levando a sua humildade ao ponto de servir de sacristão na capela do Menino Deus, ocupando-se diariamente, e desde o alvorecer, em varrê-la e preparar os altares"[25]. De então em diante — teria dezesseis anos — consagrou-se inteiramente à missão da caridade, exercendo-a com tanto ardor e devotamento que, se os queremos comparar, só encontramos iguais na alma sublime daqueles apóstolos do bem, Assis e São Vicente.

 

Assim, nas horas vagas dos misteres divinos, vivia em peregrinações piedosas pelas casas dos pobres, a repartir com eles as moedas dos seus ganhos e as que angariava esmolando, matando-lhes a fome, suavizando-lhes as necessidades, ao mesmo tempo que, se alguns gemiam no leito, acercava-se a consolá-los, fornecendo-lhes remédios e dietas, tratando-os — carinhoso enfermeiro — sem os abandonar um instante, quer de dia, quer em vigílias, à noite. Procurava, com extrema dedicação, amparar as crianças desvalidas — abandonados ou órfãos — guiando-as nos primeiros passos, encaminhando-as para a pureza e o dever, educando-as.

 

Nesta prática de virtudes, concebeu a ideia grandiosa da fundação de uma casa de caridade, o que conseguiu depois de dificuldades sem número e de uma luta incessante, percorrendo, a pé e sozinho, todas as freguesias e cidades do sul do Brasil, quer as da sua Província, quer as do Rio Grande; e isto por trilhas ínvias e desertas, assaltado pelos selvagens e bandidos, que o maltratavam e saqueavam às vezes, apesar de seu velho burel de Franciscano e das insígnias do Sacramento que trazia ao peito um cálix coroado por uma hóstia de ouro, — dando-lhe o ar venerando e triste de um romeiro medievo correndo as aldeias da Europa, a cabacinha d'água amarrada ao cajado, uma sacola na mão.

 

Com o resultado desta primeira peregrinação — que durou de um a dois anos — voltou ao Desterro e fundou o Hospital de Caridade de que nos ocupamos e no qual se instalou, como vimos, a instituição da Caridade dos pobres, criada pela Irmandade dos Passos ficando, entretanto, ele próprio a dirigir o estabelecimento, como principal enfermeiro. "Mas reconhecendo dentro em pouco, diz o arcipreste Oliveira Paiva, a necessidade de um patrimônio para fazer face à despesa do seu hospital, resolveu impetrá-lo da rainha" (Art. cit. — O lrmão Joaquim).

 

Nesse intuito embarcou para Lisboa em 1791, conseguindo de D. Maria I, por decreto de 29 de novembro do mesmo ano, uma pensão de trezentos mil réis anuais; após o que regressou, muito satisfeito, a Santa Catarina, onde permaneceu até 1796, data em que vendo o seu hospício bem dirigido e zelado pela confraria a que o entregara e obedecendo à sua ideia de caridade, ampliada agora pelo sucesso, seguiu para a Bahia, em cuja capital erigiu logo, e por meio de esmolas, um asilo de órfãos que tomou o seu nome, chamando-se Asilo São Joaquim e o qual constitui ainda hoje um dos melhores estabelecimentos de ensino à infância desvalida, naquele Estado.

 

É então que sua glória verdadeiramente começa, dando-lhe legítima celebridade em nossa Pátria e elevando-o a toda a altura desses eminentíssimos vultos do altruísmo religioso que tanto temos citado. Sim, porque dali para vante a vida do Irmão Livramento é em tudo comparável a desses heróis do cristianismo medieval, não só amparando a pobreza e minorando-lhe os males, ao passo que engrandece o culto católico, como educando as crianças desvalidas com a fundação por toda a parte de institutos de ensino sagrado, como o atestam eloquentemente as obras que edificou, após aquelas, nas antigas províncias do Rio e São Paulo, duas dessas obras ainda hoje existentes no último destes Estados, os importantes seminários de Itu e Sant'Anna. É lamentável que o Asilo de Órfãos de Jacuecanga (na baía de Angra dos Reis), onde se educaram tantos meninos desamparados, não fosse igualmente conservado até hoje, achando-se, como se acha, na mais triste ruína, quando entretanto, o velho sacerdote do Bem tanto por ele trabalhara, morrendo pelo seu engrandecimento na viagem (a última que fizera) empreendida a Roma.

 

Nesses lugares, particularmente em Jacuecanga, a sua personalidade, à maneira da de São Francisco de Assis e São Vicente, ilumina-se de um misterioso clarão de heroísmo lendário. E, ao sabê-lo cruzando, dia e noite, outrora, em pequena canoa, com dois tripulantes audazes, as ondas bravas da costeira, pelo Mar dos Afogados, — ora a velejar ao sol, na coleta de esmolas para o seu Asilo, ora levando remédios e socorros aos doentes moribundos, sob o tufão infernal, fachos acesos à proa, ao som de hinos e salmos, acompanhado por uma multidão de fiéis que o olhavam da praia ao verem o frágil casco sacudido pelo mar; — ao sabê-lo cruzando assim essas vagas, a nossa imaginação evoca de repente certos quadros da vida ascética banhados de uma luz fantástica, como o que representa São Francisco de Paula atravessando, à noite, por um motivo divino, um archote em chamas na mão, o hábito revolto à rajada do vento alpino, os bosques densos da Calábria, tão transfigurado e solene, nessa santa romagem, que os salteadores mais terríveis nem ousavam de leve impedir-lhe o caminho, estatelados e mudos à sombra dos pinheirais.

 

De 1796 a 1826 sua atividade de apóstolo do Altruísmo não conhece esmorecimento ou descanso, locomovendo-se incessantemente, de um para outro lado, entre os três grandes estabelecimentos amados, onde passa meses e meses repartidamente, olhando e fiscalizando tudo, provendo a todas as necessidades. Tão largo período de ação ininterrupta, em que não poupava esforços e sacrifícios (depois do que tanto fizera em sua terra natal e na Bahia) devia forçosamente extenuá-lo, o que se deu em princípios de 1826, época em que se lhe agravaram os ataques epilépticos de que sofria desde moço.

 

Apesar da doença não descurava um momento do bem-estar de seus "filhos", conforme o seu modo de tratar aos órfãos que educava; e querendo garantir o asilo de Jacuecanga contra qualquer eventualidade futura, agora que se sentia findar, embarcou para Lisboa, a empenhar-se para deixar essa instituição sob o patrimônio dos Padres da Congregação e Missão de São Vicente de Paula. Ali, porém, nada pôde arranjar; e, conquanto já muitíssimo abatido, tomou passagem para Roma, a entender-se diretamente com o Papa. Lograria decerto o seu fim, se a epilepsia, já chegada ao extremo, não o obrigasse a parar em Marselha, de onde tencionava voltar para a Pátria quando foi vitimado.

 

Morto em 1829, contava 68 anos de idade, pois nascera a 20 de março de 1761. Amado e venerado por todos, sua memória será sempre imortal em todo o Brasil como em seu torrão natal, onde ergue alto o seu nome, em meio à gratidão catarinense, esse monumento imperecível que se chama o Hospital de Caridade.

 

 

 

4. O Morro do Pau da Bandeira

 

O Morro do Pau da Bandeira, mais conhecido outrora por Morro do Antão, teve esse nome em virtude do posto semafórico que foi colocado em seu ponto mais culminante por um antigo governador, para transmitir à cidade, por meio do código de sinais, a comunicação dos navios de todas as procedências que demandassem o porto, quer à barra do sul quer à do norte. Este posto dá aviso das embarcações ainda no alto mar, pois corresponde-se por meio dos galhardetes convencionais das entradas de portos com os dois postos estabelecidos à boca daquelas barras — um na ilha e forte de Santa Cruz, outro na ilha e forte da barra do sul junto à Ponta dos Naufragados. Estas ilhotas são as sentinelas avançadas das duas baías, que o Estreito divide com seus pequenos cabos, estendidos a um e outro lado como dois dedos gigantes de terra que se quisessem tocar, e apenas separados por uma passagem de águas de 317,00m.

 

Ascende-se ao pequeno terrapleno do posto pela Rua da Tronqueira, que sai da do Coronel Fernando Machado (antiga do Vigário) na direção de leste até encontrar a falda do morro, onde começa o caminho empinado, que coleia espalda acima galgando o cume e atravessando, em ziguezague descendente, até sair num dos extremos da estrada da Carvoeira, próximo à freguesia da Trindade. É quase no cimo da encosta que, por um estreito atalho sinuoso, se vai ter a esse pequeno descampado entre árvores, onde numa casinha de pedra e cal habita o guarda ou sinaleiro, dispondo essa habitação de um terreiro cercado de um grosso muro de pedra para a banda da cidade, onde se ergue o alto mastro inteiriço, cruzado de uma verga no alto, em que se fazem os sinais. Este mastro é avistado de todos os pontos do Desterro e dos arraiais e freguesias em roda, como o Saco dos Limões, Pantanal, Trás-do-Morro, Itacorubi, Santo Antônio, e bem assim de todas as povoações litorais do continente, desde os Coqueiros às Caieiras, pela disposição da costa, na baía do norte, e pela situação do próprio monte, que se levanta na Ilha em absoluta solução de continuidade com os outros, devido à extensa planura que o cerca. Isto se verifica, observando-se uma carta náutica ou geográfica da Ilha, como a de que nos servimos neste escrito para assegurar a verdade[26].

 

O "caminho do morro", conforme denominam essa estrada do Pau da Bandeira, é a passagem mais curta entre a capital e a freguesia da Trindade, por isso a mais frequentada por aqueles que têm afazeres e negócios nas duas localidades. Os outros pontos de comunicação são consideravelmente mais longos e importam no contornamento do monte pelo arrabalde da Pedra Grande ou pelo Saco dos Limões, fazendo-se uma volta a pé ou a cavalo de mais de uma hora.

 

A notabilidade do Pau da Bandeira consiste na perspectiva admirável que se goza de seus visos ou culminâncias que ocupam uma área de mais de uma légua, com uma altitude de 450 metros acima do nível do mar, e de onde se domina um panorama geral de doze a quinze léguas em torno. Desse observatório natural, conquanto não seja o ponto mais alto da Ilha, pois o Morro do Ribeirão o sobrexcede (600 metros), se alcança e descobre, à vista nua, todo o bordado caprichoso dos promontórios e praias da velha Yjuriré-mirim dos selvagens. Daí o ponto de atração que é verdadeiramente esse lugar para os habitantes do Desterro, e mais ainda para os estrangeiros aí domiciliados ou de passagem, que excursionam alegremente, aos domingos, em ranchos palreiros de homens, moças e crianças, pelas suas cumeadas.

 

No meio desses grupos felizes, em toilettes campestres a cores claras, com seus guarda-sóis e sombrinhas de seda alva, pondo uma nota estética de luxo e civilização por entre o verde das matas — muitas vezes nos encontramos nós, de binóculo na mão para os recantos longínquos onde a vista não detalha, a olhar delongadamente campinas e montes, rios e trechos de mar, desdobrando-se infindavelmente à retina, num encanto tropical.

 

Mal se deixa a última casa da Tronqueira, o campo da visão se começa de ampliar pouco e pouco, sensacionando-nos com a mais doce impressão d'alma, na ascensão que se acentua igualmente, enchendo-nos o peito da frescura de um oxigênio suave e que não tem as impurezas das ruas baixas da cidade, surgindo então gradualmente nos seus montículos grupados, em que se pintam, reluzindo ao sol, placas brancas de parede, entre um como mar de telhados, feito de imóveis vagalhões cor de almagre, aqui e além recortado por tufos coloridos de flores, maciços tenros de arbustos e altos, densos pomares. E logo a península do Desterro contorna-se toda nas águas, como um gigantesco relevo de lã num campo azul de tala-garça, tecido pela Natureza em acumulações seculares. Aparece em seguida a orla rendada do continente, perdendo-se ao sul e ao norte em uma névoa azulada, alargando-se para o centro em planos e planos de outeiros e cerros altos, desde o morro dos Ganchos (560,00m) ao Cambirela, manchados singularmente de córregos e cachoeiras que brilham à luz como prata. Junto às faldas desses morros, estendem-se as praias alvas, interpostas, cá e lá, entre os cabeços e pontas caindo a pique no mar. E alastrando-se em frente, qual largo velo anilado ondulando brandamente ao sopro dos ventos de calma, as ondas das duas baías, cinturadas pelo Estreito e as barras, que a dividem em dois ovais grandiosos, de um feitio irregular, lembrando com estranheza, assim visados de cima, os vidros de uns óculos imensos talhados no aro das praias.

 

Depois, sobre o terrapleno, todos os pontos distantes da Ilha entram em destaque geral: é para o norte o Moquém, o terceiro morro insular em extensão e altura, separando as campinas do Ratones do vale do Itacorubi onde corre o Amorim, meandroso e curto riacho que nasce dos lados de leste nas montanhas da Lagoa e vem lançar-se no mar quase defronte aos Guarazes; são as colinas da Várzea cortando para o Inglês, o Bom Jesus, a Cachoeira e o Rapa, e dividindo o Campo da Coroa das planícies de Canavieiras que vão morrer sobre a praia, uma das mais vastas e pitorescas da Ilha e de todo o Estado; são os cerros do Rio Vermelho unindo-se aos das Capivaras e contornando a Várzea Grande, onde terminam em colinas, em rechãs e em chapadas, vestidos profusamente de florestas seculares; é o costão dos Ingleses, das Aranhas, da Lagoa intumescidos de cômoros de uma alvura imaculada, partindo da Ponta das Canas até a Ponta do Retiro coroada de rochas altas; é ainda o cimo do Ribeirão, interpondo-se um pouco à vista e ocultando Naufragados, mas deixando ver vagamente, pelo lado de sueste, a Armação da Lagoinha, com um brilho de águas dormentes, o morro verde do Falcão, a Enseada do Pântano, as ilhas dos Três Irmãos, os três Moleques do Sul e a ponta alta dos Frades. Em volta disto, todo um bando magnífico de pequenas ilhas poéticas, esparsas n'água como cestas de ervagens boiantes — umas enfileiradas na costa, outras em torno aos cabos ou pontas, em grupos, isoladas ou aos pares. E quer a oeste, quer a leste, o ondular do oceano, manso e meigo nos dois golfos, mas rugidor e colérico nas amplidões do Atlântico...

 

Por este valor de sítio portentoso abrindo para uma natureza de supremos encantos, o Morro do Pau da Bandeira deve atrair a curiosidade de todos que visitam o Desterro, como acontece com os que ali nascem e vivem que não se cansam jamais de o admirar e percorrer, de vez em quando, em pequenas excursões. E a isso convidam instantemente a facilidade e a rapidez da ascensão, que se faz suavemente a pé numa hora mais ou menos, apesar do caminho não ser quase cuidado nem passar sempre, em todo o seu curso, pelos melhores locais.

 

Data de tempos coloniais, pode dizer-se, a celebridade desse monte como o melhor ponto de vista para se observar e gozar o panorama da Ilha — tanto que muitos dos viajantes que em outras épocas passaram por Santa Catarina, dele fizeram menção em seus livros, como os ilustres publicistas alemães Chamisso e Gerstacker, os franceses Leonce Aubé, Van-Lede, Saint-Hilaire, e modernamente, além de muitos outros igualmente estrangeiros, o explorador português Lopes Mendes que em seus escritos publicou vários croquis do Estado, o insigne paisagista Schuartzer, o antropólogo português Coutinho, que andou pelo Brasil estudando os sambaquis ou kjökkenmöddings[27], e diversos outros viajantes.

 

E o tenente-coronel de engenheiros Paulo de Brito a quem já nos referimos, e que ocupou o cargo de ajudante de ordens do governo dessa então Capitania, desde 1797 até 1810, refere-se assim ao Morro do Pau da Bandeira, às págs. 39-40 da sua já mencionada Memória Política:

 

"... A vila é dominada pela parte de leste do Morro do Antão: do alto do qual se goza uma variedade de golpes de vista sublimes e encantadores; a baía que separa a Ilha da terra firme, e que o Estreito divide em duas partes; o número de pequenas ilhas dispersas por ambas elas; a variedade de pequenas enseadas, a multiplicidade de praias e pontas salientes do seu contorno, a diversidade de cores verdes com que na estação própria se reveste o terreno cultivado à beira-mar em razão das plantações de diferentes qualidades, os montes e vales, cultivados uns e cobertos de viçosas muitos outros; esta variedade de objetos que se sucedem uns aos outros, torna aqueles sítios sobremaneira aprazíveis aos olhos, e oferece assunto para sérias meditações ao espírito do observador filósofo!" E prosseguindo acrescenta: "Se à Ilha de Santa Catarina se tivesse dado a atenção política que merece, e se tivessem aproveitado devidamente as vantagens que ela oferece, combinando o útil com o agradável, sem dúvida seria ela hoje o Paraíso do Brasil; e também o viria a ser, se por desgraça nossa tão vantajosa situação se cedesse ao governo inglês, como ele o pretendeu, se é verdade o que constou a este respeito; se assim foi que mais é necessário para provar a sua importância, e o cuidado que com ela deve haver!"

 

Nesse tempo, como afirma o escritor, ainda a metrópole continuava a tratar com desleixo e indiferença, como desde a nossa descoberta, aquela parte preciosa do solo brasileiro. E quem o declara é um funcionário e patriota português!

 

Isso não nos surpreende, contudo, atendendo ao que já disse com o mais alto saber Oliveira Martins na História de Portugal e no Brasil e as Colônias Portuguesas, referindo-se aos desacertos de toda a ordem praticados pelo governo da metrópole na administração de suas possessões e especialmente na do nosso país, desde o seu descobrimento até a Independência. O que, porém, nos admira é que esse desleixo e indiferença continuassem depois, no primeiro e segundo reinados de nossa vida social autônoma, ao ponto de Santa Catarina jazer quase esquecida e abandonada pelo governo geral até a proclamação da República, em que novos horizontes se lhe abriram dando-lhe o desenvolvimento em que se acha atualmente.

 

Paulo de Brito dá a entender também, no último trecho transcrito, que já naquele tempo se falava em "ceder" Santa Catarina aos ingleses. Em nossa infância semelhante boato corria ainda na Província, assustando povo ingênuo, sobretudo quando ocorria uma dessas "pendências diplomáticas" tão frequentes sempre entre nós e aquela nação, como ainda há pouco se viu com a célebre questão da Trindade.

 

O que diz Paulo de Brito é absolutamente verdadeiro, pois assim o afirmava Oliveira Martins, à página 99 do último daqueles livros citados: "Em 1815, em Viena, a Inglaterra não satisfeita ainda, reclamava para si, além da Madeira, a Ilha de Santa Catarina no Brasil..."

 

Fechando o parêntese a que nos obrigaram os mencionados trechos, volvamos ainda, e para terminar, ao Morro do Pau da Bandeira.

 

Admirado por todos como lugar de recreio, ele o não é menos como utilidade para o Desterro e seus habitantes, pois que jorram de seus flancos inúmeras e cristalinas nascentes, abastecendo de água potável uma grande parte da cidade, onde não existe ainda sistema algum de canalização, possuindo entretanto um solo apropriado, com altos magníficos para vastos reservatórios e bem assim mananciais inesgotáveis nos próximos montes do continente.

 

 

5. Romaria da Trindade

 

A romaria da Trindade, festa que não esmorece nunca no espírito dos habitantes do Desterro, lembra em seu aspecto de conjunto a romaria da Penha na Capital Federal.

 

Todos os anos, quinze dias antes da festividade, já a capital catarinense começa de se movimentar, e as lojas de fazendas e os armarinhos, como os armazéns de molhados, recebem então uma afluência de fregueses matutos que vêm de toda a parte em redor e que, de par com o povo da cidade, dão uma animação viva e fora do comum às ruas e praças comerciais. É uma verdadeira influência, que se faz sentir até no recesso dos lares, onde o trabalho dos preparativos para a romagem traz as donas de casa e as filhas em alegre atividade compartilhada vivamente pelas crianças e criados, antegostando desde logo os prazeres daquele dia de expansão folguedo geral.

 

Pelos negócios, repartições públicas e mesmo no trânsito das ruas não se ouve falar em outra coisa durante a quinzena festiva. Chefes de família, rapazes solteiros, burocratas ou empregados no comércio, através de suas ocupações e deveres, combinam prazenteiramente entre si os meios e modos mais suaves e cômodos de realizar a excursão, fixando hora e dia da partida, ponto de reunião para a ida e para a volta, bem como a maneira de efetuarem a marcha, se em grupos a pé ou em carroças e carros, se em grandes cavalgatas.

 

Já a esse tempo, nas cocheiras que alugam animais e veículos, boleeiros, moços de cavalariça e demais pessoal se ocupam, com desusada faina, em reparar e envernizar velhas traquitanas abandonadas, consertar arreios e petrechos que não tinham mais serventia, cosicar correias, selas e cabeçadas, estufar e recobrir almofadas já rotas, repregar lanças e molas, endireitar cúpulas e guarda-lamas, limpar e polir metais... Pelo Corpo de Segurança, cuja cavalhada estropiada e magra tem uma grande procura nessa ocasião, os guardas que não estão de serviço na véspera e no dia da festa — preparam também para alugar os cavalos que possuem, já de antemão encomendados pelos romeiros, mas que estes, enganados na preterição da afluência, são obrigados a disputar, muitas vezes à última hora, por preços extraordinários.

 

Capitalistas, negociantes abastados e outros, que vivem às suas chácaras com a família, retirados há muito da vida ativa, seguidos da criadagem percorrem, solícitos, suas pequenas cavalariças situadas ao fundo dos parques, a escolher, entre as velhas caleches atiradas ao canto as que estão ainda em condições de servir para a romaria adorada. Toda a população desterrense, enfim, gente do povo, burgueses e classe alta, agita-se continuamente nessas duas semanas para ir assistir, conforme pode, à festança da Trindade. No dia aprazado, então, essa agitação chega ao auge. E é certamente encantador acompanhar o movimento desse alegre povo do Sul, tão caracteristicamente latino no seu gênio folgazão e ruidoso, no espírito de amar a boa luz de ouro do sol e as doçuras sem iguais da Natureza, na íntima psicologia invejável de trocar os seus sorrisos, os seus olhares e amores, na comunhão do mesmo sentimento, e gozar venturosamente, ao menos uma vez no ano, as delícias de uma folgança geral ao ar livre.

 

A festa que se realiza na freguesia de Trás do Morro, a uma légua da capital, no dia da Santíssima Trindade, começa, pode dizer-se, na véspera à tarde, em que os pretos e pretas, moços ou velhos, com grandes tabuleiros rasos ou altas caixas de vidros, atopetados de frutas e doces, despegam a um e um de vários pontos da cidade e, reunindo-se em pandos como formigas carregadoras, juncam os caminhos na direção daquela freguesia, pelo Pau da Bandeira, pelo Saco dos Limões e pela Pedra Grande. Estes primeiros grupos são seguidos por outros, compostos na maior parte de indivíduos negociantes nas antigas casinhas de pasto do Mercado Velho, que vão armar suas barracas de comida no largo da Trindade, bem em frente à igrejinha. E até a meia-noite rodam carroças e passam cargueiros, abarrotados de gêneros e bebidas que uma multidão de muitas mil almas vai devorar, no outro dia, numa alegria aldeã, a sorrir e a palrar expansivamente, à sombra do pano branco das tendas, ou em pleno sol resplandecente, em meio à praça apinhada.

 

Ao fulgir da estrela d'alva são as primeiras cavalgatas romeiras que desfilam em trotes e galopes curtos pelas ruas da cidade, e em largadas e disparadas frementes nos arrabaldes longínquos. À frente de certas casas, então, para o Mato Grosso, a Praia de Fora e as Olarias, veem-se ir chegando aos portões muitas carroças enfeitadas, com o estrado forrado de esteiras de junco e o alto dos fueiros coberto de largas colchas de chita, correndo na forma horizontal de toldos ou como o sobrecéu abobadado das velhas camas de casal. E as famílias mais modestas embarcam, sob a vaga claridade da manhã, numa algazarra adorável de crianças e moças, algazarra secundada festivalmente pelo cantar das ramagens, em volta, enxameadas de passarinhos.

 

Esta partida de cavaleiros e carroças entra a coalhar as estradas, fazendo a volta de São Luís ou do Zé Mendes[28] segundo o ponto de onde sai cada grupo ou família. Cresce então, e se acentua, com os rosados da luz no firmamento azulado, a alacridade do dia que vai tocar à efervescência suprema na praça cheia da Trindade, quando a festa começa num repique vivo de sino que vibra alegre no ar.

 

A esse tempo, nas casas comerciais, abertas até às 10 horas, aperta-se ainda em borborinho a freguesia retardatária, que deixa tudo para o último momento. E é aí unicamente o lugar onde a cidade parece viver, nessa manhã, porque as demais ruas e sítios ficam desde cedo vazios, as casas cerradas e desertas, num abandono melancólico e numa longa paz.

 

No meio desse pequeno movimento, que se limita a bem dizer às ruas Altino Correa e João Pinto, não cessam de cruzar, a cavalo, os romeiros escoteiros que vão deixando o trabalho.

 

Fechado o comércio, principia o desfilar dos caixeiros e outros empregados nos seus animais de aluguel, alguns, por um requinte de chique campeiro, envergando vistosos "palas" rio-grandenses de listas e altas botas de montar; outros, e na maior parte, nos seus trajes de domingo.

 

Já pelos bairros opulentos, dos chalets e vivendas de luxo, soltam-se os carros novos ou recentemente arranjados carregados de famílias. São moças vestidas de claro, morenas ou louras, de largos chapéus elegantes, que ostentam nas mãos enluvadas as umbelas coloridas, cujos discos de seda ou de renda avultam graciosamente no ar, acima da cúpula arriada dos carros, como grandes flores estranhas; são matronas esbeltas e gordas, ainda bem conservadas, com amplas frontes respeitáveis e os cabelos alvejados dos anos; são velhos fortes e rubros, de suíças ou cara toda rapada, como sacerdotes do lar, preocupados com o bem-estar da esposa e dos filhos, num cuidado paternal e constante; são, enfim, os meninos mais taludos, de colarinho branco de volta e meias até aos joelhos, colocados à boleia ou entre as amas alemãs ou mestiças, que levam os bebês de colo e as crianças de poucos anos...

 

Ao lado desses veículos bem postos, famílias humildes e pobres caminhando a pé, acompanhadas de rapazes e homens, todos em suas vestes de festa, rindo alegres em seu bando. De trecho em trecho, cá e lá, grupos de cavaleiros, sobressaindo a todos com seus bustos destacantes, a sacudirem-se, nas galopadas e trotes, sobre os selins ringidores. E pelas estradas em torno, na direção da Trindade, filas infindas de povo, coleando nas planícies e morros, sob o resplendor do sol, formando no alto ricamente como um velório dourado.

 

O largo da freguesia, onde muitos roceiros das Três Pontes, de ltacorubi do Pantanal, do Saco dos Limões e do Córrego Grande passaram a noite em roda das fogueiras de toros, que ficam a iluminar a igrejinha e o cruzeiro com as suas chamas de ouro depois do "terço" da véspera; o largo da freguesia, ao alvorecer, aparece completamente mudado, na sua ornamentação campestre e florida, onde sobressai uma larga avenida de içaras delgadas e de belos penachos verdes, unidas umas às outras por longas cordas de folhas de crótons — a grande cruz negra do adro, abrindo piedosamente para o céu da manhã festiva os seus braços cheios de flores; as girândolas de foguetes e os três paus de bombas desenhando-se tristemente no ar à maneira de forcas estranhas ou de antigos instrumentos de suplício, que rebentarão mais tarde, na apoteose final da festa, em estrondos de alegria; a casinha acapelada do Império dentro da qual se hão de leiloar depois as "promessas" sagradas de massas e ceras, vazadas em formas simbólicas de pernas; mãos, braços e corações; e, finalmente, o renque curvo das barracas de pano, onde alguns bebedores matinais abancam já, à primeira algazarra do dia.

 

E dessa hora em diante a afluência se manifesta aí em jorros seguidos de gente a cavalo, em carros ou nas carroças toldadas de chita, que vão se acumulando aos extremos da praça, debaixo da ramagem das laranjeiras ou dos cafezais em volta, mesmo à embocadura da principal estrada que vai ter à cidade, sítio onde o largo se desafoga deitando caminhos para vários lugares, tanto como para o extremo contrário, onde se bifurcam as trilhas de Pau da Bandeira, da Carvoeira e do Pantanal. Pelas 11 horas já a praça está cheia, mas de toda a parte o povo aflui ainda, em preamares contínuas. E o seu aspecto, então, no estrépito imenso dos corpos que serpenteiam aqui e além em cordões, em meio da massa espessa do resto da multidão, pasmada religiosamente para o cruzeiro e o templo, sob o sol a que impressões ocasionais emprestam um raro esplendor, nesse dia; o seu aspecto, então, dir-se-ia o de uma dessas priscas e extraordinárias reuniões, que, por um motivo divino, se faziam outrora, na antiguidade remota, e por um apelo profético, numa planície da Bíblia...

 

Ao começar a festa o largo inteiro regurgita e o trânsito entre o povo torna-se de mais em mais difícil, agravando-se vivamente quando é mister abrir alas para dar passagem à Bandeira, aos foliões e ao préstito do Divino.

 

A cerimônia, na igreja, consta de uma missa cantada pelo vigário da freguesia, com assistência do Imperador e seu séquito, que presenciam o ato junto ao altar-mor, sentados em altas cadeiras de estofo carmesim, acompanhados por uma parte da multidão — em geral habitantes do lugar — que atopeta a igreja desde o amanhecer, para poder assistir ao ofício sagrado.

 

Enquanto isto se passa, o grosso dos romeiros, cá fora, à luz viva do Azul, ora entretém-se em comezainas e libações contínuas dentro das barracas apinhadas, ora a passear alegremente, em grandes grupos risonhos de um para outro lado, entre a gente roceira que estaciona defronte à igreja, num murmúrio surdo de rezas, ou que se empoita comodamente, fatigada do calor e da viagem, à sombra de árvores frondentes.

 

Às duas horas mais ou menos, terminada a festa ao espoucar dos foguetes e bombas, os devotos que estão na igreja se escoam todos para a rua, no couce do cortejo divino formado pela irmandade do Espírito Santo, que traja opa escarlate de seda ou paninho, e à frente da qual marcha o Imperador, um menino de quinze anos, de meias até os joelhos e calções brancos de cetim, com a casaca verde-escura atravessada por uma faixa vermelha, o cetro e demais insígnias, seguido pelo Pagem-Espadim, bem como por um ancião respeitável que traz segura nas mãos uma salva reluzente, contendo a coroa de prata.

 

A multidão matuta abre filas imediatamente, aos empuxões terríveis, tendo diante de si as matronas e mocinhas, que em ditinhos discretos arregalam olhos de admiração para "o menino coroado" e seus guardas, e para o Alferes-da-bandeira, passando teso e garboso, sob a pomba gloriosa, que alça o seu voo de alvura no alto do monte de fitas, tremendo à aragem do norte sobre o pavilhão cor de vinho. E todos seguem o cortejo até à casa do Império, onde o Imperador toma o trono cercado da comitiva, e onde irrompe desde logo o leilão de massas e frutas, a grandes berros roucos.

 

O povo da cidade, quase indiferente a isso, delicia-se a gozar a paisagem e o tumulto do largo apinhado, onde há um colorido tão variado de vestes que faz lembrar vagamente uma festa ou uma feira em Marrocos, dessas de que nos fala De Amicis.

 

Às quatro horas mais ou menos, sob o dourado frio do sol desfalecendo em seu brilho, é o espetáculo pitoresco da volta à capital pelo caminho da Pedra Grande, por onde recolhem os romeiros, formando em sua maior parte um imenso préstito desengonçado, que é um misto de caras tostadas, empoadas e abatidas, do meio das quais ressaltam, aqui e ali, rostos túmidos e vermelhos de populares ébrios, dançando e gritando, a cavalo ou a pé, numa alegria grotesca, entre os grupos do caminho.

 

Os que não tomaram parte na festa, e que se reuniram nesse bairro pelas casas amigas, para assistir à desfilada, gozam alegremente, debruçados das janelas e cercas, e nos caramanchões dos jardins, essas cenas curiosas que faz sempre a multidão, numa inconsciência e simpleza, ao voltar das romarias.

 

E ao passo que isto se dá, no largo da freguesia, já quase deserto e vazio, a Bandeira do Divino, com o seu cortejo luzido e os últimos devotos fiéis, deixa a casinha do Império e vai entusiasticamente saudar o novo Imperador, por entre a cantiga dos foliões e o rufar incansável e álacre do velho tambor festivo...

 

 

 

6. Festa do Espírito Santo

 

A festa do Espírito Santo é comum em quase todas as freguesias da Ilha e do continente, onde tivemos ocasião de observá-la durante alguns anos. Em todas elas segue-se o cerimonial da do Desterro, que é, por sua vez, guardadas as devidas proporções, igual às que se celebravam, em outros tempos, no Rio Bonito e demais lugares, na então província do Rio de Janeiro, e de que nos fala Melo Morais Filho em seu livro Festas e tradições populares do Brasil.

 

Transportada para Santa Catarina pelos colonos açorianos, essa festa tradicional não perdeu aí nenhum de seus traços característicos e ilhéus, pois que foi mais ou menos conservada até hoje com as práticas religiosas e muitos dos usos e costumes do simples e alegre povo do arquipélago português, onde ela é ainda executada, todos os anos, com o maior entusiasmo e fervor.

 

Tratando dessa solenidade, Melo Morais Filho não nos explica na obra citada a sua verdadeira origem, limitando-se a tal respeito a assinalar o aparecimento dela pela primeira vez em Portugal, neste pequeno trecho: "Referem antigos cronistas que as festas do Divino foram instituídas em Portugal pela rainha Santa Isabel, e escritores do século XVI as descrevem, bem como Heitor Mendes Pinto na sua Imagem da Vida Cristã.”

 

É mais ou menos, o que também nos expõe esta nota do livro de Acúrcio Ramos — Notícia do Arquipélago dos Açores, na passagem em que o autor estuda a adaptação da festa do Espírito Santo entre os cerimoniais religiosos do seu país: "Esta solenidade foi estabelecida em Portugal pela rainha Santa Isabel, mulher de D. Dinis, na vila de Alemquer, e dali passou para os paços de Cintra, até que se alargou a todas as povoações, como se pode ver nas crônicas de Frei Manoel da Esperança e D. Fernando Correa de Lacerda, bispo do Porto. (Nota 3a. do Sr. Theófilo Braga ao Cancioneiro Açoriano do Sr. Dr. João Teixeira Soares)”.

 

Sabemos, entretanto, por essa mesma Notícia, que o Sr. José Torres nos artigos que publicou sob o título Fastos Açorianos (Panorama, tomo 13o.), ocupando-se da festa do Divino, define-lhe cabalmente as origens históricas nas linhas que trasladamos para aqui:

 

"Fomes apertadas nos estados alemães determinaram um dos imperadores da dinastia, Otton, a lançar os fundamentos desta instituição, como banco formado de esmolas para acudir a pobres nos anos de penúria. Da divindade que invocavam, do imperante que tomara a iniciativa nasceram os festejos religiosos, que a confraria imperial votava ao culto do Espírito Santo nesta quadra do ano, devoção e costume que de lá se propagou pelos Estados da Europa cristã, cujos reis marcharam à frente da obra a seu modo civilizadora e humanitária, até que o povo lhes foi usurpar o privilégio e se apoderou da instituição pia..."

 

O escritor português, usando do vocábulo usurpar, parece indignar-se com o ter a instituição caído nas mãos do povo, e tanto que diz precedentemente: "Ninguém como o povo é depositário de melhores coisas, assim como ninguém mais propenso a viciar ou desvirtuar muitas, que em seus primórdios eram excelentes. Não há instituto que não tenda a ser corrompido pelo abuso. Assim foram as irmandades ditas do Espírito Santo, e os festejos públicos que promovem, logo que passaram ao domínio popular”.

 

Não achamos razão para semelhante juízo, que além de preconceituoso é injusto, porquanto é verdade indiscutível que só tem duração e valor aquilo que o povo consagra e ama, sejam instituições religiosas, sejam instituições seculares ou de outra qualquer ordem. E é devido a esta lei sociológica que a festa do Espírito Santo, como as demais festas tradicionais, ainda hoje tem lugar entre muitas nações europeias, e especialmente entre o povo português e o nosso. Se há, algumas vezes, intuitos pouco sérios nas instituições religiosas, como irmandades e outras, há-os também, em maior número, e por via de regra, alevantados e nobres. Depois, bastava a festa do Divino ter o caráter, que tem, de uma kermesse pública, onde o povo se vai expandir e alegrar, uma vez por ano, para ser da maior utilidade e merecer simpatias gerais. Isto sem falar na primitiva feição pia e altruísta, que ainda mantém a festividade nas freguesias rurais do continente português e suas ilhas, como afirma Acúrcio Ramos às páginas 199-200 do seu mencionado livro: "Na dominga do Espírito Santo, nas freguesias rurais e na da Trindade nas cidades, os impérios estão vistosamente adornados e distribuem-se de manhã, depois da cerimônia religiosa da coroação do imperador e da bênção do pão, abundantes esmolas aos pobres da localidade..." A mesma coisa se faz nas freguesias catarinenses, como por exemplo em Canavieiras, onde desde seus princípios é de uso o Imperador mandar carnear na véspera da festa uma ou mais reses, cujos talhos são distribuídos, de envolta com esmolas em dinheiro, pelos pobres do lugar. Apenas nas cidades é que a instituição de Otton o Grande e Santa Isabel perdeu esse caráter para se tornar exclusivamente num divertimento público.

 

Tal se dá no Desterro, onde o principal da festa é a grande barraca que a irmandade do Espírito Santo manda erigir, todos os anos, em um recanto do vasto adro da matriz, junto à capela das Dores, que faz parte do edifício geral da igreja.

 

Essa barraca é destinada ao leilão das "promessas" ou ofertas que recebe o Divino durante os três dias seguidos de festividade. Armada sobre altas colunas de madeira, pintada e coberta com um amplo velário de lona, divide-se ela em dois grandes compartimentos de chão, em que se erguem amplas arquibancadas, separadas ao centro por um largo corredor de entrada que finda à porta principal do Império, com passagens a um e outro lado, ao pé do gradil da frente, de um metro de altura e todo de sarrafos cruzados. Paralelo a esse corredor há dois outros, mais estreitos e assoalhados, repartidos por uma grade e destinados ao trânsito privativo dos leiloeiros, quando estes em função. Enfeitada com bandeiras, e toda ornada de giornos para a iluminação da noite, apresenta, a proporções enormes, o aspecto risonho dos coretos que se fazem em toda a parte por ocasião de festas públicas.

 

Chegado o domingo do Espírito Santo, que dias antes trouxera a população em movimento anormal pelo comércio e os lares, a festa começa pela cerimônia da coroação e a bênção dos pães, que são reservados para se darem, como retribuição, aos que trazem oferendas. Em seguida, o "menino coroado" passa ao Império, onde, de cetro na mão para o beijo dos "fiéis", toma assento no seu trono, colocado ao pé do altar recoberto de veludo vermelho e cheio de flores, sobre o qual se vê o símbolo sagrado do cálix de ouro, encimado pela hóstia e a Pomba Divina, ao lado da grande coroa de prata repousando em uma salva.

 

Aí se conserva o Imperador até à tarde, hora em que, acompanhado por numerosa comitiva, tendo à frente a bandeira do Divino, e puxado por uma banda de música, se recolhe à casa para o banquete festivo, voltando pelas ave-marias, quando a imensa barraca de lona principia a rutilar toda acesa, enchendo-se a pouco e pouco de famílias que chegam de toda a parte. Já no vasto adro iluminado entra a apinhar-se igualmente uma multidão de homens e rapazes, de envolta com o poviléu. E pelas sete horas da noite uma parte da cidade regurgita alegremente ali, desde o âmbito estreito do Império, pela barraca e o átrio, até aos recantos da praça Quinze de Novembro.

 

Sob o vasto toldo de lona, ondulando à aragem de inverno, vêm-se então, a uma e outra banda, graciosamente alinhados nas bancadas debaixo da luz dos giornos, os perfis morenos e belos das moças catarinenses envoltas em grossos casacos de frio ou em xales claros de baile, contornando-lhes a cabeça à maneira de mantilhas, o que lembra uma festa campestre num subúrbio de Sevilha.

 

Os rapazes, em suas vestes de domingo, as algibeiras recheadas pelo acúmulo de meses de economia para os piques e repiques dos lanços, cocam risonhamente as raparigas amadas, repletando o amplo corredor principal, a esfervilharem zumbidoramente de encontro às grades em rodas, que estalam e rangem continuamente, ao embate da cheia humana nos finos sarrafos de pinho. Muitos grupos, de entre eles, entretêm-se no ensaio dos primeiros psius! e trotes aos retardatários que chegam, a alguns matutos ou desconhecidos, que, ignorantes das praxes em voga, tentam atravessar entre a bancada das damas ou aboletar-se aí em algum lugarzinho vazio. E à medida que a multidão se condensa, como um imenso montão de formigas, a algazarra aumenta, em gritos, vaias e taque-taques de bengala contra as grades e colunas, a clamar pelo leilão que demora, como nos teatros quando o pano se retarda em subir. De vez em quando, então, vozes propositalmente esganiçadas e agudas, flamejando um alegre debique, vibram muito alto no ar, chamando os velhos leiloeiros conhecidos:

 

— Ó Feçanha! ó Sanches! Venham de lá com isso!...

 

E o chamamento repete-se, amiúda-se e sibila, até que à porta larga do Império iluminada vivamente pelas velas numerosas do altar lá no fundo, duas opas aparecem, em duas manchas sanguíneas: são o Frederico Feçanha e o Zé Maria Sanches, duas figuras obrigadas da festa e quase tradicionais ali, pois há mais de quarenta anos, e ainda atualmente, servem e amam o Divino!

 

E começa o leilão. Novo fluxo de homens, jorrando do adro transbordante, enche ainda a barraca apertando-se no largo corredor onde rebentam pequenas altercações, que esmorecem imediatamente sob os chuts que se erguem reclamando ordem. Uma patrulha policial, das que rondam o ajuntamento, assoma e se posta à entrada com os seus guardas de olhar indagaste, o sabre a reluzir à cintura. No longo gradeado da frente, o povo extravasando da praça, debruça-se para dentro, numa linha de bustos que se sobrepõem uns aos outros, sôfrego por assistir à balbúrdia dos lanços. E o resto da mole humana ondula e freme por detrás, disputando as frestas do gradil, em contínuos empurrões.

 

Depois a algazarra geral abranda um pouco recaindo num vago rumor de ondas ao longe: e as figuras escarlates dos leiloeiros, pairando mais alto que as outras, entram a mover-se de um lado para outro nos estreitos corredores defronte à bancada das moças. Cada uma delas, então um braço no ar, onde se ostenta uma salva com massas ou frutas, joga olhares em redor, soltando alegre um pregão:

 

— Quinhentos réis pelas massas!... — E ouvindo um lanço, e mais um, e outro, e outro: — 600 réis... 800 réis... 1000 réis.... Mil réis me dão!...

 

E passam e repassam seguidamente, trocando de corredores, volteando entre os rapazes, a mostrarem-lhes as salvas, encarecendo o valor dos objetos, apregoando-os num aumento gradativo dos lanços, até os entregarem ao arrematante que mais deu, o qual os remete de presente, pelo mesmo leiloeiro, a uma senhorita ou matrona de suas relações.

 

O leilão desdobra-se num entusiasmo crescente, dando uma febre de arrematação a todos, com o delírio dos piques e repiques, que levam tudo a exageros, ao ponto de pequenos bibelots sem arte e caixinhas-de-segredo chegarem a preços exorbitantes. Mas a alegria é perene, na algazarra dos rapazes, crianças e moças, ali reunidos, sob as luzes da kermesse, como em uma festa do lar, nessa familiaridade catarinense que tanto impressiona e encanta.

 

Os leiloeiros circulam incessantemente, desbastando o grande monte de "promessas" que se acumulam no Império sobre uma mesa redonda que os irmãos do Espírito Santo fiscalizam com solicitude constante. E o pregão, já meio rouco, domina do alto a colmeia humana, ecoando até aos últimos cantos do adro, onde a molecagem da cidade, escorraçada pelos guardas rondantes, corre e salta endiabrada dando vivas ao Divino.


De vez em quando, por entre a variedade dos objetos da hasta, surge um lote hilariante: um casal de galinhas, de marrecos ou de gansos; algum coelho enfeitado, um grande polichinelo de massa, ou uma longa cana caiana com as espadanas em fitas...

 

Aclamações e risadas de troça acolhem-no então num motim. E os rapazes, de pândega, atiram-se ao lote com ofertas enormes, combinados aos grupos para o arrematar e mandá-lo depois de presente a algum conhecido, que muitas vezes não, suspeita da graça e que quando dá por si tem em frente o leiloeiro que lhe faz entrega do mimo.

 

Enfiada e surpresa, a “vítima" recusa o presente, alegando que há engano, numa atrapalhação de palavras, abafadas desde logo por um tumulto de risadas e gritos:

 

— Pega! Pega, maganão!...

 

E todos acompanham a brincadeira, até as próprias moças, que se agitam nas bancadas cobrindo o "pobre" de risos...

 

Pela meia-noite, mais ou menos, com a retirada do Imperador e seu séquito, a festa termina, esvaziando-se a barraca numa alegre debandada, em que se ouvem ainda as últimas gargalhadas festivas.

 

À outra noite, e pela mesma hora, o povo se reúne de novo, e assim por três dias, findos os quais tem lugar um belo fogo de vista, composto invariavelmente das velhas peças conhecidas: um navio dando combate a duas fortalezas, o amolador, o casal de valsistas e o antigo e velado painel transparente, onde, no fim de tudo, por uma mutação repentina, surge o símbolo do Divino numa auréola flamejante.

 

 

 

7. Procissão de Passos

 

Entre as solenidades religiosas que se fazem no Desterro desde muitos anos ocupa o primeiro lugar a chamada Procissão de Passos, que pelo seu valor, significação e magnificência se destaca consideravelmente em meio a todas as outras. Esse ato, que comemora para o mundo católico uma parte da grande passagem trágica do Calvário, assume ali anualmente as proporções de um grande acontecimento, pois abala até às regiões mais longínquas a população do Estado, que acode à pequena capital carregada de "promessas" e ofertas consagradas à Imagem do Senhor.

 

E nisso está uma das feições mais íntimas da alma catarinense, cujo filão de ternura mística e velha poesia lendária, vindo de remota origem céltica, a torna em mais de uma de suas manifestações características semelhante por vezes a essa bela raça bretã, que deu os primeiros navegadores do Atlântico e do mundo, e esses inspirados sacerdotes druidas que amavam os animais e as paisagens numa vaga sentimentalidade panteística pela Natureza, celebrando as orações culturais à luz de prata da lua, sobre o púlpito dos menhires, alinhados pelas praias na espuma branca das ondas gemendo em marulhos tristes; ou que, de foice de ouro na mão, sacrificavam ao seu deus, junto aos troncos dos velhos carvalhos gauleses cobertos da flor do gui. Esse antigo e doce atavismo, onde viçou para logo a flor divina da crença cristã, recebeu-o o barriga-verde pelo sangue português primitivo, foi conservado nos ilhéus açorianos pelo meio próprio que achara e transportado depois para o litoral catarinense, onde melhor se encontrou, porque essa costa recortada, querida de um mar ora manso, ora agitado e bravio, lembra de perto a Bretanha, principalmente no inverno quando a envolve a bruma fria.

 

E esta similitude notou-a M. Auguste de Saint-Hilaire, ao pisar pela primeira vez as plagas catarinenses na ilha de São Francisco, numa manhã de névoa marítima: "...Eu me lembrava, pensando na França, que sobre as costas da Bretanha tudo concorre para dar à paisagem um aspecto melancólico: rochedos acinzentados e nus, um céu pálido e nublado, uma vegetação raquítica. Não se pode dizer que a natureza seja risonha no litoral do Brasil. As florestas sombrias que cobrem as montanhas têm alguma cousa de ossiânico..." (Voyage dans l'interieur du Brésil — 4a. parte, tomo II — pág. 267).

 

Perfeitamente. Nessas palavras do ilustre viajante, que propositalmente grifamos, se acha bem assinalada a característica das costas de Santa Catarina no inverno.

 

De quantas festas religiosas se efetuam no Estado é a Procissão de Passos a que mais prende e impressiona o espírito popular. Revalida esta verdade o que se lê à página 3 do folheto já conhecido — Breve notícia sobre o Senhor dos Passos:

 

"Extraordinário é o culto que se lhe consagra. Nos dias de tribulação, nas horas de tristeza, nos terríveis momentos de desalento da alma, todos para ele recorrem, todos vão implorar-lhe remédio para seus males, depondo esmolas e oferendas a seus pés. De outros Estados não é raro virem devotos trazer-lhe suas promessas, sendo algumas de grande valor, por haverem alcançado o que lhe tinham pedido em suas orações. Uma viagem que se empreenda, um passeio que se projete para fora do Estado não se realiza sem primeiramente subir-se aquela ladeira para oscular-lhe os pés e pedir-lhe a sua proteção. De todos os atos religiosos que celebram-se nesta capital, e em todo o Estado mesmo, é, sem dúvida alguma, a trasladação da Imagem do Senhor Jesus dos Passos o mais imponente e edifican­te..."

 

O cerimonial começa pela trasladação a que se refere o folheto, a qual tem lugar sábado de Passos, à noite, em que a respectiva irmandade,colocada a Imagem sobre um andor ornado de ramos de cedro verde e encerrada em uma espécie de biombo oitavado de damasco vermelho — a conduz da sua capela do Menino Deus à Matriz da cidade, para o giro procissional no outro dia. Há cinquenta e três anos já que essa Imagem venerável é assim carregada pelas ruas e praças principais do Desterro, pois a sua primeira procissão realizou-se ali em 1847.

 

Verdadeiramente grandioso, esse préstito cultual impressiona vivamente aos que o veem, tanto na trasladação como no seu giro diurno no domingo de Passos. O seu aspecto de detalhe e conjunto é de tal ordem respeitável e augusto, que ainda os espíritos mais elevados e cultos experimentam no íntimo um sentimento de humildade e pequenez, ante a imagem daquele que, pelo seu gênio e virtudes, está mais alto que os homens.

