LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Tropos e fantasias, de Cruz e Sousa e Virgílio Várzea


Textos-fonte:

 

João da Cruz e Sousa, Obra Completa, org. de Lauro Junkes,

Jaraguá do Sul: Avenida, 2008, 2 v.

 

João da Cruz e Sousa, Obra Completa,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

Casos e coisas

 

Allegros e surdinas

 

Piano e coração

 

A bolsa da concubina

 

O padre

 

Pontos e vírgulas

 

Sabiá-Rei

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Casos e coisas

 

 

As Ilusões são como as cerejas.

 

Se estas se desprendem uma a uma, quando as tentamos apanhar juntas, também aquelas.

 

Tropos e fantasias sintetizam um punhado de ilusões... avigoradas no idealismo, emigrando, leves, leves, para os espíritos asseados e limpos, na higiene e na salutariedade essencial da luz.

 

E foi nestes casos que publicamos estas cousas.

 

 

Virgílio Várzea e Cruz e Sousa

 

 

 

Allegros e surdinas

 

A B. Lopes

 

 

Foi pela primavera.

 

A natureza fecunda e prodigiosa, extasiava o raciocínio com as pompas exuberantes, com a fertilização da verdura.

 

As flores abriam-se, como os risos alegres e vibrantes da terra.

 

Havia nos espaços, profundamente calmos, a expansibilidade suavíssima das coisas.

 

Pairava em tudo como que o amor espiritualizado.

 

Foi pela primavera.

 

A falange gloriosa dos canários, dos coleiros, dos gaturamos, dos sabiás, rasgava o horizonte, aqui e ali, de risadas apopléticas, que chocalhavam comoguizos, que tiniam, que bimbalhavam como campanários de aldeia.

 

Toda a floresta tomava a proporção de um deslumbramento equatorial.

 

As fontes, as cascatas, os ribeiros, sonoros, harmônicos, musicais, faziam coro na grande ópera da Criação.

 

A vitalidade, a seiva tinha erupções vulcânicas, desde os troncos mais hartos, até as mais frágeis raízes.

 

Cintilava, cantava o verde florido dos prados e o azul refrigerante dos céus.

 

Almas e almas vagavam, como silfos, comoasas, como nuvens e nuvens, pelas zonas consoladoras e luminosas do idealismo.

 

Trinos e trenos, por tudo.

 

A falange gloriosa dos canários, dos coleiros, dos gaturamos, dos sabiás, rasgava o horizonte, aqui e ali, de risadas apopléticas, que chocalhavam como guizos, que tiniam, que bimbalhavam como campanários de aldeia.

 

Uma simpatia boa acariciava por fora, a casinha alva, muito alva, encarapitada do cimo da colina.

 

Dentro, morrera o Gigi, uma criança, um beijo cristalizado, um sonho dos colibris; e as esperanças dos pais, imergiam, pela sombra melancólica das mágoas, como pombas, tristes, tristes...

 

Morrera o Gigi; a primavera da vida, na primavera da natureza.

 

E as névoas crepusculares que invadiam a tarde, penumbravam o aposento inteiro...

 

Nos objetos parecia haver também a reticência da dor.

 

E quando o foram conduzir para o túmulo, as estradas arenosas tinham aquela gravidade séria dos corações desamparados de crenças.

 

As lavadeiras, atravessando o caminho, em curvas, cantarolando, com as brancuras honestas de roupas à cabeça, punham tons de uma afabilidade rara no fúnebre trajeto.

 

Os ciprestes, silenciosos, acompanhavam aquela angústia, chorando as suas compridas lágrimas de orvalho.

 

Perfumes agrestes, espiralavam-se das matas verdes, fartas de florações viçosas e gastas.

 

Estendiam-se, para além, nas serras oblongas, alguns mugidos vagos de bois satisfeitos que pastavam deleitosamente.

 

E na extremidade curvilínea das praias, as ondas claras, espumantes, refletiam os coloridos silforamáticos que o sol produzia, frechando as colinas pedregosas e altanadas, parecendo, à movimentação do globo, resvalar pelo seu ocaso eterno e supremo, numa auréola de fogo.

 

Uma simpatia boa acariciava por fora, a casinha alva, muito alva, encarapitada no cimo da colina.