 

Sábado de Passos, desde meia tarde entram a afluir para os lados do Menino Deus, através de todas as ruas da cidade, os penitentes que têm de acompanhar o andor com "promessas". E às ave-marias já a ladeira de rocha onde se ergue a capela, branquejando lá em cima ao lado do grande portão do pátio principal do Hospital de Caridade, que se exibe ao fundo no seu enorme edifício de amplas janelas correndo ao rés do chão e no sobrado; às ave-marias, repetimos, já a ladeira sinuosa e murada, bem como o pequeno adro no alto, regurgitam cheios de imensa multidão.

 

Pelas sete horas, organizado o préstito, dispostas as irmandades e os anjos em duas alas com grandes tochas acesas, logo após ao Guião que deitado e ferrado nos seus braços em cruz é carregado por seis irmãos, em seguida à banda de música rompendo o caminho com uma marcha fúnebre — a descida começa, com o aparecimento do andor, onde a Imagem de Jesus vem encerrada no seu biombo oitavado de damasco vermelho, que altas lanternas circulam, fazendo-o destacar num fulgor.

 

Acumulam-se após as "promessas", constando de velas de cera, que senhoras carregam em profundo recolhimento, todas vestidas de preto, com chales da mesma cor pela cabeça e os ombros, à moda judaica, de sorte que seus rostos expressivos, às vezes em lágrimas, na impressão de um pesar místico ou de lembrados sofrimentos extintos, revestem à luz viva das velas o aspecto meigo e doloroso que tem os das Santas e o da Virgem, nos hagiológios antigos. Em meio às senhoras, destacam-se grupos de homens, na maioria roceiros, com grossos feixes de velas de libra e de duas libras cada uma, alvejando-lhes, apagados, sob os braços vergados ao peso. Dentre eles um ou outro se nota, em votos de sacrifício, arrastando-se de joelhos, numa andadura penosa, os pés nus sobre o chão, com cilícios sobre as carnes, grandes pedras à cabeça.

 

Ao longo das alas de anjos segurando as fitas do andor, e ao longo das filas de tochas e dos archotes de breu ardendo em chamas fumarentas, duas torrentes de gente, mulheres e homens, com crianças pela mão e ao colo, afogando-se, apertando-se contra a parede das casas pelas ruas estreitas, e só desafrontando-se, no trajeto, duas vezes apenas — uma no Largo Treze de Maio, logo depois da ladeira; outra defronte à Matriz, onde o Senhor se recolhe, no Largo Quinze de Novembro.

 

Enquanto o séquito caminha buscando o templo da praça, quem fica no alto do adro ou em qualquer das eminências vizinhas — o morro do Hospital de Marinha, o da Boa Vista, etc, — goza a impressão extraordinária de sentir sob a vista como uma flamante serpente monstruosa, arrastando-se fantasticamente lá em baixo, nas suas escamas de fogo.

 

Chegado o préstito à Matriz, na qual se aglomera o povo depois de entrar o andor para a entrega das "promessas" e as orações habituais, retirando pela meia-noite — o Senhor é colocado junto ao altar-mor, onde uma guarda de irmãos e devotos, de tochas acesas, se posta alternadamente, num velório piedoso, que dura até o outro dia à hora da procissão. E assim termina a festividade no sábado de Passos.

 

Domingo, pelas três horas, começa o ato solene do giro pela cidade, após a organização do grande acompanhamento na Praça Quinze de Novembro, do lado do palácio do governo, onde formam desde cedo todas as confrarias do Desterro que tomam parte no séquito — a do Sacramento, a do Espírito Santo, a das Almas, a de São Francisco de Assis, a do Parto, a de São Sebastião, a do Rosário e a de São Benedito, as duas últimas compostas em geral de mestiços e pretos. Preparado tudo, debaixo da direção do juiz da festa, dos mordomos e irmãos dos Passos, movendo-se em atividade incessante, a procissão entra a caminhar lentamente e na melhor ordem, num silêncio profundo, só dominado pelo compasso triste das músicas tocando uma marcha fúnebre.

 

São dignas de nota a disposição e pompa enorme do cortejo, que evoca essas procissões de triunfo (triumphalis) que se faziam outrora, na antiguidade remota, em Roma, quando os Cônsules volviam vitoriosos de bater o inimigo, ato que se estabeleceu, pela primeira vez, durante a República para apoteosar Paulo Emílio, ao voltar glorioso de Pidna. E o que são, em verdade, as procissões religiosas, senão uma transformação desses cortejos de triunfo quando Roma se converteu ao cristianismo? A diferença, porém, é que naquelas procissões eram levados em triunfos generais ou Césares vitoriosos, e nestas são carregados Jesus e os Santos do catolicismo. Mas como Roma, no Império, esposando o Cristianismo o consagrou, adotando-o como religião do Estado com Constantino, o Grande (edito de Milão, em 313) depois da célebre aparição que o convertera, em a noite em que marchava contra Maxêncio, tirano romano e massacrador dos cristãos; aparição que constara de uma grande cruz de fogo cercada destas palavras luminosas — Hoc Signo Vinces, com este signal vencerás, — toda a disposição e pompa do antigo triunfo passaram a fazer parte dos préstitos ainda romanos, mas já inteiramente diferentes, pois tinham tomado uma feição de verdadeiras procissões como as de que nos ocupamos. Daí, como da parte que tiveram os romanos no Crime do Calvário quando dominavam a Judeia, provieram também essas insígnias, como o Guião e outras, na procissão de Passos, e os centuriões e demais personagens romanos, na do Enterro, pela Semana Santa.

 

Mas observemos o desfilar do préstito, que desce ao longo do Palácio e toma a Rua da República, uma das maiores da cidade.

 

À frente das músicas e da primeira irmandade da marcha, entre o grupo de populares sobraçando grandes molhos de archotes para as luzes da noite, descobertos à romana como todos que os seguem — vê-se o arauto ou buzina, como o chama o povo, com uma toga de púrpura e um grande porta-voz dourado, apregoando o trajeto, apregoando o suplício de Jesus, às esquinas das ruas. Depois, uma outra confraria, batendo com as tochas no chão, à maneira dos soldados dos Césares batendo com os cotos das lanças. Em seguida o Guião (o estandarte romano), todo de damasco roxo, estaiado adiante e atrás por longos cordões de seda que quatro irmãos-ministros seguram aos extremos, muito alto na vara negra e em cruz rematando em três rútilas maçanetas douradas, o pano largo e custoso enfunado pelo vento como um redondo de galé antiga, caindo em pontas esguias orladas de franjas de ouro, com grossas borlas riquíssimas e o poderoso lema romano reluzindo ao centro nestas iniciais expressivas de pujança e domínio — S. P. Q. R., Senatus Populusque Romanus: o Senado e o Povo romano. Depois o Pallio de brocado, crivado de passamanes, abrindo-se sobre as varas prateadas suspensas em mãos devotas, em proteção ao Santíssimo, que o vigário conduz em contrição íntima seguido de dois padres ao lado, sob pesadas casulas. Logo após o alto andor de cedros verdes, onde se ergue a Imagem[29] representando Cristo caído sob o peso da cruz no trajeto da Amargura: a face augusta tão dolorosamente expressiva, sob o suor e as gotas de sangue que lhe escorrem da fronte coroada de espinhos, que a gente sente ao contemplá-la um pesar inexprimível, como se assistisse, em verdade, ao martírio do Nazareno, cumprindo a Sentença Iníqua. Depois ainda, as "promessas" e toda uma coorte de anjos e virgens, carregando nas mãos os objetos do Suplício Divino, por entre a multidão geral dos fiéis que se pode avaliar em dez mil.

 

Ao sair da Matriz, quase à Rua Tenente Silveira, o andor faz alto por instantes, enfrentando o Senhor com um registo representando uma das várias estações da Via-Sacra, registo que se exibe numa espécie de oratório das dimensões de uma porta, todo iluminado a grandes velas de cera e ornado de flores. Igual parada faz também diante dos seis outros passos, distribuídos no trajeto pela ordem seguinte: — o 2º à Rua Trajano, o 3º em frente à igreja de São Francisco, o 4o. à Rua João Pinto, o 5º à Rua Tiradentes, o 6o. no Largo Treze de Maio e o 7o. ao lado da entrada da capela do Menino Deus.

 

Mas a procissão adianta-se e aperta-se caminhando sempre por entre as casas, cujas janelas regurgitam de famílias, debruçadas respeitosamente sobre as grandes colchas de damasco de seda pendendo às sacadas, onde predomina o escarlate, o amarelo cor de ouro e o alvadio, à maneira ainda da antiga Roma nos seus dias festivos. As outras ruas em que passa o cortejo mantêm-se igualmente enfeitadas, o chão afofado de folhagens e flores, que trituradas pelos pés, saturam o ambiente de aromas, onde sobressai o eflúvio do alecrim e do manjericão. A cada esquina o povo que não pode tomar parte no séquito se acumula densamente, ajoelhando-se em massa quando surge o Santíssimo.

 

Chegando à Rua Generalíssimo Deodoro, num pequeno largo em frente à igreja de São Francisco, tem lugar o encontro de Jesus com a Virgem Maria, cuja imagem, conduzida por uma outra rua sobre um pequeno andor enfeitado, representa a Mãe Dolorosa, com o seu manto azul cheio de estrelas, uma espada sobre o coração, o rosto em dor suprema, os olhos afogados em pranto. As duas Imagens enfrentam-se numa recordação comovente da passada cena cristã, a que o colossal ajuntamento de povo, em atitude contrita, dá uma impressão poderosa de mística solene. E começa o chamado "sermão do encontro", que dura em geral meia hora na vibração convulsionada desse sublime e trágico episódio do Novo Testamento. Depois a imagem da Senhora se incorpora ao préstito e a marcha prossegue, lenta e triste pela tarde...

 

Ao chegar à Rua Altino Correa (antiga do Príncipe), na altura da de Jerônimo Coelho, de onde a primeira se estende para a praça em toda a largura do cais principal da cidade — o espetáculo é extraordinário e único talvez no Brasil.

 

Uma multidão de embarcações miúdas, como canoas de remo de pá e de voga, batelões, botes e lanchas, vindas de todos os sítios marítimos do continente e da Ilha, coalham a baía, entre a linha do litoral e o cordão afastado dos grandes navios, que põem ao longe no horizonte, com a cordoalha alterosa, como um estranho tecido de renda sobre os cascos quase unidos, no ancoradouro sereno todo espelhado em anil. Dessas embarcações pequeninas, mudadas em lar ao momento, pois transbordam de famílias, fisionomias de todas as idades, desde a criança de colo até ao ancião secular, umas pálidas de doenças, outras rubras de saúde — debruçam-se ansiosamente da borda, acompanhando sofregamente com os olhos a Imagem adorada. E à proporção que o préstito avança, sempre diante do mar, elas vogam para vante, seguindo-o na sua imensa flotilha.

 

Mas a procissão se oculta um instante na Rua João Pinto, indo reaparecer outra vez, e plenamente, no Largo Treze de Maio, para onde singra a esquadra de canoas e lanchas, numa marcha rapidíssima, estatelando-se de novo, em veneração devota, ante o cortejo que passa, os rostos embevecidos...

 

Já então o sol dourado da tarde tem rolado no ocidente numa auréola esvaída de brilhos, e o primeiro encinzado de sombras vem descendo lentamente, precursando a noite triste. Acendem-se então pelo préstito as velas, tochas e archotes, como as altas lanternas de vidro que vão guardando o andor. E a monstruosa serpente de fogo, que ali passara na véspera, ressurge, fantástica, magnificente e brilhante na noite, subindo a ladeira de rocha. No cimo do adro, já a capela destaca, a larga porta descerrada, o frontão branquejando às luminárias que o cobrem, a alta cruz da cornija flamejando de luzes. E por detrás, iluminada também, numa linha de lampiões contornando as janelas, a mole enorme do Hospital de Caridade, aberta no céu escuro.

 

A procissão pouco a pouco vai galgando a ladeira, e penetra a nave rútila pela porta principal onde o préstito se estrangula, repartindo-se para um e outro lado, pelo portão do Hospital e pela sacristia.

 

Dentro, no pequeno templo, onde já descansa a Imagem e se adensam os penitentes numa última oração mística — vê-se, levantado bem ao fundo, uma espécie de Calvário, em cujo viso nu e escuro se perfilam três cruzes: a do centro, e mais alta, tendo pregado em seus braços e haste o corpo plácido de Jesus, escorrendo sangue da fronte, dos pés roxos e dos pulsos; as outras, mais baixas que aquela, são as dos dois ladrões, cujos corpos, grossos e toscos, parecem estorcer-se de dor, em terríveis convulsões...

 

Depois do "Sermão do Calvário" com que finda toda a festa, tem lugar a visitação do Hospital de Caridade, cujos belos salões e vastas enfermarias são franqueadas ao povo. Como esta instituição, são também percorridos o Hospital de Marinha e o do Exército, que ficam muito perto dali, este último um dos maiores e melhores edifícios públicos que possui o Desterro.

 

Durante essa longa visita, as senhoras e os homens distribuem abundantes esmolas aos doentes, que se sentem por instantes cercados, nessa noite de Passos, do geral afago e consolo do sentimento público.

 

 

 

Freguesias e Arraiais

 

As freguesias e arraiais da Ilha foram-se constituindo como uma irradiação do Desterro e à maneira que esta povoação se desenvolvia, fundando-se entretanto as primeiras choupanas ou casas de Santo Antônio, Lagoa e Ratones quase conjuntamente com as da capital, porquanto Velho Monteiro, mal chegara à Ilha, entrara a explorar também esses locais onde demarcou terrenos para plantações logo após as que empreendera na sede e circunvizinhanças da colônia. De sorte que quando o infortúnio o colheu, já existiam algumas picadas por onde se ia até esses pontos, as quais serviram ainda aos colonos que para aí vieram depois que os filhos daquele, com os demais povoadores que os acompanhavam, se retiraram para a Laguna.

 

Assim foi que Antônio Afonso, com outros habitantes de São Vicente, Guaratuba e Paranaguá, unindo-se porventura a alguns resíduos da povoação dispersa, estendeu-se por aqueles sítios em 1666, quinze anos depois da chegada de Monteiro. E trinta e dois anos passados, em 1698, quando Antônio Bicudo Camacho, com vinte casais de gente de São Francisco, se estabeleceu no continente, em terras de Massiambu, compreendidos os campos de Araçatuba, chegaram em sua companhia seu sobrinho o padre Mateus de Leão e muitos agregados, que foram ocupar duas léguas de terra em Santo Antônio, Lagoa e Ratones, onde aquelas levas de colonos já haviam lançado as primeiras lavouras.

 

Naturalmente Velho Monteiro, à maneira do que fizera ao norte, nos lugares mencionados, alargaria suas explorações para o sul, visitando a pequena enseada da costa onde existe hoje o arraial do Saco dos Limões, e, decerto dando volta ao monte do Pau da Bandeira, pelo fácil acesso dessa região, conheceu toda a planície ou vale do Pantanal ou Trás do Morro, distante apenas uma légua da sua povoação. O mesmo teriam feito os vários grupos de povoadores que lhe sucederam, disseminando-se consequentemente por todo o interior da Ilha, costas de leste e oeste (esta já então totalmente conhecida), levantando aqui e ali pequenos ranchos e plantações, que deram de si, mais tarde, todas as povoações da Ilha.

 

 

 

1. Saco dos Limões

 

O Saco dos Limões demora a três quartos de légua do Desterro, ao fundo da pequena enseada cujo litoral, outrora coberto de limoeiros como toda vizinhança da capital e com um pronunciado contorno de saco fechado pelas pontas Caiacanga-mirim e das Almas, conferiu-lhe o nome por que é conhecido desde muitos anos. O arraial está assente em parte sobre a colina da Carvoeira, que faz um amplo cabeço na costa e vai morrer para o centro junto a Trás do Morro. A outra parte desce para a praia, alongando-se em enorme curva alvacenta até a Costeira de Pregibaé[30].

 

É nesse alto, caindo em espécie de anfiteatro sobre as águas, que se grupam as habitações principais do povoado, pequenas construções de pedra e cal, de sistema comum, com jardinzinhos floridos e terrenos bem plantados. Nota-se porém entre elas algumas chácaras maiores, à semelhança das da cidade, pertencentes a negociantes que vão para ali veranear todos os anos.

 

Na linha da praia, a um lado e outro, quer na altura onde começa a estrada do Pantanal, quer ao norte, no lugar denominado o Canto, em que se ergue o outeiro do Mato da Figueira — as casas são rareadas, não passando em seu maior número de meiáguas e ranchos, por entre os quais veem-se os varais das redes, muitas canoas de pescaria puxadas em terra ou fundeadas, e, em terrenos mais altos e preparados como eiras, o disco elevado e amplo das caieiras primitivas, feitas com certa arte.

 

Estas caieiras, em cujo serviço se ocupa uma parte dos habitantes do Saco, são preparadas por dois ou três homens costumados nesse trabalho, no espaço de um a dois meses. São dispostas, como dissemos, em forma circular, e a confecção de cada uma começa por uma grossa camada de mangue da altura de um pé, cujas varas bem ajustadas em comprimento dispõem-se, unidas em raios, sobre um centro ou eixo composto de um molho de paus finos e secos lançado em posição vertical. Sobre esta camada de mangue assenta uma de conchas (em geral as chamadas berbigão, muito abundantes em toda a costa da Ilha e do continente, à embocadura dos rios e nos montículos de sambaquis ou kjökkenmöddings aí existentes em profusão) com a mesma espessura da outra e em ordem simétrica; e assim alternadamente — concha e mangue — até à altura de quatro metros.

 

Pronta a caieira, que fica como uma imensa e grossa roda deitada, formando uma massa grisalha pelo escuro do mangue e o pintalgado miudinho das conchas — prende-se-lhe fogo, em cima e embaixo, e começa a fabricação da cal, que dura de dois a três dias, numa crepitação de onde se ergue um cheiro acre, por entre labaredas vermelhas e novelos de fumaça. Cada caieira dá comumente de seis a oito moios de cal.

 

As caieiras e a pesca constituem a maior ocupação deste povo, que é pouco ou quase nada agricultor, pois as roças de mandioca, as de cana e as plantações de café (a principal cultura da Ilha) são insignificantíssimas e dão apenas para o consumo. Mas como há algumas pastagens, e estas criadoras e moças, os habitantes têm sempre ao pé das vivendas belas vacas crioulas, as quais fornecem bom leite abundante que eles vão vender diariamente à cidade, partindo pela madrugada com os seus cambões de madeira de onde pendem as latas cheias.

 

A vida em família é aí muito alegre, pelo contínuo convívio com a gente da capital e os festejos seguidos que isso determina, como bailes e outros. Esses festejos foram outrora mais frequentes, especialmente na véspera da romaria à Trindade; e sua recordação relembra a figura veneranda e querida de Amaro José Pereira, em outros tempos chefe político eminente da capital e muitíssimo popular aí como em todos os sítios vizinhos. Verdadeiro amparo e alegria da população do Saco, este homem quando por vezes se recolhia a essa localidade, era para levar a animação e o conforto a todos os lares, onde se faziam sentir constantemente as suas generosidades.

 

O arraial, aprazível pela sua paisagem, é entretanto meio insalubre, devido talvez à vasa da praia, que, de manhã e à tarde, pela baixa-mar, fica inteiramente descoberta desprendendo exalações e miasmas.

 

Do Saco dos Limões partem para o interior, além da estrada que pelo litoral segue para Pregibaé, Rio Tavares, Ribeirão, etc., mais duas outras de rodagem — a da Carvoeira e a do Pantanal: a primeira percorrendo toda a colina do seu nome e indo findar à freguesia da Trindade; a segunda atravessando o arraial de que toma a denominação até aos morros do Córrego Grande, onde se bifurca voltando à esquerda para Trás do Morro, à direita para o monte da Lagoa ou do Padre Doutor, onde vai terminar em atalho.

 

 

 

2. Pantanal

 

O Pantanal é um arraial muito inferior em população e construções ao arraial do Saco, e acha-se situado à falda de uns cerros ao sul, de que é padrasto o Morro do Rio Tavares, tendo em frente, pelo norte, o vale formado entre os altos da Carvoeira e os daquele monte.

 

Os sítios que contém são em geral terras de cultura, com simples mas risonhas casinhas rústicas e engenhos primitivos, uns feitos de alvenaria, muitos só de pau a pique barreado, cobertos de telha ou palha, em meio aos lençóis verde-escuro da rama da mandioca, as espadanas verde-claro dos canaviais que ondulam ao vento como uma floresta de alfanjes, ou entre cafeeiros tufados e pomares de altas frondes, onde sobressaem a laranjeira, o pessegueiro, a ameixeira e a fruta-de-conde.

 

O nome de Pantanal vem-lhe talvez desse vale onde serpeia o riacho dos Limões que deságua à praia do Saco, vale em cujo terreno são frequentes os banhados, mas que é de um pinturesco impressionista pela linha rasa dos campos e no pendor das espaldas, ondulando em tonalidades sem fim de verdura a uma e outra margem da estrada, atravessada de pontes em seu leito arenoso e largo.

 

Essa estrada, que descreve uma admirável curva de mais de três quilômetros de extensão, sempre orlada de altas cercas de espinheiros, interrompidas, cá e lá, por alguns pequenos trechos roçados ou renques de bastas árvores seculares, que o machado do lavrador poupara não se sabe porque benéfica singularidade — vai terminar no vasto largo da Santíssima Trindade, quase em frente ao sítio de onde parte a magnífica estrada que daí conduz à cidade pelas Carreiras e pela Pedra Grande.

 

Quem transita por esse arraial aos domingos, a pé, a cavalo ou a carro, como tantas vezes nos sucedeu, outrora, em dias de repouso feliz e suave vilegiatura, goza a mais deliciosa impressão de serenidade, simpleza e doçura que constituem a vida campestre, vendo descuidosa e encantadoramente grupadas pelos terreiros das casas as lindas raparigas matutas, morenas e de expressivos olhos negros, que contemplam os passeantes, a chalrar alegremente por entre moitas de arbustos e de roseirais floridos.

 

 

 

3. Córrego Grande

 

A povoação do Córrego Grande é ainda mais rareada que a do Pantanal e suas habitações suspensas quase todas a encostas e socalcos de morros, cortados de fios de água numerosos e de uma grossa cachoeira que nasce no contraforte do monte do Padre Doutor, na Lagoa. Essa cachoeira, a 400 metros mais ou menos de altura, domina a capital, e, conquanto diminuída pelo desmatamento de suas nascentes, poderia servir, com outras, para abastecer de água o Desterro, que até hoje, como vimos, se ressente dessa falta. Depois, esta água é magnífica, perfeitamente potável, sem a sobrecarga de sais que se observa na da cidade, em geral.

 

O Córrego Grande singulariza-se, entre todos os povoados da Ilha, pelo acidentado do terreno e os declives abruptos de seus topos de colina, sobrepondo-se uns aos outros quase sem a menor superfície plana. Dir-se-ia, por isso, uma espécie de miniatura insular dessa estranha região do Tibete que Oliveira Martins descreveu, um dia, com genial precisão, comparando-a a uma "imensa folha de pergaminho amarrotada." (As Raças Humanas, Lisboa, 1881).

 

As culturas aí compõem-se em totalidade de cafezais e canaviais, onde se notam várias espécies de cana — a denominada caiana, a roxa e a miúda. Os engenhos são numerosos e neles se fabrica bom açúcar, melado e cachaça.

 

 

 

4. Pregibaé[31]

 

Este lugarejo, ao sul do Saco dos Limões e cuja parte mais povoa­da é a propriamente denominada Costeira de Pregibaé, consta apenas de algumas dezenas de habitações, disseminadas, à distância umas das outras, sobre a encosta do monte do mesmo nome, por onde passa a estrada real que segue para o Ribeirão.

 

Menos populoso que o Pantanal e o Córrego Grande, ele se lhes avantaja entretanto pela atividade agrícola de seus habitantes, os quais cultivam de tudo em geral, porém especialmente a cana, que se alastra aí, pelos altos e baixos, em roças e roças a perder de vista. E de todos os pontos da Ilha, este é, decerto e comparativamente, um daqueles em que mais numerosamente avultam as moendas ou pequenos engenhos.

 

O açúcar, o melado e a aguardente, que no sítio se fabricam, são de excelente qualidade, e não somente bastam ao consumo local, como dão também para uma pequena exportação.

 

Além de bons agricultores, os pregibaenses são bons pescadores e tanoeiros, aptidões de resto comuns a todos os catarinenses, a exceção dos da região de serra-acima, coisa perfeitamente explicável pelo meio e pelo sangue dessas populações serranas, descendentes na sua maior parte de colonos paulistas.

 

 

 

5. Rio Tavares

 

O Rio Tavares é um povoado que fica um pouco acima da embocadura do rio ou braço de mar do mesmo nome.

 

As casas, esparsas ao longo da estrada e amoitadas entre ramagens, algumas pousadas à beira do rio, onde se espelham, destacam-se pela sua caiação muito alva das ligeiras construções pardacentas dos engenhos de paredes de pau a pique barreadas à mão e em geral cobertos de tiririca.

 

As culturas são variadas como a dos outros sítios, predominando porém sobre todas a da cana, que ondula em grandes lençóis de um verde alegre pelas voltas largas do rio. A melancia dá aí abundantemente, como nas Caiacangas; e outrora plantava-se mais do que hoje, e em grande escala, o melão, de tão fina espécie que ficou célebre na Ilha e em todo o Estado.

 

E sobre ele assim se exprime o nosso primeiro corógrafo, padre Manoel Aires de Casal, tratando dos rios da Ilha: "O terreno regado pelo derradeiro (Rio Tavares) cria os melhores melões da Província. (Corografia Brasílica, tomo 1, pág. 195).

 

No Rio Tavares tem a Western Telegraph uma estação que liga o cabo submarino vindo do Atlântico pela praia do Campeche à linha telegráfica terrestre de Florianópolis.

 

A população deste arraial, com a do Saco, Pantanal, Córrego Grande e Pregibaé, orça, em totalidade, por cerca de 2.500 habitantes.

 

 

 

6. Ribeirão

 

Voltando à ponta de Caiacanga-mirim, encontra-se, em frente à ilhota Garcia, uma enseada onde deságua um pequeno rio, cuja foz terá de 5 a 7 metros de largura e onde se eleva o monte mais alto da Ilha, que mede 600 metros e em cujo sopé se aninha risonhamente a freguesia do Ribeirão, com suas casinhas alvas, dentre as quais se destaca a igreja consagrada a Nossa Senhora da Lapa.

 

A freguesia estende-se por Caiacanga-açu, Tapera até Naufragados (a ponta mais meridional da Ilha). Daí segue para leste, abrangendo o Pântano do Sul, a Armação da Lagoinha e a praia do Campeche, com as ilhas e ilhotas que rondam a costa nessa parte, indo entestar por nordeste com as terras da Lagoa. Todos esses pontos são mais ou menos habitados e contam, com a sede da freguesia, uma população de 3.600 almas.

 

Relativamente a esta freguesia eis o que diz o conhecido geógrafo Saint-Adolphe, que residiu vinte e seis anos entre nós e que percorreu longa e minuciosamente todo o nosso país: "Ribeirão ou Lapa do Ribeirão. Nova vila e antiga freguesia da Ilha de Santa Catarina, no fundo de uma enseada, a 2 léguas ao sul da cidade do Desterro. Manoel de Vargas Rodrigues mandou fazer em 1760 uma capela para sua família e vizinhos e a dedicou a Nossa Senhora da Lapa. Como no princípio do século presente a população do Ribeirão passasse de 1.200 almas, foi a capela substituída por uma igreja de pedra, a qual foi sagrada em 2 de fevereiro de 1806. Solicitaram então os habitantes para ela o título de paróquia, o qual lhe foi conferido por alvará de 11 de julho de 1809. Passados dez anos, instaram porque se concedesse à nova freguesia o título de vila, porém não foram bem sucedidos nessa representação nem no governo d'El-Rei D. João VI, nem no do Imperador D. Pedro I, e somente o conseguiram em 1839 ou 1840 por uma lei provincial. O distrito da vila do Ribeirão é formado da parte meridional da Ilha de Santa Catarina e acha-se separado da parte do norte do da cidade do Desterro pelos ribeiros Tavares e Caiacanga-mirim..." (Dic. Geog. e Hist. do Império do Brasil, tomo II, pág. 396; Paris 1845).

 

A zona do Ribeirão é quase toda agrícola e pelas suas encostas e planos floresce a mandioca, a cana, o milho, o feijão e o café, em amplos quadrados de terreno de um verde variegado.

 

 

 

7. Caiacanga-açu

 

Caiacanga-açu é célebre pelas suas excelentes melancias, as melhores de Santa Catarina, comparáveis às do Rio Grande do Sul e de um sabor apreciável.

 

O povoado é pequenino, pois compõe-se de pouco mais de duas dúzias de habitações, alcandoradas pelos cabeços da ponta fronteira ao baixio do mesmo nome.

 

Os seus habitantes, porém, são inteligentes agricultores e cultivam, em pequena escala, tudo quanto o terreno pode produzir, praticando deste modo, e desde muitos anos, a policultura. São também excelentes canoeiros, que correm à vela e com qualquer tempo, em canoinhas de remo de pá, sobre os baixos esparcelados do seu porto, terrível quando sopram os ventos do quadrante do sul.

 

 

 

8. Pântano

 

O arraial do Pântano ou Pântano do Sul fica na enseada de igual designação, na costa de leste da Ilha, sobre uma faixa arenosa apertada entre a corda de montes que vem de Naufragados até Caiacanga-açu e os outeiros ou cabeços escarpados da Lagoinha.

 

Com poucas terras cultiváveis, e desconhecendo por completo os processos agrícolas modernos de as fertilizar, os habitantes são mais pescadores que lavradores.

 

Muitas redes de arrastão lanceiam por toda a costa, principalmente no tempo do peixe de corso, que é excelente e coalha essa enseada, em mantas ou magotes enormes, de maio a outubro de cada ano.

 

 

9. Lagoinha

 

A Armação da Lagoinha tirou o nome da pequena lagoa que há nessa paragem e que abre para o oceano por estreito ribeiro: tirou-o também do posto de pesca da baleia que nela foi fundado em 1772 por uma empresa particular, posto de que nos ocuparemos, como de muitos outros do Estado, no segundo volume desta obra. Neste sítio existe ainda a capelinha, sob a invocação de Sant'Ana, erigida pela referida empresa para nela ouvirem missa e se confessarem os arpoadores e tripulantes das baleeiras, quando a pesca começava, descendo o sacerdote em seguida até à praia a benzer as embarcações que iam fazer-se ao mar.

 

As casas da povoação erguem-se na costa do mar, sobre a praia e altos da ponta da Armação propriamente dita.

 

A pequena lagoa fica para dentro do litoral 1/4 de milha: tem de comprimento 1.600 braças, por 500 a 600 de largura; sua profundidade em geral é de 6 metros, tendo em alguns pontos 10 e mais. Em suas águas encontra-se uma grande variedade de peixes, sendo os principais o acaraí, a carapeba, o linguado, a tainha e o robalo. A certa distância desta, existem mais duas pequeninas lagoas, também muito abundantes em peixe — uma de 350 braças, outra de 400 de extensão.

 

 

10. Naufragados

 

Naufragados é um local onde o número de habitantes é bastante reduzido, resumindo-se a pouco mais do pessoal empregado no farol e suas famílias. O farol, que se ergue no alto do cabo rochoso, caindo a pino sobre as ondas, foi inaugurado a 3 de maio de 1861, e se compõe de uma torre branca e circular de alvenaria, sendo o aparelho (3ª dióptrica) de luz branca, com eclipses também brancos de 30 em 30 segundos, e tendo de alcance 18 milhas. A torre mede 12,6m, de altura que, junta à do cabeço, que é de 30m, forma a elevação total de 42,6m acima do nível do mar.

 

Acha-se situada esta ponta em 27° 50' lat. sul e 5° 27' long. oeste do Rio de Janeiro. Entre ela e a chamada dos Frades há uma praia de vagas fortes com cerca de 500 metros de extensão, onde em 1753, sob um grande pampeiro do sul, naufragaram duas sumacas portuguesas que conduziam 250 colonos açorianos de Santa Catarina para o Rio Grande do Sul. Destes infelizes só escaparam 77, os quais em parte ficaram na Ilha, indo outra parte para a freguesia de Vila Nova (comarca da Laguna) e outra para o seu primeiro destino. Do sinistro proveio a denominação de Naufragados com que ficaram conhecidas até hoje a ponta e a praia[32].

 

 

 

11. Lagoa

 

A freguesia da Conceição da Lagoa, que fica a lés-nordeste da capital à margem ocidental da Lagoa Grande[33] é denominada pelo morro do Padre Doutor (450 metros) de onde se descortina um dos mais belos panoramas que olhos humanos podem apreciar, panorama que atrai vivamente a atenção dos viajantes, nacionais ou estrangeiros, que passam ou se demoram em Florianópolis, constituindo também o encanto de seus habitantes, que, aos domingos e dias feriados, fazem da formosa localidade um dos pontos de suas excursões.

 

Pode dizer-se que nesses dias raras serão as vezes em que não se encontrem grupos de senhoras e homens, em ruidosas e alegres cavalgatas, cruzando a estrada do morro, as numerosas trilhas das baixadas, as alvas praias da lagoa e o imenso costão cheio de cômoros onde espuma o oceano. Estas cavalgatas costumam partir da cidade pela madrugada, a fim de os touristes chegarem ao alto do monte da freguesia no momento mesmo em que o sol vem rompendo do Atlântico, que enche a leste o horizonte com a sua esplêndida vastidão, aqui e além, junto à costa, manchada de rochedos cinzentos e ilhotas verdejantes.

 

O espetáculo do nascente é aí de um esplendor soberano, gozando o observador de dois efeitos diferentes de luz — um no mar, de onde o astro se levanta, abrindo escamas de ouro fulgente na crista azulada das ondas; outro em terra, pelas encostas e cômoros, em que a luz bate de cheio, enfouverando as culturas, malhando de ocre as areias, acendendo na lagoa visões de Fata Morgana. E à proporção que o sol galga a altura, paisagem e marinha em redor, perdendo a feeria dos primeiros tons, tumultuando no contraste vivo das sombras que morrem de chofre por entre as ramagens e topos — ganham a acentuação e firmeza de seus exatos contornos e doces, soberbas nuances. Vê-se então, sob a igualdade serena da luz, na sua majestade e grandeza, esse recanto de terras e águas que é dos mais belos do mundo.

 

Entra-se a descer o morro, por onde a estrada coleia num leito de barro vermelho, pedregoso e cortado de córregos murmurantes e cristalinos até quase ao fim da encosta, onde assenta a sede da freguesia, composta de um grande largo gramoso ao fundo do qual está a pequena igreja consagrada a nossa Senhora da Conceição, com o seu adro amplo e bem calçado, a cuja frente se ergue o alto cruzeiro de madeira pintado de negro. Acham-se alinhadas em volta as principais casas do povoado, algumas envidraçadas e assobradadas, todas em geral caiadas e de um só pavimento, vastas e bem edificadas como obras antigas, que são, e onde habitam os mais abastados agricultores do lugar. Nessa igreja celebra-se anualmente uma festa que atrai muita gente da capital e dos lugarejos vizinhos, trazendo movimentada e em alegria, durante uma semana, a população da freguesia, que se diverte expansivamente, às noites, desde às vésperas até ao dia, em bailes e fandangos seguidos. A festa é a da padroeira do sítio e realiza-se a 8 de dezembro.

 

Daí para baixo, pelos vários caminhos e atalhos das colinas e da planura, onde jaz a lagoa espraiando-se a 12 quilômetros de extensão, entre montículos e grandes tabuleiros ou coroas marginais — desdobram-se as demais habitações e os engenhos, em meio aos terrenos quadriculados pelas roças de mandioca, de milho, cana, feijão e amendoim, semelhando um enorme tabuleiro de xadrez. Em certa altura, estreita garganta divide a lagoa em duas partes desiguais — uma pequena, estendendo-se para o sul até aos campos do Rio Tavares; outra maior, lançando-se em direção norte para o morro do Rio Vermelho (410 metros) onde termina por um ribeiro que tem aí as nascentes. Sobre essa curta passagem há uma ponte de alvenaria que liga a freguesia ao costão.

 

A lagoa tem de profundidade média dois metros mais ou menos, achando-se porém em certos lugares fundo superior a quatro e seis metros. Extraordinariamente piscosa[34] é de incomparável utilidade para os habitantes dessa região, tornando-se ainda uma preciosidade para eles por ser uma via de comunicação de primeira ordem entre a freguesia, o Rio Vermelho, as Aranhas e os Ingleses. Suas águas são salgadas, não só pela proximidade do mar como por ligar-se a este por uma barreta, aberta ao canto sul do costão contra o morro do Retiro (150 metros) ou a chamada ponta Galheta.

 

O costão da lagoa forma, com o do Campeche e o de Canasvieiras, as três maiores praias da Ilha, deliciosas pelo seu aspecto pitoresco e pela abundância do peixe, que as torna em verdadeiros é inesgotáveis pesqueiros, quer no verão quer no inverno, neste especialmente porque é quando a enchova e a tainha de corso pululam perenemente, chegando a ser apanhadas às cem mil e mais em cada lanço das redes.

 

No verão o peixe mais abundante é a corvina que, se fosse explorada convenientemente, podia servir para a exportação por conservar-se perfeitamente, visto não ser oleosa como a enchova e a tainha, que não se prestam à conserva, e que, escaladas e secas ao sol, não chegam a aguentar sãs muito tempo, pois o ranço as deteriora com rapidez.

 

Não sabemos a razão por que essa gente não aproveita tal peixe, tendo até desdém por ele, como observamos longamente assistindo à pesca aí, nos Ingleses e em Canasvieiras.

 

É verdade que a indústria do pescado é ainda insignificante na Ilha como no continente, onde quase ninguém a explora convenientemente, existindo apenas no Estado duas fábricas de peixe em conserva, ambas na capital e essas mesmas de pouca monta e com uma exportação limitada.

 

A Laguna foi a única parte de Santa Catarina que já exportou peixe em grande escala para vários pontos do Brasil e do estrangeiro, constituindo isso uma de suas fontes de renda. Hoje, porém, essa comarca, uma das de maior atividade comercial e industrial do Estado abandonou em parte semelhante negócio, sendo a pesca atualmente quase que só para o consumo dos seus habitantes[35].

 

Entretanto a gente da Lagoa mantém uma pequena indústria de peixe, o squalo (espécie de cação) que todos ali denominam "mangona", e que, aberto em tiras e seco ao sol, se conserva por muito tempo servindo de alimento, à feição do bacalhau, nos pontos interiores onde não há peixe. Tornando-se objeto de comércio nesses sítios, tem muita procura e é vendido às arrobas. Do fígado do squalo extrai-se um azeite, cuja fabricação, se fosse aperfeiçoada, nos dispensaria de importarmos tanto óleo de fígado de bacalhau para usos médicos, pois é sabido que o óleo de fígado de squalo tem as mesmas propriedades que aquele.

 

O terreno da freguesia é em geral montanhoso e só tem plano, além do tabuleiro que margeia uma parte da lagoa e o lado do oceano, a longa várzea que se estende do Rio Tavares ao Ribeirão formada de terreno arenoso e fértil, arroteado seguidamente há séculos e sempre produtivo. A tal respeito dizia-nos o Dr. Eliseu Guilherme, ilustre chefe político catarinense, uma ocasião em que visitávamos essa localidade: "...Há em nosso país isto de admirável: solos inesgotáveis, vivificados por uma força própria, que séculos e séculos de produção não conseguem esterilizar”.

 

Não há coisa mais verdadeira, não só com relação a essas terras da Lagoa, como às de Santa Catarina em geral e às de todo o Brasil, pois que estão a produzir há quatro séculos sempre com o mesmo vigor, não sendo urgentemente preciso até hoje o adubo artificial ou químico e a cultura intensiva que se faz desde muito na Europa e se começa a fazer agora na América do Norte.

 

A fertilidade do solo catarinense é tão saliente e notável que não há uma só Crônica, Memória, Notícia ou Viagem sobre o Estado que deixe de expor, a toda luz e com encômios, semelhante qualidade. Assim é que para não amontoarmos exemplos e exemplos sobre o assunto, nos limitaremos a transcrever aqui o que diz Paulo de Brito às páginas 55 e 56 de sua conhecida e apreciável Memória Política:

 

"A natureza se esmerou em liberalizar com a Capitania de Santa Catarina não só um excelente clima, mas também um solo fertilíssimo, porém não sei por que fatalidade estas suas preciosas dádivas têm sido há tantos anos desprezadas por aqueles, a quem cumpria aproveitá-las devidamente em utilidade de seus habitantes e do Estado. Nenhuma outra Capitania do Brasil é tão fértil como esta, tanto cm substâncias que dependem de cultura, como naquelas que a terra espontaneamente cria e nutre, produzindo assim não só todas aquelas que se dão nas outras capitanias (à exceção do Pará) mas muitas outras, que elas não produzem, mormente no reino vegetal, como vou referir.

 

Das sementes cereais, como o trigo, o milho de todas as qualidades, a cevada, o centeio, a produção é abundantíssima, e muito mais das leguminosas, como são o feijão, a fava, a ervilha e outras. É extrema a produção da mandioca, que constitui a base principal do sustento de quase todos os habitantes. A cana-de-açúcar, o café, o algodão, o tabaco, são vulgares e abundantes em toda a Capitania: o anil é copiosíssimo, c a terra inutilmente o reproduz todos os anos, sendo desprezada geralmente esta planta que tantos interesses podia dar! Os linhos galego, donzelo e cânhamo: a batata, o amendoim, as cebolas e os alhos são vegetais da maior produção. As plantas odoríferas tais como a alfazema, o alecrim, o jasmineiro, a roseira, manjericão, os craveiros e outras aí se dão muito bem; as hortenses, como o repolho, couves de diferentes espécies, a alface, a chicória, o nabo, o rábano, o pepino, a mostarda, a cenoura, o tomate, o aipo, a hortelã, a salsa, o coentro, abóboras: carneira, menina e outras; o melão, a melancia, o morango, aí vêm bem, e se criam perfeitamente. As árvores frutíferas, como a laranjeira, o limoeiro, o pessegueiro, o damasqueiro, o marmeleiro, a figueira, são vulgares, e dão saborosos frutos; e já hoje (1810) há algumas pereiras, ameixeiras, e ginjeiras, que mui bem se criam, e produzem. E que direi das excelentes madeiras, de que tão abundante é a Capitania!"

 

Paulo de Brito que assim fala merece todo crédito e atenção, não só pelas funções de auxiliar da administração que exerceu durante muitos anos em Santa Catarina, como também pelo talento, ilustração, estudo e juízo imparcial e seguro no modo de expender sua opinião sobre qualquer assunto, qualidades que levaram o governo português a nomeá-lo, após aquela comissão, governador e capitão-general de Moçambique, posto onde prestou os melhores serviços e em que veio a falecer a 28 de janeiro de 1832[36].

 

E para se avaliar do merecimento da Memória que tão frequentemente citamos, observemos o que diz seu autor na introdução dessa obra, às págs. 11 e 12, lamentando a incuriosa e péssima administração do Brasil pelos governadores gerais e pelo de cada capitania em particular.

 

“... A Capitania de Santa Catarina é uma daquelas, em favor da qual se não deram ainda providências algumas relativas ao seu melhoramento, sendo ela de uma importância assaz evidente, tanto pela sua localidade, seu belo clima, fertilíssimo solo, como por outras qualidades físicas, com que a natureza quis enriquecer. Durante os anos que nela residi, confesso que as examinei com desvelo, não me poupando também a exame algum que pudesse ilustrar-me sobre o seu estado político atual, assim como sobre o modo de promover o seu melhoramento. Convencido pois de que aquela Capitania é digna de toda a atenção considerada tanto política como militarmente, e outrossim de que somente a falta de conhecimento exato do país, e das vantagens que ele encerra, é a causa de ter estado como em esquecimento, tomei a meu cargo advogar seus interesses e prosperidade por meio desta Memória Política, que eu divido em três partes: a primeira trata da sua história em resumo; assunto que me ocasionou ou deu imenso trabalho, em razão do grande número e diversidade de autores tanto nacionais como estrangeiros que fui obrigado a consultar, não só relativamente ao descobrimento da Capitania, mas também ao seu primeiro donatário, e povoador: a segunda contém a sua estatística: a terceira finalmente, trata da importância da Capitania, considerada política e militarmente; nesta terceira parte se mostra a necessidade, e indica o modo de promover o seu melhoramento e a sua prosperidade..."

 

A população da Lagoa, que monta a 3.450 almas, é das mais laboriosas que conhecemos: cultiva, além das plantas já mencionadas, o café, a uva, o algodão; fabrica aguardente, açúcar, melado; exporta para a capital alhos, cebolas, amendoim, gengibre, etc. Outrora cultivava em grande o linho, sobretudo o linho galego e donzelo, que era aí mesmo tecido em teares rudimentares e primitivos. Estes aparelhos, atualmente arcaicos, mas cuja descrição vale a pena de ser conhecida e a qual faremos oportunamente quando tratarmos das indústrias têxteis e outras — ainda hoje funcionam, nesta como em muitas outras freguesias e arraiais. E é neles que se fazem os tecidos comuns de algodão, branco ou a cores, utilizados para toalhas, guardanapos, colchas, etc., e os chamados riscados que são vendidos em "cortes", e de que se vestem os roceiros em geral. Fabricam também os lagoanos belas toalhas de linho, mas em escala limitada. Destes tecidos há em toda a Ilha e no continente uma interessante e profusa variedade, como veremos na segunda parte desta obra.

 

 

 

12. Aranhas

 

A pouco mais de duas léguas da freguesia da Lagoa, encontra-se ao norte o povoado das Aranhas, junto ao Morro das Flechas, que forma a ponta do mesmo nome e cuja elevação é de 220m. Para leste, em frente à ponta, na distância de uma milha mais ou menos, vê-se o pequenino grupo de ilhotas das Aranhas, que deu o nome ao lugar. Este grupo compõe-se de duas ilhas e quatro rochedos estéreis, cercados de lajes alagadas, sendo a maior das ilhas de pouco mais de 1 milha quadrada, toda coberta de vegetação e com um morrete ao centro de 90m de altura.

 

As casas da povoação, rareadas e em pequeno número, estendem-se pelo Morro das Flechas e praia das Aranhas, que limita ao norte com a ponta e morro dos Ingleses. As plantações aí são pouco numerosas, cifrando-se quase na cultura da mandioca e do amendoim, este último em maior abundância, pois constitui o principal comércio do sítio. A pesca entretanto é fecunda, mas explorada apenas para consumo dos habitantes.

 

 

 

13. Ingleses

 

O arraial dos Ingleses compreende a praia e ponta do mesmo nome: a ponta, que termina em um cabeço de 190m de altura, é a mais oriental da Ilha e serve, como o Arvoredo, de ponto de reconhecimento às embarcações que, navegadas de leste, demandam à barra do norte; a praia, de cerca de milha e meia, confina a oés-noroeste com o Rapa.

 

Mais populoso que as Aranhas, e muito mais movimentado, possui um núcleo maior de habitações grupando-se em torno de uma pequena capela, situada à beira-mar e consagrada a Senhora dos Navegantes. Nesta capela, construída entre cômoros por um abastado lavrador do lugar em 1881, realiza-se anualmente uma festa à padroeira do sítio, que atrai uma multidão de romeiros ou devotos, vinda das circunvizinhanças — das Aranhas, do Rio Vermelho, da Ponta das Canas e do Rapa.

 

A denominação de Ingleses provém de uma barca dessa nacionalidade que aí varou, com uma lestada, em fins do século passado. Essa embarcação, segundo dizem, viera tocada e com água aberta do mar alto e encalhara na praia em frente à ilhota Mata-Fome, salvando-se toda a companha, da qual alguns homens se deixaram ficar no lugar, constituindo família e entregando-se à pesca e aos serviços rurais.

 

A curta distância do cabo, que se ergue sobre rochas, como todos os extremos avançados de praia em que as ondas trabalham, estão os Moleques do Norte e a ilhota do Badejo, assim chamada do nome desse peixe sempre aí encontrado. Tais ilhotes são áridos e desabitados, muito frequentados todavia pelos pescadores de linha, principalmente no tempo da enchova, que coalha as águas, em mantas, pela quadra invernal.

 

 

 

14. Rio Vermelho

 

Desde a Lagoa, correndo do sul ao norte, ondulam os montes do Rio Vermelho e das Capivaras, onde fazem contraforte os morros da Várzea Grande, da Cachoeira e da Ponta das Canas, descendo em pequenas colinas para a costa ocidental. Ao sopé dos primeiros montes, de onde parte um pequeno rio a desaguar na Lagoa Grande por entre barrancas rubras, de cuja cor tira o nome — elevam-se as casas do Rio Vermelho, disseminando-se na planura em redor e entestando a leste com as Aranhas e os Ingleses.

 

Arruados de laranjeiras, num certo alinhamento de trottoirs de cidade, cruzam os planos e baixadas, saturando o ambiente de inebriantes perfumes suaves quando as ramagens em flor; quando em frutificação — que é o tempo da abundância geral — delicia ver essas espessas umbelas de folhas verde-negras crivadas de frutos de ouro.

 

Esta freguesia, banhada em parte pelas águas setentrionais da Lagoa, é de um terreno assaz fértil, no qual se dá bem a mandioca e mais ainda o amendoim, em cujas vastas culturas se ocupa o povo laborioso. Este produto é a principal riqueza do sítio, que o exporta em grande quantidade pelo porto dos Ingleses e de Canavieiras, onde alguns lanchões e iates vão carregar todos os anos.

 

As habitações, feitas na maior parte de pau a pique barreado à mão (coisa aliás comum em todos os lugarejos da Ilha e do continente) têm um aspecto tristonho pelo acinzentado das paredes a bem dizer escondidas entre bananais e cafezeiros; e só na sede e proximidades da freguesia se encontram prédios de pedra e cal, em maiores proporções e agrupados em torno à igreja que, pequena e simples, impressiona contudo agradavelmente por seu bom estado e asseio, para o que muito concorre o zelo dos habitantes, que aí comemoram anualmente, e com grande influência, o dia de São João, o padroeiro do Rio Vermelho.

 

A cerimônia é feita com certa pompa e entusiasmo, atraindo enorme concorrência das freguesias e arraiais circunvizinhos, como da própria capital, de onde aflui muita gente também.

 

A festa de São João no Rio Vermelho, como a da Conceição na Lagoa, a da Lapa no Ribeirão, a das Necessidades em Santo Antônio e a da Trindade em Trás do Morro, ecoa em toda a Ilha e alvorota de alegria os sítios, porque é uma das kermesses do ano onde o povo se diverte e expande.

 

 

 

15. Rapa

 

O Rapa — o promontório mais setentrional da Ilha — não se pode dizer bem um povoado, mas o desdobramento do arraial das Canas. As rareadas habitações de que consta estão situadas no alto do monte, de onde se goza uma monumental marinha, que é das mais belas do globo.

 

Nas duas pequenas praias que o cercam — uma a leste, outra a oeste — veem-se apenas os pequenos ranchos cobertos de tiririca, onde se abrigam as canoas e as redes, que são excelentes e das mais afamadas da Ilha, porque a pesca, tanto no alto mar como na costa, forma quase que a exclusiva atividade da população do Rapa.

 

Entretanto há ali igualmente pequenas plantações de mandioca, milho, amendoim e cana.

 

 

 

16. Ponta das Canas

 

Assentado sobre vários morretes, sem área plana além da praia, este arraial é, como o nome o indica, apropriado à cultura da cana, que ai abunda desde as primeiras explorações da Ilha, representando ainda hoje a maior produção do sítio. Apesar disso, os habitantes cultivam também a mandioca, o milho, o feijão e outros legumes, que dão para o consumo geral. Mas a verdadeira produção de comércio é a cana, muito afamada pela sua qualidade, sobretudo a cana miúda, de que se fazem excelente aguardente e melado. No arraial há um bom número de moendas, as primitivas moendas de madeira, tocadas a boi, à maneira dos engenhos de farinha, igualmente existentes no local, conquanto em número reduzido.

 

A pesca na Ponta das Canas é a ocupação mais comum do povo, como de resto a de toda a gente da costa catarinense, que reparte a sua atividade entre as roças e as redes, de onde aufere a subsistência. De inverno a lida se ativa de tal modo (conforme os outros povoados marítimos) que os homens, pode dizer-se, passam quase toda essa quadra pelos ranchos e canoas da Lagoinha, em cujas águas se juntam a enchova e a tainha, especialmente esta, porque a primeira prefere mais os litorais pedregosos dos ilhotes e rochedos onde é pegada à linha. De junho a agosto de cada ano, essa praia, como as demais em geral, oferece um dos mais curiosos espetáculos de pesca a que é dado assistir-se — o dos lanços às tainhas, executados às vezes por duas ou três redes de cem e mais braças de extensão cada uma, ligadas momentaneamente para aquele fim. Detalharemos a seu tempo essa pesca interessantíssima.

 

Na Ponta das Canas, na parte que olha para a enseada de Canavieiras, existe um casqueiro ou montículo de sambaquis coberto no alto de rasteira vegetação, cuja forma é a de um cômoro ou pequena coxilha. Compõe-se ele de berbigão e caramujo (este em maior abundância) de onde os trabalhadores de caieiras, que o exploram para o fabrico da cal, têm extraído por vezes ossos dispersos de esqueletos humanos, como crânios, tíbias, fêmures, etc[37].

 

 

 

17. Cachoeira

 

Pela estrada que sai da Ponta das Canas para Canavieiras e toma à esquerda no Teixeira, em direção ao interior, vai-se ter, na distância de dois quilômetros do mar, ao arraial da Cachoeira, situado à encosta dos morros do mesmo nome e espalhado na planície circunjacente.

 

Esta zona é toda agrícola, e dentre as muitas plantações que a recortam, pelos altos e baixadas, sobressaem os cafezais que dão mui boas colheitas.

 

 

 

18. Capivaras

 

Para o norte, em continuação à corda dos montes da Cachoeira, estão os cerros das Capivaras, de largas espaldas e topos, onde verdejam ou lourejam, novas ou em maturidade, as grandes roças de milho.

 

As casas são raras aí, pousando em pendores íngremes, de onde se avistam as planuras cultivadas dos Ingleses, do Rio Vermelho e das Aranhas, cintadas pela alvura dos cômoros, entre as ondas cor de anil.

 

 

 

19. Várzea Grande

 

Para lá das Capivaras, ao sul, as veigas da Várzea Grande, manchadas pelas habitações e engenhos, branquejando entre folhagens. Ao lado de cada vivenda, pequenas pastagens tenras, cobertas de gado doméstico e cercadas de espinheiros.

 

Uma linha de colinas, com florestas seculares nos cimos, divide esta larga planície de uma outra menos ampla, chamada Várzea Pequena, que extrema ao sul com o arraial dos Ratones, por um contraforte de morro interposto entre ambos. Neste povoado, conhecido também pela Várzea de Baixo naquelas bandas, abundam a mandioca, o milho, o feijão, a cana-de-açúcar, o algodão e o café, particularmente este último, cultivado aí em larga escala como na Várzea Grande.

 

 

 

20. Várzea Pequena

 

A Várzea Pequena ou Várzea de Baixo, conta maior número de casas, que a outra, entre as quais algumas vendas, servindo ao mesmo tempo de depósito de colheitas que vêm aí embarcar, descendo da Várzea Grande, do Bom Jesus e das Areias, povoações todas próximas e que, além deste porto, só dispõem do de Canavieiras, situado à longa distância e onde, por fronteiro à barra, as mercadorias correm risco de perder-se. Por via disto e da colocação à beira da estrada circular que leva à cidade, o arraial é animado e nele se nota um movimento de carros de boi e cargueiros não existente nos três locais citados. Este movimento se faz sentir sobretudo no sítio do Manoel Manduca, em que há uma vala aberta pelos habitantes, ligando-se a um dos braços do Rio Ratones, onde carregam as grandes canoas de voga empregadas na condução de gêneros entre esse ponto e o Desterro.

 

 

 

21. Canavieiras

 

A freguesia de Canavieiras, célebre na história catarinense e desde os primeiros tempos, por seu fundo e magnífico ancoradouro, onde tocaram todos ou quase todos os navegantes que iam para o Prata e para o Mar do Sul, na época das famosas descobertas marítimas nesta parte ocidental do Atlântico, como no Oceano Índico e na vastidão do Pacífico; célebre pela vitória de Velho Monteiro sobre o corsário Lewis; célebre ainda pelo desembarque dos 10.000 homens de Zebalos na tomada da Ilha em 1777; a freguesia de Canavieiras é uma das mais belas e pitorescas de Santa Catarina. Estendendo-se da Ponta Grossa à Ponta das Canas e formando duas imensas praias, com uma pequena de permeio, entre a ponta do Viana e a de São Francisco (mais conhecida no local pela ponta das Pedras), onde se ergue a igrejinha paroquial — este sítio é sobremodo encantador, em virtude de seu golpe de vista, que abrange muitas milhas de costa no continente em frente e todo o maravilhoso panorama marinho da entrada do norte, povoada de ilhotes e ilhas, entre os quais se destacam, em suave colorido, o Arvoredo e a Deserta, a Galé e os Macucos, a ilhota dos Franceses e Anhatomirim.

 

Na sede da freguesia, que ocupa o largo perímetro do cabeço onde se eleva a igreja, a 100m de altura, há uma praça de forma retangular como poucos sítios possuem, não só pelas construções como pela bela paisagem, pois se domina daí as duas vastas praias mencionadas e os amplos campos de Canavieiras, que se desenrolam em planuras sucessivas, extremando ao norte com a Cachoeira, o Bom Jesus e as Areias, e ao sul com os altos da Ponta Grossa e os morros dos Ratones, nas voltas espelhadas do rio. Os prédios aí são todos de pedra e cal e envidraçados, destacando-se em meio deles, além da casa do Império destinada às festas do Espírito Santo, a vivenda do Pinheiro (conhecido e abastado chefe conservador de outros tempos na localidade) e a de Manoel Moreira da Silva, uma das glórias da nossa marinha de guerra, notável na navegação e nos combates pela sua coragem e sangue frio, que lhe valeram na célebre batalha naval da Laguna[38], durante a ocupação desta cidade pelas forças dos Farrapos, o encargo importante, mas arriscado, de ser o primeiro a investir à entrada, estreitíssima e perfeitamente artilhada pelo inimigo; e no Rio Grande do Sul, como comandante da barra, o apelido bem significativo de Manoel Diabo, pelas proezas ali feitas contra o mar, de que salvava embarcações e vidas nas maiores borrascas[39].

 

Do alto da igreja partem duas estradas principais, percorrendo a freguesia de extremo a extremo: uma é a da Rua Velha, que se estende para o norte junto à falda dos Morretes, descrevendo uma curva de cerca de légua e meia, e indo bifurcar-se na das duas Várzeas, Bom Jesus e Cachoeira; a outra é a da praia de São Francisco, que segue pela Ladeira do Pinheiro, para o Viana e a Ponta Grossa. Ao longo da primeira acha-se a maior parte das habitações do sítio, sendo a outra parte pelo alto da praia de São Francisco, Caminho do Joaquim Pedreiro, Caminho do Campo, Caminho Novo e Venda do Areias.

 

O último dos lugares tomou o nome de um velho português que aí residiu muitos anos, com uma dessas casas de negócio da roça onde se vende toda espécie de artigos e gêneros. Próximo ao Porto do Rio — um dos braços maiores em que se divide o Ratones logo acima da foz, e que atravessa os campos da Rua Velha depois de banhar, ainda em córrego, os montes da Cachoeira, onde tem as nascentes — esse armazém comercial atraía os roceiros que vinham da freguesia e arraiais vizinhos vender aí mesmo, ou fazer embarcar para a cidade, as suas mercadorias. Havia então certo número de canoas de voga de quatro e seis remos, da lotação de 100 a 200 alqueires — pertencentes na maior parte ao velho Areias — singrando constantemente, abarrotadas de carga, entre a capital e Canavieiras. Mas há quinze anos para cá, depois que o antigo negociante transferiu a residência para Santo Antônio, onde faleceu tempos depois, esse ponto entrou a decair, ao extremo do pequeno movimento fluvial que tinha desaparecer quase todo, limitando-se ao de uma ou outra canoa de vendeiro daí vai fazer sortimento à cidade, uma vez por mês.

 

No Porto do Rio existe uma larga ponte de madeira por onde passa a estrada geral. Até essa altura o rio é acessível, com maré de enchente, a botes e canoas de voga que podem carregar francamente. Daí para cima até ao Rancho do Justino, só navegam embarcações de pequeno porte, porque há pouco fundo e amplitude.

 

A comunicação com a Capital, por via marítima, é mais comum por este porto que pela enseada — o primeiro torna a viagem mais curta e segura, visto o rio desaguar em Sambaqui, poupando um quarto de distância e já ao abrigo da barra; ao passo que a última a dificulta, pela espera de monção e a longa volta da Ponta Grossa e Pontal, além da arriscada travessia em mar grosso.

 

As terras de Canavieiras são ubérrimas e nelas se cultivam a mandioca, a cana, o feijão, o milho, o algodão, a videira e o café, que, insignificante há vinte anos, constitui hoje a sua principal produção. Pena é que a vinha, que aí dá admiravelmente, não seja plantada em grande escala para a fabricação do vinho. E não nos referimos à uva americana, de geral e fácil cultivo; mas à excelente uva branca, moscatel e outras, de que vimos magníficos espécimens.

 

A pesca é aí muito farta também e de todas as freguesias da Ilha esta é, por sem dúvida, a que possui maior número de redes. Os habitantes são tão bons lavradores como marinheiros: têm um físico robusto, um caráter decidido e valente. Arrostar o mar em todo o tempo, superpondo-se ao perigo, é coisa que lhes anda no sangue e nos nervos. Cantam sobre as ondas revoltas, como em meio às culturas tranquilas onde não há nada a temer.

 

 

 

22. Ponta Grossa

 

A Ponta Grossa é um pequenino arraial assente sobre a praia e outeiro do mesmo nome. E tal designação cabe-lhe bem, porque, fronteiro à barra como está, sofre em cheio o embate das vagas de fora que se precipitam contra ele com violência e estrondo, espalhando-se em perigosa rebentação alvacenta.

 

Esta ponta tem um assinalamento sinistro, pelos numerosos naufrágios de canoas ocorridos aí desde anos com temporais desfeitos, onde tem perecido tanta obscura e preciosa existência. Daí o resguardo quase supersticioso e sagrado que lhe dão sempre os tanoeiros dessas alturas, apesar de sua lendária afoiteza.

 

Nesse alto cabeço rochoso existiu, outrora, um forte cuja fundação teve lugar em 1740, sob a administração do brigadeiro José da Silva Paes, que governou Santa Catarina de 1737 a 1743, e ao qual se deve ainda a construção das fortalezas de Santa Cruz, Ratones e Barra do Sul. O forte, que possuía uma capela sob a invocação de São José, acha-se atualmente em completa ruína, de que se destacam aqui e ali, cobertos de vegetação, pedaços da velha muralha esboroada.

 

Daí para o sul, na direção do Raton Grande, estende-se, com a estranha conformação de um gigantesco braço encurvado, a língua de areia nua do Pontal, formada pelo estuário do Rio Ratones e o choque ininterrupto das vagas da barra, tendo a extensão de um quilômetro.

 

O arraial, pouco populoso e com estreitas terras aráveis, conta pequenas culturas; mas é essencialmente piscoso na sua praia revolta. Algumas canoas e redes constituem a riqueza maior dos habitantes, que são todos pescadores.

 

 

 

23. Ratones

 

O povoado dos Ratones eleva-se na várzea banhada pelo rio do mesmo nome, ou antes pelo maior dos braços desse rio que, como vimos, divide-se em dois logo acima da foz, tomando o braço menor para o norte direito às terras de Canavieiras. A denominação de Ratones guarda origem nos dois ilhéus situados em frente ao pequeno estuário do rio, quase em meio à baía do norte, entre o Pontal e Anhatomirim.

 

Os primeiros navegantes espanhóis que aportaram a Santa Catarina (talvez Sólis, que a descobriu, ou os outros que aí tocaram depois), ao avistarem esses ilhéus deram-lhes o nome de Ratones, pela singular semelhança de ambos com os animais dessa espécie de roedores; e como eram dois, para os distinguir particularmente, passaram, a chamá-los Raton Grande e Raton Pequeno, denominação que se conserva até hoje, bem como a designação geral de Ratones.

 

O arraial expande-se ao longo da estrada real, pela falda-sul do morro da Várzea Pequena ou Várzea de Baixo e uma e outra margem do rio, cujas nascentes demoram à espalda setentrional do Moquém, monte de 390m de altura, que separa esta baixada dos planos do Saco Grande e que, descendo sempre para oeste, vai ramificar-se em Santo Antônio em pequenas colinas e morros. Pelo Moquém sobe um atalho, empinado e de difícil acesso em tempo chuvoso que encurta consideravelmente a distância entre o Ratones e a cidade, poupando seguramente três quartos de hora da volta por Santo Antônio. Esse atalho atravessa um dos pontos mais altos do monte, entre imensa floresta secular, e corre em parte à beira de perigoso desfiladeiro, assinalado por um ou outro desastre, nos trajetos noturnos, em sítios onde a mata é mais cerrada e sombria.

 

É célebre e quase lendário aí o caso do negociante Cabral, transeunte frequente desse caminho, o qual, uma noite de tormenta, na mais densa escuridão das ramagens, justamente na descida que margeia o abismo — lugar de um metro apenas de largo, tendo de uma banda um topo a pino de rocha e da outra a fauce do grotão pedregoso, coberta de traidoras ervagens — sentiu o cavalo escorregar e perder-se, rolando em estouros e baques para o fundo do desfiladeiro, enquanto ele, num desespero febril de salvar-se, agarrava-se convulsamente aos arbustos e cipós entrançados, que o detiveram milagrosamente na queda...

 

Apesar disso, é este o trajeto preferido pela gente de todas as freguesias e arraiais desse lado da Ilha, que viaja continuamente por terra entre esses pontos e a cidade. E nós, duas ou três vezes também, de viagem para Canavieiras, tivemos de trilhar esse atalho, sendo uma delas alta noite — bela noite saudosa e de silente luar! — acompanhado apenas por um crioulo roceiro, falastrão e cantador, mas que no alto do monte, sob a escuridão da folhagem, emudeceu totalmente, num vago terror supersticioso, benzendo-se à entrada e à saída da mata.

 

Nos Ratones veem-se as mesmas culturas observadas na Várzea de Baixo e outros lugarejos, mais animadas porém por um movimento contínuo de pequenas embarcações — lanchões, canoas e botes — de pombeiros da cidade, que percorrem todo o sítio, pelas voltas fundas do rio, em viagens de comércio. É de certo modo avultado o negócio de galinhas e ovos que se faz no lugar, bem como o embarque de farinha, milho, cana e café, que daí saem na safra.

 

 

 

24. Santo Antônio

 

A freguesia de Santo Antônio começou a florescer quase ao lado do Desterro, à maneira da Lagoa e Ratones, pois foi dos primeiros locais explorados. Ocupada a princípio pelos colonos que vieram para a Ilha com o padre Mateus de Leão, com terras de sesmarias de uma légua em redor, o sítio entrou a cobrir-se de pequenas palhoças e ranchos, erguidos em meio às primeiras lavouras, desde a Praia Comprida à Ponta de Sambaqui, isto até 1714, data em que chegando a essas plagas o sargento-mor Manuel Manso de Avelar, aí se estabeleceu, aumentando a povoação, cujas terras passaram depois à possessão de sua filha, D. Clara Manso, que mais tarde casou com Francisco Antônio Branco, um dos homens que fugiram, depois da revolta de uma parte da guarnição, de bordo de uma nau espanhola que fundeara em Canavieiras, pelo ano de 1734. Foi em vida desta senhora, falecida em 22 de outubro de 1790 com quase 100 anos, e cuja bondade e virtudes ficaram tradicionais ali, que se erigiu a igrejinha consagrada a Santo Antônio, de onde veio o nome ao local. Essa igrejinha é a mesma que existe ainda hoje na freguesia, apenas melhorada e ampliada conforme as necessidades e progresso do tempo.

 

Santo Antônio é uma das localidades mais aprazíveis da costa ocidental da Ilha. Situada em solo plano e à beira-mar, entre Cacupé Pequeno e a Ponta da Ilhota, dir-se-á uma cidadezinha, pela sua pitoresca praça ornada de prédios construídos como os de certos arrabaldes antigos da capital, e pela sua disposição em três ou quatro ruas cheias de casas, unidas ou separadas apenas por pequenas hortas e jardins, que não existem em outros sítios.

 

Nesse humilde recanto da terra catarinense nasceu o padre Lourenço Rodrigues de Andrade, que foi um dos representantes do Brasil (em épocas coloniais) junto às cortes portuguesas, bem como o primeiro senador por Santa Catarina, quando se criaram a Câmara e o Senado logo após a Independência. Da família do padre Lourenço existem ainda vários descendentes, que são das pessoas mais gradas do local.

 

O porto de Santo Antônio é manso e movimentado por um comércio marítimo maior que o de todas as outras freguesias. Embarcações miúdas, em grande número, remam ou velejam diariamente entre as suas praias e o Desterro, sobretudo quando, como é frequente, há ali fundeados navios mercantes ou de guerra, nacionais ou estrangeiros, cujo calado não lhes permite passarem além dos ancoradouros de Santa Cruz e Sambaqui.

 

 

 

25. Sambaqui

 

Este fundeadouro é dos mais notáveis de Santa Catarina e de todo o Brasil, por sua posição completamente protegida das vagas e ventos da barra pelo longo Pontal ao norte, e a oeste pelas ilhas Raton Pequeno e Raton Grande, que são verdadeiros abrigos. Do lado do sul nada há a temer, porque o pampeiro e o sueste duro, que tanto castigam o porto da cidade e todos os da outra baía, só levantam mar cavado até à garganta do Estreito, de cuja altura para o norte, barra a dentro, as águas se conservam tranquilas. O arraial de Sambaqui fica entre a Ponta do Pereira e a do Luz, e está já na foz do Ratones. Possui um pequeno núcleo de casas, a maior parte pousada nas quatro praiazinhas alvas que enfaixam o litoral, sendo a principal das praias a chamada da Aguada, porque aí vêm fazer água para bordo os escaleres ou lanchas dos navios ancorados no porto.

 

Essa água é perfeitamente potável e a melhor da Ilha depois da do Ribeirão, que é excelente, e da qual nos dizia em carta, ainda há três anos, o falecido Visconde de Taunay, que conhecia como poucos o Estado e particularmente a capital e freguesias suburbanas, pois o presidiu quando província de 6 de junho de 1876 a 2 de janeiro de 1877, percorrendo-o depois duas vezes, uma em 1881 e outra em 1884. "Recordo-me bem do primeiro copo d'água que lá (Ribeirão) me ofereceram, contava-nos Taunay, dizendo-me o lavrador que o fazia: "Tome o gosto; na Ilha não há outra igual — nem de longe!" Efetivamente assim era: a água é incontestavelmente boa. E como nos outros pontos da Ilha a água é de má qualidade, em geral, os moradores do Ribeirão tiram da que possuem motivos de muita ufania".

 

A água de Sambaqui vem das nascentes de um elevado monte colocado cerca de 500 metros da praia, por um encanamento mandado construir pelo almirante Justino de Proença, em uma de suas zelosas administrações como capitão do porto de Santa Catarina. A tal respeito transcrevemos o que disse o distinto oficial no Relatório apresentado à presidência da província, em 1887:

 

"Neste excelente porto, um dos melhores do Império, continua a funcionar com regularidade o importante encanamento sobre largos trilhos de ferro que ali mandei construir. O porto de Sambaqui, só por esse recurso, fica com uma importância ainda superior à que já tinha por suas condições topográficas e hidrográficas".

 

O nome do arraial proveio de um grande casqueiro que ali existiu em outro tempo, tomando toda a Ponta do Luz, cujo casqueiro foi totalmente consumido em caieiras, que são, como no Saco dos Limões, uma das principais indústrias dos habitantes do lugar. O fim deste casqueiro é o que terá em poucos anos o da Ponta das Canas, seguidamente explorado para a fatura da cal. E assim, dentro em breve, na Ilha, desaparecerão para sempre esses montículos de estratos alternados de conchas e de areias conchilíferas, que são os cemitérios paleontológicos do homem terciário ou quaternário[40].

 

 

 

26. Cacupé

 

A pouca distância de Santo Antônio, para o sul, estão os dois povoados conhecidos pelos nomes das pontas litorais onde assentam — Cacupé Pequeno e Cacupé Grande. Contam ambos insignificante número de casas e habitantes, os quais vivem da lavoura e da pesca, que dá apenas para o consumo.

 

Estes dois arraiais, florescentes em outros tempos, quando o habitavam alguns poderosos fazendeiros e armadores, como José Correia, Costa Melo, etc., acham-se hoje quase despovoados e em completa decadência.

 

 

 

27. Itacorubi

 

Entre a ponta de Cacupé Grande e a do Recife, que é o extremo norte da capital, faz a costa uma reentrância, denominada Saco de Itacorubi ou Saco Grande, onde deságuam três pequenos rios — o Manoel Antônio, o do Bornelas e o Lessa ou Amorim, cujas nascentes vêm de uns montes próximos ao norte e da encosta do morro do Padre Doutor, na Lagoa. Toda essa região é plana e recortada por esses rios que formam, à pequena distância da costa, na altura da estrada circular da Ilha, o local das Três Pontes chamado, por existirem nele três grandes pontes de madeira, a poucos metros uma das outras, pontes que pelo terreno paludoso e raso em que estão, o mar cobre muitas vezes nas preamares anormais.

 

O arraial do Saco Grande nucleia-se para lá dessas pontes, na parte enxuta do terreno, entre a Capotera e os montes. É pouco farto de culturas e não prospera na razão de sua situação, tão bem provida de comunicações — rio, mar e estrada — distante apenas hora e meia do coração da cidade. Seus habitantes são em geral mais pombeiros do que agricultores e ocupam-se mais do negócio de galinhas e ovos, que vão mercar ao Desterro, do que das lavouras. Entretanto o sítio, além de outras culturas, dá bom café e cana, esta última abundante em outros tempos, principalmente na Capotera, onde o velho Siqueira (abastado lavrador de outros tempos) possuía uma fazenda com grandes plantações que, pelas épocas da safra, davam açúcar e melado para exportação.

 

 

 

28. Trás do Morro

 

A freguesia de Trás do Morro, já nossa conhecida pela célebre romaria da Trindade, está situada entre o monte do Pau da Bandeira e os do Córrego Grande, Rio Tavares e Lagoa, que formam entre si uma superfície ondulada de 30 a 40 quilômetros quadrados, em sua maior parte, como vimos, cultivada de cereais, cafeeiros, cana, pastagens e vinhas, para as quais terreno e clima se prestam admiravelmente, como aliás toda a Ilha.

 

O solo da freguesia ocupa vasta área toda plana e cortada de culturas, que se irradiam em torno da praça onde se acha a igrejinha, cercada de interessantes habitações, dentre as quais se destacam algumas chácaras com jardins. Para o lado do norte, estende-se o Campo das Camarinhas, onde se fazem corridas de cavalos e onde por essa ocasião se reúne o mundo esportivo de Florianópolis. Antigamente tais corridas eram feitas no campo aberto e sem preparo, mas hoje acha-se aí construído um prado com todos os requisitos e modelado pelos do Rio de Janeiro.

 

O sport foi sempre uma paixão dos catarinenses, como é uma das feições características do rio-grandense do sul. Desde tempos primitivos que as chamadas "carreiras de cavalos" são um dos divertimentos de domingo para os habitantes dos sítios, tanto da Ilha como do continente. E nós assistimos várias vezes a funções desse gênero, não só no arrabalde da Pedra Grande, onde uma parte da estrada geral ficou conhecida por Carreiras, nome que conserva até agora, como no Saco dos Limões, Santo Antônio, Lagoa, Canavieiras, etc., sendo que nos dois últimos lugares as corridas se faziam nas praias, correndo muitas vezes um dos parelheiros (denominação que se dava aí antigamente aos cavalos de corridas) com água acima dos machinhos.

 

Em Trás do Morro abundam as hortaliças e as pastagens criadoras, estas cobertas de nédias vacas crioulas. E seus habitantes fornecem de legumes e leite a capital, fazendo este comércio rapazinhos de 12 a 15 anos.

 

 

 

Praias, cômoros e campos

 

Poucos lugares no globo possuirão praias tão bonitas e de um desenho mais interessante e caprichoso como as da costa catarinense, tanto na Ilha como no continente. Brancas, de uma alvura reluzente ao sol, ou de um vago amarelo rebrilhante, abertas em curvas ou crescentes de um contorno suave, limitadas entre pontas numerosas ou pequenos promontórios de rocha, onde o mar brame em torvelinhos de espuma, em sítios desabrigados, ou preguiça mansamente em espelhações cor de anil nas enseadas em calma — essas praias deixam no espírito dos que as veem uma dessas impressões de natureza que raramente se extinguem.

 

Os que conhecem a praia de Icaraí e outras da nossa bela Guanabara, a de Copacabana e a da Gávea, já batidas do Atlântico, recantos queridos e visitados frequentemente por touristes de toda espécie, nacionais ou estrangeiros, poderão idear mais ou menos as de Santa Catarina, muitas das quais aumentadas de encanto, talvez, pela solidão primitiva em que jazem e pelas linhas ondulosas dos cômoros desconhecidos aqui.

 

A costa de leste da Ilha e a do continente, de Massiambu para o sul até ao Rio Mampituba, onde o Estado termina, são cobertas dessas dunas ou coxilhas de areia, interrompidas aqui e além por um cabeço elevado de cabo, uma barra de laguna ou um estuário de rio, continuando depois pelo Rio Grande, num filão sucessivo e sem montes ou terras altas, que só acaba no arroio Chuí, extremo sul da República com o litoral do Uruguai. Essas dunas alvíssimas são como uma imensa faixa prateada, separando o verde-escuro da vegetação do lençol infinito das ondas cerúleas.

 

As praias mais notáveis da parte ocidental da Ilha estão situadas da capital para o norte, porque daí para o sul, tirando as do Zé Mendes, Saco dos Limões, Pregibaé, as duas Caiacangas — aliás insignificantes pelo lado pitoresco em comparação às outras — toda a orla do litoral é mais ou menos rochosa até à Ponta dos Naufragados. A praia do Zé Mendes, no entanto, de cerca de 400 metros, entre o outeiro da Trincheira e a ponta do Lobo, é de certo modo aprazível, flanqueada assim por esses altos e contornada ao fundo pela encosta do extremo meridional do Antão, onde se erguem as vivendas Gainete e Almeida, cujos jardins bem cuidados fazem frente na estrada, dominando a curva alva. Mansa e limpa como é, de fundo arenoso e sem pedras, a pequena enseada torna-se muito frequentada de famílias no verão, pelos banhos de mar.

 

Entre a ponta da Rita Maria e a do Estreito, onde se acha o forte de Sant'Ana, existe a praiazinha da Arataca, de 200 metros de extensão mais ou menos, talhada em forma de alfanje e pautando, com a sua barra de areias claras, a verde colina tapizada de grama que se eleva pouco e pouco até ao morro do Cemitério. É um sítio quase desabitado, mas de uma disposição geológica tão caprichosa e artística, assim encravado como está nesse sopé recurvo de outeiro, no agrupamento pitoresco de rochas que o fecham pelo sul e na placidez espelhada de suas águas, que dir-se-ia nele pairar como a espiritualidade de um desses recolhimentos marinhos, onde uma inexplicável poesia misteriosa, nascida da própria solidão e do vago, empresta às coisas um aspecto e uma expressão ideal.

 

Esse encanto da Arataca prende sobretudo aos marujos; e disso tivemos uma prova inequívoca, quando, uma vez, já há anos, no Desterro, referindo-nos à beleza natural da Arataca, ouvimos ao ilustre almirante Saldanha da Gama, as seguintes espontâneas e expressivas palavras: "Não sei que simpatia me arrebata por essa pequena praia. Tenho já viajado grande parte do globo, mas é ali que desejo acabar os meus dias. E para ali virei viver, certamente, apenas me reformar. Para mim não há outro lugar, em todo o mundo, mais propício à meditação e ao repouso de um homem encanecido na labuta do mar..."

 

Ao norte da cidade, das pedras Soeiro à ponta de São Luís, estende-se a Praia de Fora, longa de dois quilômetros e a principal de Florianópolis. Magnífica por sua paisagem e panorama marinho, descritos em pontos que já percorremos, é um excelente ancoradouro abrigado dos ventos do sul e a primeira estação balnear da capital, cuja população para aí acode, em parte, na época própria, habitando as casas da beira-mar.

 

Daí para cima segue-se uma série de pequenas praias que bordam o litoral até ao estuário do Ratones, praiazinhas quase sem importância, à exceção das de Santo Antônio e Sambaqui. No Ratones começa a vasta praia do Pontal, ligando-se à da Ponta Grossa, que por sua vez se une à de São Francisco ou de Canavieiras, e assim sucessivamente até ao cabo setentrional do Rapa, dobrando o qual se enfileira o grande costão de leste, todo orlado de cômoros que vão morrer em Naufragados.

 

Do Pontal para lá a constituição das praias muda completamente, passando do areião grosso amarelado, caracterizador das praias mansas em geral, como as de que nos temos ocupado até aqui, à areia fina das costas de mar grosso onde as ondas trabalham, batidas pelas correntes e ventos do largo, em perpétua rebentação. Esta areia é unida e socada na batente do mar, formando nela uma faixa plana, polida e ligeiramente inclinada, de uma tal consistência que as patas de um cavalo a galope mal conseguem imprimir-lhe um sinal, semelhante a um golpe resvalante de raspa. Mais para cima, porém, onde a vaga não quebra senão nas marés muito altas, as camadas se afofam numa granulação de farinha de mandioca e com uma alvura sem mácula até formarem essas lombadas em que vêm terminar as planuras, cobertas aí de uma verdura raquítica, babujada e tosada pelos ventos salitrosos do mar. Nessa altura a areia é tão leve e tão fina que voa à menor aragem, soltando, sob os pés dos que a sulcam, como um vago e sonoro tinido metálico, que deixa a impressão de se ir pisando sobre moedinhas de ouro ou de prata.

 

Entre a Ponta Grossa e a das Canas fica a praia de Canavieiras, com perto de quatro milhas de extensão, cortada em três partes de sua curva por altos cabeços de pedra e por vários riachos que só tem foz nas preamares, como o chamado do Meio, o do Canto, o do Pimentel e o do Brás. No tempo da pesca ao peixe de corso, principalmente à tainha, esta praia — entre outras, pelo seu comprimento — oferece um espetáculo apreciável, toda malhada aqui e além, junto aos ranchos, de grupos de pescadores, em frente aos quais esperam o momento dos lanços as grandes canoas de voga, carregadas à popa com o montículo pardacento das redes passando muito acima das bordas — os cascos negros de alcatrão erguidos sobre grossos rolos de madeira, a proa alterosa e em beque batida já da babugem das ondas...

 

Este porto constituiria um dos melhores ancoradouros da Ilha se não fora desabrigado, pois é bastante vasto e profundo e podem nele deitar ferro os maiores navios a uma amarra de terra, particularmente nas marés sizígias, em que há de 8 a 10 metros de água, na linha compreendida entre a ilhota dos Franceses e a Ponta das Canas. Entre essa ilhota e a ponta de São Francisco ou das Pedras, existe um canal de águas muito seguras de pouco mais de 80 braças de largo. A praia toda é abundante de conchinhas de feitio variado e do mais belo colorido, predominando sobretudo as brancas e as nacaradas, muito usadas para a confecção de flores artificiais desse gênero.

 

Passando Canavieiras, segue-se a praia da Lagoinha (no arraial das Canas) e a do Rapa, esta já dobrando para leste, no começo desse litoral de cômoros alvos, que lembra um retalho de areias saarianas. Tais faixas alvacentas, onde espumam vagas altas sulcadas de velas ao longe, são recantos de marinha e paisagem que fariam o encanto de aquarelas e quadros, se algum artista peregrinante as quisesse um dia apanhar.

 

A praia dos Ingleses, a das Aranhas, Lagoa, Campeche, Armação da Lagoinha, Pântano do Sul e a dos Frades, constituem outros tantos seios recurvos e brancos que, posto desabrigados, são também fundeadouros, a oferecerem repouso e refresco aos transeuntes errantes do Atlântico, esses barcos de vela saudosos que aí costumam aportar, uma ou outra vez, e cujos companhas cansados das fadigas do mar encontram, por breves instantes, um consolo e um conforto aos sacrifícios de sua vida aventurosa e amara, nesses risonhos povoados suspensos de colinas e outeiros, onde em cada lar obscuro se abrem sorrisos de afeto, carinhos hospitalares.

 

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Os cômoros, como é sabido, são formados nas costas desabrigadas pela força da corrente das barras dos rios e lagoas, pela das correntes marítimas e pelo contínuo revolver violento do ondular das vagas, auxiliados poderosamente dos ventos rijos do mar. Tal é a origem das dunas em certos pontos do litoral europeu, como na Holanda, França, Biscaia espanhola, etc.; na África e em várias penínsulas da Ásia; no Brasil em alguns estados do norte, e da Ilha de Santa Catarina para o sul até ao Rio Grande, na altura da foz do Chuí, como acima se viu.

 

A linha litoral do continente catarinense de Massiambu ao Mampituba é uma espécie de bordado de cômoros, ondulando em gigantescos tendões sucessivos, ladeados a oeste por um colar de lagoas ligando-se às vezes por pequenos ribeiros ou desaguando no oceano, que flanqueia a costa por leste. Do Mampituba para além as dunas prosseguem sobre esse enorme pontal que vai até à barra do Rio Grande, formando a Lagoa dos Patos pela extrema do Atlântico, lagoa que devera desenhar uma grande baía muito aberta, ou uma pronunciada reentrância de costa, em períodos geológicos remotos.

 

Os cômoros, na Ilha de Santa Catarina, principiam verdadeiramente nos Ingleses e seguem sempre para o sul, apenas interpostos aqui e ali pelos morros das pontas ou cabos até à enseada do Pântano. Elevam-se invariavelmente na parte alta das praias, do limite das preamares maiores para cima: têm uma forma de elipse alongada, o comprimento de 80 a 100 metros por 6 a 9 de altura; constituem-nos toneladas e toneladas de areia finíssima de uma alvura de cal.

 

Comumente, essas dunas pousam em retas ao longo das praias, separando-as das planícies por três ou quatro filas de fundo, sendo umas inteiramente imóveis, outras movediças com os ventos; rasteira vegetação, ou curtas sebes eriçadas, vestem às vezes as primeiras, nos cimos; mas as últimas são totalmente descobertas e nuas, semelhando de longe um granel colossal de farinha de trigo. Estas ondulam de tal modo, sob as ventanias enxutas do estio, que fazem trajetos incríveis, em novelos de pequenos simuns, obstruindo as saídas para a costa, abrindo outras muitas vezes, penetrando casinhas e ranchos que atulham com o seu pó fino.

 

Pela calma, porém, jazem quietas e firmes, e dão a essas curvas de portos um aspecto pitoresco, se bem que de uma aridez melancólica, contrastando vivamente com a verdura florejante das encostas e planos, onde as florestas e roças têm exuberâncias de vida.

 

 

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Os campos da Ilha são pequenos em geral e por isso não se prestam a fazendas de criação, que não existem verdadeiramente no Estado, senão na região de serra acima. Entretanto, são fartos e de abundantes pastagens, cortados de riachos e córregos, e alimentam gado suficiente para o consumo e serviços da lavoura. Ocupam, na maior parte, terrenos acidentados, encostas de colinas e morros, em cujos cimos se estendem apesar dos roçados e coivaras, que aumentam dia a dia, grandes matas seculares.

 

Dessas matas, compostas geralmente de madeiras de lei, como a peroba (amarela e vermelha), a garuba, o subraju, a tajuba, o guamirim-ferro, o olandim e tantas outras, saem os longos e grossos troncos de guapurubu e figueira de que se fazem as altas canoas de voga para quatro e seis remos, embarcações magníficas ali pela sua construção para a labuta do tráfico comercial e das redes, e cuja arqueação é às vezes de 100 a 200 alqueires. Estas embarcações, com as de remo de pá (de menor lotação e de tamanho variado), são as mais usuais em toda a costa, desde o Sabi ao Mampituba, porque as chamadas baleeiras são em número menor, e os botes utilizados somente no tráfego do porto nas cidades e particularmente no Desterro.

 

Os campos principais da Ilha pela sua amplitude e maior número de cabeças — gado crioulo exclusivamente, pois só na capital e no continente um ou outro proprietário abastado possui gado de raça, não falando em Lages, Curitibanos e Campos Novos, municípios serranos onde a indústria pastoril representa a riqueza própria e a mais considerável do Estado —, os campos principais são os do Ribeirão, Rio Tavares, Ratones e Canavieiras; os desta freguesia sobretudo pela sua vastidão relativa, tomando toda a área plana e cercada contra a costa que vai das colinas da Ponta Grossa ao sul, pelos morros da Rua Velha, Várzea Grande e Cachoeira até a Ponta das Canas, ao norte. Esta área é separada em duas terças partes pelo outeiro de São Francisco, ficando este perímetro maior de planura do lado setentrional e indo entestar por oeste com a praia de Canavieiras propriamente dita. Para o interior, dos montes da Várzea de Baixo para além, o campo se desdobra ainda ao longo do braço do norte do Ratones que banha a Rua Velha, no terreno compreendido entre este braço e o do sul, terreno raso e alagado, conhecido no sítio pelo Campo da Coroa em virtude do largo banco pantanoso que aí faz o rio, na vazante.

 

Os campos de Canavieiras — o Geral e o da Coroa — compõem-se de vastos trechos gramosos muito criadores, cortados pelas voltas dos rios que os sulcam e por numerosos banhados, dividindo-os também em certos pontos capões e florestas cerradas, que não atingem entretanto à altura das matas virgens dos morros, especialmente das matas da Várzea Grande, de onde saem os grossos paus para a construção de canoas. As árvores frutíferas que mais abundam nestes campos são em geral a goiabeira e o araçazeiro, de uma fecundidade prodigiosa, o último em tal profusão, na altura do Rio do Brás e Roça de Baixo, que faz com que os moradores da Rua Velha e cercanias deem ao local a denominação particular, mas característica, de Campo dos Araçás.

 

Nesta parte do campo, que é de um raro encanto paisagista pelas suas pastagens, onde o gado se aglomera em manchas de variado colorido de onde se avista o mar, ao longe, reluzindo como um imenso espelho azul enquadrado na verdura orlante da praia e na linha fugidia e saudosa das montanhas do continente fronteiro — reúnem-se aos domingos, pelo tempo da fruta, muitas famílias da vizinhança, moças e homens a pé, que animam com risadas alegres esses recantos tranquilos, passando entre as ramagens ou nos descampados de grama, em meio aos mansos animais, que os fixam sossegadamente, ruminando a erva fresca e refletindo o campo em torno nas grandes pupilas límpidas.

 

Quem olha esses grupos roceiros, tão descuidosamente felizes, amando-se com sincero afeto numa simplicidade primitiva, inveja-os e tem vontade de abandonar para sempre o mundo consumidor e hostil das grandes capitais, e deixar-se ficar sob aquela atmosfera sadia de pureza de amor, em que a vida é como um sonho de flores numa aventura de idílio.

 

 

 

Pequenos rios

 

A Ilha, com um comprimento de 10 léguas e a escassa largura de 9 milhas na parte mais ampla, da Ponta Grossa à dos Ingleses, e 3 no ponto mais estreito, entre as planícies do Ribeirão e a ponta da Armação da Lagoinha — oferece apenas duas insignificantes vertentes: a de leste e a de oeste, formadas do norte para o sul pelo espinhaço, cortado aqui e além de baixadas e vales, dos montes do Rio Vermelho, Lagoa, Moquém, Pau da Bandeira, Córrego Grande, Rio Tavares, Ribeirão e Naufragados. Dessas vertentes a mais abundante é a de oeste, voltada para o continente, de onde descem para uma e outra baía (a setentrional e a meridional) alguns ribeiros ou riachos, e entre eles os dois rios mais correntosos, únicos navegáveis ali — o Tavares e o Ratones, este já muito nosso conhecido. A vertente de leste forma os ribeiros do Rio Vermelho e do Pântano do Sul, não falando em os numerosos córregos sem importância, sendo o curso do primeiro de pouco mais de duas milhas e o do segundo de uma milha mais ou menos; este desaguando na enseada do mesmo nome por uma embocadura larga de 15 metros; aquele indo levar suas águas à Lagoa Grande. Em geral, as nascentes deste lado se vão perder todas nas três pequenas lagoas ao sul do Campeche e na Lagoa Grande cujas águas são engrossadas por elas. Aí, pois, na linha do litoral propriamente, não há mais ribeiros ou córregos além dos já mencionados, mas espécie de sangas estagnadas em pequenos trechos de planuras e baixos, em meio à fila dos cômoros, sem desaguadouro ou foz e invadidas pelo mar, uma ou outra vez, nas grandes marés.

 

O Ratones, como vimos, desemboca ao norte de Sambaqui, entre a ponta assim denominada e o Pontal, defronte aos dois ilhotes de onde lhe veio o nome. A sua embocadura é ampla de 60 braças, porém muito rasa, a tal ponto que, com a vazante, nela encalham pequenas canoas. Com tal largura se mantém mais ou menos até ao Poço das Pedras, desta forma designado por ser um dos sítios mais fundos do rio e pelo agrupamento de rochas que toma aí uma das margens.

 

Dessa altura para cima o curso se reparte em dois grandes braços — Pacaquara, que segue para o nordeste direito a Canavieiras, dividindo-se por seu turno em outros menores, denominados Várzea Pequena, Galego e Mafra; e o do Ratones que, tomando para sueste, se ramifica igualmente cm três outros pequeninos, o Veríssimo, o Costa e o Mateus Jorge[41]. Os dois braços maiores volteiam, com cerca de 6 quilômetros cada um, entre margens em geral lamacentas e rasas, cobertas de vastos lençóis de mangue, que dão uma monotonia à paisagem, com a sua altura sempre igual (3 a 5 metros no máximo) vestidos de folhas largas mas rareadas tecendo no alto como um vasto teto de verdura escura, sob o qual, através do enlaçamento dos troncos esbranquiçados, se vê o solo negro espapado, crivado de pequenos orifícios onde espiam os caranguejos.

 

Para os lados do Pacaquara, de longe em longe, fugidiamente, as barrancas alteiam um pouco — e descampados de grama aparecem, com pequenas macegas e moitas, pintalgadas por florzinhas silvestres junto a uma ou outra árvore isolada, verdejante ou meio seca, exibindo um álacre zimbório formoso de ramagens de esmeralda ou uma triste silhouette cinzenta de mortos galhos seculares, de onde pendem, num bolor de senectude, essas meadas melancólicas e crespas das "barbas-de-velho" chamadas, por entre as quais sorriem docemente as preciosas orquídeas catarinenses, com as suas pétalas cor de ouro ou azuis, viçosas e frescas, num imenso esplendor de alegria, como uma vaga ironia do campo à lenta agonia dos centenários colossos vegetais.

 

Do Furado[42] em diante até ao porto do Areias, na altura da larga ponte de madeira por onde a estrada geral atravessa em direção ao Bom Jesus e outros lugarejos — a paisagem é variada, mostrando pequenos recantos de igarapés que se insinuam até ao sopé de morros onde há quadrados de roças, pastagens e esguios ranchos de embarque. Descobrem-se em seguida, pela margem direita, sobre a ondulação das encostas, em meio de laranjais, bananais e cafezeiros, as primeiras casas da freguesia, enquanto à margem esquerda se estendem os planos do Campo da Coroa, de cuja situação parte o afluente do rio que vai banhar as terras da Várzea de Baixo.

 

Para o Ratones o rio coleia por entre planuras até às colinas do arraial, indo findar em cachoeiras nas vertentes do Moquém. A vegetação que o flanqueia é, como no outro braço, composta em sua maior parte de mangais, alternados em alguns pontos por barrancas elevadas onde se veem pastagens e macegais de arbustos.

 

Em toda essa várzea, que tem proximamente cinco milhas quadradas, o Ratones é bastante meandroso e subdivide-se ainda em minúsculos tributários, que dão passagem apenas a pequenas canoas. Vista do alto, do Moquém ou dos montes fronteiros, esta faixa de água serena assemelha-se a um monstruoso réptil negro reluzente, adormecido, em caprichosa sinuosidade, sobre basta alfombra verde.

 

No local das Piçarras — assim conhecido pela natureza do terreno — sobre uma das voltas do rio existe hoje uma ponte de madeira, por onde passa a nova estrada, ou melhor, uma antiga estrada reconstruída ultimamente, que vem da Várzea de Baixo em direitura a Santo Antônio, atalhando quase uma hora a enorme curva existente entre a primeira localidade e a última, pela velha estrada real.

 

Esse braço do Ratones é, por sua profundidade e largura, muito mais acessível a embarcações de pequeno porte que o de Canavieiras. Daí o seu maior movimento fluvial, que consta de canoas de voga e outras, botes e lanchões de 15 a 20 toneladas, todos em contínuas viagens de comércio entre o Desterro e o arraial.

 

O Rio Tavares tem as nascentes no contraforte dos morros do mesmo nome com os da Lagoa e corre na planície que fica entre esses montes e os da freguesia do Ribeirão, indo desaguar nas proximidades de Pregibaé, ao norte da ponta de Caiacanga-mirim, na baía do sul, por um estuário de 20 metros de largo. Referindo-nos a este rio, quando tratamos do arraial que assenta em seus planos e margens, dissemo-lo parecer mais um braço de mar do que propriamente um rio. Tal proposição é perfeitamente justificável, porquanto a configuração do terreno, muitíssimo deprimido aí, como em outros pontos da Ilha, assim claramente o indica. A esse respeito vejamos o que diz com incontestável competência e exame detido do local o almirante Justino de Proença, ocupando-se da formação geológica da costa catarinense no seu útil trabalho hidrográfico — O melhor porto ao Sul do Brasil, publicado em 1884: "A própria Ilha de Santa Catarina, não há muitos séculos, deveria necessariamente ter sido dividida em duas grandes ilhas, uma da baixada central do Rio Tavares para o norte e outra daí para o sul..."

 

O rio tem de extensão de 6 a 8 quilômetros e a profundidade média de menos de 1 metro. Como via de comunicação, posto seja muitíssimo inferior ao Ratones, que serve a quase toda essa região de Sambaqui para norte, excetuando os povoados da beira-mar sem falar em Canavieiras; como via de comunicação, repetimos, é a principal do arraial, que por ela envia todos os seus produtos de lavoura para a capital, pois só uma pequena parte desses produtos vai em cargueiros pela estrada geral.

 

A vegetação de suas margens compõem-se a bem dizer de mangue, apenas em um ou outro sítio de seu curso, abrem-se por vezes trechos alegres de prado com algumas matas e capões, onde predominam as içaras de esguias hastes altíssimas com o seu penacho de fitas tremulando na aragem. Em frente ao povoado, desenrola-se o panorama das colinas e morros, em que as culturas, nos seus retalhos divididos pelas cercas, enchem as encostas e baixadas de um esmeraldino outonal.

 

Daí para leste são gramados e gramados na planura rasgada, desafogando-se para o Atlântico até à linha alvejante dos cômoros da Lagoa do Campeche. Os banhados reluzem nesses campos, entre a tiririca amarelada, as moitas e os vassourais, rareados para a costa pelas areias estéreis e os ventos rijos do mar.