 

Dentro, morrera o Gigi, uma criança, um beijo cristalizado, um sonho dos colibris; e as esperanças dos pais, imergiam, pela sombra melancólica das mágoas, como pombas, pombas tristes, tristes...

 

 

 

Piano e coração

 

A Isidoro Martins Júnior

 

 

O piano, o piano e o coração.

 

Ó melodias do coração, ó harmonias do piano.

 

Chopin, Gounod, Métra, Strauss, Beethoven, Gottschalk, constelação gloriosa de boêmios de ouro!...

 

Quando o piano musicaliza, caracteriza, espiritualiza as longas escalas cromáticas, os adoráveis allegros, os interessantes pizzicatos, quem fala primeiro que os cérebros artísticos, é o coração.

 

Ele canta mais alto que todos os órgãos humanos.

 

O coração é o pulso do cérebro artístico.

 

Pela temperatura e o grau de sentimento de um, o músico estabelece a proporção do outro.

 

Um dirige, outro executa.

 

Um tem a fórmula, outro funciona.

 

Um é o oxigênio, outro o carvão.

 

Um faz o relâmpago, outro produz o raio.

 

Coração e cérebro aliam-se, homogeneízam-se.

 

Assim o piano, eternamente assim.

 

O coração é a luta, as grandes tempestades desoladoras, varadas de cóleras surdas de vendavais gargalhantes e intérminos, de frios que estortegam, enregelando as noites soturnas das trevas compridas e absolutas; o coração é a maciosidade dos linhos, a candidez consoladora dos luares estrelados, a fluidez elétrica dos perfumes excitantes, as expansivíssimas alegrias, castamente sonoras e sonoramente castas.

 

O coração ruge e vibra.

 

Assim o piano.

Cada palpitação do piano, é uma fibra do coração, que bate.

 

Tem os mesmos triunfos, os mesmos humorismos fúnebres, as mesmas imponências e coruscações, o piano.

 

Chora e canta, ri e soluça.

 

Quanta vez o artista não canta, não ri e chora e soluça com o piano. Dizei à sensibilidade que emudeça.

 

À sombra que se subdivida, partícula por partícula, pela própria sombra.

 

O piano, como o coração, representa um ser complexo, com os elementos necessários, com os nervos, com os músculos de vitalidade dispostos, preparados, desenvolvidos, de forma a infiltrar nos demais seres, a seiva psíquica, a sanguinidade simpática da arte.

 

 

 

A bolsa da concubina

 

A Horácio de Carvalho

 

 

O amor é uma escada que tem uma extremidade na glória e outra no abismo, — disse-o Matias de Carvalho.

 

Vezes há que essa escada devendo resvalar na glória, resvala abruptamente no abismo.

 

E ai daqueles que se tem librado a ela.

 

O amor é uma torrente de circunstâncias anormais.

 

Quanto maior é o amor, maior deve ser o sacrifício.

 

O amor faz gigantes e faz anões, ilumina e entenebrece os espíritos nervosos e doentios.

 

É como o cáustico; cura mas deixa os sinais evidentes.

 

Daí as incompatibilidades, as duras idiossincrasias do amor.

 

Daí as monstruosidades e os abortos morais, os perigos e as aberrações sociais.

 

O amor, o amor que se consubstancia no dever, na harmonia, no bem-estar, no sossego de espírito, na probidade e na lisura, é o maior elemento higiênico da moral da família.

 

Para a felicidade doméstica, o agente que mais influi é o amor, mas não esse amor gasto que anda a suspirar pelos madrigais, pelas belas noites de luar, pelos suntuosos saraus de onde se sai com o estômago encharcado de maus vinhos e a consciência cambaleando, pelo efeito das luzes, das flores, das músicas e das pompas.

 

Não! Não!...

 

Mas o amor sadio, limpo, asseado, o amor que sabe ter energias e sabe ter heroísmos, o amor que ri com a esposa e soluça com o filho, o amor que mostra a camisa rota do operário, o arado do aldeão, mas que à noite, nas suavíssimas meias sombras do lar, lembra-se que tem de almoçar no dia seguinte e que a mulher já lhe disse, abraçando-o expansivamente, entre as harmonias alegres e francas de um sorriso, que não há lenha em casa.

 

É esse o amor.

 

O amor que faz bem, que corporifica os sentimentos da alma, que se multiplica de vitalidade pelos sentidos, pelos olhos, pelos ouvidos, pelos gestos, por todos os atos e complementos psicológicos e fisiológicos.

 

O amor que é a filosofia dos seres bons, honestos, o amor que é o oxigênio da temperatura do afeto humano.

 

Assim como o ar atmosférico tem influência sobre os pulmões, o amor tem influência sobre o trabalho, sobre o dever, sobre a virtude.

 

Da temperatura do amor depende a temperatura da felicidade conjugal.

 

Há desgraçados que deveriam ser felizes, assim como há felizes que deveriam ser desgraçados.

 

Os primeiros porque trabalharam para ser felizes; os últimos porque nada fizeram para isso, não deixando, porém, de ter a consideração de — zelosos de seu bem-estar e trabalhadores do seu futuro.

 

O verdadeiro amor, aquele que é para as crianças o imaculado tesouro, o verdadeiro amor, aquele que é para os cegos a benéfica luz, aquele que é para os mortos o miraculoso surge et ambula, esse, esse amor, supremo como as supremas harpas do infinito, claro, magnífico como as vestiduras brancas dos justos, imponente como a memória de Camões cortando a monotonia de gelo de trezentos anos, esse amor é a afinação das almas pela música da natureza criadora.

 

Fora preciso que a humanidade não cuidasse tanto das funções peristálticas do estômago, para abrir o grande livro da virilidade universal:

 

O amor.

 

Fora preciso que as consciências expelissem de si todos os fetos e aleijões que elas produzem e que, tomando uma nova seiva, uma porção de sangue, uma boa parcela de massa encefálica, uma intuição muito direita, muito outra, dos admiráveis problemas que a filosofia derrama na flor, na árvore, no infinito, em toda a criação, em toda a natureza, sintetizassem no amor a concretização de todos os fenômenos e acontecimentos animais.

 

— O amor, tem razão o poeta, é uma escada que tem uma extremidade na glória e outra no abismo.

 

Casaram-se.

 

Ela muito limpa sempre, muito asseada, sabendo ler bem, costurando à noite, na máquina, paletós, calças, coletes, sacos de aniagem; fazendo à mão toalhas de rosto, bordando, toda alegre, com os seus pospontos muito bem acabados, delicadamente feitos; indo ao quintal de manhã cedo, aos raios mais firmes do dia, ver a alacridade doce de suas plantas, de suas flores, de sua horta muito galante, dando de comer, milho moído, aos pintos, que vinham, vinham, vinham, em pequeninos gritos, em expansões castas, abrindo o bico, rufiando as asas tenras, roçando as pernas pela macia plumagem das mães, umas galinhas gordas, satisfeitas, parecendo donas de casa, amarelas, rajadas de branco e preto, levando os grãozitos de milho ao bico e dando aos pintos todos contentes de sua vida.

 

Uma alegria das pobres aves.

 

Ele um pintor boêmio, sem apreço à honra; casara-se por amor, mas depois uns amigos maus, hipócritas, transformaram-no inteiramente. Mesmo dizia-se que nunca tivera juízo.

 

Mas, como — quem vê cara não vê coração, a pobre da moça amou-o muito, com toda a força de sua crença e casaram-se.

 

Depois ele tinha um vício.

 

Era pobre, pobre e amasiara-se com uma mulher com a qual banqueteava-se.

 

Às vezes, ia para a casa com o sorriso alvar de animalidade alcoolizada.

 

Não era barulhento, não era de instintos ferozes, mas bestializava o seu proceder.

 

A honesta mulher sabia de tudo, mas ah! grande luz do seu imenso coração, envergonhava-se, não queria escândalos, chorava no escuro, baixinho, toda pesarosa, toda magoada; lembrava-se do filho que tinham, sabia que era ele o pai e que se esse pai os abandonasse, seria desairoso para ela e então suportava tudo.

 

Pois se ela era tão honesta!

 

Ah! o seu filho, o seu querido filho tão bonito como ela o chamava.

 

O seu querido filho tão bonito!

 

Oh! as mães, as mães!

 

E no entanto a criança era raquítica, não parecia ter seis meses; o crânio muito comprido e achatado, o frontal muito largo, de uma saliência enorme, abaulado, deixando aparecer muito no fundo, dois olhos sem expressão, quase sem movimento, davam-lhe o aspecto de uma caveira; o corpo mal desenvolvido, o rosto amarelado e de uma pele seca, as pernas em arco, magras, tudo emprestava àquilo que ela chamava o seu querido filho tão bonito, uma aparência sinistra e má.