 

O Rio Tavares só é navegável até à altura cm que passa a estrada circular que vem da capital, atravessando o arraial onde existe uma ponte desdobrando-se depois em direção à freguesia da Lagoa. Seu movimento de tráfico é muito menor que o do Ratones, e ainda assim aumentado em grande parte pela frequência das embarcações dos curtumes da capital, que vão ali se prover de folhas de mangue para a preparação do couro, bem como pelas viagens constantes das canoas empregadas no serviço de caieiras, que do Saco dos Limões e de Pregibaé aportam às suas margens para o corte do mangue de que fazem grandes barcadas.

 

O mangue, como tivemos ocasião de ver, é o combustível mais utilizado na queima dessas caieiras, por sua abundância na embocadura e barrancas de rios e por seu fácil alcance e condução.

 

Nas margens desses rios deparam-se variadas espécies de aves ribeirinhas, de belo porte e plumagem, entre as quais mais comumente se distinguem a garça, o irerê e o martim-pescador. Ictiologicamente, porém, pouca ou nenhuma importância têm; contudo neles às vezes se encontra, em grande quantidade, a "tainha de rio" chamada, que é apanhada à tarrafa ou pelo sistema do pribembó ou prebembó, como o denominam os pescadores.  

 

O prebembó, a que assistimos muitas vezes, é bastante curioso: o pescador, em uma canoa pequena ou de remo de pá, entra a subir ou descer o rio, junto a uma das barrancas, pelas marés de enchente, remando muito de manso; e onde pressente que há peixe mergulha de repente o remo, com uma pancada estrídula. O peixe assustado salta, e cai, aos três e aos quatro (ou em maior porção, se é em grande cardume) na canoa. Restabelecido o silêncio, o pescador continua a remar mansamente, acompanhando o magote que foge, repetindo oportunamente a pancada do remo até conseguir um bom número de peixes.

 

Esta pesca só se pratica à noite e constitui um dos recursos da pobreza, que não pode descer até às praias a tomar parte nas redes.

 

O prebembó catarinense não é senão a "xeripana" ou "giribana" amazonense, de que fala José Veríssimo à pág. 108 de sua ponderosa mo­nografia A pesca na Amazônia, publicada em 1895; com a diferença, po­rém, de que no primeiro emprega-se o remo para fazer saltar o peixe e na segunda a fronde da "giribana", palmeira muito abundante naquele Estado do norte.

 

 

 

As duas baías

 

A importantíssima posição hidrográfica de Santa Catarina tem sido larga e repetidamente assinalada e louvada pelos mais ilustres navegantes, desde as primeiras explorações marítimas nas costas da América do Sul até à atualidade. As suas duas excelentes baías talhadas entre o pitoresco recorte do continente e da Ilha, além de oferecerem dois vastos portos, que virão a ser de primeira ordem e dos melhores do mundo se lhes fizerem os pequenos melhoramentos de que carecem, conforme já se está procedendo no baixo do Tabuleiro à baía do norte, apresentam mais no seio de seus numerosos sacos ou enseadas uma infinidade de pequenos ancoradouros como não há em todo o Brasil, em muitos dos quais podem fundear os maiores navios, sobretudo nos da parte compreendida à entrada da barra setentrional na linha dos Ratones à Santa Cruz (Anhatomirim) incluindo os surgidouros das Caieiras e Sambaqui. Estas baías são ligadas ao fundo pelo Estreito, que faz delas como um longo e magnífico canal contra a terra firme, da extensão de toda a Ilha (30 milhas), canal que começa na ponta do Rapa, ao norte, e acaba na dos Naufragados, ao sul.

 

Sobre o valor destes dois portos é conhecido o que deixaram consignado em seus valiosos roteiros e cartas os notáveis navegantes estrangeiros Mouchez, Roussin, Barral, Krusenstern, La Perouse, Fitz-Roy, Pimentel, o "old portuguese navigator", como o chamavam os ingleses, e o que têm dito, em documentos do mesmo gênero e outros estudos de especialistas, os ilustres oficiais de nossa marinha de guerra, Barão de Tefé, o almirante João Justino de Proença e o capitão-de-mar-e-guerra Calheiros da Graça.

 

Vejamos, porém, a tal respeito o que expõe Proença na sua já citada obra O melhor porto ao Sul do Brasil. Logo às primeiras linhas assim se exprime o notável catarinense: "De todos os tempos o porto de Santa Catarina foi considerado, pelos mais abalizados navegantes, historiadores e militares, como um dos principais da América do Sul, não só pela franqueza completa e absoluta de sua barra, como pelos numerosos abrigos, angras, abras e enseadas que existem dentro das duas grandes baías que ficam entre a Ilha daquele nome e a terra firme." Mais adiante acrescenta. "Os portugueses desde o século XVII, tanto compreenderam a grande vantagem deste enorme seio de Abraão, que mandaram construir várias e importantes fortalezas, tanto na barra do norte como na do sul, além de alguns fortins e trincheiras, cujos vestígios ainda hoje se encontram nas terminações das praias ou nas barretas das lagoas." E continua: "A história menciona os nomes dos grandes exploradores Cristóvão Jaques, Gonçalo Coelho, João Dias de Sólis, Sebastião Caboto, Gonçalo Garcia e Álvaro Nunes Cabeça de Vaca, os quais, logo depois de descobertas as costas brasileiras, quando não havia cartas nem roteiros, estacionaram ou transitaram pela Ilha e pela grande e imponente baía dos patos mais tarde conhecida, em alusão ao estreito que tem entre as baías do norte e do sul, pelo nome de Yjuriré-mirim."

 

É do porto sul do Desterro que nos vamos ocupar em primeiro lugar. Esta baía tem quase a mesma configuração e proporções da baía do norte, posto lhe seja inferior em o número de ancoradouros, posição de abrigo e barra, que é consideravelmente menos franca e mais estreita que a da última.

 

Este pequeno golfo tem uma forma alongada, correndo na direção norte-sul, com a extensão de 15 milhas por 3 a 5 de largura, no seu maior seio, extensão que vai das pontas do Estreito às da barra do sul, pontal de Massiambu e Naufragados. A barra do sul porém, nauticamente falando, é a passagem de cerca de 300 metros que existe entre a última ponta mencionada e a ilha da Fortaleza. Pelo sul desta ilha, separadas apenas por dois canais de poucas braças e cheios de pedras alagadas, um dos quais conhecido por Porta da Barra[43], estão as ilhotas denominadas Papagaio Grande e Papagaio Pequeno, que defrontam a oeste com a enseada de Araçatuba e a ponta da Pinheira, onde há uma ampla entrada, ou saída, para aquela enseada, acessível aos maiores navios, por ter de 5 a 6 braças d'água[44].

 

Daí para o norte, pelo lado do continente, seguem-se vários ancoradouros até ao porto do Desterro, já na Ilha, e o principal da baía do sul. Sobre esses fundeadouros damos ainda a palavra ao almirante Proença, que os estudou pelo modo seguinte, no seu mencionado trabalho:

 

"Na baía do sul, temos, a começar do Estreito, o ancoradouro dos Coqueiros, na parte que fica entre o mesmo Estreito e a ponta de José Francisco, muito fácil de melhorar, com profundidade atual de 12 a 20 pés, e bem digno da atenção dos que procuram o melhor porto da província.

 

Há, seguindo para o sul, o saco de São José, suficientemente espaçoso, e onde já existe uma cidade regular, ponto de chegada das estradas das colônias e outras povoações do interior. Temos mais o saco de Marui, e adiante a enseada de Brito, já perto da barra, onde atualmente podem ir navios de 14 pés, e mesmo onde poderiam chegar de 20 e mais se lhe fizessem os indispensáveis melhoramentos, que poucos seriam, pois a extensão a escavar é insignificante.

 

Enfim, junto à barra, temos a bela várzea de Massiambu, com um porto facílimo de satisfazer a todas as necessidades do comércio marítimo, pois desde já pode receber os maiores navios do mundo, visto como a sonda assinala de 40 a 50 pés.

 

Com uma despesa de pouca monta, o porto de Massiambu será incontestavelmente um dos que ofereçam melhores condições para o fim que se tem em vista[45]. Aí ainda existem os restos de uma ponte ou trapiche, que há seis anos (1877) foi construída com o fim de receber os maiores vapores do oceano, e neles diretamente embarcar o gado que viesse do Rio Grande e do interior de Santa Catarina para o consumo do Rio de Janeiro. A empresa desorganizada, nada se fez; mas o ponto de embarque nunca lhe causou nenhuma dificuldade, pois não poderia ser melhor escolhido".

 

Com relação ao ancoradouro da capital, diz também o citado almirante: "Há ainda o porto do Desterro, que com maré ordinária recebe navios até 12 pés; e em condições extraordinárias, nas marés sizígias, poderá recebê-los de 14 e mesmo de 15 pés."

 

A navegação de navios de vela e vapores de porte comum faz-se, nestas águas, com a maior facilidade e sem prático, pelos dois principais canais da baía — o de dentro ou do Ribeirão, que passa a leste da ilha do Largo e da dos Cardos em direção à barra do sul, e o Grande ou do meio, que corta por oeste das referidas ilhas. Em ambos estes canais acham-se perfeitamente assinalados por balizas e boias os pontos perigosos, como as lajes de Caiacanga-açu, Cação, Passagem e Corcorocas, o banco das Tipitingas e a Coroa de Massiambu. Os navios estrangeiros que aí vão pela primeira vez costumam tomar um prático de entre barras para a entrada e saída; qualquer mareante, porém, poderá dispensá-lo, como fazem os portugueses e nacionais em geral, se estiver munido das excelentes cartas hidrográficas das duas baías, levantadas em 1863 pelo Barão de Tefé, as quais, além de todas as instruções para a boa e segura navegação nesses pontos, trazem nas respectivas notas como um minúsculo mas admirável roteiro, que desce até à minuciosidade de determinar a posição precisa de mínimos locais.

 

A baía do sul, sobre cujas águas se debruça Florianópolis, na bela curva litoral que vai do extremo do Estreito ao extremo do Zé Mendes, quase ao centro da costa ocidental da Ilha, é animada por um movimento marítimo que não existe em nenhum dos outros portos do Estado, nem mesmo nos mais comerciais, como o da Laguna, Itajaí e São Francisco, este possuindo vastíssimo ancoradouro e o mais fundo dos recessos abrigados da costa, de Santos para o sul, podendo receber as maiores embarcações do globo. Visitado semanalmente pelos vapores das linhas costeiras da República nas suas frequentes viagens da Capital Federal para o sul até ao Rio da Prata, o porto do Desterro é escala de toda essa navegação, circunstância que, unida ao trânsito da pequena e grande cabotagem sulista e ao dos navios estrangeiros de longo curso, mantém sempre em sua rede um grupo de navios de vela à carga e descarga, o que não é observado, à exceção de Santos e dos portos do Rio Grande, nas outras cidades litorais vizinhas. O movimento das pequenas embarcações do tráfego — lanchões, botes, lanchas, baleeiras, canoas de voga e outras — esse então é maior do que o de todos os portos mencionados, excluindo os da Lagoa dos Patos no Rio Grande do Sul, únicos que lhe são superiores.

 

O tráfego no porto da capital catarinense é bastante avultado, pelas comunicações marítimo-comerciais que existem entre essa cidade e as localidades das enseadas próximas, quer na Ilha, quer no continente. E vezes há em que esse movimento atinge proporções extraordinárias, como por ocasião da safra de certos produtos do Estado, ou quando a feira bissemanal dos colonos alemães coincide com a estada no porto de navios de guerra, ou com a entrada ao mesmo tempo de dois ou mais paquetes da carreira. Isto sem falar nos três ou quatro vapores platenses que durante todo o inverno se ocupam, em duas e três viagens mensais, no comércio exclusivo da banana; sem falar ainda na frota de iates da Laguna, que, uma vez por mês aborda o ancoradouro com cargas de cereais.

 

O porto de Florianópolis e todos os da baía do sul são abrigados e plácidos na maior parte do ano, em que reinam quase sempre os ventos do quadrante do norte; e só pela quadra invernosa é que eles, voltados para o sul como estão, se apresentam revoltos e com mar esparcelado, batidos pelos ventos desse lado que sopram às vezes furiosamente, acompanhados de aguaceiros ou pequenas tormentas. Em geral, porém, esses fenômenos meteorológicos são rápidos, dando e passando logo, perdurando contudo se o vento ronda para leste, o que produz então verdadeiras tempestades que tomam dali para o sul o nome característico e muito conhecido de lestadas.

 

Essas lestadas açoitam frequentemente nessa quadra, toda a costa de Santa Catarina e Rio Grande, atingindo de anos a anos intensidade excepcional, ao ponto de se pararem em terríveis ciclones que tudo devoram e arrebatam no mar. Por fenômenos dessa ordem tem sido vitimado desde tempos imemoriais esse vasto litoral desabrigado, impressionando-nos ainda hoje dolorosamente a célebre borrasca que de 11 para 12 de julho de 1887 se desencadeou sobre essas paragens, especialmente na barra e costa rio-grandenses, onde vários navios estrangeiros deram à praia, soçobrando entre eles o paquete nacional Rio Apa, que dois dias antes largara do Desterro para o Rio Grande com avultado número de passageiros, os quais nele pereceram, bem como toda a gente que o tripulava.

 

É memorável também em Santa Catarina, além de muitas outras, a violentíssima lestada ocorrida em 1838, a qual fez ali sinistra tradição, sob o nome ainda hoje relembrado com emoção pelo povo de — temporal de março. Narra-a assim, lacônica mas expressivamente, Almeida Coelho, às páginas 188-89 de sua Memória Histórica:

 

"No ano de 1838, nos dias 9, 10 e 11 de março foi a Ilha, e toda a costa da província, acometida de um temporal de chuva e vento da parte de leste tão rijo que abriu enormes rasgões pelos morros: quase toda a lavoura ficou rasa; todas quantas pontes havia desapareceram: na capital rebentaram olhos de água mesmo em terrenos muito elevados: algumas casas foram arrasadas e conduzidas ao mar pela força das águas: na freguesia de Nossa Senhora das Necessidades, mais conhecida por Santo Antônio, desapareceu a casa, aliás bem construída, do tenente Joaquim José da Silva, e conjuntamente com ele ficou sepultada toda a sua família, composta de onze pessoas; na várzea do Ratones outra casa com a família de João Homem teve a mesma sorte; em demais lugares da província consta que houve outras vítimas. O mar tornou-se, em grande distância da terra, vermelho do muito barro, que recebeu; e mal se viam boiar em algumas partes animais, ou a fortuna de muitos lavradores. Muitas famílias ficaram reduzidas à penúria e miséria. Embarcação houve no porto da cidade que virou a quilha para cima. No último dia, porém, permitiu a Suprema Providência que começasse a calmar o temporal; e só assim, porque a continuar por mais 48 horas, de certo apareceriam depois sobre a costa, especialmente da capital, só montões ou ruínas, e tal ou qual edifício. Mal se pode calcular o prejuízo da província e menos julgar do valor das terras que se tornaram inúteis..."

 

 

 

*        *        *

 

A baía do norte é mais ampla que a do sul, mas tem menos extensão que esta se a observarmos do Estreito à altura nauticamente considerada a barra, que fica na linha de Anhatomirim à Ponta Grossa. Examinada, porém, tal extensão entre o primeiro dos lugares citados e as pontas que formam a verdadeira entrada, isto é, o seu extremo com o oceano, as duas, pode dizer-se, equiparam-se.

 

No seu contorno geral, a baía do norte difere bastante da outra, pois contemplada em uma carta hidrográfica como as de que nos temos utilizado no presente trabalho[46], apresenta o desenho de uma espécie de gigantesco canjirão sem asa, o bojo torto e em recorte, alargando-se para o sul pelos dois seios da costa até ao Estreito, o gargalo talhado pela convexidade do Pontal e a da Caeira, a boca abrindo para a Praia da Fazenda, Ponta da Armação e das Canas, onde o bico se esboça para leste na praia de Canavieiras, em linha descendente que vem morrer na ponta de São Francisco, em frente à ilhota dos Franceses. Esta contornação singular salta aos olhos do observador, principalmente no magnífico mapa de von Hoonholtz.

 

Conforme dissemos anteriormente, esta baía é em tudo superior à do sul, que possui entretanto boas condições hidrográficas, reconhecidas pelos mais notáveis marítimos nacionais e estrangeiros; e a sua superioridade sobre aquela, além do grande número de ancoradouros abrigados e fundos, é a de oferecer entrada absolutamente franca a todos os navios, ainda os de mais alto bordo, mesmo de noite e com as maiores borrascas. Semelhante vantagem é de tão grande monta que devemos observar o modo por que a encarece o almirante Proença ocupando-se deste porto:

 

"Quando nós, os homens do mar, dizemos que um porto é bom, é excelente, levamos logo no primeiro plano da nossa atenção, e antes de tudo, a sua entrada, a facilidade de demandá-la e de penetrá-la. Uma vez, porém, que é vasto e seguro, mas a respectiva barra oferece obstáculos naturais e dificílimos de remover, ela se torna vulgar, irrecomendável e sem importância saliente, visto como, nessas condições o litoral de todos os continentes está bem fornido de portos; mas um abrigo seguro e com entrada fácil de demandar, e fácil de penetrar, é que, por ser raríssimo, tem o carimbo de valor subido; e tanto que, desde a mais remota antiguidade, a mão do homem sempre entrou em dilatada escala no melhoramento dos portos.

 

O Senado de Cartago decretou e mandou construir molhes e diques para o abrigo de sua florescente marinha; e antes mesmo de começar a terceira guerra púnica, aquele povo de heróis escavou no interior da terra um novo porto, à semelhança de doca, que fez os tormentos de Cipião Emiliano, e foi, com a rival de Roma, completamente destruído. Custosas obras, de um esforço próprio de tiranos, se fizeram em Tiro, Sidônia, na Assíria, em Roma, em toda a parte, em todos os tempos. Evitar esses esforços, que hoje correspondem a grandes despesas, é alvo que só podemos atingir com portos naturalmente quase completos, como o de Santa Catarina". (O melhor porto ao Sul do Brasil, págs. 10 e 11).

 

Prosseguindo nestas considerações, e aludindo à entrada franca da baía do norte mesmo em ocasião de temporais, consigna ainda o experimentado profissional:

 

"Todas as embarcações, pois, mesmo as que se acham em grande distância, correm a abrigar-se no ancoradouro da barra do norte de Santa Catarina, sempre pronto a recebê-las, debaixo de qualquer tempo, a qualquer hora, e em quaisquer circunstâncias que sejam. Que sensação agradável, que prazer compensador não é aquele que sente o coração do marinheiro, quando, tendo consumido dias e noites na luta titânica dos elementos desencadeados, avista aquele alteroso Arvoredo, as altas cumeadas do Ribeirão e do Cambirela, e, fazendo direta rota, com suma confiança, para o imenso claro que se lhe apresenta, vai vendo aquelas montanhas se lhe crescerem, aquelas ilhotas se lhe aproximarem, aquele mar encravado substituindo o mar tempestuoso, e depois, os habitantes pelas praias, as plantações espalhadas pelos morros, e afinal o abrigo, o ambicionado abrigo, sonho do seu navio já meio desmantelado, da sua equipagem já meio morta de fadiga! Nos ancoradouros dos Ratones, de Sambaqui, das Caieiras, do Saco de São Miguel, da Praia de Fora, dos Barreiros, da Ponta do Leal, enfim, do Desterro, tudo sorri ao marinheiro! Uma vez reconhecida a terra, pelo alteroso da Ilha, pela posição do Arvoredo e seu farol, o ingresso em Santa Catarina é infalível, completamente infalível... Inúmeros são os navios, e inúmeras as vidas que têm sido salvas, mediante a felicíssima posição hidrográfica de Santa Catarina, sem dúvida admissível uma das melhores do mundo".

 

Os fundeadouros da baía do norte, contidos no litoral da Ilha, e entre os quais ocupa o primeiro lugar o de Sambaqui, já foram descritos por nós em passagens anteriores, desde a Praia de Fora ao sul, até Canavieiras ao norte. Resta-nos agora dar uma ideia dos que se acham colocados na parte do continente, entre a Ponta da Armação e o Estreito, bem assim dos que demoram a meio do canal, como os do Ratones e Santa Cruz, este último chamado tecnicamente surgidouro de franquia.

 

O Saco da Armação, posto fique já para dentro de pontas, está situado fora da barra, a qual se limita, como acima se viu, ao ponto da baía fixado entre Anhatomirim e a Ponta Grossa. Cavado fundamente na costa, este saco tem a frente voltada para o sul e apresenta a profundidade de 12 a 21 pés na baixa-mar das marés sizígias, oferecendo acesso aos maiores navios, que podem ancorar a duas amarras da praia, defronte à capelinha da Piedade. Esta capela levanta-se em um alto, em meio às casas do arraial, e foi construída em 1746, quando aí se fundou o primeiro posto de pesca da baleia, chamado a Armação Grande e de que eram concessionários o contratador Tomé Gomes Moreira e mais sete negociantes da praça de Lisboa[47].

 

A poucas braças de Anhatomirim está o porto das Caieiras, de 9 a 22 pés de profundidade, muito visitado sempre pelos navios de longo curso que demandam à costa para refrescar, e particularmente dos grandes baleeiros à pesca no hemisfério austral. Desabrigado dos ventos do sul, sueste e sudoeste, este ancoradouro poderá vir a ser de primeira ordem se lhe correrem desse lado um pequeno quebra-mar ou docas, pois a sua posição, à meia milha de Santa Cruz, é das mais notáveis entre todas nessa parte do litoral.

 

Mais para dentro, encontra-se a enseada de São Miguel "e a belíssima esplanada dos Barreiros que fica entre a ponta da Serraria e a dos Três Henriques, com vasta extensão de terreno para uma das maiores capitais do mundo: aí a profundidade é ordinariamente de 11 pés, puro lodo, oferecendo também excelente abrigo e magníficos pontos para a construção de docas, fazendo-se-lhes alguma escavação”[48].

 

O ancoradouro de Santa Cruz, defronte à ilha do mesmo nome ou Anhatomirim e o Pontal, mais para aquele lado sobretudo, constitui um dos melhores surgidouros do Brasil e do mundo, pois tem água para as embarcações de maior calado que é possível construir-se (22 a 35 pés, fundo de areia e lodo) e é nele que costumam ancorar os grandes couraçados das esquadras estrangeiras e os da nossa, quando visitam essas plagas.

 

A pequena distância de Santa Cruz, para o sul, estão os ilhéus dos Ratones, onde, pela banda de oeste, se depara o surgidouro de igual designação, com a profundidade de 15 a 18 pés. Desta altura por diante, em direção à capital, o fundo começa de diminuir até um pouco ao sul dos Guarazes, onde, com a proximidade do Estreito, a sonda entra a marcar outra vez maior profundidade.

 

Tal diminuição de fundo, que vai de 12 a 8 pés, e toma toda a parte central das águas da baía, justamente no canal de navegação da barra a Florianópolis, é formada pelo baixio denominado Tabuleiro, o qual apresenta um verdadeiro in passe, nas marés baixas, aos navios que demandam aquele porto, tornando assim secundária a posição hidrográfica da capital catarinense em relação aos outros portos salientes da costa do sul, como Santos, Paranaguá, São Francisco e Rio Grande, em que a profundidade mínima é de 5m de água, calculada pela da barra deste último porto.

 

O Tabuleiro, porém, é de fácil remoção, pois formam-no apenas uma camada de lodo tênue de 0,3m de espessura e abaixo dela uma outra de argila pegajosa, grossa de muitos metros. Estas camadas não assentam sobre rocha, como a princípio se supunha, mas aprofundam-se constituindo todo o leito da baía, conforme o tem determinado a sonda geológica; e isto é uma garantia de que as obras hidráulicas, presentemente em execução aí, virão a dar os melhores resultados.

 

Foi com a organização, em 1895, do serviço dos portos marítimos, que o Governo Federal resolveu mandar proceder à desobstrução do Tabuleiro, funcionando desde essa época até agora, a comissão de melhoramentos do porto, que trabalha sob a direção competente do engenheiro Dr. Fausto de Sousa. Essa comissão, porém, por falta de material necessário, apenas logrou realizar até ao presente a fatura de 5 quilômetros de canal com 40m de largura e 4,5m de profundidade. Dizemos apenas, porque, nesse espaço de cinco anos, as obras deviam achar-se já prontas, se a comissão dispusesse, como fora para desejar, de todo o material preciso. Mas assim não tem sido, porquanto as dragas empregadas no serviço são em número insignificante e só podem fazer esse serviço muito lentamente, interrompendo-o, às vezes, quando necessitam reparos.

 

O atraso em que se acham os trabalhos é devido, portanto, à insuficiência do material flutuante, que consta, conforme os dados exatos que a tal respeito temos, de duas dragas de alcatruzes, dois rebocadores e cinco batelões, servindo as demais embarcações, como botes, baleeiras e outras, para pequenas diligências, transporte de pessoal, etc. Uma das dragas escava 150m3 por hora, e a outra apenas 50m3. Como se vê, o material é insignificante, particularmente nas suas peças principais — dragas e batelões, sendo que das primeiras só uma tem boa força escavante, e dos segundos nem um só é a vapor, carecendo por isso de reboques contínuos para o bom desempenho de suas funções.

 

Daí a lentidão das obras, que, com as proporções do canal (11 quilômetros de extensão, pela largura acima apontada e a profundidade de 6m fixada no projeto) não poderão ficar prontas senão daqui a seis anos pelo menos, a calcular pelo trecho preparado até agora, mas ainda por concluir, pois que por conveniências do serviço, não atingiu de vez a altura exigida. E isto, caso o material existente venha a ser renovado e reparado convenientemente, do contrário o melhoramento jamais terá fim.

 

A comissão dispõe, para os reparos de todo o material flutuante, de uma pequena mas bem montada oficina, funcionando conjuntamente com o escritório em um próprio federal, novo e de moderna construção, sito no arrabalde da Praia de Fora, à Rua Almirante Lamego. O prédio dá fundos para o mar, sobre a linha do cais de onde parte um trapiche de 50m de longo, com trilhos e vagonetes para o embarque e desembarque de peças de ferro ou volumes, e destinado ao serviço das embarcações. Nesse trapiche acha-se colocado o marégrafo.

 

A oficina possui os seguintes maquinismos: 1 motor a vapor, 2 tornos, 2 aparelhos de furar, 1 de aplainar, 1 de atarraxar, 1 serra circular, 1 forno para fundição de ferro, 1 dito para fundição de bronze, 2 forjas e grande quantidade de outros pequenos instrumentos.

 

O canal em escavação é reto e corre na direção norte-sul. Garante o íntegro profissional que dirige os trabalhos, e cujos méritos muito acatamos, que, pronto esse canal, de conformidade com o traçado do respectivo projeto, ficará de eterna duração, uma vez que se mantenha em seu serviço, e cm perfeito estado, uma draga possante.

 

Se assim for, como parece virá a ser, caso o governo da União continue a prestar, mas com mais eficácia, o apoio de que carece o grande empreendimento, tornando-o extensivo depois à baía do sul — o Estado de Santa Catarina poderá, dentro em pouco, jactar-se de possuir nessas duas baías, além do excelente e majestoso porto de São Francisco ou de Babitonga, dois dos melhores ancoradouros do Brasil e do mundo, e que poderão abrigar então verdadeiramente, como disse o almirante Proença, "todo o material flutuante do comércio marítimo do globo e agasalhar 5.000 navios de grande porte fundeados, ou 20.000 se estiverem amarrados ou em docas."[49]

 

 

 

Ilhas e ilhotas

 

Pequenas ilhas e ilhotas cercam a Ilha de Santa Catarina, quer do lado do oceano — ao norte, a leste e ao sul —, quer nas águas das duas baías. E é neste ponto da costa que tais minúsculas porções de terra e granito se aglomeram em maior quantidade no Estado: assim como é do Rio de Janeiro para o sul até essas paragens que o vastíssimo litoral brasileiro se apresenta verdadeiramente povoado de ilhas, pois daí para o norte até ao Pará, à exceção da Caviana, Marajó — a maior do Brasil — e outras pequenas em torno; Maranhão, Fernando de Noronha, já bastante avançada no Atlântico (não falando na Trindade, isolada do continente a centenas de milhas, na direção leste do Espírito Santo) Itamaracá, Itaparica (outras ainda menores na Bahia) e os Abrolhos, — toda a costa é pobre dessas fragmentações geológicas e rondada apenas, aqui e além, paralelamente, por um cordão de rochas imersas ou emersas, que começa no Recife.

 

As ilhas e ilhotas adjacentes à de Santa Catarina oferecem, como esta, em sua maior parte, uma forma alongada e esguia, ampla aos extremos setentrionais e estreitíssima nos opostos, à maneira da América do Sul, em cuja costa oriental se alinham.

 

Tal singularidade de contorno, comum a todas as terras — ilhas ou massas continentais — do hemisfério do sul, em contraste perfeito com as imensas superfícies sólidas da Europa, Ásia, América do Norte e mais de metade da África, acumuladas no outro hemisfério, tem impressionado a mais de um espírito eminente que há tentado estudá-la. E Oliveira Martins, o notável cientista português, falando da distribuição e contorno dos continentes e ilhas, na introdução ao seu admirável tratado de etnologia As Raças Humanas, nota essa singularidade, comparando a configuração das terras de um e outro hemisfério no seguinte parágrafo que vem à página 14 desse livro:

 

"Estes três segmentos da terra são comumente divididos em cinco partes — Europa, Ásia, África, América e Oceania — cada uma das quais tem, com efeito, traços característicos suficientes para a individualizar. Mas o que o observador principalmente nota é a maior superfície dos continentes no hemisfério Ártico, o predomínio dos mares no oposto. Ao norte do Equador há vastas planícies, zonas temperadas, largos tratos de terra acessível, contornos variados, um mar que se insinua repetidamente em golfos, baías, pequenos oceanos, formando ilhas e penínsulas, arejando a terra, facilitando as relações e o contato sobre a água que é o tipo dos veículos. Ao sul, há continentes esguios, erriçados de serras no litoral, como que a vedar-lhes a respiração para o mar, compactos, sem desenvolvimento, nem variedades, nem articulações nas formas exteriores, monótonos no contorno, breves na largura...”

 

Mas qual a razão do afilamento dos continentes e pequenas ilhas, em geral, nesta metade antártica do globo? Naturalmente o predomínio dos mares, o qual, por sua vez, obedece a causas geológicas desconhecidas ou que a ciência até hoje não pôde ainda determinar.

 

As ilhas e ilhotas que cercam à de Santa Catarina são em número superior a trinta, e delas se destaca, como a maior e mais considerável, a do Arvoredo, situada à entrada do norte, quase a duas léguas da ponta do Rapa. Esta ilha tem de extensão duas milhas, por uma na sua maior largura: é, como o próprio nome o diz, coberta de espessa e alta vegetação, em muitos trechos verdadeiras florestas seculares onde se encontram excelentes madeiras de lei, das quais se extraiu, outrora, se bem que simplesmente para experiências, material para a construção no Desterro de um iate ou navio de alto bordo. Deserta até certo tempo, a ilha é hoje habitada pelo pessoal do farol e suas famílias, e frequentada sempre por canoas e baleeiras que, saindo das proximidades do continente e da Ponta das Canas, Canavieiras e Ingleses, ali se juntam de inverno, para a pesca da enchova, que vai de junho a setembro.

 

Por duas ou mais vezes visitamos essa ilha, que demora a 33 milhas da capital, excursionando por toda ela, como ainda sucedeu em 1887, quando ocupávamos o cargo de secretário da Capitania do Porto da província. Dessa última visita guardamos ainda no espírito a agradável impressão que vamos tentar reproduzir ao leitor nos períodos abaixo.

 

Seriam sete horas da manhã, quando o Lomba, pequeno rebocador da nossa marinha de guerra ao serviço da Capitania do Porto, entrou a colher as amarras à baía do sul, junto ao antigo forte de Santa Bárbara, no ancoradouro do Desterro. Tinha cessado o garoar de um dia chuviscoso, sem o brilho de ouro do céu, que, pardacento, vertia uma claridade branda e vaga, da tonalidade uniforme das meias-tintas. Uma forte mancha de azul lavado e nítido cintilava ao longe, na linha do horizonte, para as bandas do sul; e. em redor, as montanhas altas, frescas e úmidas na sua verdura escura, estendiam sombras angulosas, empastadas, nas águas mansas da baía. Havia calma, uma calma de boa monção, que dominava os ares espalhando-se por toda a natureza numa paz de sono.

 

O vapor arrancou, por fim, num ruído mecânico, aproado ao norte, afogado numa espuma alvacenta. À proa, o Estreito oferecia ampla passagem para a baía do norte, ostentando, à direita, no alto de sua colina insular, o Cemitério Público, de um aspecto funerário na brancura dos seus túmulos, olhando o mar por entre as aleias solitárias dos ciprestes esguios; à esquerda, e em contraste bem vivo, a casaria do arraial da Passagem, com os seus caminhos animados pelo trânsito contínuo dos que demandam diariamente à Ilha, as paredes alvejando alegremente sobre um fundo de ramarias silvestres, nessas lombadas de coxilhas que vão morrer às Capoeiras. Depois, a Praia de Fora, S. Luís, a Pedra Grande e toda a curva e povoados do continente fronteiro. Mais além os Guarazes, Cacupé, Santo Antônio e os dois ilhotes dos Ratones, colocados em linha, atrás um do outro, como quem caminha em atalho. E ainda mais longe — a Ponta Grossa, Santa Cruz, a ilhota dos Franceses e Canavieiras, com o frontão da sua igrejinha triste espiando o mar azul, de cima de um outeiro florido, que termina em rochas altas onde as vagas escumilham.

 

Fora de pontas, isto é, para além da barra, o mar cava-se pouco e pouco, e ondas transversais sacodem o vapor num movimento de berço, cadenciadamente. Nós íamos na tolda, observando todas as saliências e reentrâncias da costa, o seu alvo e pitoresco contorno, tirando parecenças, comparando os sítios litorais, as praias belíssimas, e entretendo-nos por minutos, às vezes, com o dorso negro dos botos, que seguiam o navio, cambalhotando à superfície das ondas. De repente, ouvimos uma voz de comando: — "Proa ao Arvoredo!"

 

E olhando o horizonte ao largo, velado de cerração, pudemos descobrir vagamente essa ilha, pondo um tom indeciso de chumbo através da neblina. À proporção que avançávamos, porém, a ilha se detalhava, semelhante a uma monstruosa tartaruga negra, cuja cabeça o perfil aguçado e vertical do farol armava de um grande chifre.

 

Uma hora depois, lançava-se âncora no Saco das Balas ou Porto do Sul, em frente ao rancho onde se abriga a embarcação que liga, uma vez por mês, esse pequeno torrão de terra isolada do continente, do Desterro, das povoações mais próximas da parte setentrional da Ilha de Santa Catarina. Nesse ancoradouro, manso e abrigado dos ventos do norte, mas sempre em grande ondulação, porque a ilha não possui pronunciadas curvas de costa ou salientes pontas protetoras que impeçam o embate dos vagalhões do largo — o nosso desembarque efetuou-se perfeitamente, sobre pequena rampa assente em uma acumulação de pedras elipsoidiais ou esféricas, estas últimas muito semelhantes às antigas balas de artilharia e encontradas aí em quantidade extraordinária, de onde o nome da minúscula enseada.

 

Sobre a rampa acha-se colocado o aparelho de vigas fortes, denominado tecnicamente carreira, pelo qual é puxada a virador e por meio de um guincho, para um rancho pousado no alto, a dez metros do nível do mar, a baleeira do serviço. O lugar onde está o rancho foi preparado na escarpa abrupta e ocupa unicamente a área indispensável à embarcação: não fora isso, esta seria arrebatada facilmente pelos temporais do sul, cujas vagas vão rebentar muitas vezes nessa altura, impedindo a comunicação com a capital e os povoados vizinhos por dias e dias, pois o Arvoredo, exposto como está aos ventos de todos os quadrantes, oferece-lhes apenas abrigos parciais.

 

É desta espécie de pequeno cais que parte o íngreme e pedregoso caminho que vai ter ao farol, por onde vagarosamente fomos subindo até 76 metros de elevação. Dessa altura, onde está o pequeno terrapleno da torre com a casa dos faroleiros ao pé, domina-se o imenso e suntuoso panorama do alto-mar, que faz despertar dentro em nós o desejo de aventurosas viagens ao largo. Quem olha daí para oeste, fica comovido e saudoso, vendo imergir-se à distância o azulado melancólico da Serra do Mar, correndo de norte a sul, quase beirando o recortado das costas. Para leste dá uma profunda ideia de liberdade e a emoção das quilhas errantes, perdidas no deserto das águas, a linha côncava e sem fim do horizonte, convidando a vogar... Nesse rumo, à distância de duas milhas, eleva-se a Deserta, uma ilhota cinzenta, com pouca vegetação, desabitada, rochosa.

 

Após um ligeiro almoço, onde havia peixe fresco — o belo peixe do Arvoredo — pescado momentos antes, almoço que foi servido na varanda arejada da casa dos faroleiros, cujas janelas abriam alegremente para o terreiro, onde se erguia uma vegetação rendilhada de fetos e capoeiras, por entre a crista e o bojo musgoso de uma amontoação de penedos, enquadrando nas abertas trechos planos do mar verde; após o almoço saímos a excursionar pela ilha, registrando insignificantes arranhaduras ligeiras, quando a inacessibilidade das rochas nos interrompia a marcha, ou se opunha à colheita das lindas orquídeas azuis, vermelhas, amarelas, ou cor-de-rosa.

 

Fomos até ao Porto do Norte, distante pouco mais de dois quilômetros quase na outra extremidade da ilha, único ponto do Arvoredo onde se encontra a fina e branca areia das praias. Este é o sítio em que, quando reinam os ventos do sul, atraca a baleeira para fazer o desembarque dos mantimentos do pessoal, bem como dos sobressalentes de consumo do farol. Isto dá-se em geral no inverno, porque no verão, com o nordeste que sopra seguidamente, a praia não permite atracação. Assim este porto, como que lhe fica em posição oposta, forma os dois únicos pontos acessíveis aí nas duas quadras do ano.

 

Chegamos depois até à Ponta do Letreiro, onde diz a tradição existirem, gravados em uma pedra, alguns caracteres indicando o segredo de avultados tesouros, enterrados na ilha durante os séculos XVI e XVII, pelos piratas ou flibusteiros que iam ao Mar do Sul ou cruzavam nas costas do Brasil. Semelhantes histórias não passam de verdadeiras lendas de riqueza e cobiça, nascidas de certo do deslumbramento causado em as nossas primitivas populações pela profusão de ouro e prata arrancada pelos portugueses e os "aventureiros" espanhóis, nos tempos das explorações interiores do Brasil e regiões ocidentais da América do Sul, às celebradas minas de Cuzco e de Ouro Preto. E tanto assim é, que iguais narrações de misteriosos tesouros enterrados envolvem uma outra ilha da costa catarinense, como a do Xavier por exemplo, e envolvem ainda muitos outros sítios do Brasil, e com popularidade universal quase, o nosso ilhéu deserto e longínquo da Trindade, onde, segundo consta, até meados deste século, alguns especuladores europeus desembarcaram, por vezes, ocupando-se durante semanas a escavar as pequeninas praias que ali existem ou a esquadrinhar avidamente as furnas e interstícios das rochas, atrás dessas riquezas fantásticas. Em outro tempo também, conforme é sabido, algumas pessoas do Desterro, munidas do competente roteiro (que não falhava nunca nesses assuntos!) bateram todo o Arvoredo, em procura do "tesouro oculto"; mas embalde o fizeram, porque tal riqueza jamais apareceu.

 

Em seguida tomamos o caminho do litoral de leste, onde afirmam existir uma furna de pedras denominada a Gruta do Monge, a qual se diz ficar à meia encosta do monte mais alto da ilha, que mede 290 m. Esse pendor é abrupto e agreste, inacessível quase, e cheio de socalcos rochosos, levantando-se em cabeços por entre a vegetação poderosa. Parando, depois de alguns passos, no meio do declive em caos, como os das rochas vulcânicas, mas vestido de fofos densíssimos de verdura luxuriante logo acima da linha da costa, a bem dizer reta desta banda e toda em penhascos a pino, onde ruge e quebra o mar incessantemente, em revoltos vagalhões — tivemos de retroceder, renunciando, a contragosto, visitar esse lugar curioso e retomando a picada que conduzia ao farol.

 

Algumas palavras porém sobre a Gruta do Monge. Este nome provém de haver habitado, há muitos anos, e durante meses, contam, um homem que de repente aparecera na ilha e que se dizia "andava fazendo vida santa". Segundo a narração corrente dos habitantes de Canavieiras e da Ponta das Canas, que tiveram ocasião de vê-lo, era ele um venerando ancião, de alta estatura, vestido com um burel remendado, e de longas barbas brancas. Souberam da sua presença ali por uma fogueira que viam arder todas as noites naquela parte da ilha, ao tempo só frequentada por pescadores. Curiosos de verificarem o que seria, muitos roceiros abastados, como os tripulantes das lanchas e canoas de pesca, abordaram o Arvoredo de dia, e, entrando a percorrê-lo no local em que o fogo era visto encontraram o monge, que os recebeu com afabilidade e carinho. Além das rezas que ensinava, o homem dava remédios para certas moléstias e sabia curar por benzeduras. Os roceiros, como é natural, o ficaram desde logo adorando. E, dentro em pouco, uma peregrinação de doentes e devotos, que eram conduzidos em pequenas frotas de canoas e lanchas, se estabeleceu entre todos os povoados do litoral próximo e a ilha. Presentes de toda ordem, gêneros e dinheiro, choviam na Gruta do Monge, levados de toda a parte por essas populações dadivosas e ingênuas. E quando um como vago culto pelo ermitão parecia querer aflorar nessas almas puras e simples, ele, que era já para muitos o "virtuoso" e o "santo", deixou o ilhote e sumiu-se...

 

Será uma lenda também esta história que ouvimos, tal qual aí fica, da boca de alguns velhos lavradores daqueles sítios? Queremos crer que sim. Mas deixemo-la, na sua ingenuidade religiosa e medieva, e findemos a nossa excursão, já um tanto demorada talvez para o espírito do leitor.

 

Todo o nosso trajeto de ponta a ponta, através da vigorosa floresta da ilha, foi bastante pitoresco e festejado pelo trinado dos sabiás, o chilrar dos tico-ticos e o meigo arrulho das pombas nos vassourais das baixadas. Não há mais pássaros em toda a ilha, além desses. O que abunda em suas matas é o gambá, que devora as plantações, e as horríveis e venenosíssimas jararacas do mato virgem chamadas.

 

Depois de mais ou menos cinco horas de passeio, tornávamos ao farol, que então foi todo percorrido por nós até ao maquinismo da lâmpada, suspenso à altura de 10 m acima da base da torre. Esta é toda de ferro, a forma troncônica, pintada de branco, e circulada externamente por uma galeria que fica na parte fechada por grossos vidros de cristal, onde está o aparelho (2a. dióptrica, com 25 milhas de alcance), de luz fixa e branca, com lampejos brancos e vermelhos de 2 em 2 minutos. A torre mede 14,70m na sua maior altura e o maquinismo da lâmpada acha-se na elevação total de 90m sobre o nível do mar.

 

As obras do farol começaram em 1881, sob a direção do ilustre almirante catarinense Marques Guimarães, então capitão-de-mar-e-guerra, a cujos esforços e bons serviços, relevados por sérios conhecimentos técnicos, se deve a inauguração desse melhoramento em 14 de março de 1883. Só poderá avaliar com justeza o que valem os sacrifícios feitos pelo digno oficial no desempenho de tal comissão, quem como nós conhecer a constituição geognóstica e hidrográfica dessa ilha alta e escarpada, onde o desembarque de pequenos volumes, mesmo em tempo de calma, e nas melhores condições, é coisa verdadeiramente penosa, quanto mais a condução para alto do cabeço de chapas de ferro e outros materiais, pesando às vezes toneladas, como as que serviram de base à torre do farol. E foram tais os obstáculos e perigos a vencer, que, de uma vez, uma dessas chapas de ferro, desprendendo-se da lingada, veio ferir o almirante Marques Guimarães, prostrando-o por alguns meses no leito. As obras, porém, chegaram a cabo, lá estão perfeitas, com o seu esplêndido farol, que funciona há já dezessete anos, atestando os méritos desse digno servidor do Estado.

 

A oés-noroeste da Ponta do Letreiro, na linha que corre neste rumo entre a mesma ponta e a dos Zimbos[50], no continente, encontram-se dois penedos altos e muito juntos, denominados Calhaus de São Pedro, os quais estão cercados por um cordão de pedras alagadas, quase unidas pela parte de sudoeste a um grupo de cachopos, onde o mar rebenta continuamente em novelos de espuma. Estes escolhos demoram cerca de três milhas do Arvoredo.

 

Daí para o norte, a pouco mais de uma légua, acha-se a ilhota da Galé, de uma milha de extensão: vestem-na aqui e ali vagas malhas de verdura raquítica, que mal encobrem as protuberâncias graníticas que a formam e que lhe dão um colorido geral de ferro oxidado, comum aos ilhotes dessa natureza. Pelo lado de leste escoltam-na dois penedos destacados, pousando a poucas braças um do outro, e pela extremidade do sul, dois outros ainda menores, com recifes submersos.

 

O nome de Galé vem-lhe do contorno geral que ela apresenta vista de certa parte do mar, contorno que se assemelha vagamente ao do casco de uma dessas antigas embarcações.

 

"Um ribeiro que vem desembocar no mar, diz Saint Adolphe, faz nesta ilha uma abra, que serve de abrigo às embarcações de pouco porte." (Dic. Geog. e Hist. do Imp. do Brasil, tomo I, pág. 379).

 

Descendo para o sul e deixando a Deserta com o seu dorso elevado de rocha da altura de 80 m, a leste do Arvoredo, vamos esbarrar com os numerosos ilhotes enfileirados, por grupos ou isoladamente, ao longo da costa oriental da Ilha de Santa Catarina. Aí encontramos, em primeiro lugar, os Moleques do Norte — dois rochosos e estéreis ilhéus, colocados ao norte da Ponta dos Ingleses, a uma milha de distância[51]. Mais para dentro, e na mesma direção, afastadas da praia alguns metros apenas, veem-se as pedras do Mata-Fome, entre as quais e a ponta abre-se um estreito canal, só transitável a pequenas embarcações e canoas. Bem a leste do cabeço, à meia milha ao mar, ergue-se o relevo acinzentado da ilhota do Badejo, alta de 35m, e notável pela abundância do peixe de onde lhe vem o nome.

 

Em frente ao promontório das Aranhas ficam a ilha e parcéis dessa designação, os quais, vistos de longe, apresentam vagamente a configuração de um bando monstruoso desses aracnídeos, dominados por um mais corpulento que todos. O grupo inteiro tece sobre a planura das águas como uma larga trama circular de minúsculos bancos e recifes, negrejando e verdejando em meio aos rendados alvíssimos da rebentação espumante.

 

Na altura da Galheta está a ilha do Xavier, mais vasta que as precedentes, e célebre pelo "tesouro" que dizem nela existir enterrado. Toda litorada de pedras e inacessível quase pela banda de leste, esta ilha oferece, contudo, na parte oposta, uma pequena praia arenosa, talhada em uma curva de abra como um porto remansoso, defronte ao qual se elevam dois ilhotes graníticos, que são, como todos os outros, mirantes das aves do mar. A ilha não é tão acidentada e árida como as de que vimos falando: tem água nascente à maneira do Arvoredo, posto que em mais pecos mananciais, e é coberta de vegetação, sobretudo nas encostas e cimos de colinas, das quais a mais alta mede 50 metros.

 

Maior que a do Xavier é a ilha do Campeche, quase em frente ao Pontal de leste, pequeno cabo avançado que separa a praia do Campeche da praia da Armação da Lagoinha. Com uma milha de extensão por um terço de largura, alongada e correndo na direção de sueste, esta ilha apresenta como aquela uma reentrância a oeste abrigada dos ventos do largo, reentrância que oferece um pequeno mas excelente ancoradouro aos navios de porte comum. Todo o seu litoral é bastante piscoso e visitado de inverno pelas canoas de pescaria da Armação e lugarejos próximos. Montuosa em certos pontos, tem a culminá-la a elevação chamada o Morro do Norte (85m) na extremidade setentrional, e possui cerrado arvoredo nessa parte. Na sua costa ocidental existe a praia da enseada, que é a mais considerável e que contorna por um lado o seu principal surgidouro; algumas outras menores estendem-se para o norte e para o sul, separadas a espaços por curtas pontas de rocha. O ancoradouro é seguro em geral, menos com o norte duro e o noroeste; e a paisagem que o cerca impressiona agradavelmente com os seus breves trechos de prado, as suas moitas de arbustos e as suas colinas gramosas, cintadas pela alvura das praias. Este aspecto pitoresco da ilha e a facilidade de desembarque levaram o Imperador D. Pedro de Alcântara e sua esposa a percorrê-la, em ligeira excursão, acompanhados da comitiva imperial e de muitas pessoas do povo, em outubro de 1845, quando esses augustos viajantes, de passagem para o Rio Grande do Sul, se demoraram alguns dias na capital catarinense. A excursão realizou-se a 27 daquele mês, dia em que os monarcas resolveram fazer uma viagem de recreio em torno à Ilha de Santa Catarina, percorrendo algumas de suas freguesias e arraiais marítimos. Mas o vapor Imperatriz, em que iam, e o outro, que levava a maior parte do povo, forçados pelo nordeste rijo, não puderam passar do Campeche, de onde arribaram, regressando ao Desterro pela barra do sul, por onde tinham saído. (Almeida Coelho, Mem. Hist., pág. 126).

 

Os Moleques do Sul são três ilhotes situados quase diante da Ponta do Falcão, na distância de quatro milhas ao rumo de lés-sueste: o maior, posto que em geral penhascoso, reveste aqui e além manchas de vegetação, entre as quais florescem magníficas orquídeas, muito abundantes e de variadas espécies, não só aí como nos demais ilhotes do litoral do Estado; o segundo, descendo para o sul, consideravelmente menor que os outros, não passa de um agrupado de massa granítica com os interstícios e fendas rendados de gravatas; o terceiro é apenas uma reunião de cachopos elevados.

 

Para oeste, em frente à ponta dos Frades, acham-se os Três Irmãos, a curto espaço uns dos outros, separados apenas por canais de meia milha de largura até aquele cabo. Tais ilhéus são todos altos e cobertos de verdura, de cujo seio se destaca, por vezes, um ou outro bojo de rochedo acinzentado e nu. Nem uma praia se observa em suas costas, todas escarpadas e batidas de grandes vagas. As curtas enseadas que tem estão voltadas para leste e são inteiramente desabrigadas, o que as torna a bem dizer inacessíveis, ou só abordáveis em tempo de calma. Em suas águas, porém, encontram-se frequentemente canoas de pesca, por existirem aí boas paragens piscatórias.

 

A Ilha do Coral fica ao sueste da ponta da Pinheira: é granítica e alta, estéril, mas em suas rochas imersas afirmam existir essa concreção calcária sobre que trabalham os pólipos alciôneos que constituem o coral, o qual dizem ser de cor branca em geral, como o que abunda nos Abrolhos. Entretanto, consta igualmente já se haver extraído daí coral de um rosado pálido — qualidade a mais apreciada — que, convenientemente verificado e submetido à exploração, podia vir a tornar-se uma rendosa indústria para o Estado.

 

Voltando daí para o norte, encontramos entre a ponta da Pinheira a dos Naufragados as três ilhas — Papagaio Pequeno, Papagaio Grande e Fortaleza, esta, como já foi dito, formando com a última das pontas o canal propriamente chamado a barra do sul. As duas primeiras, perfeitos amontoados de grandes pedras, tem um morrete ao centro revestido de rareada vegetação: são de difícil acesso e apresentam um litoral empinado, cheio de pequenos recortes e rochas esparsas.

 

O ilhéu da Fortaleza é da mesma constituição, pedregoso e com poucas ervagens, mas de menor área. O nome porque é conhecido originou-se do forte que nele foi construído em 1740 pelo brigadeiro José da Silva Pais, então governador de Santa Catarina. Este forte acha-se ereto à ponta nordeste do ilhéu, e tem as suas baterias assestadas para a barra, baía do sul praia de Araçatuba. Durante muitos anos, depois da revolução dos Farrapos, permaneceu desarmado e quase em estado de ruínas, como os seus co-irmãos de Sant'Ana, Ponta Grossa e Ratones, também levantados naquela época pelo referido brigadeiro; mas reconstruído ultimamente sob um plano novo e com artilharia moderna, montada de acordo com os últimos progressos da arte da guerra, é hoje a melhor fortificação do Estado.

 

No decorrer da gloriosa revolução citada, em 1839, quando uma divisão de suas forças de terra, ao mando de Davi Canabarro, invadia e tomava a Laguna, conjuntamente com a pequena esquadra lendária do imortal Garibaldi, a rude e humilde guarnição desse forte, possuída de entusiasmo pela ideia republicana que soprava do sul como um pampeiro, abalando o trono brasileiro com as suas imensas rajadas; a guarnição desse forte, dizemos, aderindo às avançadas farrapas que talavam já os campos da Pinheira, de Araçatuba e de Massiambu, em marcha sobre a capital catari­nense, revoltou-se briosamente nessa praça de guerra, intimando o coman­dante e oficialidade a abraçarem igualmente o pendão escarlate dos revolucionários. O comandante procurou resistir, mas foi para logo vencido, bem como o seu imediato, o alferes Pedro Fernandes Ortunha, que opondo-se obstinadamente pelas armas ao pensamento da guarnição, representada por quatro homens decididos e bravos, foi esmagado na sua tenaz resistência, caindo morto às mãos dos soldados, num recanto do forte, ao momento em que acossado por eles procurava galgar as muralhas e atirar-se, em fuga, no mar. O comandante, que saíra bastante ferido da luta e se achava preso, instantes depois foi solto e mandado desembarcar no continente, de onde se passou ao Desterro, enquanto a guarnição vitoriosa abandonava a fortaleza, após haver encravado todas as peças, levando consigo algumas munições e armas, e apresentando-se em seguida no acampamento farrapo, que a recebeu com vivas entusiásticos. Mais tarde, porém, esses obscuros mas heroicos soldados da República, em um combate infeliz no Rio Grande do Sul, vieram a cair prisioneiros das forças legais, e, reconduzidos ao Desterro, foram aí punidos duramente — dois deles, considerados os cabeças, com pena de morte, e os dois outros com prisão perpétua na fortaleza de Santa Cruz.

 

Entre o pontal de Massiambu e o Saco da Caieira, temos a ilha dos Cardos, a leste e a oeste da qual passam os dois canais de navegação da baía do sul — o de dentro ou do Ribeirão e o do meio ou Grande. Coberta de espessa vegetação e cintada de rochas na base, a ilha tem uma forma redonda e túmida, com dois cachopos ao extremo meridional e algumas pedras à flor d'água aos flancos. Caracteriza-a a abundância de plantas da família das cactáceas (cactus triangulares) que crescem sobre os altos pedregosos, dando uma linda flor vermelha que, em certa época do ano, parece manchar de salpicos de sangue o verde-escuro geral das ervagens.

 

Ao nordeste desta está a ilha das Pombas, próxima à ponta de Caiacanga-açu, erguendo-se pitorescamente em um seio plácido de enseada, como um camalote de arbustos. Talhada em praiazinhas alvas, aqui e ali separadas por uma elevação de cabeço, dir-se-ia um ilhote de lago, tão graciosa se ostenta sobre o azulamento do mar.

 

A ilha do Largo fica bem a meio da baía, entre o saco do Ribeirão a ponta do Furadinho: é alta, alongada, orlada de pedras e revestida de basto arvoredo. Na linha que vai daí para o sudoeste encontram-se os ilhéus do Andrade, do lado do continente, na vasta curva da costa marcada pela ponta do Pesqueiro Fundo ao sul, e pontal do Furadinho ao norte. Para nordeste, junto ao litoral oposto, defronte ao porto do Ribeirão, as ilhotas de D. Francisca e do Garcia, muito aprazíveis por seu aspecto e paisagem.

 

Na enseada de Marui, alguns ilhéus interessantes se destacam, igualmente risonhos e verdejantes sobre a planura das águas — todos tufados em desenhos graciosos e artísticos, com pequenos crescentes arenosos relevos de ervagens, verdadeiros ninhos de ventura, a pedirem a animação civilizadora de um cottage ou chalet insular.

 

A rade de Florianópolis conta alguns ilhotes pitorescos, dentre os quais sobressaem o do Carvão, em frente ao morro do Venceslau, tão impropriamente ocupado desde muitos anos por depósitos de carvão mineral, de onde a origem do seu nome presente; o do Sal, ao pé da pequenina península de Santa Bárbara, e que é uma das dependências da Capitania do Porto, cujo edifício acha-se construído dentro das velhas muralhas do antigo forte daquela designação; e o das Vinhas, ao sul da ponta do Zé Mendes, inteiramente despido de vegetação, mas sobremodo aprazível pela disposição de seus penedos, que formam, na parte setentrional, um minúsculo e curioso túnel, correndo na direção norte-sul, de quatro a seis metros de extensão, com largura e altura suficientes para passarem duas pessoas a par.

 

Transpondo o Estreito e caindo na baía do norte, vê-se, junto à ponta do Leal, a ilha dos Noivos, fresca e rendilhada na sua verdura de jardim, mas assinalada por uma história tristíssima, dessas que pelo seu perfume de poesia e saudade, na amargura cruel de um destino, ficam para sempre imortais na tradição ingênua e cândida dos arraiais humildes.

 

Um casal de noivos que havia recebido a consagração de suas núpcias em uma igrejinha dos Barreiros ou de Biguaçu, voltava feliz, em uma pequena canoa veleira ao arraial da Passagem, onde o esperava o tálamo conjugal, quando de repente, e quase ao fim da viagem, na altura da ilhota, se levanta um vendaval. O tempo escureceu num torvelinho de nuvens, e o mar, desmontado, entrou a rolar em turbilhões terríveis. O patrão, tanoeiro perito e inexcedível na sua arte, como soem ser os habitantes do litoral catarinense, que são embalados a bem dizer pelo mar desde os primeiros vagidos, aproou para terra numa corrida sinistra. Mas as vagas, furiosas, cresciam em colinas de espuma em redor do pobre esquife, e, de uma lufada maior galgaram-lhe a borda, sacudindo a todos sobre os esparcelados bramantes que envolviam a ilha. Nem uma só pessoa escapou à borrasca inclemente, que os sepultou para sempre nos escarcéus marinhos. Daí essa denominação, que parecendo jubilosa e de gala não é mais do que um ramo de goivos sobre um sepulcro esquecido.

 

Em frente ao Saco de Itacorubi acha-se uma espécie de minúsculo arquipélago, dominado por dois ilhotes maiores — os Guarazes, os quais têm em geral uma superfície plana e arenosa, ouriçada de grossas pedras sobrepostas, coroadas às vezes de mesquinha verdura. Os cachopos que se veem em torno, avançam consideravelmente para oeste até quase ao canal, e foram, antes de assinalados pela coluna de Diamante que os baliza hoje, um ponto perigoso à navegação.

 

A leste da ponta da Serraria eleva-se a ilha das Cabras, pouco maior que a dos Noivos e coberta de mato. Uma linha de recifes toma todo o canalete que se abre entre ela e o continente, impedindo a passagem de embarcações de certo porte e só franqueado a canoas.

 

Seguindo daí para nordeste, encontra-se o Raton Pequeno, sobre a costa de Sambaqui, a menos de duas milhas da ponta da Ilhota e a trinta braças somente do Raton Grande, colocado quase em reta, pelo norte. São ambos altos, alongados, afilados ao extremo sul e recobertos de vegetação: parecem-se muito no seu aspecto e contornos, e, como vimos já, têm, em ponto gigantesco, a configuração desses roedores de que trazem o nome. Mede o primeiro cerca de 400 metros de extensão e o segundo proximamente 600. Este é mais amplo e elevado que aquele, e possui na sua parte setentrional como um pequeno porto, em cuja encosta assenta o forte denominado dos Ratones, fundado conjuntamente com o de Santa Cruz, Ponta Grossa e Barra do Sul, entre os anos de 1737 e 1744, pelo brigadeiro José da Silva Pais, segundo governador da Capitania de Santa Catarina. Tal fortaleza estaria hoje em ruínas e completo abandono, como a da Ponta Grossa e outras, se não fora a serventia que tem a antiga casa da oficialidade e comando, ocupada desde muito com o Lazareto para variolosos e transformada, há dois anos, graças à filantropia de um particular, o Sr. Carl Hoepcke, em um magnífico edifício ainda destinado a esse mister.

 

Não sabemos a razão por que o nosso Governo deixou chegar ao ponto lastimável em que se encontram fortificações de todo o modo úteis e necessárias à defesa nacional, e que custaram outrora verdadeiros sacrifícios e grandes somas. No entanto, semelhantes construções tiveram certa importância e a conservariam até hoje, se os poderes competentes as houvessem tratado sempre com a devida atenção. E a propósito não será ocioso, talvez, transcrevermos aqui o que sobre esse forte nos dizia em carta, ainda não há muito tempo, o ilustre Dr. Remédios Monteiro, que nele esteve em comissão quando cirurgião do exército:

 

"Quantas vezes, quando estive comissionado na fortaleza dos Ratones, sentado em suas muralhas, vendo o sol desaparecer no horizonte e ouvindo em torno o marulhar do oceano, perguntei tristemente a mim mesmo: — Quem delineou e executou essas obras de arte bélica, como as da Ponta Grossa, Santa Cruz e as do ilhéu em que estou, que ficaram nestas plagas como um padrão de glória anônima?... Quanto custaram? quantos anos levaram a edificar essas fortalezas?... Nessas ocasiões vinham-me à memória os velhos schlosses que vi na Alemanha. Lá olha-se para esses velhos e arruinados castelos com respeito e curiosidade; aqui passa-se com a maior indiferença por essas edificações notáveis e grandiosas, que, de pé umas, outras em ruínas, servem de testemunho do patriotismo dos antigos".

 

No Raton Grande, a algumas braças apenas do forte, conforme as informações e detalhes que sobre a ilha nos deu ainda nessa carta o eminente médico, "existe, ao pé do mar, uma gruta de pedra, de onde poreja, em forma de lágrimas, abundante e excelente água".

 

O canal compreendido entre esse ilhote e o Pontal é de boa profundidade e dá acesso a navios de alto calado para o surgidouro de Sambaqui, onde outrora ancoravam com frequência os grandes vasos da nossa marinha de guerra, quando em estação nessas águas. Está voltada para aí a costa oriental desse ilhote, num ponto da qual há uma pequena explanada que servia de depósito de carvão ao Ministério da Marinha, explanada cercada por um cais onde atracavam esses navios, a fim de tomarem combustível para as suas viagens. Esse depósito foi extinto, mas o cais ainda lá está e em condições de ser aproveitado para outros misteres navais.

 

Nos Ratones, como no Arvoredo e outras ilhotas, abundam as admiráveis orquídeas (catleias, sobretudo) que constituem em Santa Catarina rendosíssimo comércio, explorado em geral por estrangeiros, cujos nomes têm ficado bem conhecidos na Europa pela exportação dessas belas epífitas. E segundo o Visconde de Taunay aí "crescem espontaneamente uns lírios esplêndidos, grandes, vermelhos rajados de negro intenso e chamados manto do diabo, que, transplantados, degeneram logo. Estes lírios só se dão bem no terreno rochoso, áspero, salino do solo natal".

 

Do lado do continente, defronte às Caieiras e muito próxima à terra, está a ilha de Anhatomirim, onde se ergue a fortaleza de Santa Cruz, hoje a mais histórica do Estado. Sentinela avançada da capital catarinense velando a barra da baía do norte, este minúsculo bloco de argila e granito tem assistido aos maiores acontecimentos, servindo ao mesmo tempo de teatro a numerosos deles, desde as primeiras descobertas nas costas do Brasil até à atualidade.

 

Não cabe no domínio destas linhas a explanação minuciosa desses fatos, cuja suma e episódios épicos e lendários uns, dramáticos e trágicos outros oferecem campo para longas narrações históricas. Diremos apenas de passagem, que foi neste ilhote que esteve recluso durante 17 anos (1760-1777), o célebre desembargador José Mascarenhas, vítima inocente da perseguição de Pombal, o famoso ministro de D. José 1, espécie de Bismark lusitano do século XVIII; diremos ainda que foi nas águas desta ilha, e quase junto às suas rochas, que teve lugar o combate naval de 16 de abril de 1894 entre a esquadra legal e o último baluarte, no mar, da revolta de 6 de setembro de 1893 — o couraçado Aquidaban, então vencido e posto a pique por um torpedo de um dos navios dessa esquadra, a Gustavo Sampaio.

 

A ilhota de Anhatomirim é alta e rochosa, coberta aqui e ali de curta vegetação. O forte de Santa Cruz, cuja fundação já é nossa conhecida, tem as suas muralhas voltadas para a barra e ocupa a bem dizer o perímetro inteiro da ilhota, com os seus quartéis, casa do comando, casa dos oficiais e outras, todas encerradas na parte inacessível das rochas e tendo somente um grande portão de entrada, que desce por uma ampla escadaria de pedra até a pequenina praia ao sul, onde há um cais de desembarque.

 

No estreito terrapleno que há ao centro, em sua parte mais alta, eleva-se o farolete que tem a denominação do forte, composto de uma coluna de ferro de 8 metros de altura, cujo aparelho da lâmpada, de luz branca fixa (6a. diótrica), é do alcance de 10 milhas e se acha na culminância total de 37,5m sobre o nível médio do mar. Foi inaugurado a 1o. De junho de 1883, em substituição de outra luz, de cor vermelha, ali estabelecida desde 12 de dezembro de 1873. 0 farol demora a 27o. 25' 56" lat. sul e 5o. 24' 15" long. oeste do Rio de Janeiro.

 

Próxima às muralhas da fortaleza, numa baixada que olha para o norte, um pouco acima da batente das ondas, existe uma fonte de água potável, esplêndida e abundantíssima, de onde se abastece a população de Santa Cruz, constante do comandante militar, ajudante, oficial do almoxarifado, faroleiros, patrão da baleeira do serviço e seis remadores, todos acompanhados das respectivas famílias.

 

Para satisfazer a curiosidade do leitor, não deixaremos esta ilha sem transcrever abaixo o breve resumo de sua crônica, publicado na Revista de Santa Catarina de 15 de novembro de 1895, e devido à pena do desventuroso catarinense capitão de artilharia Tobias Becker, morto durante a revolta nessa mesma terra querida que o viu nascer.

 

"... Navegadores célebres visitaram a ilha de Anhatomirim, tais como La Pérouse, que aí esteve em 1785, retirando-se a 19 de novembro, levando gratas recordações da hospitalidade dos habitantes da Ilha de Santa Catarina, que durante o tempo que lá esteve, dormiram no chão em esteiras, para ceder as camas aos marinheiros de La Pérouse que haviam naufragado próximo àquela ilha. Mawe que aí esteve em 1807, escreveu uma Viagem ao interior do Brasil, onde se refere à terra catarinense. O viajante russo Krusensterne e seu companheiro o naturalista alemão Langsdorff aí estiveram no princípio do presente século. Este último escreveu um livro, que foi impresso em 1820 em Paris, intitulado Memória sobre o Brasil, para servir de guia às pessoas que desejam estabelecer-se naquele país, e de 1825 a 1829 explorou o interior do Brasil em companhia do astrônomo Ruszoff e dos naturalistas Riedel e Ménétries, colhendo preciosas coleções que se acham no museu de São Petersburgo.

 

Também visitou a ilha o sábio viajante Duperrey, comandante da Coquille, em viagem de circunavegação. Este viajante, nos seus escritos, depois de atribuir ao forte uma antiguidade fabulosa, faz-nos dele a seguinte pitoresca descrição: "Penetra-se nesse forte por um pórtico notável pelo seu estilo gótico e pela sua antiguidade, depois de haver subido uma centena de degraus onde enormes barbatanas de baleias estão postas à guisa de corrimão. Copados arvoredos, delicioso abrigo de revoadas de beija-flores, orlam as partes laterais dessa escadaria até à praia de desembarque, cujo sítio acanhado fica oculto por uma ponta e rochedos de granito". A pintura é fiel, exceto as barbatanas de baleia, que o tempo já consumiu.

 

A 25 de fevereiro de 1777 o general D. Pedro Zeballos com suas tropas, antes de tomar a Ilha de Santa Catarina, intimou o governador do forte de Santa Cruz a que se rendesse; fê-lo depois prisioneiro com toda a guarnição, exceto um oficial que se achava no Desterro, onde fora comunicar ao marechal Antonio Carlos Furtado de Mendonça aquela intimação. Pelo art. 22 do tratado preliminar de paz de lo. de outubro de 1777, entre as cortes portuguesa e espanhola foi estipulado que seria evacuada e restituída dentro dos quatro meses que se seguissem à ratificação desse tratado, a Ilha de Santa Catarina, bem como as adjacentes e parte do continente, com artilharia, munições e mais efeitos que fossem encontrados no tempo da ocupação. Durante a campanha do Paraguai, o forte serviu de depósito de convalescentes e atualmente serve de registro à barra...

 

Em frente à praia de Canavieiras, cerca de 600 metros ao mar da ponta de São Francisco, alteia-se a ilhota dos Franceses, ou simplesmente a Ilhota, como aí a denominam vulgarmente. De uma paisagem encantadora e cercada de altos rochedos, dispostos com suprema arte pela natureza, rochedos que se alongam como aríetes estranhos sobre as ondas tocadas de espuma — a ilhota dir-se-ia um desses pequeninos torrões do arquipélago odisseu, onde deusas e ninfas olímpicas viviam, em tempos lendários, perenemente felizes, vendo passar no mar largo as frotas de velas de púrpura, onde vogava toda a helena mocidade maruja, que às vezes aí abordava para gozar seus amores, por entre maciços de mirto ou à sombra fresca das grutas...

 

 

 

A pesca

 

A atividade dos habitantes das freguesias e arraiais da Ilha de Santa Catarina, conforme já tivemos ocasião de dizer, reparte-se entre a pesca e a roça, das quais tiram, todos, os meios de subsistência. Entretanto acontece com os das povoações do litoral da terra firme, onde essas funções (e principalmente as da pesca) são exercidas em mais larga escala, não só pela vastidão da costa (cerca de 90 léguas) toda recortada de baías enseadas, como pelos núcleos densos de população que contém.

 

É do plano desta obra estudar, na parte intitulada O Continente que constituirá outro volume, a pesca em todo o Estado, desde a sua iniciação até ao presente, formulando-se um quadro geral descritivo, e um tanto ou quanto estatístico, do seu movimento, bem como do de todas as indústrias marítimas de que a pesca é origem ou base; mas o desenvolvimento natural deste capítulo nos leva, por necessidade de sua inteira completação, a retirar desse todo o ponto que diz respeito às pescarias da Ilha, para aqui o explanarmos desde já. Dispensamo-nos pois, por agora, de lançar uma vista de generalidade e conjunto sobre a pesca no Brasil, deixando de estabelecer igualmente o necessário exame comparativo entre ela e a que se faz no estrangeiro, especialmente nos Estados Unidos nacionalidades europeias, para fazê-lo com a máxima amplitude na parte acima mencionada.

 

Isto dito, encetemos o ponto que agora nos reclama, procurando nele estampar, com as cores e minúcias que se fizerem precisas e com a verdade que tanto prezamos, esta feição do viver da gente catarinense da Ilha. Ao lado das embarcações, dos processos e dos instrumentos empregados na pesca e seu simples mas interessante fabrico, nessa porção minúscula do território de Santa Catarina, assinalaremos também o aspecto e notas pitorescas dos usos e costumes dessas populações quando, desligadas por dias dos engenhos e roças, se entregam a essa faina marítima.

 

As pescarias ativas começam, na Ilha como no continente, pela quadra invernal, conforme anteriormente se viu, pois nos meses que se estendem de setembro a abril, o povo — à exceção dos homens propriamente embarcadiços, que andam em navios de vela da grande e pequena cabotagem, nos vapores e embarcações miúdas do tráfego pelos rios e baías — entrega-se aos labores agrícolas, só indo ao mar, que é menos fértil então, pelas manhãs ou pelas tardes, a um ou outro lanço das redes, à pesca a linha ao largo ou junto aos ilhotes vizinhos.

 

Durante esse tempo, que é o do descanso marítimo, os mestres ou fazedores de redes trabalham desde o alvorecer até à noite, junto às janelas e portas de suas habitações, nos terreiros ou ao longo dos caminhos, torcendo o fio de gravata que as mulheres fiam nos longos serões pacíficos, à luz fumarenta da candeia, sentadas sobre esteiras de peri a um recanto da varanda ou da sala, ao pé das altas varas polidas encostadas à parede e onde se enrosca, segura por um atilho de embira, a basta meada têxtil, de um vago perfume a cabo novo e semelhante a uma imensa cabeleira alourada, que se abre para baixo em grande pasta fofa onde os dedos feminis, industriosos e ágeis, num movimento delicado e sutil, tateiam e unem artisticamente o fio que se enrola ao fuso zunidor girando em impulso contínuo.

 

O fio é torcido a três pernas num torcedor de madeira movido a mão, e para que não arraste e se mantenha bem tenso, corre sobre quatro ou mais forquilhas de pau fino, colocadas em linha e a grande distância umas das outras, um dos extremos atado ao fuso do aparelho, o outro fixo com laçada firme numa estaca distante, fincada para além da última forquilha a meio quilômetro mais ou menos do lugar do torcedor. Neste simples maquinismo portátil que se firma onde se quer, composto de um estrado de tábua de um metro de comprimento e largura proporcional, onde assentam perpendicularmente dois sarrafos paralelos entre os quais se move o volante circular que põe em ação uma polia de cordinha para impulsionar o respectivo fuso, volante tocado à sua vez por uma pequena manivela; neste simples maquinismo, dizemos, o fio é preparado com a maior rapidez e sai tão perfeito e rijo como se fora obra de uma máquina moderna. Sacados do aparelho os vários metros de fio torcido, são emendados e enrolados em grandes novelos que vão pejar depois os cestos dos mestres de redes, em geral velhos marinheiros retirados aos seus sítios após terem passado a maior parte de sua existência no mar, ou antigos pescadores, encanecidos e de face enrugada pelas rudezas do ofício, os quais enchem com esses novelos as esguias agulhas de madeira com que remendam as velhas redes dilaceradas pela última faina, ou confeccionam as novas para as pescarias vindouras.

 

A fatura das redes, nesses sítios, é simples e curiosa; e em nossa infância, quando em frequentes vilegiaturas pela Ilha, a ela assistimos muitas vezes com satisfação, ouvindo, não sem emoção e encanto, a narração real e pura da vida aventurosa do octogenário artista marítimo que tínhamos diante de nós e cujo perfil psicológico já um dia traçamos no nosso livro de quadros da vida rústica catarinense — Mares e Campos. O mestre de redes, sentado num mocho ao vão de uma janela, que enquadra alegremente ora uma curva de praia, ora a verdura de prados e montes, com o balaio das agulhas e novelos ao lado, lança uma volta de fio a um prego fincado ao batente, e, com a malheira à mão esquerda, a agulha cheia na outra, mascando ou pitando, mas cuspinhando sempre, entra a urdir destramente a rede, que cresce diariamente em braças e braças até às proporções da encomenda. Pronto um dia esse imenso tecido de malhas, que as vagas irão depois envolver longamente nos seus murmúrios ou uivos de cólera ou plangência, cobrindo-o simultaneamente de rendados de espuma, na tempestade ou na bonança — começa o entralhamento, constante da costura de um cabo fino de linho às duas orlas longitudinais da rede, uma toda enfiada de grossos discos de cortiça para fazê-la flutuar, a outra palombada de espaço em espaço de chumbeiros[52] túmidos de areia para a necessária imersão, de sorte que a rede, nos lanços, possa manter-se em perfeita postura vertical à superfície das ondas. E finalmente a colocação, a um extremo e outro, das grossas betas de imbé resistentes à água, pelas quais terá de ser puxada nas enseadas e abras pelos camaradas e ajudantes, nos repetidos cercos à tainha de corso, pululando e saltando, aprisionada nas malhas, em cardumes enormes.

 

Cada um desses operários pode fazer, por dia, de duas a três braças de rede se for esta de arrastar, pois sua altura comumente não excede de 10m. As redes de arrastar ou arrastão, como lá se denominam, são as que lanceando nas proximidades das costas limpas, onde não há pegões, cercam o peixe ao largo e levam-no depois para a praia, onde só podem ser colhidas. Há-as, porém, que mergulham-se e suspendem-se afastadas do litoral em duas ou três canoas: são as de tresmalhão ou tramail, como se as conhece em França (Alphonse Karr, Dictionnaire du Pêcheur) muito mais raras que as primeiras e cuja urdidura complexa se divide em três panos, dois dos quais de fio grosso e de grandes malhas, com um outro de fio fino e de pequenas malhas de permeio. Estas, posto que de menores proporções, são de fatura mais delicada e difícil que aquelas.

 

A malheira de que falamos é uma espécie de régua curta e desquinada, feita em geral de peroba, cuja largura marca o diâmetro exato de cada malha na confecção das redes e sobre a qual a malha se tece no enlaçar dos fios com o auxílio de uma agulha de madeira. A agulha é um pequeno instrumento inteiriço pouco maior que a malheira; tem a forma de uma lançadeira esguia e alongada, mas chata, com um dente comprido e delgado, muito flexível, talhado ao centro do ângulo agudo da ponta, cujo dente se ergue na parte larga da agulha que tem uma minúscula concavidade ao fundo, por onde passa o fio que se encapela no referido dente, quando cheia a mesma agulha.

 

Em maio, reparadas as redes velhas ou estragadas e ultimadas as novas, alcatroadas as canoas e pintadas as baleeiras, organizam-se as companhas e as grandes turmas de camaradas e ajudantes, que entram a povoar os numerosos ranchos das praias, então abertos até aos últimos dias de agosto. Por essa ocasião, desde a Ponta Grossa à do Rapa, a oeste e ao norte da Ilha, como dobrando daí para leste até Naufragados, um enxame geral de homens e rapazes das freguesias e arraiais nessa área espalhados, agita-se dia e noite, a rir, a palrar e a cantar alegremente, sobre a linha alva dos cômoros ou no alto dos cabeços avançados nas vagas, à espera de que enegreçam o mar azul, ao longe, para dentro do Arvoredo, os primeiros magotes ou mantas de peixe do corso — a tainha, sobretudo — que vem tocada do alto-mar pelas primeiras tempestades de inverno e o consequente regelamento das águas, em busca do tostão das ilhotas e do recesso mais ou menos sereno das abras e enseadas.

 

A faina marítima divide-se então em dois ramos bem distintos: a pesca das tainhas na costa com as redes de arrastar e a da enchova, feita a linha, no mar alto ou junto aos ilhotes vizinhos. Comecemos, porém, pela primeira, a das tainhas, que oferece um esplêndido espetáculo em todo o seu conjunto e detalhes.

 

*      *      *

 

Desde as primeiras barras do dia, num ponto elevado da praia que domine toda a enseada e a costa circunjacente — em geral as pontas avançadas no mar — sobre a rocha mais alta, coloca-se um dos camaradas da rede, o vigia, cujas funções consistem em observar a superfície das águas em toda a área que a sua vista possa abranger, e, quando as tainhas aparecem (o que se caracteriza por uma tênue mancha argêntea à superfície das vagas, só perceptível a esses olhos educados e de grande visão dos pescadores), fazer o sinal para a rede a que pertence. Sentado sobre a pedra que toma o nome, nesses sítios, de "pedra do vigia", o camarada, com o seu amplo chapéu de tiririca, a copa alta e cercada por uma fita preta, quase sempre afunilada devido às molhaduras constantes combinadas com a ação do calor e a elasticidade própria do tecido, as abas disformemente largas descidas à frente sobre os olhos, para protegê-los do sol, uma camisola grossa de baeta vermelha atirada à trouxe-mouxe às costas e apenas segura pelas mangas atadas em nó sobre o peito, ou envergada e resguardando-lhe o tórax quando há muito frio ou mau tempo — ele passeia seguidamente sobre o mar a sua vista detalhadora e de funda acuidade, distinguindo sabiamente, e sem jamais enganar-se, todas as tonalidades ou nuanças das ondas: a sombra de uma nuvem passando no alto, o efeito de uma rajada mais forte do vento arrepiando e enegrecendo aqui e além a planura azulada, o remanso baço ou fulgurante dos recessos de embate, e, enfim, os abrigos plácidos de calma abertos às praias das ilhas e ao longo das penínsulas e pontas.

 

Em frente aos ranchos, erguendo-se de espaço em espaço junto aos cômoros, na sua construção baixa e achaletada, de paredes de pau a pique barreadas e cobertos de telha ou palha, veem-se as grandes canoas de voga (uma para cada rede, comumente), negras e reluzentes de alcatrão, suspensas à proa sobre grossos rolos de madeira, a palamenta embarcada, aguardando o momento de fazerem-se ao mar. À popa de cada uma, sobre o longo paneiro raso, avultam os montículos das redes que as pejam, por entre as duchas negras das betas, os chumbeiras e as cortiças redondas que parecem camândulas imensas de um estranho e gigantesco rosário. Estas embarcações são feitas geralmente de guapurubu (schizolobium excelsum) e de figueira brava (ficus doliaria): têm de comprimento de 50 a 60 palmos, por 5 ou 6 de boca, um suplemento de madeira guarnece-lhes a borda de popa a proa — a bordadura, que é assentada a meio fio e com verdugo no casco geral da canoa abrindo a boca daí para cima, formando à frente a sobreproa e no extremo oposto a sobrepopa, que é reta e em espelho como um guarda-patrão de bote, ao passo que a primeira é angular e coroada de alto beque. Quatro toleteiras de um palmo de altura, mais ou menos, ornam-lhes os bordos, dispostas duas a cada lado, à distância necessária dos bancos, onde os tripulantes se assentam para remar. O fundo de tais canoas é chato, dando-lhes por isso insignificante calado, o que lhes facilita acesso aos mais baixos canais e praias: não têm quilha, mas apenas um estreito patilhão à proa, a fim de poderem governar bem e bolinar. Para estas pescas de arrastão não há embarcações iguais, pois são as únicas que se prestam a ser puxadas em terra com maior facilidade, conforme as exigências da faina.

 

Dentro e fora dos ranchos estão as companhas e o bando dos camaradas e ajudantes das redes, sendo estes últimos na sua maior parte rapazes de 12 a 20 anos. Deitada na areia fofa e macia, olhando de vez em quando o vigia e o mar, essa gente, enquanto o peixe acosta para o lanço, palestra e ri numa alegre algazarra, chupando grossos cigarros de palha ou carpinteirando, no ócio da espera, pequenos objetos de cortiça, com as suas facas afiadas de roceiros. Esses homens reúnem-se em grupos que tomam o nome dos donos das redes, nome pelo qual esses grupos se distinguem uns dos outros.

 

Pelos cômoros aglomeram-se igualmente alguns matutos que não tomam parte efetiva nos trabalhos da pesca nem fazem parte das companhas, mas que ali estão a vigiar o aparecimento das mantas ou cardumes, aguardando a hora do puxamento das redes para prestarem seus serviços e receberem depois o seu quinhão de peixe. Mulheres indigentes, habitando as proximidades das praias em míseras choupanas de ervagens, surgem à sombra das restingas, numa magreza esquelética, as caras chupadas e denegridas pela fome e pelas soalheiras, ansiosas dos lanços para terem também uma pequena ração, que os pescadores lhes ofertam por entre troças e vaias. Alguns cavaleiros, vindos do interior, galopam ou trotam de um lado para outro, com uma mala branca nos arreios a ver qual a primeira rede que sai, para esperarem o lanço e fazerem suas compras.

 

Nesta expectativa estão todos, até que de repente um dos pescadores vê o sinal do vigia, que, de pé sobre a rocha, abana com a sua camisola vermelha, determinando, num movimento do braço golpeando o ar, a direção para onde o magote se encaminha ou se estende. Os ajudantes que o cercam, como de costume, deitam logo a correr para os ranchos, agitando o chapéu e gritando:

 

— Olha o magote que aí vem! Olha o magote que acosta!

 

Então todos se erguem em alvoroço, e começam a investigar em todos os sentidos a planura das águas. Os patrões das companhas correm para as canoas, seguidos dos remadores. Camaradas e ajudantes reúnem-se em torno, falando e gesticulando agora com maior animação. Os donos das redes, quase sempre presentes, depois de examinarem o cardume e sua direção e posição, planeiam num momento o lanço, detalhando, a traços largos e num borbotão de ordens, o que os patrões devem fazer. E como as mantas se sucedem, umas após outras, acostando para dentro das pontas, de onde os vigias vão transmitindo sinal que corre de rancho em rancho, cada rede se apresta em sua raia de ação. Sigamos uma delas na sua lide e afã.

 

Os homens da companha, bem assim os camaradas e ajudantes correm às bordas e à popa de cada embarcação, e, levando a mão às toleteiras e bancos uns, outros metendo os ombros à sobrepopa, fazem rolar praia abaixo as canoas, na grita vigorosa e monótona que acompanha sempre as manobras marujas:

 

— Oh vai-hô-hiô!... Oh vai-hô-hiô!...

 

À proporção que a canoa entra a flutuar, batida já de novelos de espuma à proa, na rebentação ininterrupta e ruidosa dessas costas de mar grosso, os tripulantes vão saltando para dentro, na sua ordem de posto — o proeiro em primeiro lugar, em seguida o contraproeiro, depois o sota, depois ainda o voga e logo atrás o patrão, que tenteia a canoa até o cadaste achar fundo, e, com água até à cinta, o timão ou remo de pá de governo a uma das mãos, salta e cai de pé sobre a popa com admirável destreza.

 

Deixando em terra o calão, a canoa faz-se a largo a toda força de remos, rumando à distância do magote, por um lado, até ganhar a altura necessária a barlavento do mesmo, a fim de o apanhar com segurança no cerco. O calão é uma espécie de boia, feita em geral de cortiça, de forma troncônica e de meio metro de comprimento, tendo um grosso orifício ao extremo delgado onde dá volta o chicote da beta, que se prende a um dos punhos da rede. Este pedaço de madeira serve para fazer flutuar o chicote da beta, quando este, arremessado da canoa para a praia, cai por acaso nas ondas.

 

Agarrado o calão por um dos ajudantes, este o conduz para o alto da praia, enquanto à ré da embarcação que avança no mar, o patrão vai dando cabo. Excedida a altura do magote, a canoa entra a descrever uma curva por fora e, abrangendo toda a extensão do cardume, mete proa para a costa, indo abicar num ponto afastado àquele de onde partira. Aí, a companha desembarca com um ponta da beta que se liga ao outro punho da rede, e a canoa é puxada.

 

Uma turma de camaradas e ajudantes, já ali de antemão colocada — pois todo o pessoal se divide nesse instante em dois grupos — acode logo de pronto. Imediatamente começa a puxar o cabo, ao mesmo tempo que a outra turma, postada braças adiante. Neste serviço os homens caminham em fila, um atrás do outro e quase juntos, pegando a beta com água pelos joelhos e levando-a até à linha dos cômoros, onde o primeiro que chega alterna com o que vem ainda no laga-mar, e assim sucessivamente, numa força e lentidão de bois de canga trabalhadores. Todos em geral trazem um pedaço de corda amarrado à cintura com uma ponta pendente, que enlaçam em uma volta ao longo do cabo negro e com o qual atenuam o grande esforço que teriam de fazer só com os braços, se não usassem este meio. À maneira que a beta é colhida, dois ou três ajudantes mais moços a vão enrolando em duchas, para a poderem reembarcar facilmente e em ordem, ao terminar o lanço. A rede, assim ao largo estendida, apresenta o desenho perfeito de um imenso rosário flutuante, curvo em crescente, e cujas contas são formadas pelas cortiças escuras destacando nas ondas.

 

Ao tocarem à rebentação os primeiros nós dos punhos, a tainha cercada revela-se pelos contínuos saltos contra a tralha para fora da rede; mas é insignificante a quantidade que logra por tal modo escapar, pois a manta condensa-se toda bem fechada no centro. Nesta ocasião as duas turmas aproximam-se, estreitando pouco e pouco o espaço compreendido entre ambas, até que este corresponda mais ou menos à metade do tamanho da rede. Quando as cortiças dos extremos estão quase a beijar a praia na sua curva imensa, todos correm para a tralha que seguram fortemente a pulso, levantando em parte as malhas e puxando-as para cima da batente das vagas, onde o peixe se alastra em camadas espessas, que fulguram por milhares de corpos prateados, saltando e debatendo-se com grandes golpes de cauda, as bocas escancaradas, as brânquias a palpitarem na violenta agonia que lhes dá o oxigênio.

 

O patrão e os camaradas põem-se logo a contar as tainhas, agarrando-as com uma e outra mão e atirando-as para junto dos cômoros, onde a maré não alcança. Aí, reunido todo o peixe em montão e resguardado do sol com uma coberta de ramagens, deixa-se um homem a tomar conta. Em seguida volta o patrão à canoa, que o espera já com a rede arrumada e a beta colhida, o que tem sido feito pelo resto da companha e pelos camaradas e ajudantes, enquanto se dá a contagem do peixe.

 

E outros lanços se repetem seguidamente, porque a tainha, corrida do largo, envereda em regra para a costa por sucessivas mantas, durante dias e noites, máxime se se está em pleno inverno, isto é, nos meses de junho ou julho, em que as redes, em cada cerco, matam às vezes cem mil, duzentos mil peixes.

 

A cercos dessa ordem assistimos nós, em muitas ocasiões, na praia de Canavieiras, Lagoa, Ingleses e Ponta das Canas.

 

Quando a pesca é assim opulenta, os donos das redes mandam guarnecer imediatamente as demais canoas que possuem em seus ranchos e abarrotam-nas de peixe, fazendo-as seguir para a capital ou lugarejos próximos, onde a carga é mercada a varejo ou às barcadas, pelo mais baixo preço. Nesses dias, as excelentes tainhas de corso, com a enchova comum e a marisqueira que abundam conjuntamente, chegam a ser vendidas no próprio porto de Florianópolis a 100 réis cada uma e, vezes há, que por menos! Esses meses de inverno marcam a época da fartura, não só em toda a Ilha, como em todos os sítios litorais do continente.

 

Cada lanço dura de duas a três horas, mesmo quando fazem junção duas ou mais redes, o que ocorre sempre que o peixe investe às enseadas em enormes magotes consecutivos, como naqueles meses. Tal junção se realiza num momento e com a maior facilidade. Desde que dois ou três proprietários combinam em juntar as suas redes, reúnem-se as companhas e as embarcações respectivas neste ou naquele rancho, e todo o pessoal cai na emenda das redes, que consiste num simples ligamento de tralhas e malhas preparado por meio de rápida costura e com agulhas apropriadas, costura que, finda a faina do dia, é desmanchada com a mesma rapidez com que fora feita. As redes se unem também muitas vezes por este processo: saem a lancear ao mesmo tempo e, fechado o cerco ao cardume, começam a aproximar-se até tocarem-se as tralhas e justaporem-se as cabeças, cruzando-se aí os cabos de beta a formarem um só pelo centro. Esta emenda não oferece, porém, o resultado da primeira, porquanto o interstício que fica entre as duas cabeças deixa sempre escapar muito peixe. Um lanço dado com duas ou mais redes emendadas vale por quatro ou seis de uma que o faça isoladamente, embora nas melhores condições.

 

Realizados outros cercos com sucesso igual ao primeiro, ou sem ele, ao cair da noite recolhe-se a rede ao varal, onde se a estende para secar e recorrer-se as malhas, a fim de ver se há algum rombo a tapar. Em seguida é puxada a canoa, que sobe de popa sobre os rolos até ao rancho onde fica abrigada. O varal — que fica situado junto aos cômoros, à direita ou à esquerda do rancho, se há uma única rede; e em ambas as posições, se existe mais de uma — ocupa em geral uma área de 30 metros de frente por 8 a 10 de fundo; compõe-se de longas varas colocadas horizontalmente sobre estacas forcadas no chão e em filas (estas geralmente em número de seis), as quais desenham dos lados para o centro uma linha descendente, devido à diminuição gradativa da elevação de cada fila de estacas. A rede, quando aí estendida, forma com todo o seu tecido como uma curva de calha colossal, ficando a um dos lados os chumbeiros pendentes, ao outro a tralha longa de cortiças.

 

Recolhidas assim a canoa e a rede, o proprietário, com todo o pessoal, segue para o ponto da praia onde se aglomeram os montões de tainhas, para proceder à divisão dos quinhões. Nesse lugar já formiga densamente, sob a vaga claridade das estrelas, ou ao magnífico clarão do luar, ou sob a escuridão de um céu torvo pelas noites tempestuosas — uma imensa multidão de pessoas, que para aí entrara a afluir pela tarde, vinda de todos os sítios com a notícia dos primeiros lanços. Uma algazarra vivíssima de colmeia humana, dentre a qual sobressaem mais alto que todas as vozes grossas e roucas dos camaradas e as risadas alegres dos rapazes, casa-se, em modulações variadas, ao rugir rude e monótono do oceano ao pé e aos rosnados e latidos dos cães esfaimados que disputam furiosamente o sustento, dilacerando as arraias e cações abandonados com desprezo pelos pescadores sobre a areia solta dos cômoros.

 

Aí chegado o dono da rede, os ajudantes que trazem à mão cada um a sua vela de sebo já acesa, porque há muito que a noite cerrara, sacam algumas tainhas dos montes e, escancarando-lhes a boca, metem-lhes as velas nos dentes que as seguram como estranhos castiçais.

 

Só então todo o enorme agrupamento de gente se destaca melhor, homens de pé e cavaleiros, os quais, iluminados pelas chamas vermelhas que o vento do mar balouça e faz tremer, numa confusão geral de silhouettes mal distintas, despertam à lembrança o vago esquisso funerário de um desses noturnos banquetes canibalescos das nossas tribos selvagens do litoral, nas primeiras explorações portuguesas de que falam as crônicas.

 

Num claro aberto entre o povo, ao longo da praia extensa e diante dos montões que se alteiam ao fundo, numa reluzência de escamas argênteas, o chefe e seus camaradas, agachados junto às velas, entram a separar os quinhões, que são repartidos, primeiro, pela companha e assim sucessivamente. Estes quinhões são tirados da terça parte do todo, que é o ajuste que sempre faz o proprietário com o pessoal da rede. Os ajudantes de ocasião ou adventícios que auxiliaram a faina dos lanços recebem também uma porção de peixe, proporcional aos seus serviços.

 

À maneira que os quinhões se separam, os indivíduos a quem os mesmos competem os retiram para o lado, e, munidos de um cipó ou de um fino gancho de pau flexível que já têm preparado, enfiam o peixe pelas guelras e formam assim um cambulhão, que põem às costas imediatamente e se recolhem aos lares. Logo após aproximam-se os compradores, separando e escolhendo o peixe por suas próprias mãos, ajustando o preço pela porção que desejam, pechinchadamente e num diálogo rápido de palavras, depois do que enchem as suas malas brancas de pano, passam a perna nos matungos e dão de rédea na direção de seus sítios...

 

E a aglomeração se rarefaz pouco e pouco até que, pelas 10 ou 11 horas mais ou menos, aviados os carros que levam a parte do dono da rede para a sua habitação, toda a praia fica erma, tendo por única e vaga animação a pequena fogueira nostálgica de um ou outro que pernoita nos ranchos para os primeiros cercos da manhã.

 

*      *     *

 

Nessa mesma noite pelas casas dos donos de redes há toda uma faina doméstica: a do preparo e salga do peixe. A menagére com as filhas, moças, parentas e outras das famílias amigas da vizinhança, acomodam-se nas cozinhas ou nessas amplas varandas de chão dos prédios abastados, em torno do peixe colocado ao centro num grande montão; e cada uma de cócoras, agachada sobre esteiras ou sentada em pequenos cepos de madeira, empunhando uma faca amolada, com a pedra de afiar ao pé para quando se fizer necessário, começa o trabalho da estripação e da salga. Este serviço era feito outrora pelos escravos da casa, homens e mulheres, que tinham longos serões nessas noites hibernais de pesca junto ao braseiro confortável, ardendo e crepitando a um canto nos trafogueiros e toros. Extinta a escravidão, passou ele a ser desempenhado pela família dos pescadores, que, quando se julga insuficiente para dar conta da tarefa, reclama o auxilio da parentela e gente conhecida das proximidades, a qual acode prontamente mediante pequena remuneração.

 

Mas vejamos o modo por que se realiza o trabalho da estripação e da salga. Postadas a dona da casa e as moças — filhas e estranhas — em volta ao montão, conforme se viu acima, a faina principia, pegando cada qual um peixe, que é aberto pelas costas e lanhado em sentido longitudinal desde a altura da cabeça até à cauda, depois de convenientemente extraídas a guelra, as ovas e a banha, como lá se chama a uma pasta gelatinosa que a tainha tem no ventre agarrada à espinha, e a qual derretida dá um azeite espesso e escuro, muito utilizado para luz nesses sítios. Desdobrada assim a tainha em numerosos lanhos, são estes cobertos por uma mancheia de sal que é espalhada em toda a superfície das duas bandas cortadas. O peixe conserva a escama, e recebido este preparo se o depõe aberto como fica em grandes balaios de taquara. Todo o serviço se faz com certa rapidez e destreza, sendo que em duas ou três horas um grupo de dez ou quinze pessoas pode escalar de setecentas a mil tainhas. As ovas recolhem-se num balaio menor e à parte, depois de terem levado também uma camada de sal. Durante o trabalho servem-se todos de três gamelas oblongas e de variados tamanhos — uma contendo água, que é renovada de vez em quando, para a lavagem do peixe; outra que recebe as tripas e guelras; e outra, onde está depositado o sal. Os filhos e agregados dos donos de redes, se os possuem, ao chegarem da labuta do mar, atiram-se também ao trabalho de lanhar e salgar, auxiliando as mulheres.

 

E até à madrugada, nessas conhas e varandas inundadas de peixe, há uma alegre algazarra de faina que só termina quando a última tainha é escalada. A essa hora então, empilhados os balaios cheios a um canto, onde ficam a escorrer, e despejadas e arrumadas as gamelas, pegam-se em oito ou dez tainhas — conforme o número de pessoas — e, preparadas, escamadas e reduzidas a postas, são lançadas à panela para o caldo ou peixada da ceia. O caldo é o peixe cozido em água e sal, com tomate, cebola-verde e poucos outros temperos. É prato simples e comum, mas ali tão bem feito às vezes que constitui excelente repasto. Em geral, ao largar do serviço já a peixada está pronta, pois que fora cuidada antecedentemente. Livre e arranjada a varanda, puxa-se um largo estrado portátil, muito usado na roça como mesa para as refeições, e, estendida sobre ele uma pequena toalha alvíssima, que as mais das vezes não cobre senão a parte central, colocam-se os pratos em quadrado, põe-se-lhes ao pé a panela, com a competente colher grande de pau para tirar-se o caldo. Sentados todos aos seus lugares, a menagére entra a servir — primeiro ao marido que está a seu lado, em seguida aos filhos e outros pela gradação das idades. Um molho de laranja-azeda ou limão, com uma porção de pimentas esmagadas, enche ao centro um prato fundo, junto à cesta da farinha forrada de pano por dentro e junto à travessa colossal onde as postas alastram fartamente em montículo. Com o seu prato de caldo em frente às pernas, cruzadas comodamente à beira do estrado, cada um abarrota-o de farinha, deixando porém um lugar aberto, por onde, antes de mexer o pirão, bebe algumas colheradas... Finda a ceia com uma tigela de café, após a qual todos se vão deitar.

 

De manhã muito cedo já tudo está de pé e, bebido o "aparado", arranjam-se os varais no terreiro, tiram-se grandes lascas de embira às bananeiras, rasgam-se estas em fibras finas, faz-se um pequenino furo à faca nas tainhas escaladas e passa-se aí o atilho, unindo-as duas a duas e as estendendo depois sobre as varas para secarem ao sol. As tainhas que têm de um a seis dias de sol chamam-se frescais, porque conservam ainda a umidade da salga; as que passam desse tempo e começam a ganhar uma cor amarelada e uma oleosidade nos talhos endurecidos, denominam-se propriamente secas. Esse peixe no estado frescal é o que há de saboroso; seco porém perde muito do seu valor, sobretudo quando tem alguns meses, pois entra a cobrir-se de uma espécie de polilha e a rançar, o que o torna às vezes intragável. A tainha frescal ou seca é de muita procura e consumo por esses sítios, onde se vende a 100 réis e mais, quando termina o inverno e o peixe torna-se menos abundante.