 

Não obstante ela o adorava!...

 

Oh! as mães, as mães!...

 

Que sacrifício profundo e sacrossanto é maior que o coração das mães?!

 

— O espetáculo estupendo do sol, faiscando pelos espaços intérminos, como um colosso de fogo, iluminando as esferas, dando umas tonalidades claras ao espírito das cousas, abrindo e fecundando as grandes almas de tudo, não é mais deslumbrante de eloquência que o amor das mães!...

 

Elas se imortalizam na memória dos filhos, quando eles se chamam Dante, Shakespeare, Vítor Hugo e Zola.

 

As mães são o compêndio infinito de todas as ciências, a irradiação maravilhosa de toda a luz filosófica.

 

Por isso ela estremecia muito o seu querido filho tão bonito.

 

E ele, o marido, andava fora, ou no trabalho ou em casa dela.

 

E ela, a mulher, essa outra — ela — tão modesta, tão santa, tão trabalhadeira, ainda nova, na manhã transparente dos seus vinte e dois anos, sentia a necessidade, umas abundâncias de extremos, de umas exuberâncias de afeições puras, revolvia-se toda, às vezes, como uma freira na sua cela, ficava nuns letargos mornos, sensuais, num sonambulismo etéreo, fechando os olhos numa dormência calada, como se cedesse ao poder de um magnetismo soberano.

 

Tinha necessidade de adulterar mas o seu querido filho e tão bonito ali estava, fisicamente feio, como a atalaia da sua honra, como a porta de bronze a lhe interceptar a entrada no palácio silforamático da prostituição.

 

E então ela erguia-se em toda a majestade do seu dever e abraçava e beijava o filho, numa aluvião delirante de carinhos enternecedores.

 

Aquele filho livrava-a de ter uma Waterloo na batalha renhida da sua existência.

 

E então trabalhava, trabalhava muito.

 

Ele já pouco ia ver a mulher e o filho.

 

O pão, no entanto escasseava, o fogão estava negro e calado.

 

O proprietário da casa onde moravam já lhes falara uma vez, duas, três vezes.

 

Tinham-se atrasado um tanto... uns cinco meses.

 

O fornecedor o vira entrar em casa diversas noites, cambaleando, e mastigando frases desencontradas.

 

Dissera que não fiava a bêbados, desconfiava que não seria pago e depois atirava os seus dichotes canalhas à sua freguesa e desejava-a, mas o único meio de a obter, pensava ele, era tornando-se desapiedado e negando-lhe o alimento, porquanto ela assim cederia, já que o marido pouco parava em casa.

 

No entanto, a vida dela caía, caía como as pétalas de uma rosa ao chegar o inverno desabrido e úmido.

 

As papoulas de sua face desbotavam dia a dia.

 

Ele já não trabalhava quase, desmoralizara-se de todo e negavam-lhe trabalho.

 

Deixava, dez, quinze dias de ir ver a família.

 

Uma ocasião foram dizer-lhe, um pequeno aprendiz seu, que o filho fora atacado de varíola.

 

Achava-se ele em casa da concubina.

 

Ela ao ouvir o recado do pequeno, sorriu-se com um sorriso de vingança, pois dizia — que ele lhe prometera casamento, que a enganara, mas que ela se vingaria; e, terminantemente ordenou-lhe que não aparecesse em casa, que não fosse ver o filho, que ela faria as despesas da moléstia e do enterro, caso a criança morresse.

 

E pegando da pena escreveu, imitando o quanto possível a letra do amante: — "Minha querida — sinto extremamente o estado do nosso filho, mas como não encontro trabalho na cidade e é absolutamente preciso que eu parta hoje para a vila de..., a um magnífico negócio onde poderei ter mais prontos resultados de dinheiro, desculpa a precipitação com que te escrevo e olha bem o nosso filho. — Tu és boa, perdoa-me, pois, os dias que não tenho ido à casa.

 

— Para que nada falte ao pequeno, te envio uma sofrível importância; a sua doença não há de ser nada; daqui a pouco te mandarei lá o médico. — Teu marido A."

 

Meteu o bilhete num envelope, puxou de uma bolsa, colocou dentro umas cinco notas de mil réis e deu ao pequeno que saiu.

 

Ele, bestializado com tudo aquilo, meio parvo, fechava de vez em quando os olhos, como que para não ver ou não desvendar a profundidade do seu abismo.

 

No entanto ela ria canibalescamente e redobrava de afagos para com o seu louro — como lhe chamava.

 

Era viúva, herdara alguma cousa para a sua subsistência e sabia atrair os ladinos e triunfar dos seus caprichos, comofazia com ele.

 

E enquanto a viúva pantera explosia as suas paixões venenosas, a honesta mulher, só em casa, desamparada como uma criança nua numa estrada, por uma noite negra, muito negra, aos uivos de um temporal cruel, sentindo ao longe, lá ao longe o monótono grasnar das aves agoureiras, via que o médico não chegava, que seu filho se sumia, se sumia, como a asa de uma andorinha na última extrema do horizonte.

 

Parecia que um prédio tinha desabado sobre ela.

 

Estava abatida, desconsolada, desfalecida.

 

Não ia ao quintal para não ver as suas aves, não ia à janela para não ver o sol percorrer satisfeito as amplidões serenas da serena luz.

 

Não ia porque nas aves e no sol, ela via seu filho contente adormecido aos seus beijos.

 

E o aprendiz, pinoteador, travesso, acriançado, não fora lá, logo no mesmo dia.

 

Mas no dia seguinte, de tarde, quando no éter calmo se esbatiam as tintas crepusculares, e que a sinfonia da natureza, os límpidos turíbulos das florestas, derramando perfumes suaves, convidavam o raciocínio a um recolhimento poético, morria-lhe nos braços o filho, como um Cristo menino nos braços de Maria.

 

E então, ela, numa angústia despedaçadora de mãe dolorosa, lembrando-se daquele corpo, daqueles olhos, daqueles lábios que iam talvez rebentar numa explosão de boninas, de cravos e de violetas, viu abrir-se a porta e entrar o aprendiz com um objeto que lhe entregou.

 

Era a bolsa da concubina!!

 

 

 

O padre

 

A João Lopes

  

 

Um padre escravocrata!... Horror!

 

Um padre, o apóstolo da Igreja, que deveria ser o arrimo dos que sofrem, o sacrário da bondade, o amparo da inocência, o atleta civilizador da cruz, a cornucópia do amor, das bênçãos imaculadas, o reflexo do Cristo...

 

Um padre que comunga, que bate nos peitos, religiosamente, automaticamente, que se confessa, que jejua, que reza o — Orate fratres, que prega os preceitos evangélicos, bradando aos que caem surge et ambula.

 

Um escravocrata de... batina e breviário... horror!

 

Fazer da Igreja uma senzala, dos dogmas sacros leis de impiedade, da estola um vergalho, do missal um prostíbulo...

 

Um padre, amancebado com a treva, de espingarda a tiracolo como um pirata negreiro, de navalha em punho, como um garoto, para assassinar a consciência.

 

Um canibal que pega nos instintos e atira-os à vala comum da noite da matéria onde se revolvem as larvas esverdeadas e vítreas da podridão moral.

 

Um padre que benze-se e reza, instante a instante, que gagueja à frente do cadáver o aforismo de Horácio — Hodie mihi cras tibi.

 

Um padre que deixando explosir todas as interjeições da ira, estigmatiza a abolição.

 

Ela há de fazer-se, malgrado os exorcismos crus dos padres escravocratas; depende de um esforço moral e os esforços morais são, quase sempre, para a alta filosofia, — mais do que os esforços físicos — o fio condutor da restauração política de um país!...

 

O interesse egoístico de um indivíduo não pode prevalecer sobre o interesse coletivo de uma nação, disse-o um moço de alevantado talento, Artur Rocha.

 

Não é com a ênfase dogmática do didatismo ou com a fraseologia tecnológica dos cinzelados folhetins de Teófilo Gautier que o trabalho da abolição se fará.

 

Mas com a palavra educada, vibrante — essa palavra que fulmina — profunda, nova, salutar como as teorias de Darwin.

 

Com a palavra inflamável, com a palavra que é o raio e dinamite, como o era na boca de Gambetta, a maior concretização do estupendo — depois do sol.

 

A palavra que ri... de indignação; um riso convulso... de réprobo, funambulesco... de jogral.

 

Um riso que atravessa séculos como o de Voltaire.