 

Este mesmo processo de salga e seca é aplicado igualmente à enchova e à palombeta, que aparecem conjuntamente com a tainha, como já observamos, sendo a última numerosíssima até a entrada do verão, época em que ainda acode às enseadas em enormes cardumes. A palombeta é miúda e pouco maior que a savelha, mas escalada e seca conserva-se anos e anos em bom estado, porque não é oleosa. Substitui perfeitamente o bacalhau e posto não seja de fina qualidade é superior à corvina (abundantíssima ali em todo o verão) e tem agradável sabor, tanto fresca como seca. Semelhante peixe constitui um dos recursos do pobre nesses lugares pela sua barateza, pois cada cento dele custa de 200 a 400 réis e às vezes muito menos.

 

Durante o inverno, quem atravessa os caminhos que cortam em várias direções as freguesias e arraiais da Ilha, não encontra uma casinha ou choupana em cujo terreiro se não ostente a secar ao sol, em varais, uma multidão de peixe escalado — tainha, enchova ou palombeta — desenhando um risonho quadro de fartura no meio dessas populações em geral pobres. Preso aos pares pelo atilho de embira, o peixe assim aberto e dependurado às varas delgadas, correndo em linha e horizontalmente sobre estacas a prumo, palpita vagamente ao vento, assemelhando-se, de longe, a enormes bandos de estranhas borboletas gigantescas, de uma cor térreo-amarelada, que pousassem ao acaso entre verdura à frente de cada vivenda.

 

*    *    *

 

A pesca da enchova na Ilha é relativamente diminuta comparada com a das numerosas povoações litorais do continente, nessa extensa orla recortada da costa que vai de São Francisco ao Mampituba, e onde sobressaem como sítios próprios para grandes colônias de pescadores, além dos lugares citados, as praias do Itapocu, Itapocorói, Camboriú, Porto Belo, Tijucas, Zimbos, Ganchos, Armação da Piedade (outrora o maior posto de pesca da baleia no Estado), Araçatuba, Pinheira, Imbituba, Laguna e Santa Marta, pontos em que as redes são numerosas, as pescarias feitas já em grande escala, absorvendo quase toda a atividade de seus habitantes que são na maioria pescadores, não obstante a total ausência aí da mais pequena indústria de pescado.

 

A propósito de colônias de pescadores, cuja fundação em todo o vastíssimo litoral da República do extremo norte ao extremo sul, é uma de nossas mais palpitantes necessidades pelo seu futuro alcance econômico, estudaremos oportunamente o belo plano que sobre o assunto formulou, com a maior competência e critério, o almirante Artur Jaceguai, quando, há cinco ou seis anos passados, requereu ao Congresso Federal concessão para o estabelecimento de numerosas colônias desse gênero em todos os nossos estados. O peticionário solicitava unicamente do Governo, para levar a efeito a sua ideia, o mesmo auxílio que este dispensava aos burgos agrícolas, o que era coisa de nonada diante dos resultados que daria e há de dar forçosamente qualquer empresa desse gênero que venha a ser posta em prática; c obrigava-se — o que maiormente ainda sobrelevava os seus desígnios — a iniciar, impulsionar e desenvolver conjuntamente, na área de tais colônias, todas as outras indústrias marítimas de que a pesca é a base. Semelhante plano, porém, ao que sabemos, foi posto de lado no seio da representação nacional, onde se acha até hoje esquecido...

 

Mas deixemos por enquanto esse ponto, que será convenientemente estudado na segunda parte deste livro, e volvamos ao que mais diretamente nos preocupa neste instante.

 

A pesca da enchova na Ilha, como na terra firme, é feita em geral em baleeiras; canoas há entretanto que são nela utilizadas. Essas canoas o leitor já as conhece na sua forma e construção, pois as descrevemos quando nos ocupamos das redes de arrastar. Quanto às baleeiras (de que teremos de falar longamente quando nos ocuparmos da pesca da baleia no Estado) devemos dizer apenas, por agora, que são uma espécie de botes de duas proas, construídas de madeira leve, com todo o cavername fino e a descoberto, oito a dez bancos corridos, boca larga e aberta, e um tosamento nas bordas que lhes eleva proporcionalmente a popa e a proa, cada uma fechada para a vaga por um pequeno castelo. Tais embarcações são muito seguras no mar, resistem a todo tempo, bolinam admiravelmente e são veleiras como não há nenhumas outras que se lhes comparem. O nome porque se as conhece provém dos misteres para que eram especialmente construídas — a pesca da baleia.

 

Os lugarejos da Ilha que mantêm essas embarcações na pesca da enchova são — a Ponta das Canas, o Rapa e os Ingleses, ao norte; e ao sul o Ribeirão e o Pântano. Todas, no entanto, montam apenas a pequeno número, porque essa pesca é menos rendosa que a de arrastão, por determinar emprego indispensável de maior capital para a fatura de embarcações e ser de mais dura e dificultosa faina, impedindo quase que totalmente aos que a ela se entregam de consagrarem uma parte de sua atividade à lavoura, pois essa pesca depende de viagens ao largo ou contra as costas das ilhotas distantes, muitas vezes por dias e dias. Por isso é geralmente irregular nesses sítios, com exceção do Ribeirão, onde há algumas companhas e baleeiras que se não ocupam em nenhuma outra coisa além dessa.

 

A tripulação de cada uma dessas baleeiras e canoas enchoveiras (designam-nas assim para as distinguirem das que se empregam no tráfego) compõe-se comumente de cinco homens — um patrão e quatro remadores. Costumam sair para o mar às ave-marias ou pela madrugada. Os preparativos de que se munem para a pesca são insignificantes e constam de várias linhas — tantas quantos os tripulantes — armadas dos competentes anzóis; um pedaço de carne seca ou alguns peixes miúdos, que retalham no momento oportuno para iscas; uma cartolina ou dois garrafões com a aguada; e um grande catuto bojudo, que tem uma pequena boca e a respectiva tampa, contendo rancho para todos. Levam também uma ou duas mudas de roupa, com a grossa camisola de baeta para o frio e a chuva, e fumo e palha necessários: nada mais. E assim velejam ou remam para o oceano, indo fundear junto ao tostão das pequenas ilhas ou em pleno mar-alto, conforme a monção e os pontos onde o peixe mais pega, o que conhecem admiravelmente pelo aspecto do céu, pela maré, pelo vento que sopra, pela direção das correntes e pela cor das águas. Chegados à altura escolhida para fundear, levam remos e mergulham a poita, que é uma pedra de certo peso amarrada convenientemente ao chicote de um cabo e servindo de âncora. Usam às vezes, para o mesmo fim, um linguado alceado, uma fateixa ou pequeno ancorote, mas preferem sempre a todos esses instrumentos a poita, pela vantagem de não enjambrar no fundo quando este é pedregoso, e pela facilidade de a suspenderem ou içarem, em ocasião de temporais e rascada.

 

Fundeada a embarcação, sacam imediatamente das linhas, recorrem o empate dos anzóis para ver se estão bem seguros, cortam a isca convenientemente e colocam-na, depois do que cada um prende à bancada em que se senta a sua linha, e, boleando-a pelo lado da chumbada, a arremessa ao mar. Ao longo de cada linha há vários pedaços de outras, de um metro ou mais de comprimento, de onde se prende igualmente um anzol, formando deste modo como uma espécie de espinhei. Essas linhas contêm geralmente de dez a doze anzóis cada uma.

 

Quando a embarcação dá num pesqueiro — como lá chamam os lugares onde mais aflui o peixe — ou paira sobre um cardume, é só imergir a linha e tirá-la, porque a enchova ferra logo, vindo muitas vezes de envolta com ela uma ou outra das excelentes pescadas bicudas ou douradas. Em tais condições, a baleeira enche-se de peixe apenas em horas, suspendendo após a poita e velejando alegremente para terra, a marinhagem a cantar expansivamente essas quadras marítimas tão populares em todo o litoral catarinense, enquanto o patrão ao leme, com a trombeta de guampa à boca, ao enfrentar os povoados, apregoa o peixe à venda, num estrídulo buzinar.

 

Além da pesca de arrastão e de linha, há mais a de tresmalhão, tarrafa (no mar e nos rios), covo, facho, gamboa, curral, fisga, a do camarão, etc., esta última feita com uma pequena rede apropriada e de malhas menores que as da tarrafa. Os últimos destes processos, porém, são muito menos usados na Ilha que os dois primeiros citados, os quais vimos de detalhar como os principais. Entretanto, dos outros nos ocuparemos na segunda parte deste trabalho, em capítulo que, como já foi dito, consagraremos a todas as pescarias do Estado.

 

 

 

A vida rural

 

 

 

1. Velhos processos agrícolas

 

Vários são os ramos de exploração agrícola na Ilha de Santa Catarina, como a mandioca, a cana-de-açúcar, o milho, o feijão, o amendoim, a videira, o algodão e o café (este último atualmente em tão grande escala que, dir-se-ia, suplanta todos os outros), isto não falando nos menos avultados e menos valiosos. Todos eles porém (com exceção do café, como é óbvio) são insignificantes, pela estreita área que compreendem, pelo retalhamento dessa área entre uma população rural de mais de 15.000 almas, pelas práticas e usos rotineiros e antiquíssimos que os presidem, pela falta de auxilio oficial necessário, pela ausência de iniciativa particular, de instrumentos mecânicos apropriados, etc. É em virtude de tudo isto, e mais das últimas causas apontadas, que geralmente a lavoura da Ilha pouco mais dá que para o consumo de seus habitantes. É verdade que há alguma exportação, mas limitada e constituída a bem dizer pelo amendoim, a farinha de mandioca e o café, os dois primeiros em pequena quantidade e só o último em maior porção.

 

Entretanto, no continente (o que importa dizer em todo o Estado) a agricultura prospera e conta já certos processos novos e instrumentos aperfeiçoados do domínio da mecânica e das ciências naturais, especialmente nas regiões coloniais ocupadas por densos núcleos de população alemã e italiana ou originária dessas raças, processos e instrumentos de que nos ocuparemos amplamente na segunda parte deste trabalho, quando tratarmos da colonização e seus admiráveis resultados na terra catarinense. Mas isso não é ainda nem a sombra do que devera ser, pois esses processos são adotados de modo muito restrito e só na lavoura desses meios das ex-colônias, porquanto a agricultura no Brasil estaciona-se ainda em seus métodos embrionários. Senão vejamos o que diz a tal respeito o relatório da Fazenda, de 1897, no capítulo intitulado Necessidades da Lavoura. Aí, entre muitas outras considerações judiciosas, destaca-se o seguinte trecho que é da mais eloquente verdade:

 

"Um dos fatores da situação dificílima em que se encontra a lavoura brasileira é, sem dúvida, a preeminência da rotina sobre as práticas que derivam da ciência moderna. A tradição perpetuou-se na classe operosa da lavoura, encontrou nela meio tão apropriado à expansão de suas raízes que, para extirpá-las, tem sido infrutíferos os esforços continuados da propaganda científica e a própria experiência dos nossos desastres na luta da concorrência.

 

Quem pretendesse submeter à rigorosa análise a vida econômica da lavoura, chegaria à convicção desoladora que, reprimida a febre da indústria extrativa, a que se entregaram os primitivos colonizadores e iniciada a exploração do solo, não se operara, até os nossos dias, evolução sensível nas práticas de cultura então adotadas.

 

Na maioria dos nossos produtos agrícolas, domina verdadeiro misoneísmo, a que se opõe submissão incondicional ao passado, como se a indústria agrícola, com ser um dos mais importantes ramos de atividade, não reclamasse conjuntamente com as lições da experiência, conhecimento exato do meio em que deve exercer sua ação fecunda e regeneradora. Executam-se certas operações, não porque se conheça o efeito que elas possam manifestar na vida da planta cultivada, senão por traduzirem uma herança de progenitude, transmitida à geração atual, como a terra que se explora e a casa em que se habita.

 

A mecânica, em suas prodigiosas conquistas, tem multiplicado os meios de mobilizar as terras, de facilitar as culturas, substituindo, com diminuição do custo de produção, os braços, que por toda a parte escasseiam à lavoura, por instrumentos aperfeiçoados; a química lavrou formal condenação à doutrina do esgotamento do solo arável, facultando ao cultivador recursos abundantes para fertilizá-lo; a meteorologia, em suas salutares previsões, salvaguarda os interesses do lavrador inteligente; a agricultura nacional, porém, na asserção do empirismo, conserva-se estacionária, tornando-se inacessível aos proventos que fartamente poderia colher.

 

Grande número dos que seguem no Brasil a indústria agrícola, que será em todos os tempos o elemento mais forte da estabilidade social, a fonte mais abundante das rendas públicas, a única força que possa determinar o equilíbrio orçamentário, não votam à sua nobilíssima profissão o amor, a dedicação que ela lhes devia inspirar pelos interesses que lhe confere, pela grande soma de bem-estar que lhes prodigaliza. A verdade desta asserção decorre do empenho com que o cultivador procura afastar dos labores da vida agrícola aqueles que deviam receber, desde a primeira idade, educação adequada à profissão de seus pais, por serem seus legítimos sucessores, herdeiros de seus bens, depositários de suas tradições.

 

As propriedades rurais ficam, destarte, entregues a pessoal inábil, baldo das qualidades essenciais a quem dirige empresa tão complexa, como a exploração do solo, que não pode prescindir de conhecimentos técnicos capazes de alargar a espera dos recursos de que dispomos para agir no fenômeno econômico da produção. Em geral, o lavrador é inteiramente estranho às ciências de que depende o êxito de sua profissão, e tão acentuada é a sua incredulidade, que chega a condenar, sem exame prévio, qualquer inovação subversiva dos hábitos a que se sente escravizado.

 

O preconceito a que aludimos, não contamina exclusivamente as populações rurais do Brasil, que dele devem ser absolvidas, atentos os ensinamentos que receberam; mas estende-se por grande parte da Europa, como faz crer o grande químico L. Laze, em recente artigo da Revista Geral das Ciências, quando ocupando-se dos industriais da Normandia, mostra a repugnância que eles têm em aceitar, como seus auxiliares, antigos alunos das escolas superiores da França.

 

Assim, a lavoura nacional se depaupera, enerva as suas energias, por isso mesmo que opõe a muralha inexpugnável de velhos preconceitos à invasão de ideias modernas, enquanto que a indústria similar estrangeira procura multiplicar os seus elementos de ação, conquistar novas e mais lisonjeiras posições nos centros do consumo, obtendo com o menor dispêndio de esforços a maior soma possível de utilidades".

 

Os processos e instrumentos agrícolas usados pelos lavradores da Ilha ainda são os mesmos que se empregavam há um século ou mais, e a exploração de certos produtos igualmente a mesma, com o acréscimo apenas de um ou outro, mas também com o abandono total ou quase total da cultura do linho de várias qualidades — cânhamo, galego e donzelo — que era feita com algum proveito na freguesia da Lagoa e em outros sítios. A prova do que dizemos encontrá-la-á o leitor na obra de Paulo de Brito Memória Política da Capitania de Santa Catarina, em a parte que trata da agricultura aí até 1808.0 que expõe esse livro sobre a lavoura catarinense, em geral, é o que se observa ainda hoje com relação à da Ilha, que em pouco ou nada mudou, pois se acha quase no mesmo pé de atraso em que se via então. Verifiquemos isso transcrevendo aqui o trecho compreendido às páginas 59-64 da sobredita obra.

 

"Passando, porém, a tratar da cultura das terras nesta Capitania escreve o cronista, direi que é semelhante à que se pratica em todo o Brasil: as primeiras sementeiras são feitas nas cinzas dos matos queimados, e produzem muito, porém as seguintes produzem menos; as terras são preparadas com a enxada; com estas se fazem covas pouco profundas, onde se lançam as sementes, que depois se cobrem com pouca terra, que o semeador empurra com o pé, de maneira que não se usa do arado, nem de outros instrumentos de lavoura de que se faz uso em Portugal. A debulha e a colheita dos cereais e dos legumes, geralmente falando, é pouco perfeita; naquela usam mais do mangual que dos gados; nesta não sacodem nem joeiram bem o grão; e o ensacam com grande quantidade de casulos, e de pragana; na preparação da farinha de mandioca também há pouca perfeição, do que resulta ordinariamente ser grossa e pouca torrada; e o mesmo se observa na preparação do arroz, que todo é descascado à força de trabalho braçal. No que respeita ao açúcar, também no país não o preparam bem, é pouco batido, e mal barreado, e por isso umedece facilmente; fabrica-se pouco, e pela maior parte reduzem o sumo da cana à aguardente, que em geral é boa, e tem exportação: não há na Capitania engenhos, mas sim pequenas engenhocas.

 

A agricultura tem um grande obstáculo nesta Capitania, o qual consiste na falta de fazendas de criação de gado vacum, cavalar e lanígero; o que é devido ao desmazelo ou ignorância daqueles a quem cumpre prover e vigiar sobre tais objetos de administração pública. Semelhante falta em um país, que até 1808 era puramente agrícola, é na verdade bem notável! A consequência dela é, que todos os lavradores vão ou mandam comprar os seus gados à Capitania do Rio Grande, não só os que são necessários para os trabalhos da lavoura, mas até os que são precisos para o sustento dos habitantes, pois que todo o gado que se mata e corta nos açougues se vai comprar à referida Capitania. Contudo os lavradores conservam sempre algumas reses para os seus serviços e trabalhos campestres, e da propagação destas reses destinam as que podem dispensar para as vender aos navegantes, que aportam na Ilha de Santa Catarina.

 

Por esta breve exposição do estado da agricultura da Capitania, se conhece que ela é apoucada e imperfeita; portanto exige esta toda a atenção e zelo da parte daqueles, que estão à testa dos negócios públicos; sendo aliás certo que sem agricultura não podem haver artes, nem comércio: máxima esta que é geralmente aplicável a todos os países, quaisquer que sejam as teorias dos escritores modernos de Economia Política.

 

Todas as nações da Europa seguem com as suas Colônias o sistema de lhes proibir o estabelecimento de fábricas e artes da primeira ordem, que servem para fornecer os principais objetos de comércio; sistema que Portugal também seguiu até ao ano de 1808; mas não era possível proibir duas qualidades de indústria, sem as quais as Colônias nunca sairiam do estado de infância, e cujos resultados com o tempo viriam a ser fatais às metrópoles. A primeira é aquela de que depende a conservação e o melhoramento dos diferentes ramos da agricultura própria do país, como são a preparação de muitas produções que lhe são inerentes, porque a terra produz matérias brutas, às quais é indispensável dar a conveniente forma, segundo o uso que delas se pode e deve fazer, aliás de pouco serviria a sua cultura; a segunda é aquela indústria, que se exercita nas artes e ofícios da primeira necessidade, tão indispensáveis que nenhuma sociedade política pode existir sem eles; tais são por exemplo os ofícios de pedreiro, carpinteiro, alfaiate, sapateiro e outros. Portanto, estas duas qualidades de indústria também haviam de exercitar-se na Capitania de Santa Catarina, ainda que em grau medíocre e pouco perfeito; mas também ali existem outras de que se tira algum proveito, e mais se tirará pelo decurso dos tempos, uma vez que findou o indicado sistema político em consequência da vinda da Corte para o Brasil, e que o soberano tem permitido o estabelecimento de fábricas, de manufaturas, e o livre exercício de toda e qualquer indústria.

 

O algodão, suposto esteja ainda atrasada a sua cultura e amanhos nesta Capitania, é uma das suas produções em que os habitantes exercitam bastante indústria: tiram-lhe o caroço, e o batem, e fiam à força de trabalho manual, e sem que empreguem máquina alguma das que são próprias para tais fins; dele fazem panos finos e grossos para diferentes usos, tecidos com o linho, de que também usam, ou separadamente e sem mistura; eu vi mui boas musselinas, acolchoados, colchas para camas, a roupa de mesa, tudo fabricado no país, e além disso alguns tecidos de algodão cor de ganga, que o terreno também ali produz, se bem que em menor quantidade. Faz-se ali pouco uso do anil, do qual extraem a cor por meio de fervura promovida pelo fogo, tingem o fio de algodão, e fabricam panos com listras azuis para vestuário, de que se vestem os pobres e os escravos.

 

Do gravatá, arbusto que a terra produz em abundância e sem dependência de culturas, extraem os habitantes daquela Capitania, por meio da fermentação e maceração, uma fibra rija e flexível, com a qual fazem cordas para diversos usos, mormente empregando-as no trabalho das embarcações e redes de pescaria; e tecido fazem dele velame e sacaria.

 

Da casca de um arbusto, a que no país chamam estopa-pau, extraem os habitantes uma certa estopa, de que se servem para calafetar as embarcações; e a experiência tem mostrado ser muito própria para as obra que devem estar debaixo d'água.

 

A indústria relativamente ao linho-cânhamo é nula; e produzindo esta semente em muita abundância, desgraçadamente não a semeiam os habitantes. De balde tem o Ministério em diversos épocas tentado promover a sua cultura, porém não tem posto em prática os meios necessários para este fim; tem-se dado sim a semente aos lavradores, e tem-se-lhes oferecido pagar o linho-cânhamo, depois de preparado, por 3$200 réis cada uma arroba; porém como os linhos, donzelo e galego, geralmente se vendem no país por 4$960, não querem os lavradores cultivar o cânhamo, que lhes dá menor interesse, e por isso de propósito inutilizam esta semente, fervendo-a em água antes de a deitarem à terra, para fazerem persuadir que não é análoga ao terreno. Pode o Ministério estar certo de que se não tomar outras medidas, nunca obterá linho-cânhamo de Santa Catarina e do Rio Grande, porém se tomar medidas discretas, obterá de ambas estas Capitanias não só o necessário para consumo da nossa marinha, mas até para vender aos particulares e aos estrangeiros: já (em outro tempo) houve bastante linho-cânhamo em Santa Catarina, e até já ali se fabricaram viradores, amarretas e outros cabos; e se então se tivesse premiado quem os fabricou, talvez houvesse quem o imitasse nesta indústria.

 

No vice-reinado do Marquês de Lavradio, e no de seu sucessor Luís de Vasconcelos e Sousa, foi muito animada em Santa Catarina a propagação da cochonilha e a indústria resultante deste importante inseto; hoje, porém, não há nem indústria, nem inseto algum desta espécie em toda a Capitania: a causa de se desprezar este tão interessante ramo de indústria é a mesma porque se tem abandonado outras.

 

Aos sobreditos dois beneméritos vice-reis deve a Capitania a plantação do café, e mormente ao segundo, que neste e outros objetos de utilidade pública foi coadjuvado pelo incansável e zeloso governador José Pereira Pinto, cujo governo durou desde 7 de junho de 1786 até 17 de janeiro de 1791, período este em que se fizeram na Capitania muitas coisas úteis, e em que assaz se promoveu a agricultura e indústria: a Capitania produz hoje muito e bom café, mas a sua cultura e amanhos ainda estão muito atrasados .

 

Pelo que respeita às árvores frutíferas há hoje alguma indústria, mormente para com as de espinho e caroço, pois se vai adotando a operação da enxertia; e por isso em algumas chácaras de particulares há belíssimas frutas: também já se encontram nas mesmas, flores de diferentes espécies, e diversas hortaliças, que não são inferiores às de Portugal. Não há porém indústria alguma acerca dos frutos oleosos, tais como a azeitona, o amendoim, o mamão e outros, os quais são totalmente desprezados, podendo aliás utilizarem-se extraindo deles muito azeite, ao menos para os usos domésticos.

 

Pelo que aí se resume sobre a indústria agrícola da Ilha, dado o necessário desconto à diferença das épocas e postos de lado uma ou outra alteração e aperfeiçoamento no beneficiamento de certos gêneros, sem contudo melhorar ou substituir por outros os aparelhos e instrumentos de lavoura, mede-se perfeitamente o que existe e o que se faz ainda hoje na vida rural desses sítios, onde os habitantes conservam conjuntamente os mesmos usos e costumes antigos de outrora, os quais, entretanto, pela sua ingenuidade e simpleza, pelo seu encanto e poesia, merecem ser aqui desenhados com todos os matizes.

 

E é o que faremos agora, procurando salientar, tanto quanto possível, no meio dessa paisagem deliciosa do sul, o belo tipo do matuto e da matuta catarinense, que tanto conhecemos e amamos por havermos nascido entre seus braços e vivido depois, durante os primeiros tempos descuidados de nossa infância feliz, em meio de seus afetos, alegrias e carinhos.

 

Dessa existência abençoada e serena, que reputamos a mais pura e a mais bela, por isso mesmo que é simples, não esqueceremos nenhuma das feições e aspectos fisiológicos e psíquicos, dando ao mesmo tempo breves croquis e descrições dos engenhos de mandioca e de cana, em descanso ou na sua faina ativíssima, pousados num recanto verde de pastagens e árvores ou na volta branca ou vermelha dos caminhos; dos largos quadrados das roças pelos morros e baixadas ou na amplidão das planícies; das queimadas crepitantes, ardendo, esmaiadas e em fumo, sob o ouro dos meios-dias, ou vermelhando rutilosamente com as suas línguas iluminantes de chamas nas noites negras ou límpidas; das coivaras encinzadas, onde os troncos dos vegetais seculares não foram de todo destruídos e se ostentam em espigões de cerne carbonizados onde dobram os passarinhos; de uma virada de terra à enxada sob amorosas cantigas; de um recolher manso de gado por um ocaso sanguíneo; de uma cavalgata campeira; de uma aprendizagem de novilho no tronco; do ordenhar de uma vaquinha, amarrada com a sua cria debaixo de uma parreira; e desses carros de boi tradicionais e primitivos, carregados e a chiar, arrastados por dois nédios bois pacientes, em direção aos engenhos, de volta do campo ou das roças, pelo meio dos caminhos...

 

 

2. O engenho de farinha

 

É de maio a outubro de cada ano, em geral, que começam a trabalhar os engenhos de farinha e os de cana: os primeiros funcionam em todas as freguesias e arraiais uns após outros ou muito conjuntamente, durante todo aquele espaço de meses, conforme o tempo em que as roças foram plantadas, pois as de mandioca o podem ser em qualquer época; os segundos só trabalham de maio a agosto comumente, que são os meses próprios para a colheita da cana, mas a sua plena atividade limita-se verdadeiramente a junho e julho, época caracterizada lá entre os roceiros pelo "tempo do açúcar".

 

Ocupar-nos-emos em primeiro lugar dos engenhos de farinha, descrevendo-os resumidamente em toda a sua organização e função, pintando o viver e a operosidade dessas gentes dos sítios, durante as farinhadas, e traçando ao mesmo tempo igualmente a maneira pela qual, findos esses trabalhos, se fazem as novas plantações.

 

Só possuem engenhos de farinha ou de cana os lavradores remediados ou mais abastados, porque esses aparelhos, posto que primitivos e simples — como são todos os da Ilha — demandam todavia um dado capital para o seu estabelecimento e a construção de um prédio apropriado, embora o prédio, as mais das vezes, como se observa comumente, não passe de um grande rancho de paredes de pau a pique barreadas e coberto de tiririca, abundantíssima ali nos terrenos alagados. Por essa razão os lavradores pobres só podem fazer farinha depois que esses proprietários acabam a sua. Então tomam de empréstimo os engenhos, pagando a utilização que deles fazem com a pequena retribuição de alguns dias de serviço de lavoura prestados àqueles proprietários.

 

Os engenhos elevam-se sempre ao centro das áreas de terra mais adequadas a cada espécie de cultura, para facilitar a condução das colheitas que têm de ser neles preparadas atendendo também a outros requisitos indispensáveis, como água próxima e abundante para todos os misteres, pastagens para animais, vias de comunicação fáceis, etc. Daí o serem, na sua maior parte, colocados longe das habitações dos proprietários, muitas vezes à distância de um quilômetro e mais, porém sempre à beira das estradas de rodagem e nas proximidades de cachoeiras, regatos ou rios. Por estarem assim afastados guardam todos acomodações para famílias, que neles habitam nos longos dias das farinhadas: cada um é dividido em duas seções comunicando-se internamente — uma com salas e quartos para os serviços domésticos, convenientemente assoalhada e provida de certo conforto: a outra aberta e de chão, muito ampla, onde se acha o aparelho com todos os acessórios, tendo pequenas janelas e duas largas portas de saída, uma à frente e outra aos fundos.

 

Situados a algumas braças da estrada real, com um caminho fechado por uma porteira que vai dar ao terreiro vasto, de onde saem para todos os lados os atalhos que levam às plantações em torno, os prédios têm a cercá-los, quase junto às paredes e ao telhado, grandes bananais, cafeeiros e laranjais que os ocultam às vezes sob os rendilhados das ramagens espessas, através das quais mal se os avista de longe, por estreitos fragmentos barreados. A um recanto próximo vê-se o cercado de varas unidas e altas protegendo uma bela horta, onde vicejam, de par com legumes de toda a espécie, esplêndidas roseiras, jasmineiros e malvas, como nos alegres jardins florescentes que ornam sempre nesses campos a frente das moradas rústicas. Estas hortas-jardins são cuidadas, durante a faina da farinha, pelas moças de casa e depois pelos homens da lavoura — filhos ou agregados — que vão passar dias e semanas aos engenhos para a plantação, a limpa ou a capina das roças.

 

Mas vejamos o aparelho do engenho de farinha na sua organização e disposição, como na de seus acessórios, para depois tratarmos da colheita da mandioca, sua raspagem e preparo para a fabricação da farinha, quando esses ranchos — pois que outro nome não merecem — regurgitam de pessoas, mulheres e homens, labutando alegremente, entre risadas e cantares, e formando essas cenas e quadros encantadores da vida rural catarinense.

 

O aparelho do engenho compõe-se de um grosso pião a pino, trabalhando no alto em um orifício feito na viga-mestra da cumieira e embaixo sobre um largo dormente de madeira, onde encaixa o outro extremo. Do meio do pião, faceado em quatro quinas e mais reforçado aí, saem vários raios de madeira sustentando uma grande roda denteada de 10 metros de diâmetro mais ou menos, a qual engrena horizontalmente no eixo, também denteado, da roda da sovadeira e a põe em contínuo movimento, impulsionada por sua vez pela almanjarra recurva de peroba, cuja ponta elevada faz firme no referido pião quase junto ao orifício da viga. A almanjarra desce como um enorme gancho, salvando no meio círculo que descreve a roda grande da engrenagem, a mesa da sovadeira e todo o aparelho desta, o forno colocado sob o seu raio, o cocho da escorredura e o da massa, de sorte a poder mover-se livremente no pescoço do boi que se junge à ponta descendente, onde há uma pequena canga com dois canzis, como os dos carros, e a brocha para prender o animal. A roda da sovadeira é menor que a outra e gira verticalmente dentro de um quadrado de madeira, tendo a uma de suas faces perpendiculares, justamente no ângulo onde encunha a prancha chamada mesa da sovadeira, uma pequena aberta a que justapõe, muito unida, a chapa de folha-de-flandres, picada em arestas vivíssimas, que rala a mandioca reduzindo-a à massa de que se faz a farinha. Na base do quadrado assente sobre o chão, há um cocho fundo onde cai toda a massa, que é retirada para a prensa em grandes tipitis à proporção que aumenta. Com a mesa da sovadeira entesta o cocho da escorredura, onde se deposita com água a mandioca raspada e de onde a vai tirando o sovador para o ato da ralagem. Nesse trabalho o sovador se escancha sobre a mesa e, empunhando as raízes duas a duas, coloca-as de ponta contra o crivo reluzente e cortante da roda, que se move incessantemente. O forno é circular e todo feito de tijolos cobertos de grosso reboco, segurando às bordas uma caldeira de cobre, funda de meio palmo e de seis metros de diâmetro, em que se torra a farinha por fornadas seguidas. Em certa altura, abaixo da linha da caldeira, uma pequena abertura na parede marca a boca do forno, pela qual se introduzem as achas e toros de lenha que alimentam o fogo durante a forneação. Mexe a farinha uma espécie de hélice de madeira movida pelo aparelho geral do engenho, dispensando assim a presença efetiva do forneiro, que é em geral qualquer dos homens empregados em outros misteres, e cujas funções consistem apenas em examinar de vez em quando o ponto em que se acha a farinha até ficar pronta, renovar o combustível ou atiçar os trafogueiros. Tal é o aparelho principal do engenho.

 

Além deste há apenas o da prensa, que consta de uma armação de grossas e pesadas madeiras (geralmente peroba) com uma forte base de 2,5 m de comprimento por 0,7 m de largura, de onde se erguem duas colunas quadradas coroadas em cima por um pranchão do feitio da base, porém mais delgado e estreito. Entre as colunas, e à distância igual um do outro, veem-se dois enormes fusos de madeira, que se prendem à travessa do alto e cujas cabeças faceadas têm quatro amplos orifícios, onde se fincam, para se lhes dar movimento, os chamados paus de prensa. São estes fusos que, descendo sobre os tipitis cheios, colocados sobre a mesa da prensa e convenientemente cobertos pelos pesados e grossos discos de madeira conhecidos por chapéus dos tipitis, os comprimem poderosamente para o enxugo da massa, que é depois levada ao forno. A mesa da prensa é toda sulcada de estreitos e rasos entalhos ao longo dos quais corre a água gomosa da mandioca que, caindo a princípio em um pequeno cocho e passando depois por meio de uma calha para outro arrumado fora, no terreiro, se vai secar e purificar ao sol, constituindo o polvilho.

 

Completando os utensílios necessários a um engenho de farinha, quando em funcionamento, há, além dos cochos já citados, pequenos outros destinados às raspas, à caroeira e à mandioca puba, bem assim ainda alguns de grandes proporções, feitos em geral de velhas canoas de voga inutilizadas no serviço do tráfico ou das redes. Estes últimos servem de paióis à farinha, que neles se deposita logo que sai do forno e neles permanece, bem coberta por grandes esteiras de peri, até à ensacadura ao fim das farinhadas.

 

As raspas são pequenos pedaços de mandioca escolhida, que a gente dos engenhos aproveita, depois de convenientemente preparados, para pudins e outros doces. Chama-se caroeira a massa picada e seca, crespa de um aspecto grisalho, que resulta da mistura dos pequeninos nós brancos das raízes que rejeita o ralador com as aparas negras da mandioca, a qual se distribui em rações ao gado e outros animais. A mandioca puba consegue-se mergulhando-se as túberas já raspadas em um cocho com água durante dias, após o que é utilizada na confecção das saborosas roscas, chamadas de mandioca puba.

 

Já vimos as vasilhas apropriadas para tudo isso e suas designações: vejamos agora o que são e do que se fazem os tipitis acima mencionados.

 

Os tipitis são uma espécie de balaios da capacidade de um alqueire proximamente, altos e de forma faceada (quando novos, pois uma vez em uso adquirem imediatamente um feitio circular), fechados por uma boca redonda e do diâmetro de um prato. São feitos de taquaras verdes, que, cortadas em fitas estreitas e desbastadas à faca, dão-lhes admirável flexibilidade, aumentada ainda pela molhadura que tomam esses cestos nos rios ou fontes, durante dias, cada vez que têm de entrar em serviço. Os tipitis, mesmo depois da taquara seca, uma vez umedecidos, conservam por muito tempo essa flexibilidade; e assim é que duram, em uso contínuo, de quatro a seis anos e mais.

 

 

 

3. A farinhada

 

Em maio começam a emigrar para os engenhos as primeiras famílias dos lavradores-proprietários, quando estes não possuem redes, pois os que as têm só podem entrar em farinhada ao fim da quadra mais ativa da pesca, lá para outubro ou novembro; e só o fazem antes, nos anos em que a farinha está em "alta" e tem grande consumo nos estados do norte, como por ocasião de secas e outras. Em tais épocas então dividem o pessoal do trabalho entre os engenhos e as redes, e eles próprios, numa prodigiosa atividade, galopando a cavalo do sítio para a praia e vice-versa, desde o romper do dia até à noite, ora assistem aos lanços das últimas, ora aos trabalhos dos primeiros. Mas geralmente em maio já muitos engenhos trabalham pelos arraiais e freguesias da Ilha catarinense.

 

Assistamos à mudança de uma dessas famílias para o seu engenho acompanhemos uma farinhada do primeiro ao último dia, apanhando-a em seus principais detalhes e cenas.

 

Na véspera, o carro ou os carros — porque os proprietários às vezes dispõem de dois ou de três, conforme suas posses e haveres — ocupam-se exclusivamente na condução da criação, pequena mobília e utensílios caseiros indispensáveis ao conforto, à lida propriamente doméstica e à do engenho, carregando igualmente os mantimentos necessários à família para uma estada de um a dois meses. Semanas antes, esses mesmos veículos têm acarretado do campo, em carradas seguidas, a lenha que terão de consumir fogão e o forno durante esse tempo, a qual é disposta em montões, ao fundo do terreiro, sob os cafeeiros e laranjeiras. Por esse tempo, já o edifício do engenho que, como de costume quando não está em serviço, serve de celeiro ao café, ao feijão, ao milho, ao amendoim e ao arroz, se acha completamente desimpedido e arrumado, com todo o aparelho e acessórios prontos para a faina da mandioca, bem como a parte onde assentam as salas e demais cômodos reservados à família. Aí também, já os tipitis, amarrados uns aos outros cm molhadura de dias para adquirirem flexibilidade, coalham, como estranhas ilhotas rendadas, as grandes fontes ou pequenos braços de rios que recortam as terras em volta; e o caminho geral do engenho e os estreitos atalhos aparecem limpos das ervagens e grama que os invadiram durante o ano, numa total roçadura e capina, de que se veem ainda contra as sebes as touceiras ressequidas estrumando os espinheiros.

 

No dia marcado para a partida, ao primeiro cantar do galo, a turma de filhos e agregados do lavrador que não pernoitou no engenho, põe-se de pé e sai para os pastos ou currais a pegar os bois, que são cangados ao carro no terreiro da habitação, sob a larga parreira onde este ficara, já de sebe nos fueiros, para a condução da família. A esse tempo, a dona da casa ergue-se e vai de quarto em quarto acordar as meninas, uma das quais —a mais velha — se dirige logo para a cozinha a fazer o fogo e a cuidar do "aparado". A velha mãe e as outras filhas vão ver as trouxas e mais uma ou outra coisa que fora deixada para a última hora, como acontece sempre nos lares latinos, enquanto o marido, fumando um longo cigarro de palha ou mascando, sela, à cocheira, um dos seus cavalos de montaria, dando ordens contínuas aos rapazes que se agitam no terreiro a embarcar os tarecos, numa matinada alegríssima.

 

Tudo isto se faz ainda escuro, com as estrelas a piscarem do alto do azul-ferrete do céu no seu crivo de ouro vivo. A sombra sepulta ainda os vegetais, que mal ramalham pelas frondes, à primeira aragem fria da alvorada. E a lufa-lufa feminil cresce dentro de casa, onde as raparigas esvoaçam atrapalhadamente, incertas e estremunhadas, de candeia ou vela de sebo na mão, a vestirem-se e a procurarem as coisas, sob os ralhos esganiçados da velha, que as aguilhoa no seu lidar expedito...

 

Por fim, tudo pronto, todos se vão acocorar à cozinha e, bebido o "aparado", postas a lata do açúcar, e as colheres, e as xícaras, em um samburá de asa, que um dos rapazes imediatamente arrebata ao braço, ó velho roceiro toca o "povo" para o terreiro e fecha a porta da cozinha.

 

A velha e as moças sobem então para o carro, já totalmente despertas e a rirem-se; e o veículo, os cocões afrouxados nas cunhas para não chiar, entra a rolar lentamente pelo caminho, no ranger das guascas da canga, no plac-plac das patas dos animais e no rumor seco das rodas, solavancando as asperezas do terreno, em meio às emanações deliciosas das plantas e ao trilar festivo dos pássaros, à primeira claridade suave que vem dourando o nascente...

 

 

 

4. A colheita da mandioca

 

À mesma hora, mais ou menos, em que a família segue para o engenho, largam daí os outros carros para os mandiocais das encostas ou das chapadas dos morros. Conduzem-nos os homens da turma que pernoitara no engenho, os quais se dividem ainda em dois pequenos grupos — um que fica nos trabalhos da arrancadura das raízes na roça, outro que se ocupa nos serviços internos do engenho e nos carros, como o sovador, o moço dos tipitis e da muda dos bois, o da prensa, os carreiros, e o forneador. Estes últimos são auxiliados depois pelos que trazem o carro onde vem a família. Nos dias que se desdobram no prosseguimento da faina, todos se revezam, a fim de que as durezas da labuta se repartam igualmente por todos.

 

Os mandiocais dos morros são os primeiros a colher-se, pela longa distância a que ficam sempre dos engenhos, como já observamos, pois que estes se acham em regra situados em planícies, atendendo ao equilíbrio de certas condições que precisam reunir para o seu bom funcionamento, condições já também apontadas por nós e que são — a proximidade de águas abundantes, pastagens, estradas de rodagem, etc.

 

Chegado o pessoal à roça, deixam-se os carros em lugar apropriado, debaixo do pequeno rancho de palha que se costuma construir aí para abrigo da gente, durante o tempo da plantação e da capina, ou sob as grandes árvores copadas. Em seguida descangam-se os bois, que são amarrados pela soga nos lugares gramosos do monte, ficando os carros com o cabeçalho sobre o muchaco e a sebe arranjada para receber a carga.

 

Os arrancadores iniciam o serviço por um dos extremos da roça e, pegando a rama com as duas mãos e balançando-a, arrancam as raízes, que estão à flor da terra fofa, as quatro, seis e mais, pois tantas dá cada pé de mandioca; depois, sacodem-nas um pouco para caírem os torrões, e quebrando-as pela ponta da cepa atiram-nas para os grandes balaios vazios que têm ali à mão. À proporção que os balaios se enchem conduzem-nos para os carros, atopetando cada um de per si até à conta da carrada. Cobrem esta de rama, que encarapitam e socam no alto dos fueiros, ajudam os carreiros a travarem com cordas a carga e voltam prestamente à faina, acumulando montes e montes de raízes, em meio ao mandiocal, enquanto os carros vão e volvem.

 

Três carros, servindo simultaneamente, podem fazer de doze a quinze carradas por dia na distância de um quilômetro, pois não trabalham senão de manhã e à tarde, evitando as horas em que o sol é escaldante para não estafarem os bois.

 

 

 

5. A raspadura

 

As primeiras carradas chegam quase sempre pelas sete horas da manhã. Já a família, estabelecido e arrumado tudo em seus cômodos, prepara-se alegremente para a raspadura. É este, com a colheita do café e a do algodão, o único serviço propriamente agrícola em que se emprega a mulher nesses sítios da Ilha, não falando na pequena ocupação com a criação, os jardins e as hortas, o que é insignificante. Além desses, os outros trabalhos femininos são exclusivamente domésticos, isto é, só se fazem portas a dentro no lar, como a fiação do gravatá, do algodão, do linho, os bordados, as rendas de almofada, os crivos, as tecelagens e tantos outros.

 

A matuta ou roceira catarinense, como em geral a de todo o Brasil, não se parece nisso com a aldeã europeia, a portuguesa especialmente (das ilhas ou do continente) que trabalha na agricultura e em certos misteres da pesca como um homem, chegando a ser carreira, pastora, remeira, etc., como nô-la descreve Guerra Junqueiro, n'Os Simples, Ramalho Ortigão, n'As Farpas, e muitos outros dos antigos e modernos escritores do Reino. E Oliveira Martins, tratando da pesca no seu magnífico livro Portugal nos Mares, diz em uma nota à pág. 244 da 2a. edição dessa obra: "São estas (as mulheres dos arraiais) quem vende o peixe e cura dos aprestos dos barcos. O pescador desembarcado terminou o seu trabalho: a esposa é quem dirige a economia da indústria".

 

A roceira de Santa Catarina (falando sem atender a exceções, que não entram nem podem entrar aqui como argumento), quer nas regiões interiores ou de serra acima, quer no litoral, não toma parte direta na agricultura, nos labores másculos da vida pastoril, nem na pesca, resumindo-se a sua atividade a tal respeito tão somente aos misteres caseiros, que são aliás avultados e importantes, como veremos agora na lida interna do engenho.

 

Encostados os primeiros carros à larga porta do terreiro, a carga é vazada em grandes cestos para um vasto lugar inteiramente desimpedido, que fica ao centro do engenho, ao pé do principal aparelho. Aí as raízes se acumulam num grande monte, que aumenta pelo dia adiante, à maneira que se sucedem as carradas.

 

A mãe de família e as filhas, com as moças da vizinhança que quase sempre aparecem para ajudá-las na labuta, imediatamente tomam lugar em volta do monte de mandiocas, agachando-se sobre amplas esteiras ou sentando-se em baixos cepos de madeira. Assim postadas, e cada uma com uma faca ou coto de faca (muito usado nos sítios), começa a raspadura, que é feita com rapidez e destreza por essas mãos femininas e mimosas, avultando, dentro em horas, ao lado do montão negro cheirando a terra revolvida de fresco, um outro de raízes brancas, que o sovador vai levando, aos balaios, para o cocho da escorredura e para a raladeira.

 

Todo o trabalho da raspadura é feito alegremente e sob a maior expansão, numa parolagem contínua, entre ditos graciosos e frescas, sonoras risadas. As moças, nos seus vestidos de chita mais velhos e nos seus corpetes e casacos folgados, os braços nus até aos cotovelos onde as mangas se enrolam em regaços, os rostos cheios e de um róseo levemente tostado pelo sol, balançam continuamente os bustos para a frente e para trás, a apanhar ao grande monte as raízes escuras e empoeiradas de areia, que para logo alvejam em suas mãos, sob o passar vivo da faca, que as decepa e esfola num seguido rasque-rasque. E o rumor das conversas e risos só é interrompido de longe em longe pela chegada dos carros, que fastam pesadamente no terreiro, atopetados de mandioca, chiando e rangendo pelo eixo e as guascas, contra a porta do engenho. A velha mãe ou o pai grita então para as raparigas, numa exigência de atividade:

 

— Vamos, meninas! olhem as novas carradas aí!...

 

E o montão de mandioca, que já se achava bastante reduzido, cresce e se alteia de novo, como no começo, sob os grandes cestos de raízes que se lhe despejam em cima, no esvaziamento dos carros.

 

Às ave-marias, geralmente, cessa a arrancadura nas roças e chegam as últimas carradas. Colocam-se os veículos, prontos para os primeiros serviços do outro dia, debaixo das ramagens espessas das laranjeiras e do cafezal; amarram-se os bois próximo às porteiras, nas pastagens em volta, com uma ração farta de caroeira ou de mandioca miúda; e os arrancadores e carreiros passam ao trabalho interno do engenho, alternando com o pessoal que aí se acha na raladeira e com o que lida com a massa, com os tipitis e com a prensa. A essa hora mais ou menos começam a chegar para a "trela" os rapazes da vizinhança ou da freguesia, que vêm de deixar os labores das , culturas ou das redes, quando não estão também em farinhada nos seus sítios. Aparece igualmente uma ou outra das famílias amigas das proximidades, que não faltam jamais a essas agradáveis visitas aos engenhos em faina. E o rancho adorável das moças visitantes, com os rapazes recém-vindos, mistura-se, numa balbúrdia expansiva, à roda da gente de casa, caindo todos a auxiliar a raspadura e por forma tal que, apesar do montão de mandioca ser enorme a esse tempo, desaparece, dentre em horas, sob os braços invasores e destros.

 

O serviço toma logo outro aspecto e a conversação intenseia, mais cortada de risadas e ditos, na atividade que aumenta. Surge então a aposta a "capote", cena rústica interessantíssima pelos diálogos engraçados que desperta entre raparigas e rapazes, diálogos que são sempre o fator de namoros e consequentes casamentos futuros, por estabelecerem, durante esses meses de farinhada, entre a fogosa juventude dos dois sexos, uma certa intimidade que não existe fora disso, nem mesmo nas festas do lar, como os batizados e bodas, as novenas e "batuques".

 

A aposta a "capote" consiste no seguinte: o grupo dos rapazes, que fica colocado a uma banda, entra a raspar as raízes de mandioca só até metade, jogando-as assim nesse estado para as moças, que as acabam de limpar com presteza admirável, em desafio de atividade àqueles, cujos esforços se resumem unicamente em aumentar-lhes a tarefa a um ponto que elas não possam dar vazão. E nisto reside o modo de ganhar o "capote": se as moças dão vazão às raízes ao fim de uma ou duas horas — que é quanto dura comumente a aposta — acabando-as de raspar ao mesmo tempo que lhes é atirado o último "capote", obtiveram a vitória; se o não fizeram, porém, esta pertence àqueles.

 

A pressa e o atabalhoamento de ação a que cada grupo se força, com a rebusca de raízes tortas e cheias de nós para dificultarem o "capote", são que determinam os diálogos pitorescos de que falamos acima, os quais tanto fazem rir aos velhos, relembrando-lhes saudosamente os tempos brilhantes da mocidade extinta. Esses diálogos chocam-se seguidamente, entre risadas constantes, findando infalivelmente por uma troça ruidosa das moças, quando perde o grupo dos homens; e por um berreiro triunfal dos últimos se são aquelas os vencidos. E todos acompanham a balbúrdia numa jubilosa expansão.

 

Aos domingos, o serviço acaba mais cedo e as famílias enxameiam em maior número, organizando-se então, entre rapazes e moças, variados jogos e danças roceiras, figurando principalmente, em meio às últimas, a chama-rita, a cana-verde e as rodas gerais de fandango.

 

 

 

6. O fandango

 

O fandango ou batuque (conforme também se o conhece ali) organiza-se na ala do engenho onde se acomoda a família, numa sala assoalhada para a boa vibração do sapateado que é a característica dessa dança,outrora muito em voga nesses sítios da Ilha e nos do continente, mas hoje em dia bem rara, porque a quadrilha, a valsa e outras a substituíram quase inteiramente levadas até ao sertão.