 

Um riso aberto, franco, eloquentemente sinistro.

 

O riso das trevas, na noite do calvário.

 

O riso de um inferno... dantesco.

 

Ouves, padre?...

 

Compreendes, sacerdote?...

 

Entendes, apóstolo?...

 

Então para que empunhas o chicote e vais vibrando, vibrando, sem compaixão, sem amor, sem te lembrares daquele olhar doce e aflitivo que tinha sobre a cruz, o filho de Maria?...

 

O filho de Maria, sabes?!...

 

Aquele revolucionário do bem e aquele cordeiro manso, manso como um ósculo da alvorada nas grimpas da montanha, como o luar a se esbater num lago diamantino...

 

Lembras-te?!...

 

Era tão triste aquilo...

 

Não era padre, ó padre?!...

 

Não havia naquela suprema angústia, naquela dor cruciante, naquela agonia espedaçadora, as mesmas contorções de uma cólica frenética, os mesmos arrancos informes de um escravo?...

 

Não compreendes que se açoitares um mísero que for pai, uma desgraçada que for mãe, as bocas dos filhinhos, daquelas criancinhas negras, sintetizando o remorso, o aguilhão da tua consciência, se abrirão nuns gritos desoladores que, comouns bisturis envenenados, trespassar-te-ão as carnes?...

 

Não compreendes que de seus olhos, acostumados a paralisarem-se ante o terror, irromperão as lágrimas, esse líquido precioso das alminhas inocentes?!!...

Pois tu, nunca choraste?!...

 

Nunca sentiste os engasgos de um soluço saltarem-te pela garganta, quando te lembras de trocar as tuas magníficas conquistas, os teus manjares especiais, os teus licores dulçorosíssimos pela noite escura, muito escura, onde grasnam surdamente as aves da treva, onde Dante se acentua no Lasciate ogni speranza, onde os espíritos vis desaparecem e os Homeros e Camões e Virgílios surgem e se levantam pelo braço hercúleo da posteridade, pelo fôlego intérmino e secular da História?

 

Nunca?!...

 

Sim, tu estás comigo, padre!...

 

Estás!...

 

És bondoso, eu sei, tens a alma tão serena e tão lúcida como uma imagem de N.S. da Conceição.

 

Eu sei disso!...

 

Olha, quando morreres — se é que morres — irás de palmito e capela, na mudez dos justos e as virgens tímidas e cloróticas, entoando grave De profundis, murmurarão lacrimosas:

 

— Coitado, foi o pai carinhoso das donzelas...

 

Requiescat in pace!...

 

Que bonito será, não!...

 

E depois o céu!

 

Sim, porque tu irás para o céu!

 

Não crês no céu, padre?

 

Pois crê, esses filólogos mentem, têm princípios errôneos e tu, padre, és um sábio...

 

Tu és bom...

 

Porém... por Deus, como é que vendes a Cristo como um quilo de carne verde no mercado?!...

 

Ah! É verdade, és muito pobre, andas com os sapatos rotos, não tens que comer e... és muito caridoso...

 

Mas, escuta, vem cá: —

 

Eu tenho também minhas fantasias; gosto de sonhar às vezes com o azul.

 

O Azul!...

 

Deslumbro-me quando o sol se atufa no oceano, espadanando os raios purpureados, como flechas de fogo, pela enormidade côncava do espaço; inebrio-me quando a natureza com seu tropicalismo, ergue-se do banho de alvoradas, jorrando nos organismos de ouro o licor olímpico e santo do ideal, as músicas maviosíssimas e puras da inspiração, nos crânios estrelejados!...

 

Pois façamos uma coisa:

 

Eu escrevo um livro de versos que intitularei:

 

 

O ABUTRE DE BATINA

 

  

Puros alexandrinos, todos iguais, corretos, com os acentos indispensáveis, com aquele tic da sexta, — tipo elzevir, papel melado — e ofereço-to, dou-to.

 

Prescindo dos meus direitos de autor e tu o assinas!...

 

Com os diabos, hás de ter influência no teu círculo.

 

Imprimes um milhão de exemplares, vende-os e assim terás das loiras para a tua subsistência, porque tu és paupérrimo, padre, e necessitas mesmo de dinheiro, porque tens família, muitos afilhados que te pedem a bênção e precisas dar-lhes no dia de teu santo nome um mimo qualquer.

 

Faz isso, mas... não te metas com o abolicionismo; é a ideia que se avigora.

 

Talvez digas, mastigando o teu latim: — Primo vivere deinde philosophare.

 

Mas é porque tu és míope e os míopes não podem encarar o sol... Mas eu dou-te uns óculos, uns óculos feitos da mais fina pele dos negros que tu azorragas...

 

Pode ser que a influência animal da matéria excite o espírito e que tu... vejas.

 

Pode ser...

 

Há cegos de nascença que veem... pelos olhos da alma.

 

E se tu és padre e se tu és metafísico... deves ter alma...

 

Compreendes?...

 

Faz-se preciso que desapareçam os Torquemadas, os Arbues, maceradores da carne, como tu, padre.

 

Em vez de prédicas beatíficas, em vez de reverências hipócritas, proclama antes a insurreição...

Tens dentro de ti, bate-te no peito, nas palpitações da seiva, um coração que eu penso não ser um músculo oco.

 

Uma piedade justa, que não desdoura, que não humilha; honesta como a intenção destes pontos e vírgulas, franca como a expansibilidade do aroma.

 

Vibra-o pois, fibra por fibra, se não queres que os meus ditirambos e sarcasmos, quentes, inflamados, como brasas, persigam-te eternamente, por toda a parte, no fundo de tua consciência, como uns outros medonhos Camilos de Zola; vibra-o se não queres que eu te estoure na cabeça um conto sinistro, negro, a Edgar Poe.

 

É tempo de zurzirmos os escravocratas no tronco do direito, a vergastadas de luz...

 

Sejam-te as virtudes teologais, padre, — a liberdade, a igualdade e a fraternidade — maravilhosa trilogia do amor.

 

Unge-te nas claridões modernas e expansivas dessas três veias — artérias da verdadeira Filosofia Universal.

 

 

 

Pontos e vírgulas

 

A Artur Rocha

 

 

As estradas são longas e é curta a piedade dos homens, escreveu no —"Outro amável milagre" — contido no Feixe de Penas o primorosíssimo, o delicioso, o onipotentíssimo psicólogo Eça de Queirós.

 

 

São longas as estradas.

É curta a piedade dos homens.

 

*

 

Quer isto dizer que se acha na capital de Santa Catarina, o notável glosista Margarida, esse analfabeto, esse doudo da luz, arremessado nas trevas, bom velho rude e chão, que, se não é, na frase original e observada do esplêndido fantasista, Virgílio Várzea — um sofrimento que vive a rir — é um humorismo fúnebre, dentro de uma alma cristalina de poeta.

 

São longas as estradas.

 

E ele veio de muito longe, do país das lágrimas e das saudades, dos enevoamentos do luto, porque perdeu sua esposa, o mote supremo de todas as suas glosas.

Vem em busca de um filho, que supôs morto também, morto, na impassibilidade da pedra, na rigidez do granito.

 

Vem procurá-lo, vem vê-lo ainda, embora, do fundo pesado da sua existência, alguma cousa lhe murmure aos ouvidos:

 

São longas as estradas.

 

É curta a piedade dos homens.

 

É ele, quase, absolutamente, que precisa dessa piedade, ó filhos de Cristo.

 

Uma piedade justa, que não desdoura, que não humilha; honesta como a intenção destes pontos e vírgulas, franca como a expansibilidade do aroma.

 

Ele quer essa piedade.

 

Mães, esposas e filhas, operárias do bem doméstico, colunas direitas dos brios sociais, bíblias inesgotabilíssimas do conforto, das consolações e... da piedade, arremessai um ceitil da vossa fartura aos peregrinos que passam, abri o escrínio da vossa abastança aos que imploram, dignamente, em pé, de rosto limpo mas... desfigurado; deixai as vossas aristocracias de princesas bourbônicas, as vossas reverências e cortesias fidalgas, desapertai o colete do estilo, quebrai a linha da hereditariedade titular, saí, por um momento, dos arminhos flácidos das nossas alcovas elegantes e confortáveis, arquiteturadas, cinzeluradas de azul, brosladas de prata, cheias de caprichos arabescados de arte.

 

Sede democratas, uma vez.

 

Com a democracia dos sentimentos, preclaros, decentes, bonitos, galgareis o corrimão feito de rosas e madressilvas e jasmins, da escadaria rutilíssima, madreperolizada, da aristocracia da virtude.