 

Preparada a sala e iluminada com meia dúzia de velas de sebo, espetadas em improvisadas cantoneiras de madeira suspensas dos portais ou paredes, passam-se todos para ela, e um matuto "tocador" põe-se a "temperar" a viola, sentado a um canto num mocho ou sobre uma dessas grandes caixas de pau que tomam os vãos das janelas na roça. Depois o homem dá o sinal para a roda, e rompe a tocar e a cantar, ora improvisando, ora repetindo essas quadras populares do campo. A esse tempo, na roda que se formara na sala, rapazes e moças saem a girar vivamente, à direita ou à esquerda, as mãos dadas e suspensas à altura da cabeça. Feitas duas ou três voltas, esta atitude desmancha-se e cada dama passa à frente do cavalheiro, pegando as saias aos lados e recuando de costas, num meneio donairoso, enquanto ele, unindo e curvando os joelhos em contínuas flexões, bate as solas no assoalho, num sapateado rítmico. Interpola-se esta marca com uma volta igual à primeira, e assim sucessivamente, terminando cada roda — que dura em geral uma hora — por um sapateado mais rijo, mais ruidoso e mais vibrante.

 

Alternam então com as rodas a chama-rita e a cana-verde, que são uma espécie de polca ou habanera, variada por um contínuo enlaçar e desenlaçar de braços, por figuras diferentes e balanços langorosos, desenrolados sob a cadência das quadras, que cantam os pares em dueto, numa toadilha arrastada, afinando com os sons da viola vibrando incessantemente, entre as mãos do tocador.

 

As danças prolongam-se sempre, e com crescente animação, até alta madrugada, hora em que cada um descansa apenas instantes, para recomeçar logo depois o labor da farinhada.

 

 

 

7. Os beijus

 

A forneação só começa no engenho depois da primeira semana de trabalho, quando já avulta um grande número de tipitis de massa seca. Por esse tempo entra a funcionar o forno conjuntamente com o aparelho geral, que um só boi movimenta vagarosamente, escavando mais e mais o largo sulco circular que as patas abrem no chão, e que os roceiros chamam-no andaime. O boi aí trabalha de antolhos, que são dois pequeninos cestos afunilados, com forros de pano por dentro e ligados por grosso cordel um ao outro: colocam-se esses dois cestos sobre os olhos do boi, amarrados por finas guascas de couro cru ao pescoço e aos chifres, para vedar a vista ao animal, a fim de que este não entonteça e caia, no giro contínuo que faz na estreitíssima área circunscrita à almanjarra.

 

No primeiro dia de forneação, à noite, uma nova feição de trabalho feminino aparece no engenho, a da fatura dos beijus. Estes se fabricam depois de sair a última fornada, que é retirada, como as que a precederam, para os cochos onde se deposita a farinha já pronta.

 

A massa para os beijus é escolhida dentre a melhor, a mais fina e peneirada cuidadosamente sobre uma vasta gamela bem limpa, que se acomoda junto ao forno onde as moças se grupam. Aí, cada qual vai tirando a massa aos bocados e preparando-a nas mãos, de sorte que, ao caírem nas chapas esses bocados, tomem a forma de pequenos discos: são os "beijus redondos" chamados. Há também os "de folha", que são maiores, mais espessos e de um feitio alongado, denominando-se assim por ser a massa de cada um colocada entre dois pedaços de folha de bananeira, e desse modo lançada ao forno a torrar. Estes, como aqueles, substituem nesses sítios o pão de trigo e tem um sabor apreciável, tomados de manhã com café, o "aparado", como chamam os matutos. A fatura dos beijus torna-se daí por diante uma das festanças de todas as noites, pois constitui uma verdadeira diversão e folia para as moças, à hora em que o engenho regurgita de rapazes e famílias amigas.

 

Mas a melhor de todas essas festanças é a da última noite da farinhada, quando, já tudo pronto para a volta a casa na sede do arraial ou da freguesia, a mãe de família e as filhas, com as moças da vizinhança, agitam-se ainda numa lufa-lufa retardatária, a arranjarem as últimas coisas para a viagem, a tirarem os derradeiros beijus ainda quentes e a se despedirem longamente, numa grazinada de vozes e risos, por entre beijos e abraços — enquanto o carro no terreiro, com os bois jungidos à canga, o estrado cercado pela sebe e forrado de esteiras, o arcaveiro junto à porta principal do engenho, espera, sob a pontilhação de ouro das estrelas, ou sob o pálio branco do luar.

 

 

 

8. A alegria da lida

 

Vimos como nos trabalhos do engenho, à noite, reina a maior animação e alegria, especialmente aos feriados e domingos; e durante o dia, posto que limitado o serviço ao pessoal de casa unicamente, e na ausência de visitas, ainda assim há uma atividade álacre entre os homens que lidam por seu lado e as moças da família. Tudo se faz sob um rumor cordial e contínuo de parolagem e sorrisos, aumentado vivamente pelo vozear das crianças, no terreiro, em perpétuas correrias.

 

Se é bom tempo e faz sol, a azáfama feminina não se restringe somente à raspagem da mandioca e ocupações íntimas, mas amplia-se e estende-se a muitos outros afazeres, como à lavagem de roupa nas fontes ou rios próximos, à cultura das hortas, dos pequenos jardins, e à preparação do polvilho. Veem-se então as moças alternarem por turmas nesses labores, sempre contentes e expansivas, na saúde plena, na paz de espírito virginal, na tranquilidade incomparável, que são o encanto da vida campesina.

 

Desde o alvorecer às ave-marias, hora em que começam a afluir os noturnos visitantes amigos, que se fazem outros tantos auxiliares ativos do serviço, tornado então, com esses bandos de rapazes e moças, num festim agrícola, conforme observamos já; desde o alvorecer às ave-marias, cruzam, de espaço a espaço, no terreiro e pelos atalhos, os homens que chegam com os carros, os que vão em busca dos tipitis vazios e os que mudam e dão de beber aos bois que trabalham na almanjarra; cruzam igualmente as raparigas, a estenderem a roupa molhada para enxugar ou corar, a tratarem do polvilho, ou a colherem hortaliças dentro do grande cercado de pau a pique, onde se entrelaçam esplendidamente as trepadeiras e as roseiras floridas. E toda a paisagem em redor parece mais risonha e mais viva, sob a luz branda e muito loura do sol de inverno, jorrando do céu azul, sob a toadilha amorosa e sonora das cantigas rústicas e sob o trilar meigo e festivo dos coleiros, dos tico-ticos e canários, pousando em grandes bandos rapinantes sobre os amplos jiraus do terreiro, onde branquejam cruamente à vista os vastos lençóis de polvilho. As laranjeiras, chegadas à plena frutificação, apertam-se num maciço colossal de frondes entre os cafezeiros e bananeiras, estrelando de pomos de ouro as ramagens. Um aroma capitoso de flores e frutos maduros embalsama, fora, o ar, atenuando o cheiro acre e enjoativo da massa de mandioca, que se espalha em todo engenho durante o tempo da raspagem e da raladura.

 

O trabalho só é interrompido duas vezes por dia à hora das refeições, após as quais a gente sai a espairecer por momentos, reunindo-se no descampado arenoso e ladeado de mandiocais que vai até à porteira da estrada, ou sentando-se sobre largas esteiras à sombra das árvores copadas dessa espécie de pomar circundante dos engenhos. Descansam então os carros e os animais, como os arrancadores lá nas roças longínquas. Mas, pela meia-tarde, a faina recomeça para terminar alta noite, na algazarra geral dos de casa com a gárrula vizinhança, na atividade tumultuosa das últimas fornadas e na festança dos beijus.

 

As ocupações diurnas, porém, sobem de intensidade e movimento, quando a tarefa da arrancadura — já ao fim da farinhada — recai sobre as roças da planura, isto é, sobre os mandiocais circunscritos à área agrícola do engenho, mandiocais que partem de certa altura do terreiro e vão entestar com os espinheiros do caminho, com as pastagens ao fundo e com as sebes das extremas. E, verificada a colheita total dessas roças, chamadas a "mandioca maneira" por ficarem à mão nesses sítios para os trabalhos do engenho, está finda a farinhada, recolhendo-se a família ao seu lar, para só voltar no outro ano, com o mesmo ardor e alegria, no ritmo constante de uma vida que se desdobra até ao túmulo, clara, obscura e serena, em meio de afetos sinceros e de costumes imaculados e simples.

 

 

 

9. A plantação da mandioca

 

O engenho não se fecha, porém, permanecendo nele, por alguns dias ainda, os homens que têm de tratar do empaiolamento e ensacadura da farinha, bem como do preparo da terra para as novas plantações de mandioca, que se fazem primeiro pelas encostas e morros, depois pelas baixadas e planícies. O preparo da terra consiste unicamente em uma "virada" geral, à enxada, das camadas da superfície, as quais ficam a arejar por dois ou três dias, findos os quais começam a abrir-se as covas para a "enterra" da rama, que é para aí conduzida às carradas depois de convenientemente picada.

 

A plantação se faz por "estacas", lançando-se uma estaca a cada cova e cobrindo-se em seguida com um bocado de terra fofa, rechegada com os pés ou à enxada. Não se aduba nem se esterca o solo, além de muito raramente se lhe aplicar o arado, até certo tempo quase desconhecido na Ilha e só usado no continente pela grande lavoura, isto mesmo de modo muito restrito. De sorte que, muitas vezes, apesar da uberdade da terra, culturas há (como se tem observado em certos anos) que, contra a expectativa de seus proprietários, apresentam resultados mesquinhos ou inferiores aos que se esperava. Contra a expectativa é um modo de dizer, porque o lavrador deve conhecer que o solo, ainda o mais fértil e poderoso, como por exemplo a terra negra da Rússia, desde que produz seguidamente, precisa de ser adubado e reforçado, pelo menos de anos a anos, para assim conservar-se feraz.

 

Mas os processos agrícolas no Brasil estão ainda bastante atrasados, especialmente nos pequenos estados, e daí a crise terrível em que se debate a nossa lavoura. A tal respeito não será de mais transcrevermos aqui o que dizia o Monde Economique de 3 de março do corrente ano, num pequeno mas expressivo artigo que o Jornal do Comércio traduziu e publicou em sua edição de 6 de abril. Eis o artigo, que representa a mais eloquente verdade sobre o assunto:

 

"A agricultura, no Brasil, atravessa atualmente uma quadra de crise aguda, devida, em grande parte, à baixa considerável do preço do café, à escassez e carestia da mão de obra agrícola e as dificuldades diversas (falta de vias e meios de transporte, falta de utensílios, falta de conhecimentos técnicos agrícolas, etc.), causas essas que todas embaraçam o progresso agrícola.

 

A cultura do café cessou quase de ser remuneradora, e grande número de especiarias, que poderiam ser produzidas no país mesmo, são importadas do estrangeiro, em uma proporção que muito tem aumentado estes últimos anos: essas importações consistem em arroz, milho, manteiga, batatas, toucinho, alfafa, etc.

 

Quando se compara a economia rural dos principais países agrícolas da Europa com a prática agrícola do Brasil, notam-se sobretudo os dois fatos característicos seguintes:

 

1º. A ausência (quase absoluta) de mulheres na agricultura brasileira;

 

2º. Ausência (quase completa) de charruas e instrumentos agrícolas; quase por toda a parte no Brasil (salvo raras exceções) todo o trabalho de preparação e conservação do solo é feito diretamente a mão e a braço de homem sem o auxílio de instrumentos ou máquinas apropriados às operações da cultura. Do ponto de vista da técnica agrícola, estas duas circunstâncias explicam claramente as dificuldades quase insuperáveis com que atualmente lutam agricultores e cultivadores brasileiros. Com efeito, sem adubo de espécie nenhuma, as terras das plantações empobrecem rapidamente; é a agricultura sem restituição, designada às vezes pelo nome de agricultura "vampiro" que esgota todos os elementos da fertilidade do solo sem fazer-lhe nenhuma retribuição sob a forma de estrumes ou contingentes de matérias fertilizadoras. O resultado é que no fim de um prazo relativamente breve, em consequência do esgotamento das terras cultivadas, necessário se torna arrotear novas florestas, novos terrenos arborizados, e de novo remover a exploração para outro campo de ação, o que acarreta despesas consideráveis.

 

Acresce à escassez de charruas e instrumentos agrícolas, a prática rotineira das operações, que continuam a ser feitas quase exclusivamente a mão, o que contribui para o mesmo resultado e obriga a enorme despesa com a mão de obra.

 

De algum tempo a esta parte foram feitos esforços tendentes à introdução das máquinas agrícolas no Brasil. Fundaram-se sociedades de agricultura. Uma delas, a Sociedade Nacional de Agricultura, faz certa propaganda nesse sentido, tendo mandado imprimir, para ser distribuída, uma breve notícia sobre as máquinas agrícolas, seu emprego, aplicação, utilidade e necessidade da sua introdução no Brasil."

 

Reatemos, porém, a nossa narração. Feita a plantação das novas roças, o pessoal abandona o engenho, onde aparece apenas de mês a mês para as capinas e limpas ou para tirar e recolher cereais, porque o engenho serve de celeiro quando não está em faina. Então, um ou dois carros que ficaram para esses misteres, ocupam-se na translação da farinha do consumo doméstico para a casa do lavrador, carregando alternadamente também, para os pontos de embarque, a que se destina ao mercado.

 

 

 

10. O carro de boi

 

Não falamos ainda verdadeiramente do que seja um carro de boi: entretanto, pela sua estrutura arcaica e curiosa, e especialmente pela sua importância na vida rural, merece ele aqui particular menção. Sabe-se do valor que tem o veículo, crematisticamente falando, pois que marca ou caracteriza o primeiro momento da circulação das riquezas nas agremiações sociais, desde a formação simples das tribos aos grandes organismos complexos das nacionalidades.

 

O carro de que vamos ocupar-nos é ainda perfeitamente o tipo do carro primitivo inventado pelos povos de origem ariana. Simples e rude como é dir-se-ia de fácil descoberta, quando surgiu a necessidade do veículo para o transporte das primeiras produções agrícolas dos tempos remotos. Entretanto, só para se chegar à invenção de uma de suas partes — a roda, a humanidade teve de evoluir por milhares e milhares de anos! Senão, vejamos o que diz sobre o assunto Oliveira Martins, às páginas 77 e 78 do Regime das Riquezas:

 

"Olhe qualquer para trás: meça o tempo, meça o progresso. Como as conquistas se multiplicam rápidas, à maneira que as idades remotas se estendem no passado em horizontes inapercebíveis. São doze as espécies ou raças naturais humanas? são doze os momentos sucessivos, evolutivos, de criação de homens até se chegar ao Mediterrâneo? Em torno do Mediterrâneo há ainda caucásios e bascos, há semitas — afinal indo-europeus: pois bem, tantos estados sucessivos da mente humana, tantos graus de gente, tantos tempos incontáveis foram necessários para inventar esta coisa vulgar e simples a que se chama uma roda.

 

Não faltou quem utilizasse os animais como veículo: só a gente branca soube jungi-los, pôr o estrado sobre o eixo, pôr nas extremidades do eixo rodas — e inventar o carro. Outros não passaram do trenó em que o estrado vai ensebado, escorregando sobre a neve, sobre as pedras. Outros não foram além da cavalgadura, besta de carga.

 

Ainda hoje o trenó, puxado por cavalos na Sibéria, pelos rengifer nas regiões boreais, é um veículo usual. Ainda o é o tipo mais remoto em que o homem serve de motor — ou antes de freio. São assim as teges da Saboia e do Delfinado e os schlitts dos Voges e do Tirol, usados na exploração das florestas..."

 

Por este trecho do eminente pensador português vê-se quanto custou a inventar essa coisa hoje insignificante, que se chama o carro de boi. Fica-se, conhecendo por aí que só a raça ariana — a raça superior entre todas — pôde levar a cabo, em um dado período do seu adiantamento, a confecção do veículo; e que este caracterizou para logo o primeiro momento da circulação das riquezas: "... a circulação afeta três formas, aparece-nos sob três aspectos diferentes: no primeiro a translação dos objetos, no segundo a troca das mercadorias, no terceiro a permuta dos valores — desde que a sociedade inventa um denominador comum. Os veículos caracterizam o primeiro..." (Regime das Riquezas, pág. 73). Sabe-se mais, por aí, que as outras raças não puderam passar do estrado sem rodas, arrastado ou impelido por motores de sangue (homem ou animal), como o trenó, a tege e o schlitt.

 

Mas o carro de boi não passa atualmente de um fóssil ao lado dos veículos a vapor: "Carregavam-se seiscentos quilogramas? um comboio leva trezentos mil. Andava dois quilômetros? uma locomotiva anda sessenta. O tempo cresceu trinta vezes, e a força dez mil." (Ibid, pág. 77). É verdade: e ainda mais fóssil se tornará quando se generalizarem os veículos elétricos. Não obstante, o carro de boi há de permanecer sempre ao lado de todos como o veículo rural por excelência, tanto entre as nações mais adiantadas como entre as que o não forem, porquanto ainda agora o vemos por toda a parte (e principalmente no Brasil) rolar, chiando no seu eixo, em meio às culturas e aos campos, nas ocupações da pequena lavoura.

 

O carro de boi catarinense compõe-se de um estrado longo de quatro metros, dois dos quais formam a parte estreita que se chama o cabeçalho, em cujo extremo assenta a canga onde se jungem os bois, que ficam um a cada lado, tendo a haste de permeio. O estrado reproduz o contorno perfeito, em ponto pequeno, de um convés de navio visto do alto, pois é reto no arcaveiro e morre em proa para o cabeçalho, descrevendo aí como um ângulo ou curvas de bochechas: tem ao centro, por debaixo, e faceadas a uma e outra banda, com as beiradas onde correm os fueiros, duas chumaceiras de 1m de altura, onde enfiam os cocões que são quatro grossos dentes de madeira rija (em geral guamirim-ferro) que se apertam por cunhas, entre as quais se move o eixo. Este — quase sempre de peroba vermelha — é cilíndrico no lugar onde trabalham os cocões e mais grosso e oitavado ao centro: sustenta a cada extremo uma roda, fixa, cheia, com altura de 0,4m seguramente, contando-se da periferia ao ponto de encaixe do eixo. As duas rodas, assim armadas, denominam-se o rodado.

 

O estrado do carro é amplo, de 1,1m comumente, e feito de tabuado de lei repregado sobre um esqueleto de três paus dispostos longitudinalmente, cruzados por outros em sentido transversal, prendendo-se todos ao pau-mestre do cabeçalho, que vai em forma de lança do extremo onde se põe a canga até à curva do estrado. Em duas filas de orifícios de 0,100m de diâmetro mais ou menos, fincam-se os fueiros — espécie de porretes lisos e direitos da altura de 1 metro, e em número de cinco a cada lado. Estes fueiros servem para amparar a carga e segurar a sebe que neles se coloca, quando os carros têm de conduzir mandioca, frutos ou cereais.

 

A canga é uma peça forte de madeira, de 1,20m de comprimento, larga e denteada ao centro pela parte de cima, que desenha para a oposta a forma vaga de uma chumaceira onde trabalha a ponta do cabeçalho, que se lhe prende quando jungidos os bois, por meio de uma grossa cavilha de peroba e de um denso estropo, feito de numerosas guascas retorcidas de couro cru. Dessa parte larga da canga saem dois braços recurvos, cada um com dois canzis e duas brochas, onde os bois enfiam o pescoço para o tiro. Completa o carro o muchaco, uma espécie de estaca da altura do estrado, que serve para manter suspenso o cabeçalho, quando não se acham ainda cangados os animais e se carrega o veículo.

 

Todo o carro de boi caminha chiando, quando carregado; mas se conduz família, como pelo tempo das festas e das farinhadas, ou se leva o morto para a sua última morada, mantém-se sempre silencioso. O chiado do carro se produz apertando-se fortemente as cunhas dos cocões e untando-se o eixo, nessa parte, com graxa para não queimar, conforme procedem os carreiros, lançando mão dessa substância, que todos trazem num pequeno escaninho colocado junto às chumaceiras e chamado o "porta-sebo".

 

Tal é o carro de boi da Ilha e do continente, perfeita reprodução do plaustrum da Roma antiga, como o descreve Oliveira Martins:

 

"O plaustrum, carro de boi do Lácio primitivo, consistia em um estrado de tábuas assente em um eixo com duas rodas cheias e fixas. Sobre o estrado colocavam os latinos um cesto de vimes (a sebe catarinense), como na benna dos gauleses, como ainda hoje fazem no Minho para as cargas de adubos agrícolas. Ao eixo chamavam stridens porque chiavam longo dos caminhos, cantando a acompanhar os bois como ainda hoje sucede nos nossos campos". (Regime das Riquezas, págs. 78-79).

 

 

 

11. A cana

 

As plantações de cana-de-açúcar mais importantes da Ilha são as das freguesias da Lagoa e do Ribeirão, localidades já conhecidas do leitor pela descrição que delas fizemos anteriormente. As roças são bastante vastas aí e produzem abundantemente, sendo essas duas freguesias as que mais exportam açúcar, aguardente e melado, este último com grande mercado de consumo no Rio da Prata, para onde embarcam, todos os anos, alguns carregamentos. Em as outras freguesias cultiva-se também a cana, mas em menores proporções e bastando unicamente às necessidades de seus habitantes, mesmo porque a cultura do café leva a primazia hoje, em todos esses pontos, aos outros ramos da indústria agrícola.

 

As roças de cana vicejam geralmente nas planícies, mas também sobre as lombadas das colinas e as encostas dos morros onde muito se desenvolvem igualmente, apesar dessa planta dar-se melhor nos terrenos planos ao nível do mar. No entanto, a cana das baixadas ou planuras não excede muito, em suco sacarino, a dessas terras elevadas, que são às vezes preferidas pelos lavradores ali para semelhante cultura. Três espécies de cana são cultivadas comumente — a caiana (saccharum oficinarum), a roxa ou de Batávia (saccharum violaceo) e a miúda ou crioula (saccharum syneensi), esta última em menor abundância e mais utilizada para a fabricação de aguardente, a "aguardente de cana miúda" chamada. A caiana, que atinge a altura de 2,6 m a 6,6 m nos terrenos mais férteis da Ilha catarinense não passa em geral de 2,6 m a 3,5 m, e só em certas áreas de pura aluvião logra exceder esse tamanho comum. A roxa não vai muito além de 1,8 m a 2,4 m com o diâmetro de 0,8 m, e é mais abundante ainda que a caiana, pois as roças, em sua maior parte, compreendem essa espécie.

 

Os canaviais produzem seguidamente na Ilha de oito a dez anos, ao fim dos quais é necessária a replantação, que os lavradores fazem sem prepararem ou adubarem a terra, mas apenas submetendo-a a uma simples "virada" à enxada, como acontece com os demais gêneros de cultura; daí a razão por que as roças de cana, passado o primeiro período de produção, apresentam-se menos prósperas e dando, muitas vezes, resultados insignificantes. No continente, porém, essas plantações oferecem mais altas vantagens e proporcionam boa colheita durante um período de quinze a vinte anos, que é a duração máxima de um canavial, mesmo em terrenos ubérrimos.

 

Podíamos dar aqui, em rápida exposição, o histórico e generalidades da planta da cana, desde a sua descoberta para a civilização ariana, feita no interior da Arábia pelo grande Alexandre da Macedônia até à sua propagação pelas ilhas mediterrâneas, especialmente a Sicília, de onde passou para os Açores, Canárias e Cabo Verde, e daí para o Brasil e outras partes da América, irradiando-se em seguida por toda a zona tropical do globo; mas isso seria ocioso, porquanto tal história é bem conhecida, está no domínio de todos.

 

Assim, passaremos agora a descrever o engenho ou moenda de cana da Ilha catarinense, o qual é ainda do mesmo tipo simples e primitivo dos que ali se fundaram, entre 1778 e 1782, sob a administração do brigadeiro Francisco de Barros de Morais Araújo Teixeira Homem, quando governador da Ilha e terras continentais de Santa Catarina.

 

 

 

12. O engenho de cana

 

O engenho de cana funciona como o de farinha, que já longamente estudamos, numa espécie de vasto rancho com paredes de pau a pique barreadas e as mais das vezes cobertos de tiririca. O rancho é de forma achaletada, baixo e amplo, e situado sempre num alto de colina ou encosta de Monte, junto a algum ribeiro ou cachoeira, nas proximidades dos grandes canaviais; compõe-se de duas seções — uma elevada, onde se acha colocado o principal aparelho ou moenda; a outra em plano inferior, mas unida à primeira e colocada no declive natural do terreno. É nesta última que se acomodam o alambique para a destilação da aguardente, os cochos e demais utensílios necessários, e a caldeira onde se põe a garapa ou caldo de cana para se reduzir a açúcar.

 

O aparelho do engenho, que assenta bem a meio do pavimento de cima, faz firme sobre o chão em uma larga peanha de madeira e ao alto na viga-mestra da cumieira, onde trabalha um dos extremos do cilindro principal da moenda, que é também de madeira (em geral peroba amarela ou vermelha) bem como os outros dois que o completam. Tais cilindros e mais a mesa de tábuas que lhes serve de base, constituem exclusivamente o maquinismo do engenho, o qual é tocado por duas grandes e grossas almanjarras arqueadas, trabalhando ao alto do pião do centro e correndo em sentidos opostos. Essas almanjarras são perfeitamente iguais à do engenho de farinha, e, como a daquele, terminam por uma espécie de canga com dois canzis para abrochar-se os bois que as impulsionam no serviço.

 

Os cilindros se acham aí assentados em posição vertical e muito unidos: são lisos e bem polidos, com uma engrenagem a meio, pela qual o que serve de pião dentre eles, movimenta os outros. Cada cilindro tem igual tamanho e um diâmetro que orça por 2,5 m mais ou menos. A mesa em que se baseiam é larga de 1,10m e composta de duas partes inclinadas para o centro e fazendo como uma caixa fechada às cabeceiras, com um orifício onde encaixa uma calha de coqueiro recoberta, que, correndo sobre o solo, leva o caldo da cana até uma abertura rasgada na parede do pavimento inferior, para onde se precipita dentro de um grande cocho, denominado nesses engenhos o "cocho da garapa".

 

Na seção superior não há outros objetos além do mecanismo da moenda, ficando todo o espaço em volta livre para receber as carradas de cana, que dois ou três carros de boi despejam mesmo à porta do engenho. A cana vem já preparada das roças para entrar na moenda e é empilhada em grandes montes em torno do aparelho ou à sombra das árvores no terreiro, quando o engenho se repleta.

 

A colheita ou "corte" da cana, bem como todo o trabalho do açúcar, começa em maio ou junho de cada ano, antes do período da florescência e prolonga-se por dois ou três meses, conforme o número e extensão dos canaviais adstritos aos engenhos. No trabalho propriamente do "corte", nas roças, ocupam-se de quatro a seis homens; e este corte é feito diariamente, de acordo com o serviço da moagem, calculando-se mais ou menos as carradas a que pode dar vazão a moenda, a fim de que a cana não fique apanhada de um dia para o outro, pois que em tais condições perderia uma parte do suco sacarino e determinaria prejuízo na apuração do açúcar.

 

A moagem é feita apenas por três homens, os quais, depois de jungidos os bois às almanjarras, passam dois para a moenda e um que lhes rechega continuamente a cana. Cada um desses homens — os moedores, como lá os chamam — coloca-se a um lado do aparelho, introduzindo, um, a cana que tira do monte entre os dois primeiros cilindros, ao passo que o outro, do lado oposto, encaminha-a para o terceiro cilindro, a fim de sofrer o bagaço a segunda pressão. A moagem, como se vê, é muito lenta, mesmo porque só se introduzem nos cilindros duas ou três canas de cada vez.

 

Por este processo, e com tal aparelho imperfeitíssimo e arcaico, todavia o mais usado em Santa Catarina, com exceção dos centros coloniais alemães e italianos, se verifica ainda, conforme já deixamos dito, quanto a lavoura e sua indústria se acham atrasadas no Estado, não dispondo da menor orientação no trabalho nem de instrumentos ou aparelhos agrícolas aperfeiçoados e modernos, o que determina, além de tudo, prejuízos constantes na apuração dos produtos, porquanto, com o fabrico do açúcar por este meio se observa seguramente a perda de uma grande parte da substância sacarina que é levada no bagaço da cana, mal espremida nesses antigos cilindros de madeira. De sorte que uma roça de 1 hectare, que poderia dar 6.000 quilogramas de açúcar (como acontece nos mecanismos modernos dos engenhos de cana) fornece apenas de três a quatro mil, e isto mesmo nem sempre.

 

Imagine-se agora a perda ainda mais considerável que não sofre a cana, se atendermos a que é até hoje aí inteiramente desconhecida ou não utilizada a aplicação dos meios químicos no fabrico do açúcar, como o hidróxido de cálcio, que faz com que, numa tachada de garapa em fervura, toda a substância sacarina seja reduzida a açúcar. E isto não falando na perda que experimenta ainda o caldo da cana, quando em ebulição na caldeira sob o trabalho da defecação ou escumagem, feito do pior modo e com espumadeira comum. A tal respeito é eloquente o que dizem os conhecidos químicos Wagner e L. Gautier no seu Nouveau Traité de Chimie Industrielle, ocupando-se da fabricação do açúcar de cana, à pág. 74 dessa obra:

 

"... Dos 17 a 18 por 100 de açúcar, que se encontram na cana., não ficam geralmente mais de 8 por 100 destinados ao comércio, sob a forma de açúcar cristalizado. Esta grande perda é ocasionada pelas circunstâncias seguintes: 1ª) dos 90 por 100 de suco que encerra a cana não se extrai ordinariamente mais que 50 a 60 por 100, um terço do açúcar fica por conseguinte na cana esmagada, o bagaço, que serve como combustível na fervura do caldo açucarado; 2ª) a imperfeição do processo de defecação e o levantamento das escumas durante a fervura, fazem perder pelo menos um quinto do açúcar contido no caldo; 3ª) não há senão a metade ou quando muito os dois terços do açúcar constante da calda em ponto que cristaliza, enquanto que o resto fica no melaço. Os 18 por 100 do açúcar se dividem, portanto, da maneira seguinte:

 

No bagaço ficam cerca de............................................................6%

Perdem-se pela defecação e escumagem......................................2,5

Ficam no melaço........................................................................3

Obtém-se sob a forma de açúcar bruto........................................6,5

                                                                                          18,0 %

 

No pavimento inferior do engenho, além da caldeira, que assenta sobre um forno circular semelhante ao em que é torrada a massa da mandioca nos engenhos de farinha, forno cuja boca abre para um pequeno telheiro, fora, por onde se mete o combustível — veem-se também o cocho grande da garapa, o em que se põem as barricas do açúcar para escorrer o melaço, e um outro onde se deixa fermentar o caldo para a destilação da aguardente, de cujo fabrico nos ocuparemos adiante. Em um dos recantos desta seção assenta igualmente o alambique ou aparelho destilatório, que se estende até ao terreiro, por onde passa, sobre uma linha de calhas descobertas, a água encanada da cachoeira próxima que serve à destilação. Duas pessoas bastam à lida nesta parte do engenho — o foguista, que se ocupa também da caldeira onde ferve o caldo para o açúcar, e o homem que prepara a aguardente cuidando do alambique.

 

Em regra, nesses engenhos, o caldo da cana é lançado à caldeira tal qual como sai da moenda, e por isso o açúcar comum da Ilha é pouco limpo e quase sempre de inferior qualidade, para o que concorre ainda enormemente o processo da purificação, que é feita em grandes funis de taquara ou em barricas de farinha de trigo, perfuradas no fundo e cobertas por uma espessa camada de barro.

 

O trabalho geral da cana faz-se de sol a sol, e, essencialmente pesado e rude como vimos, desempenham-no somente os homens, não tendo assim a suavizá-lo a presença e o rebuliço alegre do elemento feminino, que constitui o encanto da labuta agrícola nos engenhos de farinha. E apenas, em um ou outro feriado ou domingo, é que esses vastos ranchos conseguem festinar alacremente enxameados de famílias, que excursionam até aí para assistirem à moagem e à fervura.

 

Muitas vezes, em menino, assistimos satisfeito às festanças campesinas dessas visitas aos engenhos de cana, e delas conservamos ainda as mais gratas recordações. Assentada de véspera a excursão, entre algumas famílias, e escolhido entre os muitos engenhos em faina o de algum parente ou amigo, partia-se da freguesia, depois do almoço, por um sol ainda brando e confortante de manhã fria, a pé ou a cavalo, conforme a distância do sítio; e, grazinando sempre, num parlatório animado ou em gargalhadas festivas, lá se subia uma colina suave, ao fundo de um prado virente ou numa volta de praia límpida, em demanda do grande rancho barreado, metido entre o aroma das laranjeiras em fruto, entre as emanações do gado e os lençóis esmeraldinos dos canaviais, aqui e ali abertos pelos rasgões das colheitas, mas ondulando ao vento, noutros pontos, pelas espadanas em fitas.

 

Passavam-se as primeiras horas a beber garapa fresca, a chupar cana e a comer rapadura, tudo isso num florido e álacre festim de campo como nesses tempos remotos e simples das idades pastoris. Depois, era um improvisado jantar abundante de feijão e de peixe, servido sobre amplas esteiras, junto às rumas da cana no engenho, ou fora, no terreiro alfombrado de bagaços pisados, à sombra da ramaria. Ao tombar de um crepúsculo de ouro, desses soberbos crepúsculos da Ilha, que malham de placas flamantes as enseadas da costa onde o mar verde preguiça, deixava-se o sítio, já de volta para casa, com a mesma alegria da ida — pencas de laranjas à mão e grandes canas aos ombros, com garrafas de melado a penderem aos extremos amarradas com embiras. E entrava-se na freguesia já de noite, sob o reluzir vivo das estrelas e as primeiras rajadas cortantes do vento de inverno, pondo uma desolação nos caminhos...

 

 

13. O alambique

 

Já dissemos que o alambique (aparelho destilatório) se acha colocado a um recanto da seção inferior nos engenhos de cana, assentando sobre pequeno forno encostado à parede que dá para o terreiro, através da qual passa o tubo do capitel, que, quando cm função o aparelho, é umedecido constantemente pela água das calhas, trazida de uma cachoeira ou nascente de morro. Mas em muitos engenhos de pequenos recursos e exíguas comodidades, o alambique, por ocasião de se fazer a destilação da aguardente, é montado provisoriamente em qualquer ponto do terreiro, junto às calhas, sobre três ou quatro pedras, entre as quais se faz o fogo em grossos toros de lenha.

 

Tal aparelho compõe-se de duas partes principais — a cucúrbita ou caldeira, e o capitel. A primeira é um vaso bojudo de cobre, da capacidade de 40 medidas (104 litros), mais ou menos, com uma boca de 0,7 m de diâmetro; a segunda é de barro, com a quarta parte das proporções daquela, esférica e inteiriça, munida de um tubo grosso afilando para a extremidade, denominado serpentina, tendo uma boca da circunferência da boca da cucúrbita para bem se justapor a esta, e uma forma que representa perfeitamente a de um cachimbo gigantesco. Estas duas peças unidas e fechando-se uma à outra, completam-se, formando um só todo.

 

A aguardente fabrica-se com a garapa posta a fermentar dentro de um cocho durante uma ou duas semanas, findas as quais se acha reduzida a uma espécie de licor vinhoso. Neste estado é levada à caldeira, onde começa a destilação, feita a fogo lento, recolhendo o capitel os vapores alcoólicos que se desprendem da cucúrbita e os conduzindo pelo tubo ou serpentina para uma vasilha receptora — o porongo, um grande catuto onde os mesmos vapores se condensam formando a cachaça. É sobre a serpentina que se despenha ininterruptamente a água das calhas, que serve de refrigerante à aguardente na passagem para o porongo. Pronta a cachaça, deve marcar 21 graus pelo areômetro de Baumé ou Cartier.

 

A aguardente é em geral bem fabricada na Ilha, tanto como no continente, especialmente a de cana miúda, que tem grande saída no Estado. Os lugares da Ilha onde a aguardente é mais afamada pela sua qualidade são as freguesias do Ribeirão e Lagoa. A cachaça vendia-se aí antigamente,a 400 réis a medida, mas atualmente subiu a 800 réis: varia em todo o caso de preço conforme a procura no mercado. Além da aguardente, fabrica-se nesses engenhos, e não em pequena quantidade, o espírito de vinho ou álcool comum, que é a cachaça restilada e marcando 36 graus.

 

 

 

14. Várias culturas

 

Da semente da mamoneira (ricinus communis) extraem os lavradores um óleo muito utilizado para iluminação nas casas dos sítios. Este óleo que poderia dar para uma pequena indústria, se se aplicasse um processo mais adiantado ao seu fabrico, pois tornar-se-ia assim óleo de rícino puro, é, entretanto, bem mais grosseiro que este e só usado para aquele fim.

 

O meio empregado por essa gente para extrair o azeite da mamona é por demais rudimentar e simples, e consta do seguinte: torram-se os bagos em um grande torrador de barro e esmagam-se depois ao pilão, reduzindo-se os mesmos a uma grossa pasta. Esta pasta é misturada com água e, depositada em um tacho, leva-se ao fogo a ferver: o óleo, que sobrenada, colhe-se com uma colher em uma vasilha de folha, em catutos ou em garrafas. O óleo, como se vê, é extraído por cozimento, e por isso não atinge à perfeição do óleo expresso (óleo de rícino puro) comumente fabricado nas farmácias pelo processo da pressão, o qual consta da mesma pasta de mamona metida em sacos e levada a uma prensa, de onde o óleo sai pronto.

 

Como a mamoneira, muitas outras plantas de grande utilidade e fecunda exploração florescem profusa e espontaneamente na Ilha, deixando hoje de ser cultivadas pelos lavradores, que não lhes dão atenção e até as desdenham, tais como o gravata de rede (bromelia lagenaria), de que se extraía outrora, pela fermentação e maceração, uma fibra rija e flexível servindo para o fabrico de cabos, tecido de velame e sacaria, e fio de rede (atualmente substituído em geral pelo barbante); a "estopa-pau", admiravelmente resistente à água, de que se fazia excelente estopa para o calafeto de embarcações e outros misteres da indústria marítima; e a anileira (indigofera tinctoria), nada inferior, em matéria corante, à da Guatemala, que poderia dar para avultada e rendosíssima indústria e de que os roceiros catarinenses tiram apenas, por meio de uma simples fervura, a cor de que necessitam para tingir o fio de algodão dos tecidos comuns de riscado, fabricados nos primitivos teares de madeira em todas as povoações da Ilha e do continente.

 

Sobre a cultura da anileira escreve Almeida Coelho, à pág. 55 de sua Memória Histórica:

 

"Foi cultivada com grande vantagem pelos anos de 1786, governando a província o major José Pereira Pinto. Não sabemos se a planta nos veio de fora, ou se é indígena do país; o que não sofre dúvida é que a província chegou a exportar grande quantidade de anil, mas a sua cultura também caiu em desprezo. Hoje vê-se a planta nascer e crescer espontaneamente por toda a parte. Das suas folhas ainda se servem algumas pessoas pelos sítios, na tinturaria do algodão em tecidos e riscados que fabricam para uso doméstico."

 

O tabaco (nicotiana tabacum) e a baunilha (vanila aromatica), cuja cultura constitui uma riqueza para as regiões que os produzem, foram abandonados totalmente na Ilha; e só na comarca de Blumenau (uma das mais ricas do Estado) ocupa o primeiro um dos ramos mais notáveis, senão o mais notável, da exploração agrícola e industrial dessa cidade, formando parte das principais de sua exportação e opulência, como demonstraremos, na segunda parte deste trabalho, com as respectivas estatísticas. A baunilha, porém, mesmo no continente, deixou de ser cultivada, o que admira diante do progresso da agricultura, nestes últimos tempos, nos grandes centros populosos de colonização italiana e germânica.

 

Convém observar o que diz sobre o tabaco a referida Memória Histórica, às páginas 55 e 56:

 

"Pretendem alguns antigos, com bastante fundamento, que a semente desta planta viera com os primeiros povoadores de São Vicente; outros, porém, a fazem mais antiga na província: o que sabemos ao certo é que ela já foi cultivada com vantagem, e que algum tabaco a província exportou para os Açores e Rio Grande do Sul, de reconhecida e superior qualidade. Todavia a cultura desta planta, que faria hoje (1856) um bom ramo de comércio, caiu em desuso, de tal maneira que ninguém já dela se serve, preferindo antes comprar o tabaco importado do Rio de Janeiro e outras partes (arruinado e algum péssimo) que aproveitar as crescidas e viçosas folhas de uma planta que nasce espontaneamente com abundância por quase todo o país."

 

E sobre a baunilha acrescenta o seguinte: "Nasce espontaneamente em toda a província, mas a sua cultura é ainda desprezada ou ignorada, de sorte que nenhum uso, nem mesmo atenção merece uma planta que, cultivada e bem pensada, traria ao país a fortuna de muitos habitantes."

 

A cochonilha, que não exige outro trabalho mais que o de colher e preparar, tão abundante no nopal que floresce por toda a parte na Ilha e no continente, e cuja cotação é tão alta nos mercados, acha-se quase totalmente abandonada pelos lavradores, que mal a cultivam para uso particular. Entretanto, afirma Almeida Coelho, "no ano de 1786 governando a província o referido major José Pereira Pinto teve começo a cultura da cochonilha, da qual por muito tempo se extraiu bastante, mas esta cultura, sendo também pouco animada e favorecida pelo Governo veio a cair no desprezo e abandono: resta-nos, para atestar a bondade do clima, vermos hoje produzir por toda a parte a orumbeba alimentando a cochonilha, de que ainda algumas pessoas se servem."

 

Esta cultura, não só produziu bastante, conforme declara o velho cronista, como chegou até para uma larga exportação para o Rio de Janeiro, pois tal se verifica dos livros de registro de ofícios e correspondência trocada entre aquele governador e o vice-rei do Brasil, Luís de Vasconcelos e Sousa, entre os anos de 1786 e 1791, cujos livros foram longamente compulsados por nós na seção de manuscritos da Biblioteca Nacional. Nesses velhos e preciosos registros raros são os ofícios daquela administração em que se não mencione, em meio de muitos outros produtos, que eram então enviados daquela Capitania ao citado vice-rei, a remessa de cochonilha em avultado número de arrobas.

 

O amendoim (arrachis hypogoea) é cultivado em vastas roças na região norte da Ilha, e em menor escala na de leste. A freguesia do Rio Vermelho e seus arraiais contam-no como a sua principal produção, pois o exportam anualmente em numerosos carregamentos, que embarcam a granel no porão dos iates costeiros e de outros navios da pequena e grande cabotagem, os quais, ao tempo da safra, vão carregar aos Ingleses, a Canavieiras e à Ponta das Canas. As plantações de amendoim ocupam sempre nesses sítios os terrenos planos e areentos, de camadas fofas, os mais apropriados à vegetalização dessa planta, cujo pedúnculo, apenas dá a flor e é fecundado, enterra-se desenvolvendo e produzindo o fruto.

 

O plantio do amendoim se faz aí em tratos de terra preparadas unicamente para esse fim ou nos quadros das roças de mandioca, numa ampla faixa que os lavradores costumam deixar para isso em torno aos mandiocais, entre a cerca e a massa geral das ramas. O amendoim semeia-se, depois de convenientemente escolhidos os grãos, em covas rasas, logo depois da plantação da mandioca; sofre uma ou duas limpas e capinas a "arco", como esta, e pelo mesmo tempo; e a sua colheita se realiza quase sempre antes ou depois da colheita dos mandiocais, quando entram a trabalhar os engenhos de farinha. A arrancadura é fácil e rápida, menos rude e trabalhosa que a da mandioca, podendo-se num dia, com três ou quatro homens, colher-se uma roça e mais, conforme as proporções de cada uma.

 

A colheita segue processo idêntico ao da mandioca: arrancam-se os pés de planta pela folhagem ou rama, sacodem-se as raízes onde estão presas as vagens a fim de as libertar dos torrões em que vêm envoltas, recolhem-se as vagens completamente limpas de terra em grandes balaios, que apenas se enchem são despejados nos carros, cujos estrados cercados pelas sebes se repletam pouco e pouco até preencher-se a carrada. Deste modo enceleira-se todo o amendoim em paióis apropriados ou nos engenhos de farinha e de cana, quando não se acham em trabalho. Aí a produção espera o embarque, no ato do qual se verifica o número de litros a que atingira. A medição procede-se ainda pelas velhas medidas de alqueire.

 

Além do Rio Vermelho e seus arraiais, cultiva-se o amendoim na Lagoa, Pântano do Sul e em outros lugarejos. Mas em todos eles essa cultura é mínima comparada à do Rio Vermelho, que é o empório do amendoim em toda Ilha catarinense.

 

Com tamanha abundância de semelhante produto, é de lamentar não existir até hoje a mais pequena indústria de óleo de amendoim em qualquer desses pontos e especialmente no Rio Vermelho. No entanto sabe-se geralmente que este óleo equivale ao de azeitona, por ser tão bom como ele e oferecer igualmente os mesmos lucros nos mercados consumidores. Depois o óleo de amendoim, bem preparado e purificado, pode substituir o de amêndoas doces, conforme se faz na maior parte das farmácias dos Estados, onde comumente se vende sob tal nome.

 

A cultura do feijão (phaseolus vulgaris) é das mais exploradas, depois do café, da mandioca e da cana, que tem os principais lugares na vida rural da Ilha, conforme já vimos com os dois últimos, e ver-se-á com o primeiro, de que nos ocuparemos adiante. O plantio do feijão se faz em roças preparadas e destinadas exclusivamente a essa planta, e nunca de mistura com o milho, como acontece em muitos Estados da República. A tal respeito, devemos dizer que a policultura ali, não obstante ser pouco generalizada, se exerce de modo que muito raramente se grupam duas ou mais espécies de plantas em um só trato de terreno, exceção feita com as roças de amendoim e mandioca no Rio Vermelho, e com as de melancia, abóboras e outras, nas demais freguesias e arraiais, porquanto estas últimas se semeiam sempre, na época própria, nos intervalos dos pés de milho e mandioca, intervalos que são assim bem aproveitados, sem prejuízo das outras culturas que comportam.

 

Das múltiplas variedades de feijão conhecidas no Brasil, como o branco, amarelo, vermelho ou cavalo, miúdo, fradinho, castanho, caboclo, de vaca, bacamarte, mulatinho, manteiga, da praia, chumbo, carrapato, riscadinho, grugrutuba, etc. — é o preto o mais vulgarmente cultivado e, em pequena quantidade, o branco, sendo os de outras espécies pouco ou nada cuidados, pois que "não dão interesse nem resultado", segundo costumam dizer os lavradores.

 

As roças de feijão vicejam comumente nas encostas das colinas e chapadas de morro e são plantadas de maio a outubro de cada ano: do mesmo modo que as de milho, ocupam sempre menor área de terreno que as de mandioca e de cana, as quais abrangem muitas vezes toda uma pequena planície ou toda uma vasta espalda de monte. O feijão preto da Ilha é tão bom como o do continente, e sua qualidade é das mais apreciadas no Brasil. A sua cultura, porém, é relativamente pouco avultada na Ilha e em regra só basta ao consumo dos habitantes. Anos têm havido, entretanto, em que esse ramo agrícola há chegado para alguma exportação.

 

 

 

15. O milho e o trigo

 

O milho (zea mays) cultiva-se em todos os pontos do município de Florianópolis (Desterro) nas suas três espécies conhecidas — o pipoca (miudinho), o roxo grande, o amarelo grande ou vermelho grande. É, porém, de inferior qualidade, tanto como o do continente, excetuadas certas regiões, como Laguna, Tubarão, Araranguá, Blumenau e Joinville, onde as plantações atuais já são feitas com grão de superior qualidade, em substituição à semente antiga, chegada ao Estado em remotos tempos coloniais.

 

Os milharais da Ilha dão apenas para o consumo dos sítios, não fornecendo nem ao comércio da capital, onde o milho entra vindo de Laguna e de Araranguá nas frotas de iates que navegam para esses pontos. Pode dizer-se que o milho, nesses sítios, é somente empregado como alimento à criação doméstica e aos animais da lavoura, pois desde muito que se não veem, em nenhuma dessas localidades, mesmo as mais prósperas, as numerosas atafonas antigas onde se reduziam os grãos à farinha, atafonas que coalham o continente e ainda aumentam dia a dia nos lugares das grandes culturas de milho, e que outrora existiram profusamente em várias povoações da Ilha, como se verifica por esta pequena estatística tirada do Relatório enviado, em 1797, ao Conde de Rezende, vice-rei do Brasil, pelo tenente-coronel João Alberto de Miranda Ribeiro, que governou Santa Catarina desde 1793 a 1800:

 

ATAFONAS DE MOER TRIGO E MILHO

 

Vila da Capital (Desterro)............................................................17

Ribeirão....................................................................................7

Lagoa.....................................................................................32

Santo Antônio..........................................................................11

Total......................................................................................67

 

No continente, que não contava nessa época, talvez, nem a quinta parte das povoações que conta hoje, sobretudo na riquíssima região serrana, cujas cabeças de comarca são Lages (cidade), Curitibanos (vila) e Campos Novos (vila), e que não possuía ainda os grandes centros coloniais (alemães e italianos) fundados de 1818 para cá, tais como Joinville, Blumenau, Brusque, Luiz Alves, Gaspar, São Bento, Nova Trento, Nova Veneza e Grão Pará, não falando em numerosas outras pequenas colônias de gente dessas mesmas nacionalidades existentes na comarca de São José e nos vales ubérrimos do Itajaí e Tubarão, cujos centros são, todos, outras tantas cidades, vilas e freguesias do Estado; no continente, dizemos, havia igualmente, para trigo e milho, conforme a segunda parte da citada estatística, as atafonas seguintes:

 

São Miguel..................................................................................44

São José.....................................................................................82

Enseada de Brito..........................................................................39

Laguna........................................................................................8

Vila Nova....................................................................................39

Total........................................................................................212

 

Ali semelhantes engenhos acham-se atualmente triplicados em número e mais aperfeiçoados quanto aos seus aparelhos e motores, pois que são movidos a água ou a vapor, ao passo que os primitivos o eram a motores de sangue (animais ou homens). E a farinha de milho ou fubá que aparece nos mercados do Estado, e da qual se faz uma pequena exportação, é toda dessas colônias, que formam já a maior prosperidade da terra catarinense e que virão a colocá-la, no futuro, entre as primeiras circunscrições estaduais do Brasil.