 

Formai das glosas, dos versos, das rimas do poeta, uma nuvem de ouro, com cintilações purpúreas, para subirdes, envoltas nela, aos intermúndios da crença, de onde o adorável, o cândido Jesus das cândidas bênçãos, entornará nos vossos lábios os aprazíveis licores da ventura infinita, e, vamos, provai, livres da vossa irritabilidade nervosa, do vosso temperamento sanguíneo, que aqui, nesta terra de Oliveira Paiva, o apóstolo sincero da bondade extrema, deixa de existir a sentença do mestre:

 

É curta a piedade dos homens.

 

O poeta vos pede pouco, muito pouco.

 

Atirai em leilão os livros que ele traz, arrematai-os todos, ponde em quermesse os vossos corações, enchei aquelas mãos calosas e dignas, dos mais simpáticos e sonoros níqueis e tudo será feito.

 

Deixai um momento o sarcasmo, a sátira e o egoísmo; lembrai-vos que a humanidade está sujeita às mesmas leis eternas e imutáveis.

 

Amanhã, será por vós, talvez, que passará a desolação da vida.

 

Amanhã, talvez, os caminhos do vosso bem-estar, tilintantes de alegria, inundados de sol, relampagueados de júbilos, estejam tristes, bem tristes... duma tristeza funda e pungitiva.

 

Deveis pesar os clarões da vossa felicidade, pelas sombras das mágoas alheias.

 

O poeta vos pede pouco, muito pouco.

 

 

 

Sabiá-Rei

 

A César Muniz

 

 

O sabiá rufiava as asas pardas e amplas, sempre que fazia explosir, como uma girândola no ar inefável e translúcido, a sua escala cromática, de gorjeios claros e espontâneos, pela saleta de uns tons violáceos, com filetes e cinzeladuras doiradas.

 

Quando o sol, gloriosamente tranquilo, numa fartura de luz benéfica, numa refrangibilidade prismática, atirava os venábulos cintilantes pela janela da luxuosa saleta, fazia bem ouvir-se, consorciados à coloração vermelha, rubra, os artísticos concertos do incomparável maestro das sinfonias selvagens, do empório largo da natureza criadora.

 

Era o deslumbramento da harmonia e da luz.

 

E quanto mais o sol fulgia, coruscando do alto, em rutilante cascata, mais o sabiá cantava, cantava, cantava sempre.

 

Parecia que nos raios do grande Filósofo da evolução natural, vinha presa, fundida, corporificada toda aquela música sonorosa e adoravelmente casta que lhe saía do laringe metálico.

 

Sentia-se como que o irromper imponentíssimo de heróis, de espíritos saudáveis, em marchas triunfais, em pompas, pela curvidão marmórea do Azul, ao escutar-se o primoroso tenor das selvas.

 

Como cantava bem; como os trinados cheios, como os vocábulos musicalizados se derramavam todos, com orgulho, inflados de brio, recortados de uma bravura nervosa, sobre os objetos silenciosos — os ricos móveis facetados de madrepérola, os divãs de custo superior, os contadores róseos, as chaises-longues, o piano, sobre o qual dormiam algumas rêveries de Schubert, as cômodas poltronas austeras, os cristais finíssimos, as estatuetas representando amores pagãos, os reposteiros suntuosos, cor marron, as múltiplas fanfreluches chinesas, as esquisitas ânforas gregas—tudo na imobilidade da treva.

 

Um dia, deixaram a porta da gaiola aberta e o sabiá, lembrando-se que tinha talvez um lar mais livre na amplitude livre da floresta, um ninho mais amigo, mais carinhoso, na doçura consoladora da paina e do musgo, bateu, abriu as asas de gênio inspirado, num último acorde de músico e vibrante e... fugiu, rasgando a transparência das esferas alegres e infinitas.

 

Mas um caçador ingrato que rodeava aquelas paragens, vendo o esvoaçar vitorioso do pássaro cantarolador, disparou um tiro valente e o sabiá caiu...

 

Nos seus olhos havia ainda os derradeiros lampejos do tropicalismo da raça.

 

E o sangue a rebentar-lhe da ferida aberta, como que parecia também salmodiar a nênia sombria da ingratidão dos homens pelas Aves da Luz.

 

 

 

 

FIM