 

Pelos números que representam as atafonas da Ilha se vê quão lastimavelmente decresceu a produção do milho no município do Desterro daquela data até hoje; por eles se depreende também haver desaparecido totalmente daí a importantíssima cultura do trigo, que por si só constitui um dos ramos mais poderosos da riqueza agrícola de um povo, como nos Estados Unidos por exemplo. Tão preciosa cultura só é explorada presentemente no Estado, na região de serra acima (Lages, Curitibanos e Campos Novos) e em São Bento, a 85 quilômetros de Joinville. Mas nessas comarcas as plantações de trigo são ainda insignificantes e seu produto não chega para exportação. Entretanto, conviria quanto antes e por todos os meios, favorecer e animar essa cultura, que há de ser sem dúvida uma das bases do brilhante futuro de Santa Catarina.

 

No mesmo caso do trigo estão o centeio, a aveia e a cevada, que nascem e florescem magnificamente naquelas regiões, produzindo cada semente dessas plantas o triplo ou o quíntuplo do que produzem nos países europeus onde mais se cultivam. A propósito são dignos de menção os algarismos abaixo, em que vem comparada a produção do trigo ou outros cereais na Alemanha com a de Santa Catarina, em serra acima. Tais números tiramo-los do Relatório apresentado à administração catarinense, em 20 de julho de 1875, pela comissão encarregada de colecionar produtos para a Exposição de Filadélfia. Vejamo-los em toda a sua verdade:

 

Produção do trigo e outros cereais:

 

                                                Lages            Alemanha

1 litro de trigo produz                   30 a 50         8 a 12

1 litro de centeio produz               40 a 50         8 a 14

1 litro de cevada produz               45 a 50         10 a 15

1 litro de aveia produz                  30 a 40         10 a 15

 

Passando a tratar da debulha e colheita do feijão e do milho, devemos dizer que são ainda as mais atrasadas da Ilha, sobretudo a primeira, perfeitamente idêntica a de que usavam os povos primitivos — segundo os estudos crematísticos dos grandes economistas — na sua primeira fase agrícola, antes da descoberta do tribulum. Em todas as freguesias e arraiais, conforme tivemos ocasião de observar muitas vezes, a debulha do feijão é feita por meio do mangual, dois porretes lisos e grossos, unidos um ao outro por uma guasca de couro cru amarrada a cada extremo — um de cerca de 1,50m de comprido, e chamado pirtigo, que serve de cabo; o outro mais pequeno e chamado o mango, que serve para malhar. Dois ou três homens (cada um com o seu) manejam este instrumento, batendo rijamente as vagens e folhas ressequidas pelo sol, sobre os terraços calçados de pedra miúda e revestidos de cimento, a que chamam eiras, ou sobre os próprios terreiros das habitações. Este mesmo processo é aplicado ao milho, que, como o feijão, os lavradores não sacodem nem joeiram convenientemente, ensacando-o e empaiolando-o em geral de mistura com restos de palha e pedaços de pragana.

 

Por aí se vê que nem o gado é aproveitado pelos roceiros para semelhantes misteres, ao contrário do que ainda se dá atualmente em certos países da Europa, onde se acha espalhada a pequena lavoura e não existem capitais para a montagem de aparelhos ou mecanismos aperfeiçoados.

 

"Ainda hoje, diz Oliveira Martins, em todo o meio dia da Europa e no Egito a debulha se faz com os bois, pisando em lentas viagens circulares os molhos estendidos no chão recalcado. Mas em mais de um lugar serve também ainda uma debulhadora arqueológica: o tribulum — um pranchão, como a primeira grade, mas erriçado de dentes de ferro ou de pedra, estrado sobre o qual o lavrador vai de pé, guiando os bois jungidos, pisando rasgando o tapete de espigas. Na Madeira, nos Açores, nas Canárias, na Síria, como que varrido para a periferia meridional do mundo europeu, usa-se ainda o tribulum "lapidibus aut ferro asperata" como diz Varrão. (Regime das Riquezas, pág. 139)."

 

 

 

16. O algodoeiro e o linho

 

As plantações de algodoeiro e linho da Ilha têm decrescido consideravelmente, ao ponto de só florescerem atualmente aí em pequeninos quadrados de terra ao fundo ou ao lado das habitações, por entre as hortas os pomares dos sítios. São em geral cuidadas pelas mulheres que, além da sua lida doméstica, plantam e tratam essas pequenas roças, de onde tiram o produto para o fabrico de toalhas de mesa, colchas e cobertas, o riscado de que se vestem os homens e outros panos, tudo em exígua quantidade e mal suprindo as necessidades de cada família. Em outros tempos, no entanto, o algodoeiro e o linho constituíam, com a mandioca, a cana e milho, os principais ramos da indústria agrícola na comarca do Desterro, que, como sabemos, abrangia e abrange ainda toda a Ilha: eram cultivados de tal modo que bastavam não somente ao consumo dos habitantes mas até chegavam para uma certa exportação, conforme consta da correspondência oficial do governador major José Pereira Pinto, já algumas vezes citada no decorrer deste livro. "Nesse tempo, diz Almeida Coelho, principiaram a aparecer os tecidos de algodão e linho, dos quais a bem dizer se serviam todas as famílias, e não pequena foi logo a exportação, principalmente para o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul; e de que hoje (1856) apenas há vestígios por algum carcomido tear que ainda se ouve bater descompassadamente numa ou outra choupana dos sítios..." (Mem. Hist. Pág. 20).

 

O algodoeiro e o linho começaram a ser abandonados nessa época pela cultura em grande da mandioca e da cana, que ofereciam maiores lucros ao lavrador, além de não precisarem de local apropriado como aqueles, cujas roças exigem para boa produção terrenos ondulados e não muito quentes; ao passo que as últimas davam em toda a parte, planícies e morros. Depois, para ainda mais reduzir aquelas plantações, veio a febre das vastas culturas de café — ambição e ideal de todo o pequeno e grande agricultor, ambição ruinosa infelizmente pois que determinou a crise em que se debate hoje toda a nossa lavoura, com a produção colossal e, pode dizer-se, exclusiva do café, presentemente em mínima cotação nos mercados consumidores estrangeiros.

 

Conquanto nos tenhamos de ocupar, adiante, deste ramo de nossa indústria agrícola tão somente na parte referente à Ilha, devemos aqui dizer desde já, como em um pequeno parêntesis, e generalizando nossas ideias a respeito, que a atual crise econômica produzida pela baixa do café, o maior e principal produto e riqueza de nossa exportação já era de prever desde anos. E assim é que, em 1881, um espírito eminente e altamente perspicaz nas ciências econômicas, como em vários outros conhecimentos humanos, Oliveira Martins, num precioso estudo sobre nossa pátria — O Brasil e as Colônias Portuguesas — com admirável previsão e saber, dizia no capítulo intitulado O desenvolvimento da riqueza:

 

"É mister porém, não esquecer um fato grave: o desenvolvimento da riqueza do Brasil tem ainda um caráter colonial. O café, que constitui metade das suas exportações, está até certo ponto na condição das antigas minas[53]. Se uma causa fortuita, uma das tantas doenças que atacam as culturas, aparecesse, a atual prosperidade do Império converter-se-ia numa crise tremenda. Se abandona pelo plantio desse arbusto enriquecedor a cultura e fabrico dos gêneros essenciais à vida interna de uma nação, protrai a sua vida colonial, adia para mais tarde a sua definitiva constituição econômica. As teorias da livre troca, olhando apenas para o lucro imediato, esquecem as necessidades futuras. Pelo tratado de Methuen, Portugal devia ser a vinha da Inglaterra; mas o marquês de Pombal teve o bom senso de compreender que produzir vinho apenas, para comprar pão e fato inglês, poderia ser um bom negócio, mas era uma política detestável. Os Estados Unidos pensam hoje como pensava o marquês de Pombal; e de armazém do algodão das fábricas inglesas, tornaram-se tecelões e fabricantes de todas as matérias-primas do seu solo; tornaram-se produtores de tudo o que é essencial à vida social, pelo preço transitório de uma proteção sensata do trabalho nacional. O Brasil é o cafezal do mundo: com o café compra a farinha para pão que não tem, compra os panos para se vestir, e tudo o mais de que carece. É fora de dúvida que ganha muito; mas é também incontestável que pode estar preparando as causas de uma crise futura”.

 

O economista português não podia lançar predição mais profunda, tão profunda que o tempo se encarregou de a realizar por completo, em toda a sua tremenda eloquência. E Oliveira Martins predizia isso simplesmente no caso de doença na planta do café, não cogitando ainda na abundância desse produto nos mercados estrangeiros, o que é, presentemente, a verdadeira causa de nossa ruína agrícola, e por consequência econômica.

 

Mas fechemos o parêntesis. A grande cultura do café esmagou todas as outras da Ilha, como em todo Brasil, até mesmo a da mandioca, que não é mais o que fora, apesar do estado ocupar ainda, entre todos os outros, o primeiro lugar na exportação da farinha. Sobre as plantações do algodão e do linho, isso então nem se fala.

 

Ainda assim, na freguesia da Lagoa — a mais próspera da comarca do Desterro — a cultura do algodão e do linho tem um certo valor, principalmente o primeiro, que se cultiva em maior escala que o segundo, em roças que oferecem duas e três colheitas anuais. É daí que saem ainda hoje — mas não em tamanha profusão como d’antes — para se venderem na capital os tecidos de algodão e linho fabricados nos antigos teares de madeira, existentes em todos os sítios, particularmente nessa localidade, que possui para mais de 30 desses aparelhos primitivos. “Eu vi, afirma Paulo de Brito, mui boas musselinas, acolchoados, colchas para cama, e roupa de mesa, tudo fabricado no país; e além disso alguns tecidos de algodão cor de ganga, que o terreno também ali produz, se bem que em menor quantidade...” (Mem. Polít., pág. 62).

 

O algodão amarelo (gossypium religiosum) de que fala o mencionado autor é o que se emprega na China para a fabricação da ganga ou nanquim; sua plantação desapareceu de todo na Ilha e apenas em um outro ponto do continente se cultiva ainda, diminutissimamente porém e como curiosidade. Em fins do século passado e princípios do presente, entretanto, era cultivado com certa amplitude, porquanto dele se fez uma pequena exportação para o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, conforme o registra a correspondência oficial de Pereira Pinto, já citada anteriormente.

 

A espécie de algodão mais conhecida na Ilha, como no Estado em geral é a do gossypium herbaceum, inferior ao vitifolium do norte da República (Pernambuco, Alagoas, etc.). E só nas regiões coloniais se cultivam outras espécies, mas em mínima quantidade, não dando talvez nem para a vigéssima parte do consumo das pequenas fábricas de tecelagem de Blumenau e Joinville, que o importam de outros Estados, senão do estrangeiro.

 

O algodoeiro planta-se pelos sítios na primavera, fazendo-se a primeira colheita de dez meses depois e as outras de quatro em quatro meses, conforme a fertilidade do terreno e a localização das roças. Ocupam-se desta cultura, como vimos, as mulheres, que procedem à colheita quando abrem de todo, nas hastes, os lindos capulhos em coroa, os quais, por esse tempo, cobrem-se pinturescamente os pequenos algodoais às casas de uma salpicação de brancura, à semelhança desses flocos de neve que nas manhãs frias do sul alastram e tingem d’alvo a verdura. Feita a colheita, o algodão é depositado em barricas ou em sacos, de onde se o retira em pequenas porções para o “escaroçamento” e a fiação, que tem lugar em regra durante os serões noturnos, à luz das antigas candeias de quatro bicos. Além dessas formas de preparo, há mais a da “dobação”, ou ato de dobrar o fio, e a da “batedura” ou função de bater as pastas têxteis depois de convenientemente escaroçadas. Após isso, e após reduzir-se o fio a novelos, se prepara a tela começando a tecelagem ou urdidura no aparelho do tear.

 

Vejamos como se prepara nesses sítios o algodão para o fabrico dos tecidos de musselina e outros de que a pouco falamos. O processo é o mais simples, a começar pela cardagem ou cardadura (escaroçamento) a que se procede, não em uma tábua dentada como se usa comumente nas aldeias de Portugal e nas de todos os outros países europeus, para o algodão e para o linho, mas em um pequeno aparelho portátil de madeira, a carda dos povos primitivos, denominado em todos os sítios catarinenses o “escaroçador”. Compõe-se este de uma tábua ou estrado horizontal, de 0,5m de comprimento por 0,15m de largura, com duas travessas às cabeceiras, pela parte inferior, que lhe servem de pés; tem a meio, assente verticalmente sobre o estrado, uma tábua ao alto com um leve corte angular aos extremos do qual se erguem, talhadas no mesmo pau, duas pontas sobre que trabalham, unidos um ao outro, dois eixos ou cilindros movidos a cada lado por uma pequena manivela. É entre esses dois eixos ou cilindros movidos a cada lado por uma pequena manivela. É entre esses dois eixos que se coloca o algodão, o qual entra por um lado ainda com as sementes e sai ao outro totalmente escaroçado, em forma de pasta limpa que corre sob o movimento dos cilindros. Duas mulheres encarregam-se deste serviço, postada uma a cada cabeceira do aparelho, introduzindo ou colhendo a rama com uma das mãos, enquanto com a outra tocam a pequena manivela. Tal aparelho é leve e rápido e nele se cardam, em poucas horas, arrobas e arrobas de algodão. Como se vê, o escaroçador é o primitivamente inventado pelos povos para semelhantes misteres, e o de que se servem ainda atualmente as populações rurais da Índia: “um laminador feito de dois cilindros de pau canelados onde o algodão, passando, deixa as sementes.” (Oliveira Martins, Regime das Riquezas, pág. 67).

 

A batedura se faz colocando-se uma grande rama de algodão, depois de completamente escaroçada, sobre um almofadão cheio de macela ou capim de colchão e recoberto de pano grosso ou lona, onde a dita rama é sovada durante uma hora ou mais por uma mulher que, acocorada ou ajoelhada no chão, junto ao “batedor”, brande sobre ele vigorosamente, a compasso e em rufos, à maneira das raquetas de um tambor, dois porretes de cana silvestre, sob cujas pancadas seguidas o algodão se destende, amaciando-se e adelgaçando-se em pastas de fio longo. Esse trabalho é bastante pesado e ruidoso, e por isso só praticado de dia nesses lares roceiros e laboriosos, que ficam então, durante as horas da lida, envoltos nessa música ou zoeira monótona que se ouve à distância, quando se atravessa os caminhos agrestes das freguesias da Ilha, pousadas humildemente, numa paz venturosa, sob a luz de ouro do sol pelas planícies e morros.

 

Depois da "batedura" segue-se a fiação que, conforme observamos, é feita ao serão plácido das noites, nesse pequenino instrumento de madeira conhecido pelo "fuso de mão", que a dona da casa e as filhas, sentadas comodamente sobre uma esteira no soalho, e formando círculo em roda da candeia de chama triste assente em cima de um cepo, fazem rodar destramente nos dedos, tendo, arrumadas ao pé em pequenos cestos artísticos, as alvas pastas de algodão já batido, de onde o fio vai saindo e formando as pequenas maçarocas que se acumulam a um canto. Findo esse serviço, desdobram-se as maçarocas em meadas, as quais se submetem depois à tinturaria (anil, cochonilha e outras, que as mulheres reduzem à tinta nesses sítios por um processo rudimentar e simples) e, secadas convenientemente, são levadas à dobadoura, de onde saem para os grandes novelos que têm de encher as lançadeiras dos teares na urdidura das teias.

 

A dobadoura é um aparelho que serve para dobar o fio: compõe-se ordinariamente de algumas varas polidas de madeira colocadas em posição perpendicular a outras postadas horizontalmente e presas em círculo a um eixo fincado ao alto em uma peanha pesada de tábua, em torno a qual as varas formam como um cilindro gradeado girando verticalmente. Nesse cilindro é que são colocadas as meadas, cujo fio se vai desenrolando para os novelos à medida que roda o aparelho.

 

Vistas essas alfaias da pequena indústria têxtil da Ilha, passemos a dar uma rápida e geral descrição, que se nos afigura indispensável, do rude e primitivo aparelho de tecelagem — o tear, tal qual o vimos inúmeras vezes nas freguesias do Ribeirão, Lagoa, Santo Antônio e Canavieiras.

 

 

 

17. O tear

 

O aparelho em que se tecem, em todos os sítios da Ilha como nos do continente, guardanapos, toalhas, colchas, riscados e essas musselinas de algodão tão comuns aí, é o tear retangular, que apareceu evolutivamente logo depois do tear vertical, ainda hoje usado em muitos países do globo e especialmente na Índia.

 

Como é sabido, antes da descoberta dessa espécie de engenhos tecia-se à mão, "como quem faz rede", diz Oliveira Martins (Regime das Riquezas, pág. 66); e longo tempo, decerto, caminhou a humanidade para chegar à invenção dos dois aparelhos citados, hoje entretanto arcaicos e quase inúteis, pelo menos nos centros ativos da indústria têxtil, diante dos teares a vapor.

 

Mas o tear retangular de que nos ocupamos representa já uma grande conquista na arte da tecelagem, tanto que, apesar de todos os progressos realizados neste sentido, se perpetua todavia pelas aldeias, mesmo entre as nações mais adiantadas, como o afirma Laboulaye (Dictionaire des Arts et Manufactures, etc., art. "tissage", vol. IV; Paris, 1891).

 

Antes de prosseguirmos, porém, na enumeração desse aparelho, não será ocioso, talvez, apresentarmos ao leitor, ao menos por um pequeno parágrafo, a descrição pitoresca que faz do tear da Índia o notável pensador português, de cujos profundos conceitos tanto nos temos servido no decorrer desta obra e principalmente na confecção deste capítulo. E se o fazemos, é tão somente para que o leitor, estabelecendo a devida comparação, possa bem avaliar da diferença que há entre o tear retangular e o que imediatamente o precedera.

 

"O tear da Índia, escreve Oliveira Martins, arma-se ao ar livre, suspenso em duas árvores. Ao nascer do sol, o tecelão do Guzerate fixa os seus bambus à sombra dos mangos e tamarinos. Se um temporal se solta, enfeixa os rolos e recolhe. Como a teia se estende à maneira que cresce, não haveria casa onde coubesse a oficina. No chão há uma cova onde o tecelão mete as pernas, sentando-se, e onde move com os dedos dos pés as presilhas que servem de premedeiras ou tirapelas. Um rolo de bambu tem a urdidura e com uma agulha longa, da largura da peça, ao mesmo tempo leva o fio e o bate comprimindo o tecido. Lançadeira não existe ainda, como não existia no Egito".

 

Agora, volvamos à descrição do tear catarinense, que é armado sempre, nas casas, em um compartimento de chão, conforme vimos em todas as freguesias e arraiais da Ilha, e mais particularmente em Canavieiras.

 

O aparelho é todo de madeira e compõe-se de uma armação retangular de 2,20m de comprimento por 1,80m de altura, dividida em duas partes — uma imóvel e outra móvel. A imóvel, também chamada varal, é formada por quatro moirões ou colunas fincadas no chão sobre duas travessas laterais, com duas outras paralelas à altura de 0,80m, e ainda duas outras no alto, fechando e reforçando o aparelho para que este resista ao bater rijo e contínuo do pente, quando em trabalho.

 

Na parte imóvel, a cada cabeceira, há um cilindro — o da frente é onde se enrola a teia à proporção que é manufaturada, tendo para isso uma manivela a um dos extremos; o outro, que fica na parte posterior da armação, denomina-se pregador, e é o lugar onde se fixa a urdidura, que daí se vai desprendendo, pouco e pouco, à maneira que a teia cresce. Depois vem os lisses, que, suspensos por cordinhas em roldanas seguras às travessas de cima, por um movimento das premedeiras ou pedais, sobem descem verticalmente, fazendo cruzar os fios da urdidura, que se lhe prende às extremidades de baixo, nas suas telas duplas. O pente é também uma das peças principais do tear; compõe-se de uma espécie de grossos sarrafos em quadro e prende-se no alto das duas travessas superiores, num entalhado que aí existe, de modo a dar-lhe mobilidade ao menor impulso, pois que às mãos do operário a sua função é apertar a trama na urdidura, após o passar da lançadeira. Segue-se-lhe a travessa onde o tecelão apoia peito, quando em atividade, sentando-se ao tosco banco que corre à frente do tear em toda a sua largura.

 

Como se vê, o aparelho é o mais simples possível, de muito fácil montagem e de custo insignificante nesses sítios, onde abunda a madeira de lei e a mão de obra é baratíssima, o que explica a presença de teares até na mais necessitada choupana dos povoados da Ilha, como tantas vezes observamos nas nossas longas e frequentes excursões aí.

 

E a propósito, ocorre-nos reproduzir aqui algumas linhas de um dos capítulos do nosso livro de quadros da vida rústica catarinense, publicado em 1895. Registram essas linhas a impressão que experimentamos, um dia, numa radiante manhã de verão, ouvindo bater um tear, ao enfrentarmos a choça de uma pobre teceloa de Canavieiras, a Sebastiana, uma velha que conhecíamos de menino, e que ali vivia em extrema penúria, tendo por companhia o único filho que Deus lhe conservara na sua triste viuvez, o Manuel Basta, um rapaz de vinte e três anos, mas tão pequeno e franzino, com o seu lívido rosto imberbe, que se diria uma criança de doze, tal o estado a que o haviam reduzido a opilação e o raquitismo. Eis as linhas em questão:

 

"A mãe desde a madrugada começava a lidar, a movimentar o tear até à noite; e aquele bater contínuo do aparelho, que se ouvia ao longe, à luz amornentadora e vivíssima de um forte sol de aldeia, era como que o grito de vida, a nota sonora da Indústria e do Trabalho que saía do pobre lar, incessante, monótona e prolongada, havia uma trintena de anos!" (Mares e Campos, págs. 131-132).

 

Mas assistamos ao funcionar desse aparelho, movido por um motor de sangue, a mulher, que é, na Ilha e terra firme, quem desde tempos coloniais se ocupa na indústria têxtil.

 

Colocada e ajustada a urdidura que se enrola no cilindro posterior se fixa no da frente, depois de passar pelos dois lisses e pelo pente ou batedor; preparada a lançadeira — espécie de canoinha, que os franceses chamam navette — com os carretéis onde se envolve a trama, a teceloa senta-se à frente do aparelho, no banco a que já aludimos, e, com os pés nas premedeiras movimenta o mecanismo, fazendo baixar um lisse enquanto o outro se ergue, formando então os dois panos da urdidura um paralelogramo, por onde corre a lançadeira que é jogada destramente, — após o que o pente bate forte a trama, numa primeira pancada ritmada e seca, em pouco seguida de outra, e outra, e muitas outras, que ecoam pelo sítio durante dias inteiros...

 

 

 

18. O café

 

Chegamos agora ao ramo principal da indústria agrícola da Ilha. Como em todo o Brasil, em geral, nos últimos vinte anos no Estado de Santa Catarina a plantação do café aumentou prodigiosamente, máxime na comarca da capital, onde os lavradores se entregaram com grande entusiasmo, e de certo iguais ambições de lucros futuros, à exploração em alta escala desta cultura. E a coisa chegou a ponto, que a maioria deles, imprevidentemente, não olhando para os tempos a vir, entrou a abandonar, senão em totalidade, na maior parte sem dúvida, as demais culturas que lhes parecia não poderiam comparar-se, em resultados positivos, a de que nos ocupamos. De sorte que hoje, pode dizer-se sem exageração, a bela Ilha do sul se acha transformada num imenso cafezal.

 

Quando essa febre aguda da plantação do café avassalava todos esses pequenos lavradores, nem um só deles sonhava sequer com a terrível crise que há oito anos mais ou menos aflige a República, motivada exclusivamente, talvez, na abundância extraordinária desse produto em todos os mercados consumidores do mundo, e isto quando atingíamos justamente as maiores colheitas que se têm visto[54].

 

Embora sejamos nós a maior nação cafeeira do globo, e o nosso produto não tenha rival em qualidade, não obstante as fraudes por que passa constantemente no estrangeiro, onde é vendido ou revendido com o nome dos cafés mais afamados, como o de Martinica, Porto Rico, Ceilão, Costa Rica, Moka ou Java, servindo a nossa procedência tão somente para encobrir os de pior espécie — não nos parece de forma alguma acertado continuem os nossos agricultores a insistir unicamente na exploração em grande deste ramo da indústria agrícola, especialmente nos pequenos estados, visto que já o temos cultivado demais e os concorrentes são numerosíssimos, determinando semelhante coisa quantidade de produção superior ao consumo geral.

 

Julgamos, portanto, que não é só na depreciação de qualidade que sofre o nosso café no estrangeiro, como a muitos se afigura, que reside a causa capital da crise por que passamos; mas, e talvez com maior fundamento, na grande concorrência que já nos fazem outros países e regiões hoje largamente produtoras de café, como o México, a América Central, as Antilhas, Venezuela, uma parte da Ásia, o Congo com outros pontos de África, e as colônias europeias da Oceania, que o exportam relativamente em grande escala e, diga-se a verdade, em melhores condições que nós, pelo menos no que diz respeito à ensacadura, beneficiamento do produto e à propaganda, pois só ultimamente em nossa pátria disso se tem cuidado com atividade e interesse.

 

Depois a cultura excessiva do café nos tem feito abandonar, ou pelo menos não cultivar como devemos todas as outras, o que nos levará ainda a mais graves dificuldades. No entanto, além da razão já apontada, sabe-se à saciedade que numerosíssimas outras circunstâncias aconselham-nos igualmente a que, quando mais não seja, deixemos no que está esta espécie da exploração agrícola, tratando apenas de melhorar o seu produto.

 

Corroboram a nossa opinião as considerações exaradas no parecer apresentado, o ano passado, na Câmara dos Deputados, pela Comissão de Orçamento, a propósito de uma emenda do Sr. Barros Franco Júnior, fixando a quota de 300:000$000 para auxiliar a propaganda do café, emenda contra a qual se pronunciara, com outra em contrário, o relator do Orçamento da Indústria, Sr. Calógeras. As considerações da mencionada Comissão de Orçamento são tão lúcidas e sensatas, sintetizam tão bem os pontos principais da nossa crise econômica, que não podemos passar sem transcrevê-las em sua parte essencial, socorrendo-nos para isso do Jornal do Comércio de 1 de novembro último, que sob o título de Propaganda do Café, publicou na íntegra o parecer da sobredita Comissão de Orçamento. Eis aqui, portanto, as aludidas considerações:

 

"Tem-se dito e repetido à saciedade que a crise em que o Brasil inteiro se debate é de natureza econômica e devida ao sistema, ainda até hoje de preferência adotado entre nós, da monocultura sem adubos.

 

Para remediar a esse lastimável estado de coisas, de toda a parte surgem propagandistas da policultura, dos métodos intensivos de produção, do emprego das máquinas no amanho do solo, etc.

 

De fato, a gravidade da situação é de ordem tal que justifica as apreensões dos menos pessimistas, e amplamente merecedores dos mais decididos louvores são quantos, de qualquer modo, concorram para o cumprimento do dever primordial no momento atual: desenvolver a produção do país de modo a ter o máximo de rendimento útil com o mínimo de esforço dispendido.

 

Aumentam ainda a dificuldade do problema solvendo o concurso de circunstâncias em que se encontram os estados produtores de café.

 

Terras em parte cansadas, as mais próximas dos mercados consumidores; outras boas, em zonas de mais difícil acesso; porém, estados onde os capitais, raros, esquivam-se ao emprego em explorações agrícolas; país onde a aceitação do crédito hipotecário é precaríssima e o crédito agrícola quase desconhecido; zonas inteiras onde escasseiam os braços — eis outros tantos coeficientes que complicam e tornam mais séria a solução da crise econômica no Brasil.

 

Dessa superposição de causas perturbadoras de nossa emancipação econômica, e de sua agravação progressiva provém o fato de termos sido até hoje uma nação de consumidores em que a produção, quase exclusiva do café, não dá para saldar nossos compromissos internacionais.

 

Essa situação tem acentuadamente piorado, pois com o largo desenvolvimento das novas fazendas de café em 1890-1891, com a valorização das terras ocasionada pelo encilhamento, com a miragem dos enormes lucros então auferidos pelos proprietários de cafezais, têm-se abandonado outras culturas para cuidar somente daquela. Ora, tudo tem conspirado para acelerar a queda do produto útil dessa cultura.

 

As zonas produtivas estão mais afastadas dos mercados do litoral; os fretes gravam, portanto, mais pesadamente o transporte da mercadoria exportável; as tarifas das vias férreas, com a adicional móvel com o câmbio, esmagam ainda o produtor; o imposto de exportação que recai, não sobre o lucro líquido deixado pelo café, mas sobre o seu preço de venda nos mercados consumidores, representa acréscimo de todas as despesas de produção, além da parte que razoavelmente o Estado poderia pedir ao fazendeiro do lucro produzido pela sua lavoura, como contribuição para os encargos públicos, e esse imposto fixo de 11% tanto mais ruinoso se torna para o fazendeiro, quanto mais baixa é a margem existente entre o preço de venda e do custo do café, como está acontecendo no momento atual.

 

A essas causas internas de angústia para nossa agricultura acrescem ainda algumas de importância capital; como esquecer a dívida passiva dos agricultores, contraída em tempos melhores e que agora os onera sob um peso por vezes esmagador? Como olvidar que o tributo anualmente pago pela importação de gêneros de primeira necessidade vem diminuir o salário do produtor? Pois em anos bem próximos não importamos mais de cem mil contos, pelo porto do Rio de Janeiro, tão somente, de produtos que aqui poderíamos facilmente obter?

 

No preparo do café, no seu beneficiamento, nas qualidades plantadas existem ainda tais senões que a maior parte dos tipos exportados pelo Brasil não logram classificação elevada.

 

Por outro lado, a situação de quase monopólio que ocupávamos, tende a modificar-se; o Congo, que vai ser nosso principal concorrente, tem uma população própria de cerca de trinta milhões de habitantes, além das reservas inesgotáveis do hinterland africano, terras admiravelmente adequadas às culturas tropicais, e o café, o cacau e a maniçoba aí estão sendo plantados em larguíssima escala, além dos seringais que aí existem naturalmente.

 

Tudo, portanto, fenômenos internos e coeficientes externos de nossa organização econômica, evolui no sentido de nos derribar do ponto em que estávamos como país produtor e quase monopolizador da cultura do café.

 

Mas força é que deixemos estas considerações sobre a cultura geral do café no Brasil, para cingirmo-nos única e exclusivamente ao ponto que mais diretamente nos interessa.

 

As primeiras plantações de café na Ilha foram feitas sob o vice-reinado de Luís de Vasconcelos e Sousa, sendo governador de Santa Catarina o Major José Pereira Pinto, cuja fecunda e brilhante administração durou de 7 de junho de 1786 a 17 de janeiro de 1791. Desde então esse ramo de cultura começou a dar os melhores resultados, não só aí como no continente, iniciando-se logo depois uma regular exportação para o estrangeiro, onde o café catarinense, e particularmente o da Ilha, foi considerado de excelente qualidade, fama de que sempre gozou e goza ainda, conforme se verifica pela alta cotação que mantém nesses mercados.

 

E semelhante afirmação tem o cunho da mais absoluta verdade, constatada plenamente por todos os viajantes que neste século percorreram o nosso Estado, e ainda ultimamente pelo Sr. Domingos de Azevedo, cônsul brasileiro em Montevidéu, que, em uma comunicação feita ao Jornal do Comércio e publicada nesta folha em sua edição de 24 de fevereiro deste ano, tratando da origem da cultura do café no Brasil, declara que o de Santa Catarina é dos mais considerados na capital do Uruguai pela sua qualidade, como claramente se depreende de um dos trechos dessa comunicação. Depois de enumerar os estados da República que apresentam maior produção de café, diz o Sr. Domingos de Azevedo: "E Santa Catarina, acrescentaria, não pela quantidade, mas pela qualidade, segundo o modo de ver do mercado onde me acho, Montevidéu”.

 

Nos principais países da Europa, e nomeadamente na França, o café catarinense é dos mais apreciados, tendo obtido, por vezes, o primeiro prêmio nas exposições de produtos agrícolas que constantemente ali se fazem nas capitais dos departamentos, como ainda não há muito sucedeu em uma exposição desse gênero realizada em Lião.

 

A plantação do café nas freguesias e arraiais da Ilha fez-se até certa época com a maior irregularidade, como de resto se procedia com a da mandioca, da cana, do milho, etc.; e só de algum tempo para cá se começou de utilizar o sistema adotado desde muito em São Paulo, Rio e Minas, dando um alinhamento a essas culturas e fazendo com que os cafeeiros, ao serem plantados, fiquem a conveniente distância uns dos outros, de modo a se não entrelaçarem pelas ramagens, como soía acontecer outrora, o que tanto prejudicava a produção.

 

A uberdade do solo catarinense, em geral, é tão considerável que o cafeeiro, ao contrário do que se observa nos três estados citados, onde ele é sempre de pequenas proporções, atinge ali grande tamanho, semelhando quase árvores.

 

Em toda a comarca do Desterro, que abrange como já vimos as seis freguesias da Ilha e seus arraiais, a produção do café é avultada, chegando não só para o consumo de seus habitantes, como para uma regular exportação para o Rio da Prata e praças europeias.

 

Não obstante tais resultados, que aumentam de ano a ano, repetimos ainda uma vez que somos contra a cultura excessiva do café, aconselhando por isso aos lavradores catarinenses, a se dedicarem, e com todas as energias, à policultura, uma das forças que hão de transformar, dentro em pouco, o pequeno mas futuroso Estado de Santa Catarina num dos mais prósperos e invejáveis da República.

 

 

 

 

 



[1] Vocábulo guarani que significa "boca pequena d'água". Assim, pelo estreito que a separa do continente, os indígenas caracterizavam a Ilha.

 

[2] Existem dúvidas sobre o nome do colono, que alguns autores dizem ser unica­mente Francisco Dias Velho, excluindo o apelido de Monteiro. Consultamos, porém, todos os escritores antigos que trataram do assunto e, não falando no Visconde de Porto Seguro, Southey e outros, os modernos Saint-Hilaire (Voyage dans l'interieur du Brésil) e Moreira Pinto (Corografia do Brasil, 1895) nada encontramos em favor de tal afirma­ção. Entretanto, o Dr. Luiz Gualberto, médico-residente em S. Francisco, e o bacharel Manuel do N. Fonseca Galvão, que se têm ocupado em colecionar toda a sorte de docu­mentos sobre a história de Santa Catarina, professam essa opinião. E o último destes. talvez com algum fundamento, diz ao fim da nota 2a., pág. 27, de suas Notas geográficas e históricas sobre a Laguna: "... do referido inventário (alude ao de Dias Velho, feito em S. Paulo em 1781), não consta que tivesse o sobrenome de Monteiro, como lhe dão as referidas Memórias" (fala dos trabalhos de Van-Lede e Almeida Coelho sobre Santa Catarina). Não obstante esta controvérsia, somos da opinião geral de que o colono se chamava Francisco Dias Velho Monteiro, mesmo porque a questão de um sobrenome a mais, ou a menos, não tem a menor importância. O fato histórico em si não fica, por isso, deslocado nem menos verdadeiro.

 

[3] Há dúvida sobre a origem desta denominação dada à Ilha e às terras do conti­nente a que pertence. Almeida Coelho, na sua Memória, bem como outros cronistas são concordes em afirmar que a Ilha recebeu o nome depois de erecta a ermida sob a invoca­ção citada, que por sua vez ocorrera a Velho Monteiro por se chamar Catarina a filha de sua predileção. Mas não há sobre o fato o menor documento. Depois existe a versão de que esse nome fora dado à Ilha por Gonçalo Coelho (ou Cristóvão Jacques) em 1501 ou 1502, na sua viagem de exploração pelas costas do Brasil, pois que esse navegante, aos pontos da costa visitados, ia dando o nome do santo ou santa a quem era consagrado o dia em que a frota avistava ou abordava esses pontos. Esta versão parece-nos a mais pro­vável. Em todo o caso, nada há até hoje de definitivo a respeito.

 

[4] Hoje Canasvieiras.

 

[5] 1856 — data em que foi publicada a Memória.

 

[6] José Neves — Entretenimentos Cosmológicos, pág. 17.

 

[7] Diário de Lisboa, n. 155 de 15 de julho de 1867.

 

[8] Alcunha originária de um antigo regimento de milicianos catarinenses cujos sol­dados usavam um colete verde. Este batalhão tornou-se célebre pela sua bravura nas campanhas do sul, durante o primeiro império.

 

[9] É claro que não nos referimos aqui à mulher de origem germânica, comum nas ex-colônias de Joinville, Blumenau, Gaspar, Brusque, etc.

 

[10] Muitos fatos dessa ordem nos foram narrados por vários armadores desse tem­po, subsistentes até poucos anos naquela capital, e que haviam sido grandemente preju­dicados no "negócio dos negros" com esses aprisionamentos.

 

[11] Dr. Alfredo d'Escragnolle Taunay, Relatório com que passou a seu sucessor a presidência de Santa Catarina, em 2 de janeiro de 1877, pág. 50.

 

[12] Relatório citado, pág. 50.

 

[13] Três dias depois da publicação desta parte do nosso livro em o Jornal do Comér­cio, fomos agradavelmente surpreendidos com uma interessantíssima carta do ilustre Sr. Visconde de Taunay, dirigida à Redação daquela folha e inserta em seu número de 6 de junho de 1897. Calando as expressões generosas e delicadas, que só pessoalmente nos dizem respeito, transcrevemo-la aqui:

"O Sr. Virgílio Várzea, nos seus artigos sobre Santa Catarina, refere com minúcia tudo quanto diz respeito ao monumento da praça do Palácio, começado pelo saudoso presidente Dr. João Tomé da Silva e mais ou menos concluído a esforços meus, quan­do, em 1876, administrei aquela então província.

Na íntegra transcreveu o escritor catarinense as inscrições que compus e mandei gra­var nas pedras-mármore das quatro faces do embasamento. Valeu-me a principal, posta em puríssimo latim pelo meu sempre lembrado pai, Barão de Taunay, uma homenagem que sinceramente então me penhorou e hoje sou levado a relembrar com verdadeira emoção.

Dias após a inauguração do monumento comemorativo, recebi em palácio a visita do respeitabilíssimo e tão popular padre Leite e do professor Branco. "Bem sabe, disse-me o primeiro, que não somos frequentadores desta casa. Não pudemos, porém, eu e meu cunhado, deixar de vir felicitá-lo, e calorosamente, pelas palavras que mandou gravar naquelas tábuas votivas. Acabamos de lê-las com as lágrimas nos olhos". O bom do velho, latinista de força e mais que isto, autoridade em línguas mortas, sem exceção do hebraico antigo, mostrava-se entusiasmado com o latim que apreciara deliciado. Dei-lhe a conhecer a origem de onde proviera. "É uma inscrição" concluiu ele "digna, pela forma e pelo fundo, de ser copiada e guardada por quantos viajantes saem por esta cidade do Desterro".

Não dei à terminação do monumento caráter definitivo e creio que à necessidade da sua transformação posterior aludi no meu relatório, que não tenho agora a mão para consultar. Fiz na ocasião, o que me era possível fazer, não só para impedir a ruína total do que achei construído como para desatravancar o centro da praça de feios andaimes e montes de paus e pedras, conforme lá se viam, por mais de quatro anos. Foi ao meu em­penho ajudado pelo ínclito Duque de Caxias, presidente do Conselho de Ministros, que, pelo seu Ministério da Guerra, mandou fornecer-me com presteza tudo quanto dele requisitei em bombas, peças, correntes e mais acessórios.

Bastante tempo depois, procurei fazer com que se substituísse aquela desgraciosa pilha de balas e, achando-me na Europa, indaguei de uma casa de Strasburgo, qual o preço de uma estátua de bronze de Santa Catarina, de que vi belo modelo, e com altura correspondente à base da praça do Desterro. Falaram-se em 35 contos de réis, tudo aca­bado, isto em 1879. Escrevi para a província; mas as respostas não foram animadoras — e até hoje o monumento está como o deixei, havendo felizmente escapado à tentativa de vandálica e ingrata destruição. Quando não seja outro o motivo, deve ampará-lo sempre a simples relação dos oficiais do exército e da armada, filhos de Santa Catarina, que morreram com honra nos campos do Paraguai em prol da glória do Brasil."

 

[14] Oliveira Martins, História de Portugal, vol. 11; Livro sexto, caps. I - IV.

 

[15] Breve notícia sobre a imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos (folheto anô­nimo), pág. 24; Rio de Janeiro, 1897.

 

[16] Almeida Coelho, Memória Histórica, notas às págs. 102 e 103.

 

[17] Felix Ferreira, Noções da vida doméstica, pág. 214, 2a. edição; Rio de Janeiro.

 

[18] Breve notícia sobre a Imagem do Senhor dos Passos, de Santa Catarina, pág. 5.

 

[19] Ibid., pág. 6.

 

[20] L'homme crimine! e L'homme de genie, Paris, 1889.

 

[21] Breve notícia, etc., pág. 7.

 

[22] Arcipreste Oliveira Paiva, O Irmão Joaquim, artigo inserto no Almanaque Catarinense de 1896, págs. 37 - 45.

 

[23] Oliveira Paiva, artigo citado.

 

[24] Ibid.

 

[25] Breve notícia, etc., pág. 9.

 

[26] A chart of the Coast of Brazil, etc., pelo barão de Roussin e capitão Barral; pu­blicada por Charles Wilson (Iate J. W. Norie & Wilson); Londres, 1854.

 

[27] Vocábulo dinamarquês que significa "restos de cozinha".

 

[28] Este caminho era outrora intransitável a veículos pelas suas íngremes ladeiras e falta de amplitude suficiente; hoje, porém, constitui uma das melhores estradas de roda­gem de ao pé da capital, podendo-se por ele dar volta completa ao Morro do Pau da Ban­deira, pelo Saco dos Limões e Trindade.

 

[29] Esta imagem, verdadeiro primor de escultura, foi feita na Capital da Bahia por um velho artista brasileiro e filho daquele estado, cujo nome ignora-se, isto em 1763, sendo no ano seguinte transportada para Santa Catarina, conforme já vimos.

 

[30] Hoje Costeira do Pirajubaé.

 

[31] Saint-Adolphe, não sabemos com que fundamento, escreve Prejibahi (Dic. Geog. e Hist. do Imp. do Brasil, tom. II, pág. 366).

 

[32] O Visconde de Porto Seguro supõe, entretanto, que esse nome fora dado ao local depois que aí naufragara D. Rodrigo de Acurva, comandante do navio São Gabriel pertencente à frota espanhola que, sob o comando em chefe do almirante Fr. Garcia Jofré Loaysa, largara da Corunha a 24 de julho de 1525 em viagem de exploração às costas do Prata. E acrescenta: "Daqui proveio a este porto (Naufragados) o nome de Porto de D. Rodrigo, com que por muito tempo foi conhecido nos mapas e roteiros. Acaso seria o mesmo a que Sólis, dez anos antes, chamara Baía dos Perdidos, talvez em virtude dos mencionados seus companheiros que aí lhe fugiram ou se perderam; se é que esses indivíduos não houvessem efetivamente ficado por aí, voluntariamente ou desgarrados, já desde alguns anos antes." (História Geral do Brasil — edição Laemmert — tom. 1. pág. 106).

 

[33] Denominação que lhe dá Aires de Casal (Cor. Bras., tom. 1, pág. 194) e a Carta da entrada do norte do canal de Santa Catarina, levantada pelo almirante Mouchez e publicada em 1867. Tal denominação tem unicamente por fim distinguir esta Lagoa da Lagoinha, a qual já deixamos assinalada. A Lagoa Grande é conhecida, porém, entre os habitantes da Ilha pura e simplesmente pela – Lagoa.

 

[34] Nesta lagoa encontram-se, em quantidade prodigiosa, além dos peixes já men­cionados na Lagoinha, a carapitanga, o jundiaí, o pernagaiú, a caranha e a enxovinha.

 

[35] Outrora o peixe seco e a farinha de mandioca eram os grandes ramos da indús­tria e do comércio. Santos, Rio de Janeiro e mesmo a Colônia do Sacramento, eram pela Laguna abastecidos destes gêneros; o peixe, porém, hoje já não é quase objeto de expor­tação, conquanto a sua quantidade ainda exceda às necessidades da população, que há dirigido sua atividade para a agricultura." (Manoel do Nascimento da Fonseca Galvão, Notas geográficas e históricas sobre a Laguna, pág. 13; Desterro, 1884).

 

[36] Inocêncio Francisco da Silva, Dicionário Bibliográfico.

 

[37] Daremos, na segunda parte desta obra, uma descrição desses depósitos humanos ou restos de cozinha, conforme a denominação que lhes deram a geologia, a antropolo­gia, a paleontologia e a arqueologia pré-histórica modernas. Os sambaquis existem, não só na costa ocidental da Ilha como em todo o litoral do continente, desde São Francis­co, ao norte, até o cabo de Santa Marta, ao sul, sendo o mais considerável deles o da Cabeçuda, a poucos passos da cidade de Laguna. Este casqueiro tem sido objeto de vá­rios estudos por parte de viajantes europeus, havendo dele se ocupado igualmente, em notável trabalho científico, o Dr. Charles Wiener, eminente etnógrafo e arqueologista francês, que entre nós residiu alguns anos, percorrendo muitas vezes, a observações de sua especialidade, o Estado de Santa Catarina.

 

[38] V. Almeida Coelho, Memória Histórica, cap. VIII, S 2o., págs. 152 e 155; e M. Pinto Bravo, Curso de História Naval, lic. XX, págs. 333 e 335.

 

[39] Existe ainda hoje no Rio Grande um rebocador empregado na praticagem da barra que conserva a legendária alcunha do bravo marinheiro.

 

[40] A paleontologia humana e a arqueologia pré-histórica, apesar de sua vastidão e descobertas, ainda não definiram cabalmente se o homem apareceu ou não sobre a terra na idade terciária, como há visíveis indícios pelas explorações científicas feitas na Europa, em camadas geológicas dessa época. Sobre os nossos sambaquis, estamos em desacordo com aqueles que atribuem a essas estações humanas formação posterior às épocas pré-históricas. Posto variem muito as opiniões relativamente à antiguidade dos kjõkkenmõddings, os de Santa Catarina, pelos instrumentos e objetos encontrados de envolta com ossadas humanas, atestam claramente pertencerem à era dos tumuli que, para todos os arqueólogos, antropologistas, etc. (e entre eles o sábio Steenstrup, que estudou os da Dinamarca) está colocada no período neolítico ou da pedra polida. Con­forme já o declaramos, estudaremos em outra parte o assunto, na altura de nossas forças e com conhecimento direto que temos dos casqueiros catarinenses.

 

[41] Estas denominações, como uma parte das notas que nos guiaram no presente capítulo, encontramo-las na Memória Sobre a Ilha de Santa Catarina, datada de 1797, a qual faz parte das coleções da "secção de manuscritos" da Biblioteca Nacional.

 

[42] O Furado é um canal estreito, mas de certa profundidade, que corta uma longa volta do rio, ilhando assim a parte do terreno compreendida entre ambos. As canoas que sobem ou descem o rio entre Canavieiras e a cidade preferem sempre este canal, por encurtar a viagem, embora não possam nele fazer uso do remo de voga, mas apenas do de pá ou da vara, pois o mangue é aí muito denso fazendo por cima como um túnel de folhagem.

 

[43] Antonio Lopes da Costa Almeida, Roteiro Geral, etc., parte XI, pág 8; Lisboa — 1839.

 

[44] Ibid., pág. 8.

 

[45] O almirante Proença referia-se então à escolha do melhor porto para a estação principal da Estrada de Ferro D. Pedro I, que se destinava a ligar Santa Catarina ao Rio Grande do Sul, atravessando toda a zona interior ou de serra acima do primeiro des­tes Estados. Essa via férrea, cujos estudos preliminares começaram em 1884, não foi levada a efeito, por se haver manifestado contra a sua utilidade a comissão fiscal do governo, encarregada de examinar o traçado e dar parecer sobre os resultados comerciais e econômicos que adviriam às duas Províncias e aos cofres gerais especialmente, depois de pronta a estrada. Daí resultou, alguns anos mais tarde, em 1890, ser o governo da República obrigado a pagar aos concessionários da empresa uma indenização de muitos mil contos, gastos em pura perda, como tantas vezes acontece em nossa pátria.

 

[46] Referimo-nos à carta de Roussin e Barral, datada de 1854; à de Mouchez, de 1867; e à do Barão de Tefé, de 1863 — todas já mencionadas várias vezes no decorrer desta obra.

 

[47] Almeida Coelho, Memória Histórica, pág. 53.

 

[48] Justino de Proença, obr. cit., pág. 65.

 

[49] Ibid, págs. 15 e 16.

 

[50] Hoje Zimbros.

 

[51] Saint Adolphe diz que os Moleques do Norte se compõem de três ilhéus, e assim se exprime a respeito: "...um grupo de três ilhas ao sudoeste e na vizinhança da ponta do Rapa, na extremidade-norte da Ilha de Santa Catarina" (Dic. Geog., etc., tom. II, pág. 115).

 

É engano do ilustre geógrafo que, ou tomou alguma rocha mais grossa por uma ilha à parte, ou adicionou ao grupo a ilha do Badejo, situada próximo como acima se vê. Depois há um erro palpável em assinalar que os Moleques do Norte demo­ram ao sudoeste do Rapa. Ao sudoeste, não: ao sueste é que deveria dizer.

 

[52] Espécie de pequeninos sacos, de um palmo de comprimento mais ou menos e de três ou quatro polegadas de diâmetro, feitos de riscado grosso ou brim de vela, que se enchem de areião para fazer imergir uma das amuras das redes, substituindo perfeita­mente o chumbo que, a ser empregado, pela quantidade exigida, tomaria excessivo o custo das mesmas redes.

 

[53] "Quase todos os ramos da agricultura e da indústria estão em decadência. A produção do açúcar, conquanto ainda importante, perdeu o primeiro lugar que teve. O algodão que deveu o seu rápido incremento à gue